A imagem acima veio desse belo relato de um trabalho de parto natural.

Mas foi a história de Adelir, Emerson e a doula Stephany que me levou a escrever esse post. Os pais insistiam no parto natural e acabaram sendo procurados pela polícia e obrigados a fazer o parto cirúrgico.

Para ser mais exato o que me levou a escrever foi a reação de vários amigos meus à notícia.

Várias pessoas aceitaram imediatamente que, se a médica afirmou que a cesariana era imprescindível então não havia o que discutir e acionar a polícia para capturar a família em sua casa e obrigá-la ao parto cirúrgico era aceitável.

Estou ciente do quadro absurdo de cesáreas no Brasil e vou falar disso mais abaixo. Sei que há um senso comum (errado) de que o parto cirúrgico é mais seguro ou apenas uma questão de preferência. No entanto me preocupei que tantas pessoas próximas de mim estejam tão mal informadas.

Para falar nisso temos que pensar na ética e moral humana que é extremamente maleável apesar de não gostarmos de admitir isso. Sobre esse assunto recomendo o vídeo Ética 1 – Dilemas éticos.

Pense no seguinte:

  • Uma pessoa se recusa a receber uma transfusão de sangue e morrerá por isso
  • Um casal se recusa a permitir que seja feita uma transfusão de sangue para seu filho de cinco anos que morrerá sem a transfusão
  • Uma pessoa se recusa a ser vacinada contra uma doença que mata milhares de pessoas a cada surto.

Você acha que, em algum desses casos, a família deve ser abordada pela polícia e ser obrigada a receber o tratamento?

Você já ouviu falar disso ter acontecido, ou seja, a polícia ter sido acionada pelo sistema de saúde para obrigar alguém a se vacinar, permitir que seu filho receba uma transfusão ou receber ela mesma uma transfusão? Nenhum desses casos pode ou deve ser equiparado ao direito da mulher ao domínio do próprio corpo. A questão é a disparidade ética, certo?

Eu não.

Me parece que poucos de nós receberíamos essa notícia sem indignação ou pelo menos surpresa. Provavelmente não deixaríamos passar sem exigir algum tipo de investigação.

No caso de Adelir e Emerson nossa ética é outra. A do Estado também parece ser outra já que a polícia não é acionada para salvar a vida de uma menina de cinco anos, mas é acionada para (supostamente) salvar um nascituro.

Temos que resistir aqui ao que chamo de impulso BBB que nos leva a assistir a vida real como se fosse uma novela.

Esse efeito nos faz torcer e assumir desfechos para a trama quando, na vida real, queremos que haja investigações e os fatos sejam levantados para que seja feita justiça.

No entanto não é essa a questão. Para isso existe um sistema jurídico que, ao que tudo indica, os pais acionarão.

A questão é por que a polícia não é acionada para impor a vacinação que pode evitar a morte de centenas de pessoas ou a transfusão de sangue que pode salvar a vida de uma menina de cinco anos.

É por isso que as pessoas feministas (vamos parar com essa mania de que feminista é mulher, ok? Toda pessoa com o mínimo de princípios é feminista. Eu sou feminista) estão revoltadas. Com razão.

O Brasil é o primeiro lugar no mundo em cesarianas. Mais de 50% no geral. Mais de 25% no SUS e chega a 90% no sistema privado (e ainda acham que o terror é o SUS… Pode ser hora de repensar isso).

Deveria ser óbvio que o parto natural, praticado por nós e todos os outros animais há milhões de anos, teria que ser o padrão.

Deveria ser óbvio que uma cirurgia é sempre mais perigosa do que um evento físico que remonta centenas de milhões de anos.

Será que nos perdemos tanto assim da realidade? Vejo muita gente abismada com os jovens se comunicando por seus celulares e dizendo que eles perderam contato com a realidade, sério? O que dizer então de achar que somos tão sintéticos que não somos capazes do ato mais básico da vida? Que ocorre de uma forma ou de outra há 3,8 bilhões de anos?

Nos links mais abaixo você achará artigos mostrando que raramente a cesariana é necessária, que representa 3x maior risco de vida e que mais de 90% no Brasil foram realizadas sem necessidade. Esses são conhecimentos que podemos obter facilmente e estão vastamente disponíveis.

O que eu quero abordar aqui é: por que nós não estamos pesquisando essas coisas? Nossos bebês, nós mesmos e nossas pessoas mais amadas estão passando por maiores riscos tanto no ato do nascimento (um dos mais lindos em toda natureza) quanto no comprometimento do seu desenvolvimento!

Por quê??

Em uma sociedade onde são feitos 7x mais partos perigosos do que o recomendado mundialmente? devíamos nos colocar imediatamente ao lado dos pais que querem o parto natural pois assim estaremos defendendo também nosso direito de ter mais saúde e segurança em um dos nossos momentos mais frágeis.

Existe uma séria falta de conhecimento sobre o parto, fruto de décadas de uma cruel campanha de desinformação, que leva muitas famílias a pensarem que não há grande diferença entre o parto natural e o artificial ou até que o segundo é mais seguro quando é o contrário.

Mas receio que esse não seja nem o maior problema e nem a raiz dele.

Temo que a origem desse terror que vemos no Brasil esteja na violência contra a mulher que ainda é vista como um ser sem direitos. Ela é tratada como o meio, o objeto que produz novas crianças.

Não podemos permitir que isso aconteça e esse caso é uma séria e preocupante demonstração que alguns setores da nossa sociedade estão no caminho que “objetifica” a mulher.

Não é possível respeitar a vida se não respeitamos e vemos as mulheres como seres humanos com direitos invioláveis sobre o próprio corpo.

É paranoia temer que milhares de mães se recusarão à cesariana quando ela for necessária. Em primeiro lugar o nosso problema é exatamente o oposto! Em segundo lugar…

Bem, em segundo lugar as mulheres só não aceitarão as recomendações dos médicos se não confiarem nelas e, no quadro atual (mais de 90% de cesarianas indicadas erradamente – veja nos links no final), fica difícil confiar neles.

Esse caso nos coloca diante de questionamentos sobre a ética e qualificação médica, do sexismo da sociedade e não de uma família insana que se negou a ouvir os médicos.

Mesmo que fosse esse o caso (e já há bons indícios de que não é) deveríamos estar indignados com o tratamento diferenciado contra uma mãe que quer ter seu filho como Deus ou nossa evolução determinaram.

Argumentos que ouvi

  • Quem é você (o você genérico) para dizer o que é melhor para a mulher?
    Exatamente. A mulher deve ter o direito de decidir sabendo que, quase sempre, o parto natural é melhor, não porque um você genérico determinou, mas porque nosso corpo determina. Não é o que está acontecendo e não será melhor a sociedade que obrigar a mulher ao parto natural. Por enquanto estamos no espectro oposto disso.
  • Os dois tem seus riscos, então não defendo nenhum nem outro.
    Na verdade não. É fato observável que morre-se muito mais em cirurgias, que a recuperação é muito mais difícil, os riscos pós operatórios são muito piores e o bebê pode ter seu desenvolvimento prejudicado pela falta do parto natural.
  • Minha família toda nasceu de cesariana e estão todos vivos.
    Tem gente que bebe arsênico e não morre. Tem gente que se entope de sal e não tem hipertensão. Sua família não é o padrão (ainda bem!).
  • Eu tenho pavor da dor do parto natural!
    Faça cesariana sabendo dos riscos para você e seu bebê, ué! Trata-se de uma decisão sua. Talvez seu instinto esteja correto e, a despeito de parecer clinicamente capaz você não seja mesmo capaz de ter um parto natural.
    No entanto esse é um erro muito comum que talvez venha da nossa dificuldade em analisar o mundo fora do nosso próprio umbigo: os outros não somos nós. As mulheres precisam saber o que é melhor para elas e essa informação tem sido subtraída.

Vamos resumir?

“As malucas do parto natural querem que todo mundo tenha informação para poder decidir como viver sua gravidez e a nossa cultura quer transformar o nascimento em uma produção industrial onde as mulheres são ânforas portadoras de bebês sem direito de escolha”.

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Livros

Capa do livro Philomena
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Uma mãe, um filho, uma busca que durou 50 anos

Quero tentar indicar sempre um livro nos posts que eu escrevo pois a leitura abre nossos olhos para outros horizontes, nos ensina como poucas coisas a desenvolver nossa empatia.

Decidi colocar um que é a história real de uma outra violência contra uma mãe já que, como disse, vejo o caso comentado nesse post como mais um fruto do sexismo.