É estranho que pessoas que acreditam em Deuses se descubram desencantadas com a humanidade. O desencanto é como não ver mais o outro como alguém dotado de um espírito rico em sentimentos e possibilidades. É ver o outro como alguém que perdeu seu espírito, mas também é perder o próprio espírito pois, entre nós e o outro não há nada além de uma ponte de intermédio, uma ligação dominada pelo tédio se não fazemos o esforço necessário para atravessá-la.

Pode ser ainda mais estranho que um ateu venha falar sobre manter esse encantamento. Muitos amigos próximos duvidam do meu ateísmo porque sou cheio de encantamento pela vida, mas a ciência, a história e a paleontologia nos apresentam uma visão geral da nossa jornada tão fascinante e a crença em Deuses se transformou tanto que talvez a ciência seja o melhor caminho para encontrar o encantamento.

Em primeiro lugar parece que a crença comum passou a considerar que uns tem Deus (aqueles que estão próximos de nós) e outros não. Que uns são cheios de luz e os estranhos se limitam à superficialidade que conseguimos perceber deles.

Depois que as coisas da fé se tornaram voláteis enquanto o que sabemos sobre nós pela ciência está gravado profundamente em cada humano através de mais de 4 milhões de anos! O que somos não pode se desvanecer por mera vontade ou falta de vontade em ter fé: nossa cultura nos influencia, mas nossa essência está irremediavelmente gravada em nossos genes e nos memes que se encaixam nessa natureza.

Há muita coisa ruim nessa herança, mas também há muita coisa boa e (basta olhar para o que a nossa civilização construiu e continua construindo) a maior parte é simplesmente deslumbrante!

O segredo do encantamento pela espécie homo sapiens está na empatia.

Quem chegou ao ateísmo pelo caminho do conhecimento e não seguindo apenas uma moda, raiva de Deus (que raio de ateísmo é esse? hehehe!) ou por mero desinteresse no assunto facilmente desenvolve uma profunda empatia por todo o Universo.

A existência é tão sufocantemente fantástica, a consciência é algo tão fora de série e desenvolvida ao custo de tantos milhões de pequenos passos que não dá para não ver toda forma de vida como algo absolutamente deslumbrante e mais ainda uma forma de vida capaz de pensar sobre ela mesma e desvendar a natureza do seu corpo de da sua mente. E isso está em todos nós! Sente-se com o mais alienado dos humanos e converse com ele! Nunca me decepcionei!

Esse é o momento para falar algo difícil para você que perdeu o encanto pela humanidade, que está acaminho do desencanto e da desesperança: há uma dose de arrogância nesse sentimento.

Brinco sempre falando como se eu não fosse humano, mas sentir-se acima da média dos humanos pode ser apenas uma dificuldade natural em desenvolver empatia, afinal somos 7 bilhões e tem mais gente no seu quarteirão do que havia em uma cidade medieval, mas há também um distanciamento pessoal da condição humana.

Da próxima vez que você se revoltar com as pessoas que não estão se mobilizando e se dispondo a correr riscos pelos outros se pergunte porque é para elas que você está olhando e não para os milhares que seguem o outro caminho (eu mesmo conheço uma centena delas). Chame seus amigos! Vá por contra própria correr esses riscos! … Eu tenho ido… E o resultado é deslumbrante!

Sim, há sempre muito idealismo juvenil e ingenuamente utópico, mas isso pode ser apenas a minha cegueira! A ingenuidade utópica pode ser justamente o combustível necessário pois ela é inflamável enquanto a sabedoria realista é conformada e frequentemente desencantada.