Sobre o projeto

Esse é o décimo primeiro conto do projeto #UmSábadoUmConto (Post explicando o projeto)

Durante a semana as pessoas votam em estilo, gênero, público e época. O autor (eu) só pode saber o resultado às 8h de sábado e tem até meio dia para terminar o conto.

Cada conto é escrito com um processo criativo diferente (veja no final).

O que você vê a seguir é o conto com a mínima revisão. Você pode ler sem revisão no Google Docs.

O Conto

Tem uma semana que as férias do colégio começaram, mas meus pais tinham que trabalhar ainda… Só hoje, sexta feira de noite, eles puderam colocar as coisas todas no carro e partir para nossa casa de férias na Ogiva em Cabo Frio!

Adoro viajar de noite, é tudo tão misterioso! A gente segue ligeiro pela estrada passando de vez em quando por alguém caminhando ou de bicicleta que é iluminado por um segundo pelos faróis do carro.

Até entendo quem anda de bike, mas que pessoas são aquelas que andam pela beira da estrada? Não tem nada por milhões de quilômetros para um lado ou para o outro… Tá bom… Milhões de quilômetros pode ser um pouco de exagero meu, mas, assim mesmo é muito estranho. Tenho certeza que a maioria daquela gente não é gente! Devem ser fantasmas que morreram ali pela estrada ou coisas ainda mais estranhas.

Meus pais reclamam comigo quando falo essas coisas, que eu não devia ficar pensando em gente morta ainda tão novo, mas tem um sorriso por trás dos olhos deles quando falam… Acho que eles lembram de terem sido parecidos com isso quando tinham a minha idade!

Vamos ficar um mês na casa de férias, é uma eternidade!!! Dá para esquecer que existe um mundo fora de Cabo Frio! Tenho a sorte dos meus dois pais trabalharem na Internet. Minha mãe é tradutora e meu pai… Ninguém entende bem o que o meu pai faz, tem a ver com antropologia, Internet e uns tais de Memes. Ah! Sei lá! Só sei que ele faz quase tudo do notebook dele e, uma vez ou duas por semana ele dá umas aulas para umas pessoas.

Vou no banco de trás com os computadores dos dois, a mochila com o note do meu pai e uma mala grande com o computador enorme da minha mãe. Eu mesmo só tenho um tablet. Eles disseram que, quando eu fizer uns 11 anos eles vão me dar um notebook tambêm! Estou sempre tentando puxar esses “uns 11 anos” para a minha idade, né? Acho que desde quando eu tinha seis anos! Se bem que eu uso o note do meu pai de vez em quando.

Caio no sono em cima dos computadores e só acordo quando o carro começa a fazer muitas curvas enquanto entra por Cabo Frio. Já são umas onze da noite e passamos por um trecho mal iluminado da cidade.

─ Falta muito?

─ Dez minutos, filho. Olha para cima… Pro céu… ─ Meus pais são loucos por astronomia… Minha mãe consegue dizer os nomes de mais estrelas que meu pai, mas ela está dormindo agora.

Vocês já viram o céu em uma cidade mal iluminada? Num dia sem nuvens? é de tirar o fôlego!! Tem um trecho com muita, mas com muita estrela mesmo! Muito louco! Meus pais me ensinaram que aquilo é o braço da galáxia onde nós estamos. As partes do céu com menos estrelas são tipo a parte acima e abaixo da galáxia.

Fico observando e pensando em como o Universo é grande E olha que tem bilhões de outras galáxias! Eu nem sei bem o que é um bilhão… Nunca vi um bilhão de coisas de uma vez só. Isso me deixa meio tonto e decido pensar nos meus amigos que já devem estar em Cabo Frio.

Tem o Ivan que tem uma casa de três andares só para ele. Tem os pais e uma irmã que quase nunca anda conosco porque eles brigam o tempo todo. Aliás a gente quase nunca vê os pais do Ivan também… Ele fica sozinho em casa comendo pão com manteiga e açúcar que ele mesmo faz. Se não fosse a gente acho que ele ia ficar em casa olhando para o teto ou jogando videogame.

A Mônica tem a nossa idade, mas é grande! Acho que ela é a mais valente da turma… E bate em nós quando a gente fala ou faz besteira. Ela é bem morena, tem os cabelos muito lisos quase batendo nos ombros e é dentuça, mas a gente não fala nisso…

O Lessenir tem esse nome engraçado que não sei de onde veio, ele é o the flash do grupo, corre mais que o vento! Ele mora em uma vila no Rio de Janeiro. Morar em vila deve ser muito legal, vai ver que é por isso que ele sabe correr tão rápido.

─ Felipe, estamos chegando… ─ Meu pai fala baixo para não assustar minha mãe que odeia ser acordada de repente. Então ele fala com ela segurando sua mão com carinho. ─ Amor… Estamos chegando…

Minha mãe solta um miado e se espreguiça olhando para os lados com um sorriso meio abobalhado. Ela sempre acorda assim!

─ Puxa, amor, dormi de novo em vez de te fazer companhia! Desculpe!

─ Que nada! As estrelas e o Felipe me fizeram companhia e agora eu vou poder dormir enquanto você descarrega o carro!

Ela dá um tapinha no ombro dele “seu bobo!” e os dois começam a rir. É Meus pais são um barato! Tenho sorte… O resto da turminha não tem pais muito legais… Uns são ausentes, os da Mônica acho que se separaram… Mas a gente não fala nos nossos pais quando estamos brincando.

A próxima rua é a nossa, mas antes passamos na frente da casa mal assombrada… Pois É! Nunca tem ninguém nela, de dia ou de noite, o jardim é cheio de folhas secas, mas a casa parece limpa quando a gente se empilha no muro e olha para dentro dela. Não tem teias de aranha! Até a nossa casa tem teias de aranha (que tiramos rápido porque mamãe tem pânico!!! de aranha). Mas o que é mais assustador é que tem luzes nela! De vez em quando a gente vê lá dentro da casa… Como hoje!!

Dou um pulo para trás e não consigo evitar de soltar um gritinho tipo “Uhhh” e, já que não consegui disfarçar pergunto aos meus pais…

─ Vocês viram? Umas luzes lá na casa abandonada? Juro que vi, mãe, pai…

─ Ô Felipe… Devem ser vaga-lumes, filho. Não precisa se assustar, tá? Quando eu e o seu pai éramos crianças parecia que tinha tantos aqui em baixo quanto tem estrelas lá no céu. Hoje em dia são bem poucos, mas eles ainda gostam de lugares mais abandonados.

Eles me tranquilizam, mas tenho certeza que se entreolham meio desconfiados, será que eles sabem algo sobre a casa que eu não sei? Será que eles querem só me tranquilizar para eu não inventar de ir lá tentar desvendar o mistério da casa fantasma? Bem, uma coisa é certa, eu NUNCA irei lá sozinho! Pelo menos a Mônica que é forte ou o Lessenir que é rápido teriam que ir comigo.

No verão passado nós quatro fomos para lá com um binóculo. Enquanto um olhava lá para dentro pelas frestas do portão os outros vigiavam para ver se nenhum monstro vinha pelo jardim ou pela rua para nos pegar.

Foi a Mõnica que viu alguma coisa primeiro! Ela se assustou tanto que caiu para trás sentada segurando a boca para não berrar. Meio ofegante ela disse “Lá dentro! Enorme! Do tamanho de uma pessoa! Mas todo… todo branco! E aquela luz horrível vindo de baixo do… do rosto…”

Nós três nos embolamos para pegar o binóculo e olhar, realmente tinha alguma coisa lá dentro! Uma luz mais forte do que jamais tínhamos visto! Eu não consegui pegar o binóculo e estava olhando para a casa quando ouvimos aquele grito de terror! Do lado da casa vimos uma pessoa correndo em pânico, era um dos garotos mais velhos, ele tinha uns 18 anos, acho. Ele pulou o muro sem nem perceber que a gente estava ao lado do portão. Torceu o pé, mas continuou correndo mancando mesmo.

A Mõnica não deixou a gente fugir segurando nós três de uma vez só, eu disse que ela era a mais corajosa e forte do grupo, né? Ainda bem porque logo depois a gente ouviu risadas e vimos duas outras pessoas, um garoto e uma garota com lanternas na mão e lençóis jogados no ombro, uma peça… Eles tinham pregado uma peça no outro garoto, coitado! Mas então a casa não tinha nada de assombrada?

Estávamos pensando nisso quando notamos que as risadas tinham sumido e os dois estavam encostados no muro com os olhos tão arregalados que a gente conseguia ver de onde estávamos! Eles pareciam congelados! Suas bocas estavam abertas como se estivessem berrando, mas sem fazer nenhum som! Será que eles estavam berrando e a gente não conseguia ouvir? Será que eles estavam tão apavorados que nem tinham f\õlego para gritar?

Isso foi demais até para a Mônica que nos empurrou e disse sussurrando “corram”.

Quando dei o terceiro passo o Lessenir já estava quase virando a esquina! O Ivan corria menos que eu ou a Mônica, mas a gente conseguiu seguir junto. Não íamos deixar ninguém para trás! O Lessenir foi na frente porque esse era nosso plano em todas as emergências: ele corre como o vento e vai trazer ajuda!

Nos reunimos na casa do Ivan, que estava sempre vazia, menos pela irmã mas que devia estar trancada no quarto dela.

─ Quem eram aqueles dois? Não lembro de ter visto eles antes! ─ Os olhos do Lessenir parecia que iam sair pulando pelo chão de tão arregalados.

─ Acho que os pais deles alugaram a casa do Capitão, aquela que fica na outra ponta da rua… Só quem não conhece as histórias da casa assombrada iria brincar lá! ─ Ivan estava futucando a casca de um machucado no joelho que ele tinha feito naquela semana caindo da bicicleta. Ele tem essa mania de arrancar casca de machucado…

─ Nenhuma das histórias chega aos pés do que a gente viu, meninos! ─ A Mônica estava sentada encostada na parede com os joelhos colados no peito e olhando para a porta e para a janela preocupada.

Passamos o resto daquele verão sem sair de noite. Não ouvimos mais falar do garoto e da garota que estavam na casa do Capitão, mas alguém viu o carro indo embora no dia seguinte… Talvez tenham ficado tão apavorados que imploraram para ir embora. O que será que eles viram?

Mas um ano se passou e, mesmo vendo novamente luzes dentro da casa, o medo agora é muito mais leve, né? A gente esquece dessas coisas, quer dizer, a gente esquece o tamanho do medo que sentiu e começamos a achar que não lembramos muito bem do que aconteceu. Talvez outros garotos tenham assustado a dupla que estava assustando o primeiro garoto.

Papai e mamãe tiraram as coisas todas do carro rapidinho porque estávamos todos com sono. Eu ajudei levando minhas malas para dentro e minha mochila de aventura que tinha meu tablet, sempre um lanche para emergências, uma lanterna, um ímã, um barbante, uma chave de bicicleta e outras coisas muito úteis.

Mesmo assim a gente só conseguiu dormir depois de meia-noite. Meus pais no quarto deles, eu no meu…

Tá bom, vou admitir que tive medo de dormir sozinho! Primeiro dia “no mato” depois de meses dormindo na cidade grande, né? Sempre tem aquele silêncio enquanto na cidade é como se um motor enorme estivesse funcionando o tempo todo e tivesse aquele “vuuuuum” no fundo. Ali era o silêncio e barulhos que poderiam ser passos ou um besouro na janela, folhas voando ou alguém sussurrando…

Verifiquei se a janela estava bem fechada, me embolei no cobertor (ainda bem que a noite estava fresca) e acabei conseguindo dormir.

Parece que amanhece mais cedo nas casas de férias, né? Se estivesse na cidade eu ia dormir até as 10h se me deixassem, mas acordei antes das 8h com a luz passando pelas frestas da janela, com os cantos dos pássaros lá fora e a movimentação do café da manhã.

─ Bom dia dorminhocooooo!!!! ─ O que a Mônica tá fazendo na porta do meu quarto berrando bom dia???

Ela entra, puxa o lençol e sai correndo rindo. E eu cheio de vergonha porque acho meu pijama ridículo…

Assim que ela desaparece me arrumo correndo, coloco uma bermuda, uma blusa e os chinelos. Vou para a cozinha tentando fazer de conta que não fiquei sem graça e que não estou morrendo de vergonha.

Estão todos lá! Ivan, Lessenir e a Mônica olhando para mim com cara de gato que lambeu o bolo e rindo. Ela sabe que me deixou sem graça.

─ Bom dia, filho! Seu pai foi comprar pão e queijo na padaria e já volta. Seus amigos viram que nosso carro estava na garagem e vieram dar bom dia! Eles estão sendo muito úteis para fazer os ovos mexidos e dar um jeito na cozinha.

Cada um fazia uma coisa: varrendo o chão, passando pano nas mesas e cadeiras, secando a louça que alguém já tinha lavado.

É tão divertido rever os amigos que a minha vergonha acaba sumindo. Acho que todos nós temos uma queda pela Mônica. Ela é bonita e independente. É a única de nós que tem coragem de passar de bicicleta sozinha na frente da casa assombrada. Pelo menos é o que os garotos me contam durante o café, que ela tem passado por lá, sem diminuir a velocidade, claro, para ver se tem alguma coisa para ver. Ontem ela tinha passado lá horas antes de mim e também tinha visto luzes. Vaga-lumes não ficam assim fazendo festa a noite toda…

Decidimos que o melhor é evitar a casa e ir para a praia depois do café. Tem a do Peró que é ligada à das Conchas por um trecho de rochas que a gente nunca explorou.

A praia das Conchas tem esse nome porque, em vez de areia, ela é coberta de conchas!, quer dizer, tem areia, mas tem muita, muita concha. É até estranho caminhar nela.

A do Peró se chama do Peró porque… alguém resolveu chamá-la de Peró! A gente nem faz ideia do que isso quer dizer. Talvez tivesse uma pessoa chamada Peró que tinha sido dona da praia…

O dia está super claro! Todos nós estamos com protetor solar, até a Mônica que é mais morena que nós, ela parece pintada para o combate com aquelas faixas brancas na bochecha!

Quem já se queimou tanto no sol que chega a inchar não se preocupa muito em ficar ridículo, né? Todos nós pintamos nossa pele com aquela pasta branca nos pontos que aprendemos a duras penas que são mais frágeis. Parecemos uma tribo de índios.

Começamos nossa exploração na praia das conchas adiando o grande desafio de atravessar as rochas, mas não podemos deixar para o meio dia senão vai ficar muito quente.

São quase 10h quando começamos a travessia. É difícil andar descalço sobre as pedras que já começam a ficar quentes e são bem irregulares. Como se tivessem aparecido há pouco tempo e o vento e as chuvas ainda não tivessem tido tempo de gastá-las.

Quando estamos perto da metade do caminho ouvimos um barulho enorme! Parece um rugido que vai crescendo e depois vira um tipo de explosão!

Será que todo lugar em Cabo Frio tem mistérios? No verão passado teve também a madeira que afundava… A gente achou na praia das Dunas que é onde o Lessenir tem casa. A gente imaginou que ela ficou tanto tempo no mar que encheu de água e agora não flutuava mais.

A Mônica soltou um gritinho quando ouviu a explosão e nós rimos porque geralmente somos nós que nos assustamos! Mas nos calamos rapidinho quando ela nos olhou com as sobrancelhas franzidas e disse…

─ Então vocês não tem medo? Que tal irem na frente ver o que é isso?

A gente se entreolhou e decidimos não dar o braço a torcer! Fomos em frente com cuidado, mas a vontade era de sair correndo dali. Se fosse de noite já estaríamos agarrados nas pernas dos meus pais que nos levaram até lá!

Veio o rugido de novo, pensamos em correr até ele, mas tinha uma fenda no meio do caminho. Tão larga que a gente achou que não dava para pular. Quando percebemos a Mônica já estava do outro lado, mas ela era mais comprida que nós…

Pulamos também! Eu quase não consegui e, por sorte, caí para frente cortando o joelho. Se caísse para trás… Nem quero pensar!

Meus amigos me ajudaram, mas fiz com a cabeça que estava tudo bem e saímos correndo em direção ao rugido que continuava crescendo.

De repente um jato enorme de vapor subiu na nossa frente! Só que não era realmente vapor porque era gelado. Era um jato de água do mar que subia vários metros e caia de volta para o chão como se fosse uma chuva.

A gente se encolheu, senti a água salgada escorrendo pelo meu joelho e fazendo o machucado arder bastante, mas não era hora para se preocupar com isso, tinha um dragão debaixo das pedras!

É claro que a gente percebeu que não devia ser um dragão, que era água do mar, mas será mesmo? Como aquilo acontecia? Como a água subia daquele jeito? O que a empurrava?

Foi o Lessenir que se aventurou a descer quase até o nível das ondas para ver o que estava acontecendo e ele viu a caverna…

Não dava para ver o fundo dela, mas as ondas entravam lá e deviam achar um túnel estreito que levava até o local onde saiu o gêiser que nos assustou. Mas foi aí que aconteceu…

Veio o jato de novo. O Lessenir olhou para a gente gritando “Mas as ondas estão saindo da caverna e não entrando!!”

Logo depois vimos que dessa vez não teve chuva, não teve água voltando para o chão e, em vez disso, sentimos um bafo quente e com um cheiro forte soprar em cima da gente! O Ivan, cujo pai era químico, gritou que era enxofre e tivemos certeza que TINHA mesmo um dragão debaixo das pedras!!

Corremos tanto que não lembro de ter pulado a fenda que quase não consegui saltar antes!

Depois do almoço nos reunimos na praia, perto do restaurante, para conversar sobre o que aconteceu. Meu joelho já estava devidamente cuidado pelo meu pai que lavou a ferida, passou antisséptico e colocou um curativo só para não cair poeira no machucado, mas que deixa o ferimento “respirar” como ele costuma dizer. Ainda dói, mas nem penso muito nisso, afinal temos um dragão para desvendar!

─ Temos que voltar lá antes que anoiteça! A gente saiu tão apavorado que não dá para ter certeza do que aconteceu! ─ Acho que o Ivan é meio maluco. Voltar está além da coragem da Mônica, é loucura!

─ Olha, eu concordo… Posso ter saído voando de lá, mas… Tem uma coisa… É que pensei ter ouvido uma voz… ─ O Lessenir era o cético entre nós, é estranho ele ter falado da voz, mas a verdade é que eu também tinha ouvido…

A Mônica estava pensativa olhando para as ondas mais adiante…

─ Me ajudem… Preso… As luzes… A casa… ─ Ela falou como se fosse outra pessoa, com uma voz mais grave e com um tom que nenhum de nós, jovens demais para sentimentos tão profundos, tínhamos escutado. ─ Foi isso que eu ouvi…

─ Eu escutei só “Me ajudem”, mas o tom era esse mesmo, Mônica, como você conseguiu falar assim? ─ O Lessenir parecia preocupado com ela.

─ Tô bem, Lessenir, tô bem… Sei lá Parecia a voz do meu avô Um dia eu conto dele para vocês…

Eu tinha escutado só “As luzes” e o Ivan ouviu “A casa”.

─ Gente… Luzes, casa… Só pode ser a casa assombrada! Tinha luzes lá ontem, eu vi quando estava chegando! É o que sempre vemos lá Luzes! ? Eu disse isso quase pulando. Não sabia se ficava animado por ter entendido o enigma ou apavorado por ter que voltar na casa assombrada e continuei…

─ Não podemos voltar naquela casa! Não depois do que vimos no ano passado!

A Mônica me interrompeu…

─ Mas quela voz… Nunca senti uma tristeza tão grande, gente! Não podemos deixar isso para lá!! Tá, eu concordo que não podemos entrar na casa, principalmente se as tais luzes prenderam um dragão! Tem que ser um dragão, não acham? O que elas fariam conosco então? O que podemos fazer contra elas?

─ A gente precisa de um plano, Lessenir, Mônica, Felipe? A gente precisa de um plano…

Lembro que meu pai adora histórias de fantasia, dessas com magos, elfos poderosos e forças sinistras.

─ Gente! Tenho uma ideia! Meu pai lê tudo sobre essas coisas! Vou dizer para ele que estamos inventando uma história e vou contar o que temos e perguntar como ele continuaria a história! Que tipo de criatura poderia prender um dragão e como podemos enfrentá-las. Enquanto isso vocês vão falar com o dragão! Eu não quero ficar pulando aquele precipício toda hora!

─ É um pulinho de nada, você que tem pernas curtas, Felipe! ─ O Ivan diz isso fingindo que tem dificuldade para pular por cima de uma concha no chão.

Todos rimos descontroladamente, a gente estava precisando rir! Rimos tanto que a barriga começa a doer.

A conversa com meu pai acaba sendo estranha… Ele parece estar achando que estou escondendo alguma coisa, e estou mesmo, mas um adulto não deve achar que uma criança está falando sério quando conta que viu dragões e luzes misteriosas… O adulto deve fazer de conta que está nos levando a sério, mas na verdade está achando muito engraçado. E a gente, no fundo, sabe disso. Mas não… meu pai parecia preocupado.

Segundo ele dragões são forças boas da natureza, eles mantém as coisas em equilíbrio e, se tem algo prendendo ele, é algo antinatural ou que está contra o equilíbrio da vida. Talvez se pareçam com vaga-lumes para disfarçar o sumiço dos vaga-lumes de verdade. As primeiras coisas a sumir quando se perde o equilíbrio da vida são as mais sutis como borboletas, tatuís (eles diminuíram muito nas areias das praias também) e vaga-lumes.

Em algumas histórias sempre que algo acontece aparece um ser mágico e somem outros. Se a gente corta todas as flores de um jardim e coloca concreto no chão as ninfas e fadas diminuem e surgem criaturas não naturais ligadas ao concreto, parecidas com trolls, mas que, em vez de viver em pedras, vivem em coisas artificiais… E eles prendem ou matam as poucas ninfas e fadas que não somem.

A única forma de consertar as coisas é fazendo algo para tentar equilibrar as coisas dando forças para os espíritos da Terra e tirando coisas artificiais que alimentam os espíritos antinaturais.

Ele falou sobre recaptura de carbono, mas devo ter feito uma cara tão perplexa que ele notou que eu não estava entendendo nada e mudou de assunto dizendo só que a gente precisa, antes de mais nada, entender o que é natural e verdadeiro e o que é artificial e falso em nós mesmos.

Nessa hora achei que ele estava aproveitando para me convencer que refrigerantes, hambúrguer e aquelas comidas que eu e meus amigos adoramos são coisas artificiais que nos desequilibram. Bem, é verdade que meus pais são mais saudáveis que a maioria dos amigos deles e que eu até que gosto de um bom prato com cenouras, abobrinha, carne, feijão e arroz…

Já era quase de noite quando O Ivan, a Mônica e o Lessenir voltaram. Meus pais nos levaram para casa e saíram dizendo que iam jogar ali perto e voltariam mais tarde.

Os três tentaram conversar com o dragão, mas era como se ele estivesse muito fraco e não conseguisse dizer nada além do que já havia dito, mas pelo menos eles confirmaram que não estávamos imaginando coisas! Eles passaram vários minutos vendo os jatos de vapor depois que as ondas recuavam e acharam que o chão tremia o tempo todo… Como se o dragão estivesse tremendo de frio. O Lessenir até teve a impressão de ver uma cauda enorme se mexendo no meio da caverna e eles notaram que a luz do sol não entrava nela como devia… É como se tivesse uma cortina invisível, como se a luz do Sol não pudesse chegar ao fundo da caverna… Talvez fosse a mesma coisa que impedia o dragão de sair.

─ Temos que ir na casa assombrada… Não tem jeito!! ─ O olhar da Mônica tinha medo, mas tinha muito mais determinação! Talvez esse fosse o segredo da coragem da Mônica. Ela até sentia medo, mas não se entregava a ele.

─ Tudo que temos é o que o meu pai disse… Então precisamos tirar coisas artificiais de lá e levar coisas naturais. É isso?

─ Nós somos naturais, não somos? ─ O Lessenir pergunta isso comendo um bolo de mercado que vem numa embalagem de plástico com uma lista de ingredientes que parece com os livros de química do pai do Ivan. É Não somos lá tão naturais assim… Todos olhamos para o bolo na mão dele e pensamos nisso, mas somos o melhor que temos.

O plano fica sendo a gente ir para a casa com duas missões:

  1. Plantar um monte de mudas de plantas
  2. Achar coisas que pareçam antinaturais para tirar de lá. Não temos ideia do que pode ser algo antinatural

Cada um de nós consegue levar seis mudas de árvores que temos em nossos quintais, dessas que crescem se a gente plantar um galho delas.

Quando pulamos o muro percebemos que tem uma luz parada lá no meio da casa, mais forte que de costume, como se todas as luzes estivessem reunidas no mesmo ponto, mas não era mais forte que o foco de uma lanterna.

Ivan e Lessenir começam a plantar as mudas ao redor da casa enquanto eu e a Mônica vamos buscar algo antinatural.

Nossas pernas tremem; até as da Mônica, dá para notar pelo jeito que ela olha ao redor como se fosse um bem-te-vi assustado, mas se move como se fosse um cavalo recém nascido.

Vamos seguindo pelo lado da casa até chegar nos fundos onde vemos que tem uma garagem e um carro parado, um carro abandonado para ser mais preciso. Será que a casa está vazia todos esses anos porque aconteceu alguma coisa com os donos que chegaram ali e nunca puderam sair? Será que as luzes apareceram antes deles saírem e os prendeu lá dentro?

─ Olha Felipe! O tanque do carro? Está vazando… Tem óleo embaixo dele, me dá a lanterna!

─ Tá maluca? Se a gente acender a lanterna vão nos ver! Vamos chegar mais perto!

Realmente o chão embaixo do carro está cheio de óleo. Esvazio minha mochila e começo a encher com a terra suja enquanto a Mônica usa minha fita prateada (eu disse que tenho de tudo na mochila) para fechar o vazamento.

─ O tanque está todo pobre… Vou gastar sua fita toda e vamos ter que voltar um dia… Droga…

Nossos sussurros são nervosos, nos sentimos observados o tempo todo e, talvez, agora que estamos tirando poluição e plantando árvores ao redor do covil das luzes, elas nos percebam, parem o que quer que estejam fazendo e venham nos pegar… Não quero ficar como o garoto e a garota que vimos no ano passado…

─ Ali, Mônica! Tem um tipo de tapete pendurado! Vamos colocar embaixo do carro para proteger mais a terra!

Era um tapete muito velho, empoeirado e mofado que devia estar ali há anos. Assim que o colocamos no chão sob o carro começaram a crescer cogumelos. Eu sei que cogumelos crescem rápido, mas aquilo já era ridículo.

Foi então que a luz de uma lanterna nos iluminou, quase morremos de susto, mas era o Ivan fazendo sinais para a gente, o Lessenir já estava pulando o muro e logo depois disparou para a esquina seguindo nosso plano de sempre de ter alguém para pedir ajuda se algo desse errado com todos os outros. O Ivan apontava loucamente para a casa e logo depois subiu no muro para nos esperar e ajudar a pular também.

Tinha alguém na casa! As luzes se moviam na direção de um vulto que espalhava algum tipo de pó no ar que brilhava ao redor das luzes e as mantinha afastadas.

Saímos correndo como se o chão sob os nossos pés estivesse desmoronando. Quando estávamos na metade do caminho para o muro a janela ao nosso lado se espatifou e o vulto saiu voando por ela e rolando no chão.

─ Corram crianças!!! Sebo nas canelas!!

“Sebo nas canelas”? Quem fala “sebo nas canelas” além do meu pai? A voz está ofegante e diferente, mas é ele! Ainda o vejo jogar mais uma cortina de pó na janela impedindo que as luzes atravessem tendo que buscar outro caminho até nós, mas algumas vão em direção à parte da frente para nos interceptar. Vejo o Ivan, coitado, cair para o outro lado do muro com o susto.

Meu pai nos alcança, segura nossos braços nos fazendo correr mais do que achávamos possível. Com a ajuda dele a Mônica salta por cima do muro e depois eu. Ele berra do outro lado “Não esperem por mim! Vão para casa! Lá está seguro” e vemos que as luzes parecem cercá-lo. A Mônica precisa me segurar e me puxar para me fazer ir.

─ Seu pai? O que seu pai está fazendo aqui? Mas, olha, ele é adulto, vai saber se virar!

Lágrimas correm pelos meus olhos imaginando que meu pai ficaria catatônico como aqueles dois no ano passado… Aprendi o que era catatônico naquela noite: ficar tão maluco que parece que a pessoa morreu apesar de ainda estar viva.

Minha casa é perto e no caminho para onde o Lessenir correu então conseguimos nos reunir e correr para ela. Antes de entrar ainda vemos uma sombra enorme passar voando por nós. Como se fosse uma nuvem, mas o céu esteve limpo o dia todo…

Não tinha ninguém na minha casa. Só uns 15 minutos depois ouvimos um barulho no portão. Até então estávamos falando em cochichos nervosos sobre tudo que tinha acontecido. Olhamos pela janela e vemos, à luz da lua cheia, que é meu pai! Ele está todo chamuscado e quando entra sentimos o cheiro de enxofre.

Ele puxa cada um de nós para perto e diz que está tudo bem, está tudo bem… Várias vezes.

Algo me diz que nós é que devíamos estar consolando ele, afinal foi ele que ficou com as luzes e é ele que está chamuscado…

─ O amigo de vocês está livre e me salvou na hora H! Mas não haverá mais casa fantasma para vocês brincarem…

Minha mãe chega logo depois dele esbaforida, suando como se tivesse corrido horas!

─ Você está bem, amor? Crianças? Estão todas aqui? Eram só vocês quatro?

Os dois nos contam que as luzes foram distraídas por ela que foi até o dragão e fez alguma coisa para enfraquecer a barreira. Ela nunca poderia rompê-la, mas foi o bastante para as luzes se concentrarem em reforçar o campo que prendia o dragão. Enquanto isso o meu pai foi nos proteger e espalhar uma coisa especial por dentro da casa: esporos de cogumelos! Poucas coisas são mais fortes na natureza que mofos, fungos e cogumelos! Com a janela quebrada a umidade entraria na casa e a encheria de vida!

O dragão chegou bem na hora para espantar com seu fogo as luzes que atacavam meu pai.

A noite terminou com uma sensação diferente no ar, como se estivesse mais leve e fresco, como se as estrelas sobre nossas cabeças estivessem mais nítidas.

Nós quatro da turma dormimos do lado de fora depois de conversar muito… Dragões, luzes estranhas, fadas e ninfas… Nem chegamos a ver nada disso, e nem o dragão!!! Dormimos imaginando como serão nossas vidas agora que sabemos disso tudo e, mais ainda, que meus pais são algum tipo de super-heróis mágicos!!

Fim!

Fim? ;-)

Observações

Acabei o conto meio dia e meia. Foram 4 horas e meia escrevendo, mas fiquei bem feliz com o resultado e não tive que correr no final!

No conto em estado bruto tem um problema logo depois do primeiro encontro com o dragão que eu os levo de volta para casa quando tinham que ter continuado na praia. Corrigi isso na revisão, mas tento não cometer esse tipo de erro e manter a revisão mínima para mostrar o conto o mais bruto possível. Normalmente só corrijo erros de grafia, tempo dos verbos, concordância etc.

Hangout

Depois de cada conto eu faço um hangout comentando o que acabei de escrever, que dificuldades tive, algumas coisas sobre o processo criativo.

O processo criativo

Isso tudo foi escrito antes de começar a escrever o conto, ok? É parte do meu processo criativo.

Me comprometi a usar uma estratégia em cada conto enquanto desse, mas, das 14, só faltam duas:

  1. Criar uma história em que eu gostaria de estar, ou seja, eu mesmo sou um dos persoangens (é meio preguiçosa, né?)
  2. Retalho de outros autores / histórias. É preguiçosa também e fica com cara de plágio apesar de ser comum (as histórias mitológicas por exemplo)

Sábado vamos ver que estratégia vou usar. Vai depender do resultado da votação.

[8:08] Vendo o resultado da votação[/]

Um suspense de fantasia infantil no presente!! Adorei!!

Entre as sugestões teve violência que é um tema necessário realmente porque precisamos aprender a lidar tanto com a que vem de fora quanto com a que existe em nós. Além disso existe a questão da percepção relativa da violência? Temos bons motivos para crer que ela tem se reduzido século a século, década a década, mas nossa percepção é de que ela está aumentando. Sobre isso tem um livro bom de Steven Pinker.

Também pediram cômico, sátira e feminino. Acho que tenho uma certa facilidade em escrever temas femininos, mas sempre acho que comédia é algo meio complexo para um conto que tem que ser escrito em quatro horas, mas tô pensando nas dicas, ok?

As duas estratégias criativas são boas para esse tipo de conto: retalho de outros autores me permite pegar várias referências do universo da fantasia ou literatura infantil e escrever algo que eu gostaria de viver pode ser ainda mais fácil, afinal quem não lembra de alguma aventura de infância que foi fantasiada por nossas imaginações férteis?

Lembro que, em Cabo Frio, tinha duas praias separadas por umas rochas. Dava para ir de uma para a outra andando por ali, mas era algo perigoso para nossas pernas curtas. Hehehe! Mas é claro que eu ia assim mesmo. No meio do caminho tinha uma caverna subterrânea com um respiro que tínhamos que saltar. Quando a maré estava subindo as ondas empurravam água por ali fazendo um grande e ruidoso suspiro que parecia vapor… Pronto… Tinha um dragão lá embaixo!

Sabe? Parte do processo criativo é fazer isso… Devanear sobre o tema.

Eu queria usar a segunda estratégia (retalhos) porque ela agrada o leitor mais facilmente porque ele identifica as histórias citadas, mas a gente tem que respeitar o clima da nossa imaginação e a minha já foi para o lado das aventuras e fantasias pessoais… Tive muitas em Cabo Frio e acho que vou por esse caminho.

Estou lendo The Bone Season da Samantha Shannon e isso pode acabar influenciando a minha criatividade também.

Pois bem… Uma aventura de fantasia no presente e infantil… Infantil também exige certos cuidados, temos que prestar atenção na complexidade do vocabulário e de certas abstrações que uma criança com 8 anos ou menos geralmente não tem. Aliás, o que seria infantil hoje em dia, né? Já foi 11 anos se não me engano, mas elas estão lendo jovem-adulto nessa idade agora.

Mantendo a imagem de uma criança de oito anos em mente vamos pensar em um suspense depois inserir elementos de fantasia nela.

[8:26] Pensando em suspenses infantis que vivi[/]

Tinha a casa assombrada que estava sempre vazia, mas onde enxergávamos luzes de vez em quando, tinha o dragão que já comentei… Muitas das aventuras da minha infância vinham de livros ou filmes que raramente aconteciam no presente. Ah! Já cacei saci pererê no sítio da minha avó onde existia também areia movediça que na verdade eram focos de terra quente e movediça criados por algum fenômeno geológico que nunca pesquisei. A gente acampava de vez em quando perto do bambuzal… Saci me lembra de Legado Folclórico do Felipe Castilho (ganhei de presente da Érika) que é como um Deuses Americanos (do Gaiman) com seres fantásticos mais brasileiros.

[8h33] Olha o que o sono faz… Não é aventura! É suspense!!! Ainda bem que o que estou pensando serve para os dois casos! Vou trocar aventura por suspense nos parágrafos acima…[8:35]

É Vou resgatar a turminha de Cabo Frio para essa história. Tinha o Ivan, a Mônica, o Marquinhos e o Lessenir. Não lembro de outros nomes agora… Engraçado que só lembro do rosto da Mônica que era morena, dentuça e batia na gente… Ela devia ler os quadrinhos do Maurício de Souza ;-)

Uma forma de fazer suspense é não revelar para o leitor o que está acontecendo de fato. Ele vai conhecendo fragmentos da história, olhando de fora, sem saber como aquelas coisas se encaixam e só no final tudo é revelado desvendando o suspense.

Quem está acompanhando o processo criativo terá um pouco de spoiler, mas vou tentar minimizar isso, ok? Vai ter o dragão na história, assim como a casa mal assombrada. Já tenho uma boa ideia do que aconteceu e de como vai terminar e acho que já posso começar a escrever o conto! Vai ser apertado porque tenho pouco mais de 3h!! E para escrever infantil não posso simplesmente sair escrevendo, tenho que me preocupar com o peso da história e com o vocabulário.

Preciso comer alguma coisa e esticar as pernas antes de continuar? Já volto ;-) [8:47]

[8:54] Voltei![/]

Tem gente que planeja o conto todo antes de escrever, digo, ouvi falar que tem gente assim, mas isso é algo que eu nunca fiz. Tenho no máximo o início, o meio e o fim que podem mudar no curso da escrita. Acho que nosso subconsciente é vasto demais para dominá-lo com a mente consciente e é dele que vem as coisas mais profundas, mais tocantes. Temos que deixar espaço para ele agir, então vamos ao conto! Enquanto eu comia pensei no começo dele.