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O Conto

A sala est? repleta de universit?rios e universit?rias atentos ? aula da professora Elis?ngela, doutora em hist?ria da viol?ncia coletiva.

? Seu corpo foi arrastado por um quil?metro at? o local da execu??o, alde?es e nobres cuspiam e gritavam “assassino! Monstro!”. Crian?as como as que ele matou tamb?m acompanhavam o evento. Ele ent?o ? colocado em uma plataforma de madeira com cerca de um metro de altura para que a multid?o possa v?-lo enquanto seus bra?os e pernas s?o estra?alhados a golpes de uma barra de ferro manchada com o sangue de muitos outros que foram torturados com ela, mas esse ? apenas um pequeno supl?cio pois, enquanto a multid?o se regozija com o sabor da vingan?a suas v?sceras s?o arrancadas e exibidas para ele mesmo e depois para a multid?o que urra. Os carrascos experientes n?o deixam que ele desmaie e prosseguem com as torturas at? que, quase morto, ele ? pendurado pelo pesco?o enquanto peda?os dos seus intestinos ainda emergem dos cortes em seu abdome. A multid?o ainda demora a se dissipar observando com prazer os espasmos involunt?rios do criminoso moribundo.

Os alunos observam com variadas express?es de nojo, uns poucos s?o menos sens?veis ou, amortecidos pelos filmes e jogos violentos simplesmente n?o conseguem estabelecer la?os de empatia nem com a multid?o, nem com o criminoso torturado.

? Por que essas caras de nojo? ? Elis?ngela imita a expres?o dos alunos ? A cada crime que assistimos na TV surgem hordas de amigos em nossas redes sociais pedindo, ali?s clamando, por vingan?a, por puni??es cru?is para os monstros. Nosso sistema presidi?rio ? um sistema de vingan?a e tortura e mal se fala em alterar isso porque a esmagadora maioria de n?s deseja a vingan?a como instrumento de justi?a. A justi?a em si n?o ? um impulso natural para n?s, humanos. Ela deve ser conquistada individualmente e constru?da socialmente atrav?s do desenvolvimento da empatia e, admito, nesse desenvolvimento a Internet tem um papel importante ao mostrar que s?o poucas as diferen?as entre as pessoas. Pelo menos para alguns de n?s… Para outros o que parece pequenas nuances culturais, morais ou religiosas s?o barreiras intranspon?veis.

Um homem na faixa dos 40 anos observa a aula do fundo da sala. Elis?ngela o nota, deslocado naquele meio, com rugas na testa que denunciam perplexidade e esfor?o para entender o que est? sendo dito.

Ao fim da aula alguns alunos ficam para tirar d?vidas sobre o trabalho que dever? ser apresentado ou para fazer observa??es querendo se mostrar para respeitada, e temida, professora.

O homem os observa trocando ideias enquanto a professora arruma suas coisas, desliga e guarda o notebook at? finalmente interromper os alunos dizendo que precisa ir. Vira-se para sua ajudante, uma das alunas, e diz “Ana Beatriz, por favor, deixe isso na secretaria, sim?”.

O homem se aproxima quando Elis?ngela est? se dirigindo para a porta.

? Com licen?a doutora Elis?ngela, lamento muito incomod?-la, mas sua aula realmente ? Perturbadora. Num bom sentido, pelo menos para mim.. Errr? Perd?o, estou come?ando isso errado? Sou Ant?nio Fernandes, investigador de homic?dios da pol?cia federal. Um colega me sugeriu que visse uma das suas aulas pois a senhora talvez possa me ajudar em um caso.

? Lamento senhor? Ant?nio Fernandes, certo? ? Ela repete lentamente o nome dele como se o estivesse fixando na mem?ria para uso futuro. Que uso ela teria para o nome dele n?o ? claro ? Mas eu n?o tenho interesse em casos isolados, individuais, entende? Minha ?rea de pesquisa ? a perversidade coletiva, ou seja, n?o estou preocupada com o ped?filo assassino do do s?culo XVI ou com o do s?culo XXI, eles s?o fen?menos psiqui?tricos e minha especialidade s?o pessoas comuns que agem como pisocopatas em resposta ? dor ou ao medo. O departamento de psicologia ? do outro lado do pilotis.

Ela se vira e segue seu caminho sem dar mais aten??o ao policial. N?o se trata de medo de participar de uma investiga??o que pode lev?-la a entrar em contado com a pervers?o humana; com mais de 50 anos Elis?ngela j? viu de tudo, j? se exp?s a mentes criminosas buscando nela mesma a semente do ?dio que as multid?es demonstram. J? foi a pa?ses muito mais cru?is que o Brasil para assistir execu??es p?blicas e n?o teve nem prazer e nem aquela perplexidade com ?nsia de v?mito que, no final das contas, tamb?m ? uma forma de empatia com o ?dio da popula??o, mas uma empatia condenada pelo ego que ent?o se enoja. Elis?ngela ? indiferente para esse tipo de ?dio. Isso ? apenas parte da sua pesquisa: o desejo de vingan?a selvagem ? natural do homo sapiens?

Ant?nio Fernandes, no entanto, a acompanha.

? Por favor, me permita lhe pagar um caf?, um ch? ou um suco para lhe explicar o caso, tomarei apenas cinco minutos do seu tempo e talvez voc? possa me indicar algu?m melhor para me ajudar, muito embora eu desconfie que lhe serei ?til tamb?m.

Ela para, vira para ele, jovens passam pelos dois como modelos desfilando numa passarela, como pessoas vagando entorpecidas entre dois destinos ou conversando animadamente sobre o que fazer ? noite ou ainda sobre os estudos.

? Est? certo. Voc? tem 5 minutos. Comece. Aqui mesmo, se voc? me convencer marcamos o caf? amanh?. Hoje s? tenho esses 5 minutos pois minha sobrinha me espera para ir ao cinema.

Surpreso imaginando uma pessoa como ela levando a sobrinha ao cinema e constrangido por falar com tantas pessoas por perto Ant?nio come?a a vender seu peixe.

? Come?ou h? quase dois anos. Uma fam?lia de 5 pessoas morta na pr?pria casa. Pai, m?e, um filho, uma filha (com menos de dez anos) e um av? das crian?as. Todos amarrados a cadeiras, mas a cadeira do av? sobre estava sobre uma mesa de centro e as outras em semi-c?rculo ao redor dele. Atr?s do av? a televis?o ligada no History Channel. Foi verificado que, na hora das mortes, passava um programa sobre torturas medievais. O av? morto como o criminoso que a senhora acaba de descrever? Bem, pelo menos a parte das v?sceras retiradas. Um corte na jugular substituiu o enforcamento e os membros n?o estavam quebrados. Um papel em seu colo tinha a palavra “ped?filo” escrita com a letra de uma das crian?as. As v?sceras foram jogadas sobre a fam?lia que, ao que tudo indica, foi morta depois do av? com cortes longitudinais nos pulsos. O assassino deve ter assistido at? que a ?ltima centelha de vida os deixasse pois nenhum deles estava amorda?ado quando foram descobertos. Esse foi o primeiro. Todos os crimes seguintes sugeriam um tipo de execu??o. Os criminosos s?o homens e mulheres supostamente ad?lteros, assassinos, espancadores de mulheres. No entanto o mais intrigante para n?s ? que as testemunhas s?o sempre suas supostas v?timas e tamb?m foram mortas de formas cru?is, ainda que n?o tanto quanto as reservadas aos supostos criminosos.

? Muito bem, Ant?nio Fernandes. Voc? ganhou a minha aten??o. Esse ? o meu cart?o com o meu email. Envie hoje ainda as datas e horas estimadas dos crimes e somente a acusa??o dos executados e a rela??o deles com as v?timas.

? S? uma outra coisa, Dra. Elis?ngela. Teve uma mudan?a de padr?o h? seis meses. At? ent?o todas as execu??es ocorreram no fim da tarde, mas as tr?s que ocorreram nos ?ltimos seis meses foram durante a madrugada.

? E nunca num s?bado, imagino?

? Realmente, Dra. Nenhum dos 12 crimes foram num s?bado. Nem num domingo.

? Envie o email e nos encontraremos amanh? ?s 10h da manh?, pode ser para o senhor? Tenho que ministrar uma aula de tarde at? as 19h, mas teremos mais de 2h para conversarmos. Agora eu realmente preciso levar minha sobrinha para ver Opera??o Big Hero.

Ant?nio Fernandes agradece e segue seu caminho para o escrit?rio pensando na surpreendente frieza daquela mulher ao trocar de assunto de uma s?rie de assassinatos cru?is para o filme infantil e ing?nuo que ver? em breve. Ele n?o consegue assistir um filme infantil desde que pegou o caso h? quase um ano.

–//–

O campus da universidade est? deserto h? horas. Apenas um seguran?a passa pela porta e pelo pilotis de temos em tempos, sem regularidade e sem disposi??o para percorrer todo o campus. Se a universidade realmente se importasse com os estupros que ocorrem ali ? noite a guarda seria mais empenhada, mas n?o ?, afinal por que uma jovem ficaria at? depois da meia noite l? sabendo que h? riscos? ? claro que sempre acontece com as mais dedicadas que precisam dos equipamentos sofisticados de qu?mica, computa??o e medi??es f?sicas, mas ? um risco que elas conhecem.

Elis?ngela caminha pela alameda escura ouvindo os sons noturnos. A vegeta??o parece devorar os sons dos carros que viram murm?rios distantes como se n?o fossem motores movidos a explos?o.

Uma mente mais simpl?ria se assustaria. Em sua m?o ela carrega um punhal, uma linda pe?a de antiguidade, com a l?mina curva e serrilhada para se tornar uma arma mortal ainda que pequena.

Ela come?ou a dar aulas apenas h? seis meses quando passou a ficar ocupada de tarde, antes disso, nos ?ltimos tr?s anos estava envolvida em dois doutorados e tinha hor?rios mais flex?veis.

Uma horas antes, se o seguran?a desse aten??o aos seus instintos, ele teria ido verificar um baque surdo que veio de perto do rio, mas ele imaginou que devia ser apenas uma pedra se soltando ou talvez um casal de jovens namorando.

Ele teria visto a silhueta de uma mulher caminhando perto do rio em dire??o ao biot?rio da universidade seguida de perto por um grande vulto. Teria visto esse vulto se aproximar dela por tr?s e em seguida o baque surdo, um corpo caindo no ch?o? V?rios minutos de sil?ncio e depois o som de algu?m sendo arrastado em dire??o ao bosque.

Mais uma hora antes, por volta da meia noite, talvez algu?m tivesse notado o grupo de seis jovens universit?rias que entrou no mesmo bosque separadamente encontrando-se minutos depois no ponto indicado no mapa que receberam de algu?m em quem confiavam. O bilhete tinha apenas as instru??es para chegar na localiza??o e a palavra “justi?a”. Elas o receberam em m?os. Infelizmente ningu?m viu.

S?o quase duas horas da manh? e Elis?ngela est? se dirigindo ao bosque sozinha, seguindo seus instintos. Segura do seu poder.

Ela ouve o som de galhos cedendo a um peso e de cordas se esfregando na madeira verde. H? uma clareira logo ? frente. Entre os galhos ela v? seis mo?as amarradas e amorda?adas. Diante delas pende um corpo de cabe?a para baixo, um homem com certeza. Ela sorri satisfeita. Entre as mo?as est? uma das suas alunas, Sabrina? Ela n?o tem certeza do nome. Ser? que elas se mostrar?o dignas do teste?

Colado nas costas do homem um cartaz onde se l? “Estuprador”. Ele est? vivo e se mexe testando sua pris?o na esperan?a de um dos galhos se romper, mas ? in?til.

Elis?ngela busca o carrasco ao redor. Talvez ele esteja esperando as mo?as acordarem, certamente foram dopadas de alguma forma para serem amarradas sem oferecer resist?ncia. Inteligente.

Do alto de um galho um vulto observa a clareira aguardando. Acertando os ?ltimos n?s que prendem o homem que acaba de ser pendurado ali. Com uma m?o coberta por uma luva o vulto seca a testa e desprende um suspiro misto de al?vio e e expectativa.

Elis?ngela n?o precisa ver o vulto, ela sabe exatamente o que est? acontecendo ali: Uma experi?ncia para testar suas hip?teses sobre o mal essencial nos humanos que se manifesta atrav?s da distor??o da justi?a em vingan?a, da deturpa??o do al?vio da seguran?a no prazer com a dor alheia oferecida aos Deuses para aplacar a dor que n?s mesmos sofremos… Mas os Deuses no caso somos n?s mesmos? Uma corrup??o providencial que nos confere o direito de manifestar f?ria e vingan?a divinas.

Ao lado do homem pendurado h? um serrote grande. As mo?as come?am a despertar.

Hipnotizada pela cena, Elis?ngela sai das sombras e se dirige ?s alunas sem lan?ar um olhar para o homem pendurado. Elas a reconhecem e seus olhos se mostram aliviados.

? Voc?s est?o bem? Est?o despertas?

Elas confirmam com as cabe?as, mas Elis?ngela n?o as desamarra, n?o retira as morda?as?

? Vamos ver esse rapaz?. Bem, ele n?o aparenta mais de 28 anos e tem o olhar bem? Isso ? raiva? Com um pouco de medo, certo? Voc? viu o serrote, meu jovem?

Ela pega o serrote e o apoia entre as pernas do jovem pendurado de cabe?a para baixo. Olhando para as meninas ela explica.

? Essa era uma forma comum de tortura no s?culo XVI: Com o objeto da execu??o de cabe?a para baixo o sangue se acumula na cabe?a prolongando a consci?ncia mesmo enquanto ele ? serrado entre as pernas dilacerando lentamente seus ?rg?os genitais. Carrascos mais experientes e fortes conseguiam ir muito al?m disso atingindo ?rg?os vitais muito antes do objeto do executado finalmente perder os sentidos? Mas era comum eles continuarem serrando para o deleite da plateia que deseja o direito ? sua vingan?a.

As seis mo?as olhavam para o rosto apavorado do jovem com um certo prazer? A dor do medo dele n?o se compara com o que ele as fez passar, ? marca que ele lhes deixou para toda a vida, as imagens que elas lembrar?o quando estiverem com a pessoa que amam, com quem v?o se casar e, talvez, ter filhos.

? Ele estuprou cada uma de voc?s, certo?

Elas concordam com a cabe?a, os olhos agora vidrados nos olhos da professora Elis?ngela.

? Voc?s merecem ser vingadas. Temos que evitar que ele fira outras mulheres? Somos civilizados, mas uma serradinha ? toa pode resolver esse problema para sempre.

Ela pisca para as alunas que talvez imaginem que ela est? mesmo s? blefando.

Lentamente ela come?a a serrar a cal?a jeans do jovem. O tecido grosso treme entre suas pernas ainda sem se romper, o ru?do do serrote crepita em seus ouvidos, l?grimas correm dos seus olhos, mas ele n?o emite um som. Decepcionada a Dra. serra com um pouco mais de for?a parando no entanto antes que o jeans se parta.

? Voc? ? mudo, rapaz? Bem, j? vou continuar, temos uma longa noite pela frente e seis mo?as para agradar, n?o ? meninas?

Se algu?m pudesse ver os olhos do vulto tr?s metros acima do grupo veria o brilho do j?bilo e da expectativa de ver o desenrolar da execu??o.

Nesse momento Ant?nio Fernandes est? conversando com o seguran?a no port?o da universidade. Ordenando ao homem que n?o deixe ningu?m passar por aquele port?o sem ele e, em seguida, mergulha nas sombras do vasto campus sem ter muita certeza de onde ir.

? Ent?o mo?as, voc?s mandam! Devo “desativar” esse pervertido? Voc?s querem v?-lo sofrer? Sentir dor? Voc?s o querem aleijado para o resto da vida ou querem que o resto da vida dele se resuma a? vejamos? quanto tempo eu demoraria at? que ele estivesse acabado? Umas duas horas, acho. Duas horas de muita dor… Ser? assim, vou come?ar e pararei quando nenhuma de voc?s olhar para ele por mais de um minuto.

Ent?o ela come?a a serrar novamente, o jovem se debate ainda sem emitir um som? A cal?a se rompe? os dentes do serrote come?am a singrar pela carne macia? Uma das mo?as olha para baixo desviando o olhar? O serrote continua seu movimento, um filete de sangue mancha a cal?a. Outra das mo?as vira o rosto para baixo e para o lado fugindo o m?ximo poss?vel das imagens, implorando com os olhos que as outras parem de olhar.

? J? basta! ? Elis?ngela fala em alto e bom tom ? At? aqui feri apenas superficialmente a perna desse estuprador. Saia das sombras isso tem que acabar.

O corpo ?gil se atira sobre a Elis?ngela desequilibrando-a. Um chute certeiro nas costas a derruba no ch?o e, antes que ela possa reagir, suas m?os est?o amarradas ?s costas. Foi mais r?pido do que ela imaginava, mas seu grande trunfo era sua intelig?ncia contra a mente distorcida de um psicopata. E o investigador Ant?nio Ferreira? n?o devia demorar muito a atender o sms que ela lhe enviou assim que encontrou a clareira com a cena macabra.

? Eu esperava mais de voc? Dra. ? a voz feminina ? suave e decidida ? a senhora sabe dos horrores que vamos viver se n?o dominarmos a barb?rie em nossa heran?a gen?tica conforme o mundo mergulha nos s?culos negros do clima des?rtico e congelado da era p?s aquecimento global. Eu li tudo que a senhora escreveu e sei que essa ? a raz?o da sua pesquisa. Algo me diz que terei pouco tempo… ? melhor continuar o experimento enquanto conversamos. Observe atentamente professora, essa ? uma oportunidade que nenhuma banca de doutorado lhe permitir? ter. Observe bem o olhar das quatro v?timas? Veja que as outras duas tamb?m voltar?o a olhar quando perceberem que o castigo ? inevit?vel, que n?o ? culpa delas? Que eu n?o pouparei o criminoso ainda que as seis virem a cara e implorem para que ele seja poupado. Quando outro tiver o poder sobre a vida e a morte elas se regozijar?o com a vingan?a.

? E voc? as matar? tamb?m por serem apenas humanos normais com um desejo de vingan?a? Isso ? insano Ana Beatriz!

As outras mo?as n?o tinham reconhecido a assistente da professora Elis?ngela. Quando o investigador Ant?nio falou na mudan?a de comportamento a possibilidade ficou bem clara para a doutora.

? Infelizmente n?o posso deixar testemunhas ou as minhas experi?ncias ser?o interrompidas. Tome, esses s?o o login e senha do meu dropbox. Se eu falhar voc? achar? todas as minhas anota??es l?, certo? Eu sei que voc? entender? que n?o estou insana. N?o tenho qualquer prazer nessas mortes, mas temos que determinar as origens gen?ticas desse impulso que eu n?o tenho e, acredito, a senhora tamb?m n?o.

Enquanto fala ela posiciona o serrote entre as pernas do jovem e passa a serrar com vigor agora no ?ngulo certo.

? Sabe, ele n?o berra porque eu anestesiei sua garganta e cordas vocais. Ele ia me estuprar hoje? Venho seguindo seus passos, estudando seu padr?o. Ele estupraria a vida toda se n?o fosse impedido. E voc?s sabem quantos estupradores foram definitivamente retirados da sociedade? Pfff! Quase nenhum! Meninas, voc?s n?o tem culpa de terem sido estupradas assim como n?o tem culpa do sofrimento e morte desse pobre diabo pelas minhas m?os. Eu irei at? o fim independente do que voc?s fa?am. Sabem, n?o posso serrar muito r?pido sen?o ele desmaia, mas fiquem tranquilas, eu garanto que voc?s ter?o toda vingan?a de que merecem.

A voz grave de Ant?nio interrompe o festim.

? Abaixe lentamente esse machado mo?a. Estou com uma arma apontada para as suas costas?

? O policial? Voc? o chamou professora? Esperta? N?o notei? Senhor policial? Esse homem est? apenas levemente ferido? Creio que ele ainda poder? se recuperar totalmente? E voltar? a estuprar.

Ela coloca as duas m?os na cabe?a e se vira para ele lentamente. Seu rosto ? pl?cido, n?o h? nos olhos o brilho do prazer psicopata. Ela parece uma carinhosa vendedora de rosas.

? Mo?a, voc? matou dezenas de pessoas inocentes e pelo jeito ia matar mais sete depois desse infeliz a?.

? Esse infeliz matar? muito mais do que eu, oficial? As mulheres que engravidarem dele, que foram tocadas pelo seu ?dio, perpetuar?o o impulso selvagem pelo sofrimento alheio. Pessoas como ele s?o respons?veis pela morte de milhares? Me deixe terminar o servi?o e ser? menos um malandro no mundo para te dar trabalho e ser solto infinitas vezes? Eu deixarei as mo?as irem, que tal? ?Veja s?! Podemos fazer uma alian?a e voc? me indica apenas criminosos para eu usar na minha pesquisa!

? Ela est? mentindo, Ant?nio. Ela precisa de pessoas consideradas comuns e de v?rias etnias e conjuntos gen?ticos para construir a teoria distorcida que ela tem em mente.

Agilmente Ana Beatriz se desvia para tr?s do jovem pendurado e corre em dire??o ?s ?rvores. Se Ant?nio Fernandes tentar atirar pode acertar o estuprador ou as meninas amarradas em semi-c?rculo? Ela consegue desaparecer entre a vegeta??o densa.

Por alguns segundos Ant?nio olha para a professora pensando no que fazer ent?o desamarra seus pulsos e corre de volta ao port?o.

Ao chegar l? encontra o que temia. O seguran?a desmaiado, uma seringa fincada em sua barriga, alguma droga com certeza. Ana Beatriz escapou…

Observa??es

Apesar de ter explicado quase tudo, dei um final um pouco abrupto para o conto, um “continua” no estilo dos seriados da d?cada de 70.

Se tivesse tempo de desenvolv?-lo um pouco mais teria uma cena amb?gua da professora Elis?ngela soltando as alunas e o estuprador, mas deixando ao leitor a d?vida de at? que ponto ela n?o seria parecida com a Ana Beatriz.

Gostaria tamb?m de deixar a Ana menos psicopata? Fazer dela algu?m dessensibilizado, mas aparentemente saud?vel.

O elemento de terror pode ser melhor desenvolvido tamb?m. O ?conto acabou sendo mais suspense que terror e tem um bom material para terror realista nele.

Outra coisa que pensei em desenvolver ? uma hist?ria paralela no s?culo XVI, mas isso exige uma boa pesquisa.

Hangout

O processo criativo

[8:01]Vou me atrasar, ? mole? Demorei 40 minutos para trocar uma tomada e poder ligar a m?quina de lavar roupa de novo? Vou tomar um banho agora e j? volto?[8:20]

Vejamos o que terei que escrever? Empate em tr?s das quatro categorias! E agora? :-)

  1. Terror e Suspense: Ok, d? para fazer os dois na boa
  2. Adulto
  3. Passado e Presente: at? j? fiz um conto assim
  4. Scifi e Realista: Bem? Em tempos de Gravidade e Interstellar at? que a ideia de scifi realista n?o ? t?o estranha? Ser? que consigo fazer um scifi realista que as pessoas n?o critiquem como aconteceu com os filmes realistas recentes? O problema ? que, no contexto do meu formul?rio as ideias de scifi e realista s?o opostas? Entendo realista mais como: cotidiano.

Tenho preferido escrever coisas realistas por v?rios motivos. Acho que ? menos natural para mim e ? uma abordagem que anda esquecida.

Um dos pedidos por realista sugeriu s?culo XVI? ?poca do descobrimento do Brasil? Uau! Fico lisonjeado que as pessoas achem que tenho essa cultura toda para fazer de sopet?o um conto realista ambientado h? 500 anos. Na real eu n?o tenho. Apesar de ter lido algumas coisa ambientadas na ?poca como os livros do Ant?nio Torres sobre esse per?odo e um outro cujo nome me escapa agora? Um franc?s, acho, que conta a hist?ria de um casal de crian?as que vem fazer parte da invas?o do Rio de Janeiro por Villegagnon. Tem algumas tentativas de ler Para?so Perdido do John Milton (se bem que ele ? de 100 anos antes, n??) e Shakepeare que adoro, mas isso me lembra que o mundo sempre foi “v?rios mundos” e as col?nias viviam em um mundo muito diferente daquele dos Europeus? Ainda havia torturas crueis no s?culo XVI se n?o me falha a mem?ria? Coisas que fazem o terrorismo fan?tico moderno parecer brincadeira de crian?as.

J? sei? Pode ser um suspense de terror realista no presente que tem suas origens no s?culo XVI? E ? adulto.

O que pode ser realista no s?culo XVI e deixar um rastro de terror? N?o, um rastro de suspense que se desdobra em terror no presente. A hist?ria de uma fam?lia talvez? Um ?dio ancestral que se converte em um ato de terror? ? uma trama que sugere terror trash. N?o curto escrever terror trash? Ainda que goste de assistir algumas vezes.

Ok, ent?o algo acontece no s?culo XVI que deixa uma marca, um mist?rio. Em 2015 esse mist?rio levar? o terror aos protagonistas da nossa hist?ria? Ou ser? que os protagonistas ser?o os agentes do terror? Isso come?a a ficar mais interessante assim? N?o ? t?o comum o monstro ser o protagonista? Melhor ainda seria se o leitor n?o soubesse quem ? o monstro (se bem que isso eu j? vi um bocado? Tem at? um filme assim com o David Boreanaz).

Quando estou procurando a hist?ria frequentemente penso “N?o vai dar tempo de achar uma hist?ria legal e escrever em 4h”. #Tenso [8:42]

Um tesouro escondido ? muito lugar comum? Um segredo que tem import?ncia depois de 500 anos? Dif?cil pensar em um que seja veross?mil. Ser? que d?? Pera a? Estamos em tempos de questionamento de vis?es fan?ticas que distorcem religi?es e posi??es morais e pol?ticas? Talvez seja interessante um personagem que, de forma irracional, considere que o descendente de algu?m do s?culo XVI ? um tipo de monstruosidade? Mas n?o como no segundo conto que escrevi onde existe um car?ter sobrenatural. N?o quero nada sobrenatural nesse (afinal ? realista, ? vou deixar o scifi de lado).

J? come?a a se delinear uma hist?ria na minha imagina??o? Terror realista me puxa para psicopatas, mas acho mais assustador, e temos visto com mais frequ?ncia, pessoas que n?o s?o psicopatas tendo comportamentos psicopatas em decorr?ncia de uma vis?o distorcida do mundo, mas tamb?m n?o farei essa distor??o ter um car?ter religioso por dois motivos: 1) ? muito lugar comum; 2) Essa ? uma boa oportunidade de colocar a quest?o de que, muito embora a religiosidade nos torne vulner?veis a pensamentos distorcidos, ela n?o ? a causa deles.

Vejamos? Temos a Condessa Elizabeth B?thory que se banhava em sangue no s?culo XVI? Mas estou procurando algo mais? Comum. Um tipo de comportamento que seria comum para a ?poca, ou melhor, que era aceito normalmente. Como as feiras em que jogavam gatos no fogo para a multid?o se divertir vendo-os queimar ou as execu??es de bruxas em pra?as p?blicas que acho que ainda aconteciam no s?culo XVI. Porque assim posso falar em como nossa civiliza??o melhorou. Vejo muita gente falando que n?s fracassamos como seres humanos e isso ? simplesmente errado? N?s temos um passado terr?vel do qual nos afastamos paulatinamente ainda que persistam? terrores? dessas? ?pocas?

Aha! Um criminoso que parece agir por inspira??o religiosa, mas que pretende extirpar da nossa esp?cie os gens que nos tornam capazes de atrocidades como as que v?amos no s?culo XVI.

Ser? que dessa vez consigo fazer uma mulher vil?? N?o gosto muito de fazer isso, mas acho que temos que experimentar todo tipo de personagem em todo tipo de papel.

J? tenho quase tudo na cabe?a! Uns 15 minutos atrasado, mas acho que d? para recuperar o tempo perdido?

O conto come?a no s?culo XVI em um banho de sangue p?blico, passa para os tempos modernos, uma universidade talvez, uma professora falando brilhantemente sobre a semente do mal na humanidade, um invetigador vindo pedir a ajuda dela para um caso de assassino em s?rie que vem fazendo cada vez mais v?timas: matou apenas uma pessoa, depois 3, depois 2, depois 5?

Hummm? Ela ser a criminosa ? muito ?bvio, talvez uma aluna dela, o pr?prio policial, ou a aluna ? quem descobrir? que ela ? a criminosa? Um confronto entre duas mulheres inteligentes. Uma representando a raz?o e a outra a perda dela? N?o pode ser a professora pq sempre acho que isso ? um tipo de cr?tica ? busca do conhecimento “Viu? Quem busca ir al?m do saber comum fica maluco, vira um cientista maluco”.

Pausa para as ideias fermentarem? [9:04]

[9:22] Meu conserto de tomada funcionou. A roupa ficou pronta e aproveitei para pensar enquanto pendurava. Como sempre tenho uma boa ideia do car?ter dos personagens, do come?o e de alguns pontos chave, o resto vamos ver se desenvolver enquanto escrevo.

Opa!? Que tal votar agora no que devo escrever no pr?ximo conto?

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A Morte de Jean Calas (1792) – Wikipedia