Esse eu ganhei de natal da Érika Lessa e acabei de ler dia 8.

Ah! Antes de mais nada: pode ler o post sem medo pois não entrego detalhes da história que poderiam tirar a graça de ler o livro, ou seja, não faço spoilers.

Olha, vou confessar que tenho uma certa birra com autores brasileiros de fantasia. Ainda não analisei bem de onde vem essa minha implicância, mas até pouco tempo, quando lia as primeiras páginas, achava que a linguagem era infantil ou superficial demais.

Desenvolvi um preconceito ou isso mudou pois já é o segundo livro nacional de fantasia que gostei de ler. O primeiro foi Palladinum.

Logo de cara eu gostei muito da história girar em torno de mitos brasileiros como Boi Tatá, Saci Pererê, o Boto e outros menos conhecidos ou até inventados pelo autor Felipe Castilho (não tenho certeza que ele inventou, mas não vejo problema nenhum).

Comecei a ler com meu velho pré-conceito já pensando em deixar para ler mais tarde no ano, mas as primeiras páginas me pegaram. Curti muito o ritmo, o carisma das personagens e a profundidade deles. Nada de cair o queixo, mas boa literatura que eu certamente vou indicar para os amigos pré-adolescentes (e “velhos” que gostam de fantasia).

Uma das coisas que faz uma boa história é não se limitar a contar uma série de eventos por mais animados que sejam e, conforme fui mergulhando em Ouro, Fogo & Megabytes, adorei me deparar com várias questões morais, éticas e com os dramas que um jovem humano do século XXI tem que enfrentar.

Ah! Claro… Quem me conhece deve estar dizendo “Você gostou porque começa dentro do WoW”

Isso não é verdade! Bem… Não totalmente. Eles não chamam o jogo de World of Warcraft ;-)

Acho importante avisar que, apesar do protagonista ser um fera em MMORPG (Massive Multiplayer Online Role Playing Game) o leitor não precisa ter jogado nada parecido para entrar na história, o próprio autor avisa que não é do tipo jogador (e um jogador de WoW experiente pode até notar isso) e o jogo está apenas no pano de fundo da história que gira em torno justamente da forma que o protagonista lida com o mundo.

Tenho apenas três críticas ao livro e somente uma delas seria crítica se eu mesmo não tivesse sido exposto a ela justamente por volta dos 11 anos.

Minha primeira objeção é que achei Anderson um pouco maduro demais para 12 anos. Tá. Mas e daí? Francamente não vejo uma razão para desqualificar o livro por isso, talvez até o contrário: antes superestimar a maturidade do leitor a tratí-lo como um boboca.

A segunda é que, bem rapidamente em um único parágrafo, fala-se em teoria da conspiração como se fossem reais. Foi essa a que fui exposto na mesma idade e em que acreditei por muito tempo. Implico com ela pois depois de adulto vejo as teorias da conspiração como um tipo de crença que se sustenta em nossa dificuldade em conciliar razão e emoção sacrificando a primeira.

Acontece que, como acabei de dizer, eu cresci às voltas com teorias da conspiração e nem por isso me tornei um maluco e não passa de uma linha nesse livro e decidi não subestimar os leitores aproveitando que o autor não fez isso.

Você vai notar que as minhas três objeções são muito mais implicâncias que “erros” do livro pois a terceira é um dos heróis falar (mais uma única linha num livro inteiro) contra os testes em animais, algo que venho contestando empenhadamente pois creio que o mito do produto não testado em animais perpetua os testes, muitas vezes fora do alcance de leis e ficalização que permitam fazê-los da forma menos cruel possível.

Em tudo que acho importante o livro é exemplar: não é maniqueísta, as amizades são sinceras e as pessoas são puras, os personagens tem senso de responsabilidade e estão prontos a fazer sacrifícios até grandes quando se descobrem em tal posição que cabe a eles fazer algo para colocar as coisas em seu devido lugar e esse devido lugar não é definido por crenças e sim por compaixão e empatia.

Os leitores de fantasia mais dedicados sentirão semelhanças com Deuses Americanos que é uma obra fantástica de Neil Gaiman. Felipe Castilho pode não ser um contador de histórias como Neil Gaiman, mas certamente é bom ver uma obra similar nacional e dedicada aos jovens pois considero que o encontro com os mitos da nossa própria cultura nos ajuda a nos conectar ao nosso ambiente.

Principalmente quando nos deparamos até nas grandes cidades com figuras que parecem saídas dos livros de Câmara Cascudo.