Imagem: Abhay Vyas

Sempre que se fala em estupro surge essa afirmação e alguém acha que é um exagero. Geralmente, claro, um homem já que é difícil entender o que é um estupro para uma mulher quando não somos mulheres.

Mas antes de falar nisso temos que observar um padrão de reação de negação.

Quando vemos um semelhante a nós fazer algo monstruoso, ou até mesmo sentimos uma pequena semente da monstruosidade em nós mesmos, nossa mente corre para nos afastar daquilo.

E se você já riu de piada sexista, se publicou na sua TL uma mulher vestida provocantemente e disse algo como “Depois reclama do assédio” então você tem, lamento, mas tem, essa semente da monstruosidade em você.

E assim nos agarramos a um detalhe como “todo homem é um estuprador em potencial” que é totalmente irrelevante no texto (em quase todo texto que fala nisso).

“Não! Eu não! EU NÃO!” Nossa mente grita em desespero.

Ironicamente, as pessoas acostumadas a dialogar sobre isso logo desconfiam que a nossa rejeição denuncia que, por um instante, sim, nós achamos que poderíamos ser estupradores em algum nível.

Mas não importa o que os outros pensam, importa olhamos para nós mesmos diante de um espelho de cristal e nos perguntarmos até que ponto estamos contaminados com a cultura que gera o estupro e outras violências.

Quanto a sermos todos estupradores em potencial, isso se refere a essa cultura misógina colar em nós todos esse estereótipos. Grande parte das mulheres olhará para nós calculando, ainda que inconscientemente, se somos estupradores… e somos toda vez que não rejeitamos veementemente o machismo, a misoginia. Quando aceitamos a piada sexista, quando estereotipamos as mulheres…

Esse post começou em um comentário no Facebook e se desdobrou quando alguém me perguntou se, então, toda mulher é uma assassina em potencial já que algumas matam seus filhos.

A pessoa não entendeu o meu comentário e nem observou atentamente o mundo: matar os filhos não é o padrão, estuprar as mulheres é o padrão.

Deveria ser desnecessário eu acrescentar isso aqui, mas é aquela voz desesperada da racionalização “NÃO! EU NÃO! EU NÃO! NÃO! NÃO! NÃO” que devemos encarar corajosamente sempre que entramos nesses turbilhões de negação pois, se não formos corajosos, seremos parte do problema e… bem… nós somos TODO o problema já que a culpa do estupro é do estuprador. Outra coisa que deveria ser óbvia.

Também vemos comentários como “a moça tinha histórico de doença mental” ou “foi uma mensagem de traficantes para a comunidade”.

Mais uma vez, se olharmos sinceramente para nós mesmos… Melhor, se nos filmarmos dizendo isso e assistirmos ficará claro (espero) que estamos entrando em negação! Estamos sendo parte da cultura do estupro, estamos confirmando que todo homem é um estuprador em potencial.

Vi ainda a falácia “então temos que fugir de ter família, amigos e até ir à igreja” depois que eu apresentei o fato de que a maioria dos estupros são praticados por esses grupos. Repliquei dizendo que não havia a menor lógica na afirmação, mas a verdade é que tinha perdido a fé no diálogo, já estava considerando que lidava com pessoas em negação e forçar a a entrada não cabe a mim e sim a eles mesmos.

A resposta seria que… Precisa mesmo? Tudo parece tão óbvio!

Diante do fato de que são justamente os homens mais próximos que estupram a nossa resposta é aceitar que os homens são incapazes de não estuprar e sugerir fugir deles?

E ainda me perguntaram depois disso o que era ódio a homens (misandria). Mas os próprios interlocutores deixaram claro que não viam a possibilidade de romper a cultura de estupro.

Assustador…

É obrigação de todo homem identificar e reagir à cultura do estupro nele mesmo e em seus conhecidos.

O resto da luta pertence às mulheres. Não se meta no caminho delas.

Dicas para homens

Lá no FB o Caio Fernandes fez uma coletânea de sugestões para nós homens:

  • Atravessar a rua pra evitar cruzar com uma mulher à noite, ficando num campo de visão que ela possa te ver e saber que você está longe
  • Andar mais devagar e dar tempo para que ela possa se afastar de você na rua
  • Não ficar olhando fixamente para uma mulher em qualquer lugar, em qualquer horário
  • Numa abordagem, caso necessário, seja calmo e fique distante, para que ela veja todo seu corpo, se está armado ou não
  • Intervir caso veja qualquer tipo de assédio vindo de outro homem, seja na rua, no transporte ou no trabalho – a não ser que ela claramente não precise de ajuda.
  • Não compartilhar, em grupos de wpp ou facebook, vídeos e fotos íntimas de mulheres. E recriminar os amigos pelo mesmo motivo, explicando que estão contribuindo com a exposição daquela pessoa.
  • Recriminar os amigos em relação a qualquer atitude abusiva na balada, faculdade etc
  • Não se omitir caso seja necessário testemunhar a favor de alguma mulher ou até mesmo brigar por ela
  • Não silenciar ou interromper mulheres. Nem falar mais alto, gritar ou insinuar que ela está louca.
  • Se o ônibus/trem/metrô estiver vazio, não se sente ao lado de uma mulher. Não se sente nem próximo a ela.
  • Se você presenciar um assédio no transporte público, não se omita. Intervenha e ajude a mulher.
  • Não deixar de separar uma briga só por ser briga de casal.

Você pode ser o cara mais pacífico e cordial do mundo, mas, na rua, na balada, no dia a dia, nenhuma mulher sabe disso. Praticar tudo isso no cotidiano já ajuda muito.

Obs: Algumas meninas mulheres me deram alguns toques e eu editei, acrescentando ou corrigindo alguns itens.

Simplificando

Ainda há pouco um amigo negro me lembrou como negros aprendem a tomar esses cuidados por serem bandidos em potencial…

A diferença é que, vítimas do preconceito, as minorias aprendem a se esconder enquanto na cultura do estupro nos achamos no direito de desprezar a ameaça que representamos para as mulheres.

Negar que somos estupradores em potencial é uma agressão às mulheres e, lamento muito, uma quantidade esmagadora de homens se comporta como estupradores em potencial e isso nos obriga a aceitar esse rótulo e medir nossas interações para deixar bem claro que somos diferentes.

Em vídeo…

Na verdade o vídeo complementa esse post pois foi feito poucos dias depois.