Os dois amigos caminham apressados pelo longo corredor. O piso velho e encardido e um pouco sujo, aqui ou ali um papel de bala ou de chiclete. As paredes cobertas de cartazes anunciando festas dos gr?mios, oportunidade de est?gios, doa??es de cachorros, apelos para encontrar cadernos perdidos.
A luz que entra das janelas estreitas no alto do corredor lan?a uma atmosfera irreal entre o outono e a primavera muito embora seja inverno e os dois estejam bem agasalhados.

– O problema, Diogo, ? que ningu?m se importa depois que chega l?, depois que obt?m uma posi??o ou poder… ? cada um por si, p?! Quem vai fazer um sacrif?cio desinteressado? E se j? obteve poder porque precisa fazer o m?nimo sacrif?cio?
– Cara… a gente pensa muito em termos de poder material… J? viu pol?tico corrupto, rico ganancioso plenamente felizes? O fato de procurarem sempre mais, mais e mais deixa bem claro que ainda falta algo.

Chegam ? porta da pr?xima aula, sala vazia… Avisaram que o professor n?o iria, gripe su?na, mas eles esqueceram…
Quase duas horas at? a pr?xima aula, d? para ir num dos bares ao redor da faculdade, deve estar cheio de gente l? como sempre, afinal para que vamos ? faculdade sen?o para encontrar com a galera no boteco? Se fosse s? para aprender n?o precisava aguentar aquele esquema horr??vel de “ensino”.
De repente n?o d? vontade de encontrar com ningu?m no bar, melhor ficar ali mesmo, tra?ar o sanduba que est? na mochila e passar a mat?ria pois tem um teste na ?ltima aula.
Sentam no ch?o do corredor de frente para o cartaz da campanha de doa??o de sangue.Cartaz da campanha de doa??o de sangue do Minist?rio da Sa?de

– Ali ?: “Corrente do Bem, entre para a Corrente Sangu??nea”… J? viu quanta gente doa sangue? Quase ningu?m.
– Hummm… “Doe sangue e convide algu?m a doar”. Sempre convido, de cada 10 somente um vai…
– Isso se chama individualismo. A gente fala dos estadunidenses, mas eles doam e participam mais de projetos sociais que a enorme maioria dos brasileiros.
– Cara, e os papos de cibercultura? As mobiliza??es cada vez mais comuns ao redor do mundo pelos direitos iguais de gente que nunca vimos nem nunca veremos? Sou otimista e acho que esse individualismo escroto vai dminuir… t? diminuindo…
– J? eu acho que isso ? um punhado de gente que sempre existiu e sempre vai ser minoria. Nossa civiliza??o ? doente, cara…
– … ?…

Risadas e vozes se misturam vindo do outro lado do corredor, uma brisa quente vem de algum lugar estranho j? que o inverno l? fora resseca l?bios e arranca l?grimas dos olhos dos mais desavisados. ? um grupo de seis ou sete alunos de outra turma, desconhecidos dos nossos dois protagonistas, todos com um dos bra?os flexionados e rindo do medo que um deles tivera de doar sangue. A v?tima das chacotas ria aliviada agora que j? tinha passado e se justificava dizendo que tinha medo de agulhas por causa do tio desajeitado que lhe aplicava inje??es quando era crian?a.
Os dois amigos sentados no ch?o se entreolham e, bem, “que se dane a civiliza??o! Ela que fa?a ou deixe de fazer o que quiser”, levantam e descobrem onde os outros acabaram de doar sangue para fazer eles tamb?m seu pequeno papel. Pequeno para eles, mas grande para algu?m.

Adicionado em 13/04/2010:

Mapa de locais de doa??o no Brasil (por @Lesilva


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