Em busca do Pó: Parte 2

Arrogância 

A introdução na parte 1 (leia antes de continuar, por favor) foi fácil, agora começa a parte difícil.

Qual deve ser o primeiro ponto a abordar em uma busca pela consciência e pela espiritualidade? Principalmente se está sendo escrita por mim, que não sou teólogo, antropólogo ou filósofo?

Tenho a impressão de que a questão principal para a maioria de nós está no conflito entre a ciência e a fé.

De um lado há descobertas científicas (difíceis de entender) sobre a formação do Universo e da vida que excluem a intervenção divina. De outro está a fé nos dizendo que os Deuses devem estar em algum lugar.

Creio que podemos dizer a razão e a fé são diferentes instrumentos de percepção afinal utilizamos todas as duas para construir o mundo onde vivemos ou pelo menos para dar-lhe uma forma.

A fé nos diz que nossa existência não pode ser sem significado e que portanto deve haver um espírito e alguma forma de consciência que transcende a nossa. Ela não é objetiva, mas uma forte convicção.

Já a ciência é um instrumento objetivo que depende de suposição, experimentação e demonstração para demonstrar como o Universo funciona e fatalmente será modificada, aprimorada ou mesmo abandonada mais adiante se vier a falhar em algum ciclo de experimentação e demonstração.

Existe uma diferença fundamental entre a razão e a fé: enquanto a primeira é alimentada pela dúvida e demonstra o funcionamento das coisas a segunda está repleta de certeza e nos fala do que podemos ou devemos ser.

Neste ponto prefiro mudar o nome que estou usando para fé e usar espiritualidade.

A fé do jeito que é vivida atualmente está repleta de convicções e respostas enquanto a espiritualidade é um impulso visceral cheio de dúvidas que nos inspira a procurar expandir a nossa consciência. Nossa espiritualidade pode nos conduzir a uma fé.

Por um certo ponto de vista podemos distinguir os momentos da nossa vida entre aqueles em que temos forças para a busca da espiritualidade e os em que cedemos ao conforto da fé.

Até onde sei a ciência moderna não é capaz de perceber sinais da existência de Deuses o que não significa que eles existam, mas a fé convicta neste ou naquele Deus também não nos ajuda a encontrá-lo caso ele exista.

Em geral a fé e as religiões sugerem que sabem como, quem é e como pensa Deus.

Isto não é menos arrogante do que usar a ciência para afirmar que não há Deuses. Além de ser um desperdício das qualidades da ciência.

Sem a humildade de admitir que estamos muito longe de entender totalmente o Universo e mais longe ainda de perceber Deus. Estaríamos presos a um universo onde o Sol gira em torno da Terra e as mulheres seriam vistas como instrumentos do diabo.

Com isso creio que apresento mais ou menos bem o segundo ponto que norteará os próximos posts:

Creio que a única forma de abordar tanto a ciência quanto a espiritualidade é munindo-se de dúvida, da consciência de que mal arranhamos a superfície do funcionamento da natureza ou da nossa consciência.

Além disso a espiritualidade pode ser uma excelente suposição a ser experimentada e demonstrada pela razão e pela ciência, mas a ciência não pode ser uma suposição a ser experimentada e demonstrada pela espiritualidade 

4 thoughts on “Em busca do Pó: Parte 2”

  1. A primeira premissa é perfeita.

    Não somos nada além de ignorantes em todos os ramos, e achar diferente disto é uma pretensão que pode ser interpretada até mesmo como um desvio de caráter, uma megalomania.

    Já a segunda, não sei. Acho que a espiritualidade e a ciência acabam por se confundir, uma vez que os novos avanços teóricos e práticos na física quântica, seja com seus mundos paralelos, seja pela natureza dúplice das partículas, vão perfeitamente ao encontro de certas teses espíritas que se encontram publicadas por aí,que não só agregam as teses da ciência como as explicam.

    É inevitável fazer tal comparação,posto que já li artigos e livros sobre ambos, mas deixo claro que isto não é uma tentativa de provar que este ou aquele ponto de vista religioso se encontra com a razão, nem tampouco esta ou aquela teoria científica.

    Beijos.

    Comentando:
    Se eu me expressar de outro jeito acho que vc vai concordar comigo…
    Quando a ciência vai ao encontro do que a gente sente ou intui espiritualmente é ótimo pois isso demonstra que foi realmente uma percepção espiritual e não fruto do nosso ambiente cultural.
    Por outro lado, quando a ciência não vai ao encontro do que sentimos ou intuímos espiritualmente então devemos saber abrir mão da convicção religiosa diante das evidências racionais.
    Um exemplo radical para deixar bem claro o ponto: Os homens não tem uma costela a menos que as mulheres! Minha avó morreu certa disso porque era o que estava escrito na Bíblia.
    Um exemplo mais questionado: Os humanos foram criados por Deus e não são resultado da evolução.
    Só para ficar bem claro o que eu estou colocando: A fé é subjetiva e devemos nos valer da objetividade da ciência e da razão para separar o que é fé por revelação espiritual e o que é uma fé cultural e datada.

  2. Excelente, Roney! Muito bom mesmo.
    Pra mim, arrogância e ateísmo (ou melhor, ausência total de completa de espiritualidade) andam de mãos dadas.
    Adorei a reflexão, obrigada.
    beijão

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