Membros em espet?culo em mem?ria da chacina da Candel?ria
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Em julho de 1993 oito meninos de rua foram exterminados ao lado das paredes da Catedral católica do Rio de Janeiro, a Candelária.

Estive lá hoje, na véspera do dia das crianças, para assistir a cia Membros de Dança Contemporânea refletir em movimento a violência que ainda ecoa.

Há coisas que não podem ser ditas simplesmente porque não cabem em palavras ou mesmo em imagens: É necessário ter o espírito forte o bastante para continuar sensível é preciosidade da vida.

Você acha que bandido bom é bandido morto? Que essas crianças largadas na rua são ramos tortos que jamais se endireitarão? Quando você assiste a violência ela se instala em seu coração inspirando o desejo de vingança? Ou ele se enche de compreensão e certeza que sempre há algo que pode ser feito para levar paz a quem pratica a violência?

Qual visão é cristã? Qual visão é compatível com o espiritismo? Qual visão seu Deus acharia bela e louvável?

Não creio em Deuses, mas creio no caráter sagrado da consciência humana (ou não) e que ela deve ser respeitada, compreendida e preservada não importa se sua forma é bela ou assustadora.

Mas o que dizer sobre a Membros e sua narrativa? Continuo não achando as palavras… O vídeo abaixo talvez ajude a sentir um pouco.

No final do espetáculo vi os bailarinos chorando, com dificuldade até para agradecer os aplausos.

Imaginei a razão disso, mas tive a honra de falar com a Taís, o Paulo e a Dilma (os dois primeiros dirigem a Membros e a Dilma faz parte da organização se entendi corretamente) e fiquei sabendo que parte do laboratório para construir o espetáculo foi passar um tempo como morador de rua…

O mundo seria muito diferente se todos que se investissem o poder de falar da realidade dos outros a experimentasse antes…

Sei bem por que aqueles jovens bailarinos passaram durante o espetáculo pois faço o mesmo para escrever: naquela momento eles ERAM os meninos assassinados, eles tinham os mesmos sonhos, as mesmas decepções, a mesma perplexidade.

Nós humanos temos essa rara capacidade de empatia, de nos colocarmos no lugar do outro.

Infelizmente nossa porção animal também nos influencia e é dela o instinto de autopreservação que nos faz fugir das realidades que achamos que não podemos mudar, mas essa realidade que nos muda pois andamos com medo pelas ruas sem saber que medo muito maior construiu a violência daquela pessoa que vem ameaçadora em nossa direção.

Durante o processo de pesquisa e divulgação do evento o que o pessoal da Membros mais ouviu foi “tem mais é que morrer mesmo”…

Ali, nos muros externos da casa do Deus Cristão, menos de 100 pessoas se emocionaram com as “palavras” da Membros e terminaram de mãos dadas com lágrimas nos olhos. Espero que os ecos discretos dessas pessoas ecoem como um meme silencioso mas persistente ajudando a construir uma civilização com mais compreensão, menos medo e menos ódio.

Aplauso para gente como os artistas da Membros que tem a coragem de sair da sua zona de conforto para mostrar que ser humano é ser capaz de abraçar toda a humanidade como irmãos.