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Imagem ilustrativa: Tirinhas da turma da P?gina Pirata

O Conto

Toca o sinal! Acabou a aula! Marcos mora a somente 10 quarteir?es do col?gio particular de classe m?dia administrado por freiras e vai para casa ? p? pensando na vida, no seriado que ver? quando chegar em casa… bem, depois de fazer os deveres, n??

Ele mora sozinho? Na verdade mora com os pais, s? que os dois trabalham muito. O pai sai cedo e chega tarde, a m?e ? professora e n?o trabalha todo dia, mas nos dias que trabalha tamb?m mal aparece.

H? um ano teve uma reuni?o de fam?lia s? deles tr?s, Marcos, Teresa e Luciano em que seu pais disseram?

“Filho, percebemos que, com oito anos, voc? j? sabe se cuidar muito bem, decidimos lhe dar essa chave, esse celular e voc? poder? voltar do col?gio sozinho e cuidar do seu almo?o quando sua m?e n?o estiver em casa”.

Com isso eles puderam poupar nos gastos com a empregada e juntar dinheiro para a fam?lia viajar mais. Uma vez por semana ainda vem uma diarista dar uma geral no apartamento.

Marcos at? hoje n?o decidiu se isso foi bom ou ruim. Por um lado o reconheceram como adulto e isso era legal, por outro ele passou a ter novas tarefas como arrumar sua cama e esquentar a pr?pria comida (algumas vezes tinha que fazer a comida toda porque os pais n?o deixaram nada pronto). Ele tem certeza que adultos n?o precisam arrumar a pr?pria cama e, quando est?o com pregui?a, podem ir ao barzinho na esquina comprar seu almo?o e nem os pratos precisam lavar.

S?o tempos perigosos, todo mundo no col?gio j? foi assaltado alguma vez, pelo menos os que andam sozinhos pela rua, s? o Julian nunca deve ter sido assaltado j? que sai direto para o carro com motorista e dois seguran?as que esperam por ele na porta da escola todo dia. Julian ? o t?pico babaca. N?o ? por ser riquinho, ? por se achar melhor que todo mundo. Ele tem as melhores notas, ? campe?o de Dota e resolve os games de mist?rio mais dif?ceis al?m de estar sempre lendo algum livro grosso. Ningu?m gosta do Julian apesar dele ter uns f?s que ficam como cachorrinhos ao redor dele. Fangirls e fanboys que s? est?o perto dele porque s?o idiotas ou querem ganhar alguma vantagem.

Pois ent?o, Marcos sempre volta caminhando com a Gisele, o Julio e a Viviane que ? a que mora mais longe, uns dois quarteir?es depois de onde o Marcos mora.

De vez em quando ele vai com a Viviane at? a porta dela, nos dias que a rua parece mais perigosa, com mais multid?es de jovens que parecem assaltantes. Felizmente o pior per?odo ? nas f?rias, no final do ano e meio do ver?o, mas hoje ainda ? ver?o e j? tem aulas e os tr?s est?o no caminho de suas casas.

? Gente? Tem uma coisa que eu tenho que contar para voc?s? Jurem que n?o v?o rir de mim, me achar crian?a, t??

Marcos olha para os tr?s amigos esperando resposta? Eles est?o rindo

? Claro que n?o prometo!! Hahahaha! ? Viviane ? t?o queimada de sol que ? chamada de chocolate, resultado do surfe que ela pratica quase todo dia.

Gisele salta do skate, pisa na parte traseira dele e segura pela ponta antes de colocar nas costas preso atr?s da mochila.

? Marcos, voc? acha que a gente vai perder a chance de te zoar?

E cutuca o J?lio “N? J?lio?”

? Cara, pior que ?! Conta a?, voc? fez xixi na cama? Porque eu? Quer dizer, ? perfeitamente natural fazer isso quando se est? muito cansado!

J?lio balan?a as m?os, as bochechas v?o ficando vermelhas e os olhos giram como os de personagens de anime. Parece que ele vai implodir de timidez e os tr?s colegas riem de se dobrar, mas trocam uns olhares de confiss?o de que cada um deles passou por alguma situa??o parecida h? n?o muito tempo.

Quem passa v? aquelas crian?as bobas rindo paradas numa esquina de Copacabana e pensa como a inf?ncia ? f?cil?

Quando eles conseguem parar de rir o Marcos retoma sua revela??o.

? ? s?rio, gente! Tem uma coisa muito estranha acontecendo na minha rua? Olha s?, da minha janela d? para ver bem um apartamento t?rreo dois pr?dios ? esquerda do meu, do outro lado da rua, entenderam? Bem, eu fico na janela espiando a rua de vez em quando e?

J?lio explode em risadas de novo e tem que falar tr?s vezes para os outros entenderam porque ri a cada meia palavra.

? Sei sei? Olhando nada na rua, n?? N?o ? porque nesse pr?dio tem uma menina de uns 16 anos que d? para ver trocando de roupa?

? a vez de Marcos implodir de vergonha com medo de olhar para as amigas e ver olhares de reprova??o, principalmente porque ele meio que gosta da Gisele. Ele d? um soco no bra?o do J?lio que diz “Ai” mesmo n?o tendo do?do.

As meninas realmente est?o olhando para ele com os olhos apertados e m?os nas cinturas, entretanto um observador atento ver? em seus olhos o breve reflexo das mem?rias de terem feito parecido e de pensamentos sobre o ator gato do seriado que elas curtem.

? O lance ? Marcos continua tentando fazer de conta que n?o est? nem a? ? ? que tem esse apartamento com uma varandinha pequena. A porta de madeira da varanda nunca est? aberta, nunca sai luz por ela, tem folhas e poeira no ch?o, uma planta seca, seca, seca, tadinha! Todo mundo acha que ? um apartamento abandonado, eu perguntei aos meus pais e porteiros e todo mundo confirmou, mas o porteiro do pr?prio pr?dio foi estranh?o! Ele disse “n?o ? da sua conta moleque”.

? T?, Marcos, tem um apartamento vazio na sua rua, isso n?o ? estranho! Pode estar? Em disputa na partilha de bens? Ouvi minha m?e falando nisso outro dia sobre a fazenda de um tio distante que morreu.

? N?o ? isso Viviane, quer dizer, podia ser, s? que ontem eu vi a porta se mexer de noite? Ela nem chegou a abrir, foi como se alguma coisa a empurrasse e puxasse por dentro. Apertei meus olhos para ver melhor e tenho certeza que vi uma luz fraquinha l?, como uma vela, talvez uma luz de outro c?modo que se acendeu e apagou rapidamente, ou ainda que tem uma porta que algu?m abriu e fechou indo da sala para o c?modo. Ser? que algu?m est? escondido l?? Que invadiram o apartamento? Que sequestraram algu?m e est?o escondendo l?? Ser? que o porteiro sabe?

? Ser? que ? um monstro de outra dimens?o?

Todos olham para o J?lio com cara de “what the fuck?”, mas a verdade ? que, boa parte da imagina??o de cada um deles, acha a ideia perfeitamente plaus?vel.

? Se fosse um monstro n?o teria que ter algum sinal? Tipo aves estranhas pousando na varanda, ?rvores em frente ao apartamento morrendo do nada? ? Viviane adora filmes de terror.

? E se for um monstro a gente precisa investigar porque monstros nunca ficam quietos no canto deles, n?? ? J?lio fica animado vendo que os amigos compraram a fantasia dele.

? claro que todos eles sabem que monstros n?o existem, ou dizem que sabem para n?o os acharem muito crian?as, mas em primeiro lugar eles n?o tem certeza disso e depois que ? muito mais divertido acreditar em monstros.

Gisele toma a iniciativa, ela ? a com mais tend?ncia a l?der.

? Beleza! Essa semana todos n?s estudamos na casa do Marcos, ent?o! E assim podemos nos revezar vigiando o apartamento do monstro! E tenho uma ideia! Podemos ligar para algum lugar e mandar entregar alguma coisa no apartamento e ver o que acontece! Marcos, voc? tem que fazer uma lista de entregadores que v?o nesse pr?dio, assim o porteiro n?o vai achar estranho! Eu n?o sou um g?nio?

? Pior que ? Carneirinho! ? Os cabelos encaracolados que parecem uma juba ao redor do rosto da Gisele lhe renderam o apelido ? Vou falar com meus pais que a gente resolveu estudar em grupo essa semana, vou dizer que quatro pessoas aprendem juntas mais do que uma sozinha. Se bem que minha m?e s? fica em casa atualmente ter?as e quintas de manh? ent?o nem precisaria avisar, mas sei l?, n?? Vamos come?ar amanh?? Ser? que d??

? D?!

? T? dentro!

? Form?!!

Ao chegar em casa Marcos arrasta a mesa para uma posi??o mais estrat?gica sob a janela e fica estudando com um olho nos cadernos e outro no pr?dio. A cada entregador que aparece ele anota a loja e, quando d?, o telefone. Tem pizzaria, restaurante, mercado, o mercadinho pr?ximo e uma mulher jovem que chama a aten??o dele. Ela chega falando no celular, toca o interfone para chamar o porteiro e, pelos movimentos, parece que ela esqueceu a chave, mas Marcos tem certeza que ela olhou v?rias vezes para o apartamento enquanto falava com o porteiro, como quem fala sobre uma coisa e olha para ela inconscientemente.

Depois que a mo?a entra Marcos n?o consegue se concentrar em mais nada! Amanh? o J?lio vai levar um bin?culo que a m?e dele tem para observar aves, mas hoje ele s? tem os pr?prios olhos que ele fixa tanto no apartamento que chegam a lacrimejar! Ainda ? dia ent?o n?o daria para ver nenhuma luz no apartamento, mas ele tem a esperan?a de ver algum breve movimento na porta da varanda.

Se a mulher for moradora Marcos vai criar teias ali na janela, mas ele persiste por duas horas at? que ela sai novamente com uma express?o um pouco preocupada, mas ele nota que a bolsa dela parece mais vazia, e ela n?o levava duas bolsas quando entrou, quer dizer, uma bolsa e uma sacola? Ser? que ela leva crian?as em peda?os para o monstro comer? E ele ri decidindo n?o compartilhar essa teoria com os amigos, principalmente as meninas, para n?o assust?-los.

No dia seguinte seguem todos da escola para a casa do Marcos. Ao chegar todos jogam as mochilas no sof?, Gisele pega o tablet e pergunta se tem wifi “a gente pode ter que pesquisar por tipos de monstros, n??”

? Tem sim, Carneirinho, anota a? a rede ? Shatrat e a senha ? persefone. ? que meus pais jogam WoW e meu pai adora mitologia grega? Quer dizer, eles jogavam muito? Agora quase n?o tem tempo.

? Seus pais s?o maneiros…

Os tr?s amigos olham para os quadros nerds na parede demonstrando aprova??o.

? Bem, aqui est? o bin?culo, eu disse que era para observar estrelas e minha m?e ficou toda animada, mas falou para tomar muito cuidado com ele que ? caro. Voc? j? tem uma coisa para pesquisar a?, Gi, que estrelas a gente pode observar hoje para eu ter uma hist?ria para contar para a minha m?e, n??

? Vou ver se a Esta??o Espacial Internacional vai passar hoje, aquela que tem o astronauta cantando e a cientista com os cabelos todos para cima, que horror, n?? E eu desesperada com meus dias de cabelo sentimental.

Marcos conta a hist?ria da mulher para os amigos e decidem que n?o v?o agir imediatamente, que v?o pensar no melhor plano e observar o apartamento por pelo menos uns tr?s dias. Todos ficam satisfeitos com sua enorme paci?ncia e disposi??o de passar tanto tempo espionando o lugar.

Enquanto um observa os outros se revezam entre estudar, jogar, fazer lanche, ver TV e conversar. O papo n?o gira sempre em torno do monstro, mas volta a ele de tempos em tempos. Ser? a mulher uma bruxa? De acordo com o Marcos ela ? adulta, mas jovem. Na verdade ela tem apenas 24 anos, mas a diferen?a entre 24, 34 e 44 para quem tem 9 ? muito sutil.

Eles observam cada entrega que acontece no pr?dio e come?am melhorar o plano. Um deles ir? para a rua quando o entregador chegar, esperar? at? ele sair? Se sair, afinal o monstro pode devor?-lo! E depois vai abord?-lo perguntando “Voc? entregou na casa do meu tio?” para ver o que eles podem descobrir.

Quando o J?lio falou que o entregador poderia ser devorado o Marcos, sem querer, come?ou a contar sua teoria dos beb?s em peda?os na sacola que entrou e n?o saiu com a mulher misteriosa.

Para sua surpresa as meninas acharam um barato, mais o J?lio arregalou os olhos, mordeu os l?bios e ficou t?o gago que desistiu de falar. T? a Viviane, que gosta de terror, surfa e vai para praias misteriosas com os pais at? que faz sentido ser corajosa, mas ele se surpreendeu com a coragem da Gi e com o medo do J?lio.

? J?lio, seu cag?o!! N?o envergonha a gente na frente das meninas! Quer que eu pe?a umas fraldas na farm?cia?

? Eu sou cag?o ?? Quero ver se algum de voc?s teria coragem de ir l? bater na porta do monstro!!

Todos estavam rindo e J?lio realmente estava magoado, mas a proposta fez todos se calarem e, triunfante, J?lio se sentiu um pouco melhor.

Os quatro se entreolharam s?rios, os olhos magoados do J?lio podem ter colaborado bastante, afinal os amigos n?o queriam machuc?-lo de verdade. Marcos se levanta e estica o bra?o.

? Vamos fazer um pacto! Ningu?m vai sozinho no esconderijo do monstro, ningu?m deixa os outros para tr?s se o monstro vier nos perseguir! Coloquem a m?o em cima da minha!

Os tr?s amigos se juntam a ele determinados e com sorrisos animados de quem mergulha na aventura at? que Viviane, a Chocolate, se toca?

? Se o monstro vier nos perseguir?? Ser? que ele est? olhando de l? para n?s?

? Que nada! ? Gisele, a planejadora ? quem mais est? consciente dos limites da fantasia e da realidade na brincadeira ? A gente sabe que provavelmente o monstro ? s? um velho decr?pito que n?o se mexe mais e fica numa cama o dia todo esperando a mulher vir cuidar dele ou tem alguma enfermeira l? com ele.

Todos aproveitam a nova onda de hip?teses para espantar o medo do monstro.

? Pode ser que a mulher seja uma louca por gatos que tem 70 bichos mudos l? dentro e, de tempos em tempos, ela vem deixar ra??o para eles! ? A hip?tese do Marcos causa risadas: gatos mudos!

? N?o! N?o! ? o filho deformado da mulher que ela esconde ali porque o pai, os av?s e todos que o veem morrem na hora de susto e s? ela consegue olhar para o filho e n?o morrer! ? Quem diria que J?lio seria criativo assim?

? A mulher ? uma escultora famosa que est? fazendo a maior obra de arte de todos os tempos escondida ali naquele apartamento que ela comprou pouco antes de eu ver a movimenta??o dela arrumando as coisas. ? Marcos acha sua teoria perfeita!

? Famosa que ningu?m nunca viu? S? se ela for o Banksy! ? S? a Gisele para conhecer esses artistas esquisitos

? Banksy? ? perguntam todos

? Nossa, como voc?s s?o ignorantes! ? um artista ingl?s que pixa muros e ningu?m sabe quem ?!

? De onde voc? tirou isso, Carneirinho? ? A Viviane olha para ela desconfiada, as duas andam sempre juntas e ela nunca soube da amiga ser especialista em arte.

? Errr? Bem? Eu aprendi esses dias? Apareceu esse desenho lindo de uma menina soltando um bal?o e perguntei ao meu pai o que era e ele me contou.

? Eu gosto mais da teoria do monstro?

J?lio diz isso com a voz falhando de medo ao dizer “mons” e todos caem juntos na gargalhada at? ficarem sem ar.

Eles decidem que tr?s dias ? muito tempo, que n?o v?o aguentar a expectativa e resolvem agir na tarde seguinte com o plano da Gisele de mandar um entregador l?, mas antes eles precisam descobrir o n?mero do apartamento. Ser? cento e alguma coisa, com certeza. Um, dois, tr?s ou quatro j? que o pr?dio parece ter quatro apartamentos por andar, se bem que ? antigo ?s vezes eles tem apenas dois apartamentos no primeiro andar.

Algum deles ter? que ir l? com alguma hist?ria para tentar descobrir a numera??o.

Obedecendo o pacto eles decidem que tem que ser dois deles, um menino e uma menina. N?o pode ser o Marcos porque o porteiro j? o conhece, ent?o restam o J?lio, a Gisele e a Viviane. O J?lio fica cada vez mais branco conforme eles planejam quem vai. ? a Gisele que se toca.

? Eu acho que tem que ser eu e a Chocolate. O J?lio ? o que corre mais r?pido de todos n?s e, se tivermos que fugir e pedir ajuda, ? melhor ele sair correndo daqui do que de l?, do lado do monstro, tendo que passar pelo porteiro? A gente pode levar o seu celular, Marcos, e avisar por mensagem passo a passo o que t? rolando. Se a gente parar de dar not?cias a? o J?lio vai atr?s de ajuda e voc? vai nos salvar, t??

? Levar meu celular! Voc?s v?o ver minhas mensagens privadas!!!!

? De ter que salvar a gente do monstro voc? n?o tem medo, n? Marcos? Me d? esse celular aqui, deixa eu ver o que voc? anda falando!

Eles come?am a rir de novo enquanto o Marcos corre pelo apartamento gritando n?oooooooo com a Chocolate atr?s dele com os bra?os esticados para peg?-lo at? que ela o derruba e senta sobre ele, os dois rindo junto com os amigos.

? T? bom, t? bom, por sorte eu sou um g?nio em celular e vou sair da minha conta no Facebook e te dar para entrar na sua, voc? sabe sua senha, Chocolate?

? N?o? S? minha m?e tem a minha senha? Tenho do email! Voc? sabe colocar o Gmail a?? Ele tem chat, n??

? Tem! Pera a? Sair do FB para voc?s n?o fuxicarem minhas mensagens ? e lan?a um olhar desconfiado e sorridente para as duas ? No Whatsapp s? tem mensagem dos meus pais? Esse n?o tem problema? Sair do meu email e entrar no seu? T? aqui, ? s? digitar sua senha. A gente acompanha o chat pelo meu computador.

As duas saem decididas em dire??o ao pr?dio, tocam o interfone para o 101 e esperam. Sem resposta? Tocam para o 102? Sem resposta tamb?m.

? Droga, o plano n?o est? funcionando Vi, nunca saberemos se ? o 102 ou o 102.

O 103 responde.

? Al?? Al??

As duas amigas se empurram em dire??o ao interfone fazendo gestos para a outra falar at? que acabam falando juntas o que as faz ter que segurar para n?o cair na gargalhada e sair correndo.

? Ol? senhora, n?s somos da associa??o mirim do bairro estamos fazendo uma pesquisa sobre coleta seletiva de lixo, a senhora separa seu lixo? Sabe se o seu pr?dio faz coleta?

? Tem uma associa??o mirim de bairro? Eu n?o sabia! Olha, sou a diarista e aqui acho que n?o separam nada n?o, viu? Pelo menos tem s? uma lixeira na cozinha.

Elas sussurram uma para a outra “droga, ela n?o vai saber dizer sobre os outros apartamentos!”

? Obrigado, senhora, a que horas a gente pode achar os moradores a?? E? A senhora sabe dos outros moradores? Se eles separam lixo?

? a Viviane que fala enquanto a Gisele mostra o ded?o para cima aprovando a abordagem.

? Eu fa?o a faxina no 102 tamb?m e eles n?o separam n?o, o pessoal do 104 separa porque eu vejo as sacolas deles no lixo, mas no 101 n?o tem ningu?m.

? Yay!!! Descobrimos!!! ??As duas gritam juntas!

? O que?

? Nada, senhora, muito obrigada senhora!

O porteiro est? vindo l? de dentro e elas saem correndo com medo dele fazer parte do mist?rio.

Elas contam para os meninos e decidem que o J?lio ? quem tem que ligar porque ele ? quem sabe fazer a voz mais grossa.

Os quatro escolhem a quitanda? Monstros n?o devem comer pizza, mas devem pedir coisas estranhas como nabos ou lixas de p? para lixar as unhas.

Quando Marcos fala em lixas de p? para lixar as unhas todos acabam rindo de novo, para eles tudo ? muito engra?ado, mesmo tendo uma ponta de medo de ser tudo verdade e perigoso.

? Quitanda Funchal, boa tarde.

? Boa tarde, eu gostaria de fazer um pedido

Na verdade a voz grossa do J?lio parece exatamente a de um garoto de nove anos fazendo voz grossa, mas os quatro acham que est? bem convincente como voz de dezesseis anos ou mais.

Quando o J?lio d? o endere?o a voz do outro lado demora um pouco a responder at? que pergunta?

? ? para o senhor Kirreng??

O J?lio afasta o telefone e sussurra para os amigos

? T?o perguntando se ? pro senhor quirrend?! O que eu digo?? O que eu digo???

Os tr?s se entreolham?

? Diz que ? ele, que sua voz n?o t? boa hoje! ? As meninas olham arregaladas para o Marcos condenando a ideia e seguram a boca do J?lio antes que ele fale. Do outro lado da linha escuta-se a voz perguntando novamente

? Diz que ? o sobrinho dele!!! Pede o de sempre!! ? A ideia ? da Viviane e todos d?o ok para ela!

J?lio conta que pediram para confirmar o pedido de funcho, nabo branco mino qualquer coisa e outros nomes esquisitos e deram um valor. Agora era esperar. N?o devia demorar mais do que uns quinze minutos.

J?lio e Gisele sa?ram logo para a rua e ficaram no meio do caminho entre a quitanda e o pr?dio. O J?lio porque corre muito e a Gisele por ter o skate para fugir, mas nenhum deles achava que o monstro sairia na rua para persegu?-los.

Quando o entregador saiu do pr?dio com a cara meio fechada, mas sem as compras, o J?lio o abordou enquanto a Gisele andava ao redor como se n?o o conhecesse.

? Oi, mo?o, voc? fez a entrega l? na casa do meu tio?

? O velho ? seu tio, ent?o? Eu achava que ele era sozinho? Tipo estranho seu tio, viu? Nunca via a cara dele, nem tinha ouvido a voz at? hoje. Sempre que chego l? tem um envelope debaixo do tapete com a grana da entrega que deixo l?. Hoje n?o tinha grana nenhuma ent?o bati na porta. Demorou um temp?o at? eu notar que algu?m estava olhando pelo olho m?gico e a? perguntei “o senhor est? a?? Sua encomenda”. E ele disse que n?o tinha pedido nada. Era uma foz rouca e baixa, deu medo do seu tio, viu? Pouco depois ele passou uma nota de cem, de cem! por baixo da porta. Eu disse que n?o tinha troco e nada? Disse de novo e entendi que era para eu ir embora.

J?lio olhava para o entregador com os olhos arregalados, a Gisele tinha parado do lado e fingia olhar as rodas do skate e, vendo o amigo congelado com cara de embasbacado para o entregador ela se levantou esbarrando nele com for?a para faz?-lo acordar.

? Ah! ?! ?! Meu tio ? meio esquisito mesmo hehehe ? O hehehe foi aquele hehehe nervoso e sem gra?a, mas deu certo pois o entregador foi embora.

Quando eles se viraram para voltar para o pr?dio esbarraram com toda a for?a numa mulher de cabelos loiros e lisos, um casaco bege claro comprido, cal?as pretas e botas da mesma cor, estranho algu?m andar assim no ver?o do Rio.

Os dois pedem desculpas para ela, perguntam se a machucaram e a mulher os olha com um olhar intrigado.

? Tudo bem, crian?as, sou mais resistente que pare?o. E voc?s est?o bem? Aquele entregador estava incomodando voc?s?

Do outro lado da rua o Marcos pulava e agitava os bra?os atr?s da janela, seus l?bios diziam “? ela! ? ela!! A mulher do monstro!!” e a Chocolate sa?a correndo da portaria em dire??o aos dois ainda sem um plano para afast?-los da mulher sem despertar suspeitas, ali?s mais suspeitas j? que a mulher estava atr?s dos dois h? tempo suficiente para ter percebido que eles espionavam o monstro dela.

Foi o J?lio que notou primeiro e chutou o p? da Carneirinho que logo viu os amigos e colocou o skate no ch?o pronta para fugir, mas n?o sem ter certeza que o J?lio escaparia tamb?m.

A mulher se abaixa e coloca a m?o sobre o ombro dele, ? tarde demais? Gisele percebe que, se fugir, o amigo ser? capturado pela mulher misteriosa. Poucos metros atr?s ela v? a Viviane fechar o rosto com determina??o e acelerar sua corrida: ela vai se atirar sobre a mulher para libertar o J?lio!

Pelo jeito a Chocolate faz muito barulho correndo pois a mulher se levanta segurando firme a blusa do J?lio e olha para tr?s incisiva.

? Ent?o s?o tr?s de voc?s? Que tal me contarem o que est? acontecendo aqui?

Viviane quase se espatifa no ch?o ao tentar parar de repente e ficam os tr?s ao redor da mulher sem saber o que dizer, mas n?o v?o deixar o J?lio sozinho com ela. Se n?o fosse por isso ele j? teria feito xixi nas cal?as e esse ? o ?nico pensamento dele enquanto v? no rosto das amigas que elas n?o o deixar?o!

Marcos n?o sabe o que fazer, vai ligar para a pol?cia? Que pol?cia? Tem pol?cia sobrenatural? Talvez uma de prote??o das crian?as atacadas por bruxas que criam monstros?

? N?o precisam ter medo, eu vi que voc?s estavam falando sobre meu av? com o entregador? Ningu?m naquele pr?dio compra coisas dessa quitanda al?m dele, sabe?

? Seu a-a-av?? ? J?lio consegue achar for?as para falar

? Mas n?o ? um monstro? ? Viviane esquece de pensar antes de dizer alguma coisa

? Voc? n?o parece ser neta de monstro? ? J? que o mal est? feito Gisele decide abrir o jogo

A mulher ri de olhar para cima como quem escutou a piada do elefante escondido na planta??o de morangos!

? Monstros? Hahahaha! N?o! tenho certeza que, pro meu av? voc?s s?o os monstrinhos da regi?o! Olha, vou soltar, n?o precisam fugir, t??

Ela solta o J?lio e senta no meio-fio. ? uma rua pequena, pouco frequentada por carros ou pedestres. Os tr?s sentam ao redor dela. Viviane olha para o celular do Marcos que ainda est? com ela e v? que est? cheio de mensagens dele do tipo “Sai da?!” e “Corre!!!”. Ela responde “bruxa neta do monstro, ela vai contar. Vem”

? Antes me digam que hist?ria ? essa de monstro?

Os tr?s se revezam contando a hist?ria, dizem que sabiam que n?o devia ser um monstro, mas que era estranho, que podia ser algo perigoso, algo muito ruim. A jovem mo?a escutou atentamente com um sorriso divertido nos olhos, mas disfar?ando no resto do rosto, afinal as crian?as estavam fazendo uma baita de uma invas?o de privacidade, se bem que certamente a privacidade do av? dela era exagerada.

Ele ? um homem muito rico que n?o confia em ningu?m, mas que cuidou da neta desde os cinco anos de idade porque os pais n?o tinham tempo para ela e agora, com ela j? aos 24 e morando sozinha desde os 20, ele s? confia nela para cuidar dele. Mas ? claro que ela n?o dir? que o av? ? muito rico para as crian?as que podem sair espalhando isso pela rua.

? Meu av? n?o confia em ningu?m, sabem? ? O Marcos chega a tempo de ouvir o come?o da explica??o ? E? Nossa, quantos voc?s s?o? ? Ela pergunta ao v?-lo.

? Estamos todos aqui? Sou o ?ltimo mo?a ? Marcos prefere ficar de p?, ainda com um certo receio dela lan?ar tent?culos sobre eles e n?o dar tempo de levantar e correr.

? Ent?o, meu av? ? um homem dif?cil, ? verdade, ele me criou, sabem? E s? confia em mim? Ele fica fechado dentro de casa escrevendo, ele ? um autor de livros de fantasia que nunca publicou? E eu cuido dele. Venho aqui a cada tr?s dias para deixar dinheiro, ver se ele tem comida, essas coisas? Infelizmente ele n?o tem amigos como voc?s tem e os que teve j? partiram faz muito tempo? Eu gostaria de apresentar voc?s a ele, uma turminha unida assim lhe faria bem, mas vou fazer uma coisa! Vou mostrar fotos minhas com ele, olha?

Ela pega o celular e mostra desde fotos dela com a idade deles at? fotos recentes com o av? que tem olhos profundos, um pouco tristes, mas com uma vitalidade que impressiona, aquele brilho de quem vive intensamente por dentro, que viaja por mundos inimagin?veis em sua mente.

? A Senhora?

? Me chama de Beatriz, t?? Senhora n?o combina comigo!

Realmente a mo?a era simp?tica demais para ser chamada de senhora, principalmente sentada ali no meio-fio com eles.

? T?, Beatriz, voc? disse que ele escreve?

? Escreve, mas n?o publica? Hummm? Estou quase convencendo ele a publicar com pseud?nimo em formato digital pois assim ele n?o precisa interagir com ningu?m. Tenho certeza que ele vai se animar se algumas crian?as gostarem das hist?rias dele! Voc?s querem ler?

Nenhum dos quatro jamais gostou de ler, mas o livro escrito por um monstro? Av? de uma bruxa boa? Sim, porque aquele papo todo n?o convenceu nenhum deles! Um homem recluso pode muito bem ser um monstro que assume a forma de um homem! E uma mulher que anda de sobretudo, cal?a comprida e bota no calor do Rio? S? pode ser uma bruxa do gelo!

? ? claro que vamos ler!! E n?o contaremos para ningu?m! Ser? nosso segredo senho? digo, Beatriz! ? J?lio parece outra pessoa!

? Olha, nunca contei para ningu?m porque tenho vergonha? Mas eu leio um livro todo m?s? ? Ningu?m sabia mesmo do segredo da Chocolate!

Marcos e Gisele olham para os amigos e se entreolham?

? Se eles v?o ler n?s tamb?m vamos ? Eles dizem juntos!

E esse ver?o foi o come?o de muitos anos de aventuras muito mais incr?veis nas p?ginas dos mundos m?gicos criados pelo velho monstro do 101! [12h45]

Observa??es

Foi um conto demorado, mas n?o foi cansativo? S? fisicamente porque mal levantei para esticar as pernas.

Tem muita coisa da minha inf?ncia nele, pelo menos em termos de cen?rio, e receio que n?o pare?a tanto ser no presente por conta disso? Posso ter adotado uma narrativa mais antiga ou express?es que n?o s?o usadas hoje.

Inseri o celular na hist?ria, mas ele ficou meio sem fun??o porque meu plano para ele n?o aconteceu.

Tamb?m preparei um personagem para entrar na trama, o Julian, que acabou n?o acontecendo tamb?m. E nem sei se ele se juntaria ? turma se eu desenvolvesse melhor o conto futuramente pois ele atrapalharia o clima de intimidade e fidelidade dos amigos.

H? tempos n?o escrevo um conto com tanta calma, estourei o tempo, mas n?o corri em nenhum momento, s? fui encurtando alguns acontecimentos, como o encontro com a neta, para poder terminar o conto sem estourar demais a meta flex?vel de terminar at? meio dia.

Fiquei muito satisfeito com esse conto, viu? Desconfio que est? entre os meus melhores. Os personagens tem profundidade, acho que parecem ter mesmo nove anos (tenho que dar para algu?m de 9 anos para ler e dar seu veredito), o suspense ? um suspense infantil mesmo e gostei muito da resolu??o do mist?rio.

Quero muito desenvolver a hist?ria da neta e do av? algum dia. Tem uma qualidade de sentimento entre eles que me toca profundamente? Um idoso cuidando de uma crian?a de 5 anos e tendo nela, j? aos sete ou oito anos, uma das poucas pessoas capazes de entender seu universo…

O Processo Criativo

[7h44]J? venho! T? tomando banho, tomando um caf? e comendo alguma coisa ;)

[8h07]Falta s? tomar o caf?, banho e comida j? foram, mas vou ver logo o que escreverei hoje!

Para a alegria de umas pessoas que gosto muito (e admiro tamb?m) Ser? Infantil, suspense, realista no presente!

Teve empate entre infantil e jovem e entre futuro e presente, mas como deu realista vou descartar o futuro e como j? foram muitos jovens e tem essas pessoas fant?sticas que votam insistentemente em suspense infantil ser? infantil :)

? engra?ado como eu penso todo dia em hist?rias, diversos tipos de hist?rias, anoto algumas, outras n?o d? porque tem lugares onde n?o podemos puxar um celular ou tablet para fazer anota??es, n?? E mesmo assim, com a cabe?a cheia de hist?rias, na hora que vou come?ar um dos contos do Um S?bado, Um Conto n?o lembro de nenhuma delas! Geralmente parto totalmente do zero mesmo, ainda que v? pensando em hist?rias minhas de de outros no meio do caminho.

Infantil ser? 9 anos, ok? Na verdade at? j? tem um suspense infantil entre os contos de s?bado nessa faixa, mas acho que se dependesse de mim eu escreveria metade infantil e metade jovem ;-) T?, 45% infantil e 45% jovem :-)

Vamos l? O que ser?? Menino ou menina? Enfrentar? o suspense com outros ou solitariamente?

O primeiro passo ? procurar se lembrar de como ? ter nove anos, buscar empatia com as crian?as de nove anos atuais que s?o diferentes das de 39 anos atr?s.

Me parece que, antes e agora, as amizades das crian?as de menos de? onze anos mais ou menos raramente s?o intensas, se concentram mais nas brincadeiras e explora??o do mundo, mas com rar?ssimas quest?es existenciais (apesar de ter visto um garoto de 6 e tr?s quartos perguntar para o Neil deGrasse Tyson qual era o sentido da vida? E agora me lembro de uma crian?a que me perguntou sobre astrof?sica quando ela tinha uns 7 e eu uns 12).

Lembrei agora de uma hist?ria que passou pela minha cabe?a essa semana, mas ? scifi? Um grupo de crian?as que entra em contato com o sentido do Universo e isso as marca de tal forma que as mant?m unidas (ainda que se afastem fisicamente no meio tempo) at? a idade adulta quando precisam empreender uma miss?o.

Gosto muito de hist?rias com grupos de amigos que est?o acima das limita??es emocionais, que s?o mais fieis uns aos outros que aos seus medos e preconceitos e que se mant?m juntos apesar das grandes dificuldades e at? mesmo de serem feridos pelos outros amigos de alguma forma.

Estou em d?vida entre um suspense individual (que acaba deslizando para o terror, n??) ou em grupo. ? que j? escrevi suspense infantil em grupo? [8h30]

Bem? Vamos pensando e ver o que surge? Ele tem pais. Ʌ Ser? um menino. Gosto de escrever personagens femininas, mas tem um menino na minha cabe?a agora e tem mais contos com neninas que com meninos (acho).

Mora na cidade? T? tendendo a algo mais pr?ximo da minha realidade… Tenho que pensar em jovens de 9 anos modernos? Tenho amigos de 14 que conheci aos nove? Ali?s ? sempre uma boa ideia ter amigos de todas as idades. Nos ajuda a manter a mente livre :)

Nove anos j? n?o entende bem por que esperar a hora do seriado que gosta de ver pois se acostumou a assistir no Netflix ou similar. Tem preocupa??es ambientais porque desde a d?cada de 70 acham bonitinho ensinar isso para as crian?as, n?? Falta a gente aprender a trazer essa prioridade para a idade adulta.

Que tipo de suspense um jovem de 9 anos enfrenta? Quer saber? A primeira coisa que ele faria seria procurar amigos para dividir o suspense? Isso ? muito claro? Juntaria os mais espertos (e pr?ximos) da escola com os da rua? Me ocorreu tamb?m que uma crian?a chamaria o mais esperto de todos, mesmo ele sendo um chato e isso ? uma boa para explorar o conflito entre lidar com o CDF (que depois passou a ser chamado de nerd e agora? Agora? Mala? Babaca? T? a? uma coisa que certamente vou poder melhorar se um dia desenvolver melhor esse conto).

Ok? Temos um suspense descoberto por um garoto que vai atr?s dos amigos em busca de ajuda para resolv?-lo e um deles vai sugerir convidar o mala babaca da escola ou da rua? Acho que vai ser da escola.

Qual ? o suspense? Que tipo de suspense aparece na vida de pequenas pessoas de 9 anos de idade?

Lembro que, mais ou menos nessa idade, inventei de brincar de detetive. Colocava um agasalho cheio de bolsos (no Rio de Janeiro? Imagine?) levava um bloco e caneta e saia anotando coisas estranhas como placas de carro que nunca vi parados ali? Na verdade s? lembro disso :) mas certamente anotava tudo que achava que podia n?o ser comum.

Vou pensar por uns minutos? Deixar a mente encontrar mais mem?rias e devaneios? [8h44]

[8h48] Estava pensando em ser a descoberta de um caso de um dos pais, s? que dificilmente uma crian?a buscaria ajuda de amigos para isso? Tem que ser um suspense de interesse geral? Um apartamento com movimenta??es estranhas. Isso pode funcionar muito bem nessas ruas secund?rias e silenciosas com pr?dios pequenos com varanda ou apartamentos baixos sem privacidade.

Passei minha inf?ncia no Bairro Peixoto em Copacabana que ? assim e essa ? a imagem que me persegue desde que comecei a pensar no conto. L? tem tamb?m uma pra?a onde os her?is podem se reunir para conversar sobre o suspense.

Tem que ser uma coisa real mesmo que eles fantasiem explica??es fant?sticas durante a investiga??o.

T? quase l?. Posso at? come?ar a escrever sem saber qual ? o suspense e confiar que a minha imagina??o vai chegar a ele, mas a? n?o consigo compartilhar com voc?s o processo de bolar o suspense ent?o vamos a ele.

A imagina??o da gente ? curiosa? Parece um aqu?rio muito sujo. A gente v? umas formas indistintas nadando para um lado e para o outro, ideias? Tudo dentro da nossa mente ent?o uma parte de n?s sabe exatamente o que ? cada vulto, mas nosso consciente n?o recebe tudo.

Desde o in?cio do conto tem alguns desses vultos atravessando o aqu?rio turvo da minha mente? Tenho que tentar focar alguns deles e identificar o que s?o? Traficantes? Viol?ncia dom?stica? Filhos que mataram os pais? Ladr?es de banco, ali?s um ladr?o de banco? Um apartamento vazio que n?o est? mesmo vazio? Esse ? bom? Uma pessoa t?o reclusa que ningu?m percebe que ela est? l?. A porta da varanda sempre fechada, sem luzes de noite, s? entregadores de mercado sabem que algu?m mora ali, mas deixam as compras na porta e pegam o dinheiro debaixo do tapete? Como essa pessoa obteria grana?

Outro dia pensei em algu?m que teria comprado dois apartamentos, um em cima do outro, e juntou os dois sem ningu?m saber. Para todos o de baixo est? vazio, mas algu?m mora ali recluso. Isso poderia explicar como o recluso teria grana em esp?cie. A pessoa de cima forneceria? Mas isso n?o t? legal? Serve para outra hist?ria, n?o para essa.

O recluso tem algu?m que ele permite entrar na sua vida, uma neta que tem acesso a tudo dele, ? a ?nica pessoa no mundo em quem ele confia, a neta de? 24 anos. Ela mesma teria uma hist?ria de suspense com ele 15 anos antes quando conquistou sua confian?a?

[9h03] Raios! Momento de d?vida profunda! A hist?ria desses dois veio muito mais v?vida do que a do garoto? Que coisa essa minha facilidade em pensar em hist?rias com mulheres!!! Tem carinho, emo??o, empatia? Tudo que ? essencial em uma grande hist?ria nesses dois?

O ideal seria eu abandonar a ideia anterior e mergulhar nessa pois em 3h n?o consigo contar as duas juntas (mas acho que vou acabar tentando?) e sei que ela fluiria muito melhor, mas vou me for?ar a ficar com o garoto? Ser? que em vez de ter facilidade em escrever mulheres tenho dificuldades em escrever homens? Ser? um sinal de que n?o sou bem resolvido comigo mesmo como penso que sou? Escrever ? uma jornada de auto conhecimento…

Hangout

Que tal votar agora no que devo escrever no pr?ximo conto?