Erika Sawakiri por KlasadakoO concreto áspero da mureta de proteção está frio sob seus pés descalços. O vento ainda gelado nos primeiros sinais do dia que amanhece sopra seus cabelos.

Diante dela o mar a convida para seus braços, atrás, vindo de um carro parado com a porta do carona aberta, uma voz grave a rejeita e expulsa do mundo “sua vida não vale nada, nem para mim, nem para ninguém! Vai!”

Seu corpo balança levemente, junto com as ondas vinte metros abaixo. Seu espírito se quebra entre as brumas brancas, mas seus pés permanecem firmes sobre o cimento crú.

– É por ele que você pretende tomar o mar como noivo, não é?

A voz vem de um homem, nem jovem nem velho, difícil de definir. Ele está sentando na pedreira, abaixo da mureta, alguns metros à sua esquerda. Ela o olha sem susto, afinal o que importa?

Continua girando até encontrar os olhos cheios de desprezo do homem no carro por quem ela pretende provar amor eterno atirando-se para o infinito.

– Ele vai ter ciúmes de você, dirá que preferiu o mar a ele e te esquecerá… Lembra dos abraços, dos beijos dele? Do jeito como ele usava seu corpo, como se ele mesmo nunca estivesse ali realmente?

Silêncio… Ela continua oscilando, mas os olhos continuam fixos no homem no carro e em suas memórias. No primeiro dia que ele a abordou; mais velho, mais sábio e encantadoramente impossível para sua tolice adolescente… Mas ele a quis! … Ou não quis? Afinal toda vez que estavam em público ele a ridicularizava, na cama a fazia de escrava e passava dias sem ligar sem nenhum motivo. Uma nuvem de dúvida passa discretamente por seus olhos quase infantis.

– Pula para cá, tenho um belo jogo de cartas ciganas, aprendi a usá-las com os primeiros bruxos! Você vai ver que ele nem virá se despedir de você. E o futuro eu tenho aqui nas cartas, pode vir que eu te pego!

Como se estivesse desfalecendo ela deixa o corpo despencar, suas forças se esvaíram e ela decide que se aquele homem puder salvá-la então esse é o destino. Tão logo seu corpo lânguido some atrás da mureta ouve-se o guinho agudo dos pneus no asfalto e logo retorna o silêncio dos últimos minutos da madrugada, exceto pelos risos tímidos dela e a voz firme do nômade.

– Hei – Ela fala entre risos – Isso é um chapéu de mosqueteiro?

– É sim, cai-me muito bem, não acha?

Junto com as duas gargalhadas o sol mostra o primeiro sinal da sua coroa incandescente.