Sobre o Projeto

Todo sábado escrevo um conto do início ao fim (começando às 8h e terminando por volta das 13h).

Até o conto anterior as pessoas votavam em estilo, gênero, público e época, mas mudei essa regra. Não teve votação para esse conto e nos próximos farei algo diferente, aguarde :-)

Quem quiser ver o conto sendo escrito ao vivo pode seguir o link bit.ly/umsabadoumconto23 (mudando só o 23 para ver cada conto, claro). Depois de escritos eles ficam no mesmo link em estado bruto, sem qualquer revisão.

Você pode saber mais sobre o projeto no post Um Sábado, Um Conto.

O Conto

– Droga, Gabi! Ele ligou! Por que você foi dar o meu telefone certo para ele? É certo de ser um maluco estuprador, psicopata stalker, vagabundo, aproveitador, golpista!

– Hummm… Júlia… Você não acha que está sendo um pouco, só um pouquinho assim… pessimista?

Tinha passado quase uma semana desde a balada de sexta quando as duas amigas saíram do trabalho e aproveitaram que o trânsito estava impossível para ir dançar e paquerar em um lugar novo num canto esquecido do centro da cidade, um restaurante-point que toca umas músicas animadas enquanto a galera se espalha dentro e fora dele, muitos em pé.

– Pessimista nada, sua boba! Sou é realista! Você viu que o cara só bebeu dois chopps a noite toda?

– Vai ver ele é um cara certinho que não gosta de ficar bêbado, um gentleman! Hihihihi!

– Aham! Um sóbrio conversando com uma bêbada! Eu já estava na terceira caipirosca quando cheguei nele, lembra? E um gentleman naquele lugar? Nem no meu Facebook tem gentleman assim!

As duas conversam aproveitando a hora do almoço, enquanto caminham para um restaurante vegetariano que tem ótimos preços numa rua estreita e também meio esquecida pela maioria no centro do Rio de Janeiro. É um desses restaurantes que parecem mais uma pensão e temos que subir uma longa escada estreita de madeira que range a cada passo para chegarmos ao salão com vários ventiladores no teto, mas esse foi reformado faz pouco tempo. Não mudou nada, só apareceram alguns splits e agora o salão é um gelo! Perfeito para o verão do Rio!

Do outro lado da cidade, na Barra da Tijuca, Mauro, o cara da sexta passada, está no trabalho diante do monitor de 21 polegadas organizando o mapa mental do projeto da sua startup. É o que ele faz há seis meses na hora do almoço: pede um sanduíche, come, estica as pernas, bebe um café em 10 minutos e aproveita o resto do tempo alimentando seu sonho: um app que, ele tem certeza, vai mudar a vida de muita gente. Ele e mais três amigos abriram mão das suas vidas há quase um ano para investir no projeto, mas não dá para soltar um cipó antes de pegar o outro então os três continuam em seus empregos ou atividades (um deles é consultor autônomo) usando todo tempo extra para trabalhar na startup.

Só que, nesse momento, o Mauro está olhando meio aparvalhado para o monitor. Só mexe o ponteiro na tela de vez em quando para impedir o computador de dormir. Ele não para de pensar na Júlia. A menina de olhos brilhantes, sorriso sincero e boquinha doce que ele encontrou na sexta passada… Há cinco dias e 14 horas.

“Preciso relaxar um dia!”, “Uns beijos, uma paquera e boom! Estarei aliviado da pressão para meter a cara no trabalho de novo”

Esses eram os planos dele. O mundo moderno é cheio disso, de pessoas que só querem aproveitar um momento hedonista sem qualquer compromisso. A Júlia certamente já nem lembra mais dele e só fingiu no telefone que lembrava, afinal ela já estava tontinha quando eles se esbarraram.

Mauro no entanto lembra de tudo! Dos beijos, dela ensinando ele a dançar fazendo o papel de homem segurando seu quadril e rindo dele não ter molejo, dela colocar a mão dele na cintura dela para mostrar como se faz, dos dois rindo disso tudo, do beijo ofegante de “adorei sua boca, seu cheiro, seu jeito” e da amiga dela alcançando ele pouco adiante e entregando um papel amassado com o telefone que ele mal conseguia ler (teve que ligar para cinco outras pessoas antes de acertar) e dizendo “Liga para ela! Ela vai gostar!”

A música da abertura de Fringe toca alto e Mauro quase cai para trás na cadeira. É um dos colegas da startup… Alfredo app (eles tem nomes de acordo com as funções no empreendimento, Alfredo é o gênio do desenvolvimento de apps móveis).

– Ligou para a moça, Mauro?

– Acertei o número na quinta tentativa… A melhor ligação foi a que caiu numa velhinha que achou que eu era sequestrador e disse que ia dar meu número para a polícia.

A risada alta e sonora do outro lado faz Mauro rir também, mas o peito está corroído de ansiedade sem saber o que esperar da Júlia.

– Isso é bom, cara! Você precisa falar com gente de vez em quando. O que a guria disse? Você perguntou se ela lembra como tu é feio? Sabe como é, né? Não vai assustar a moça!

– Cara… Você sabe que não quero me distrair tanto assim da startup, né? Foram só uns beijos e amassos para aliviar a tensão.

– Não foi não Mauro… Cara, deixa de paranoia, eu sei que você é mega responsável e não vai falhar com o projeto porque está apaixonado e você está! Te conheço desde a escola, mano! Vai ser pior você ficar na secura pela guria. Eu tenho a Gabi, o Lúcio tem as namoradas… Bem, deixa o Lúcio para lá! Hahahaha! O lance é que a gente precisa se dedicar sim, mas sem convívio social qualquer um entra em parafuso. É só explicar para a guria. Se ela topar, topou.

– “Se ela topar, topou”, onde você leu isso, Alfredo? Nietzsche?
Eles passaram então a discutir algumas modificações em módulos do projeto e Mauro mergulhou nas bolhas do mapa mental guardando a ansiedade com a resposta da Júlia no jardim de verão da sua mente organizada… É que esse é o jeito dele de organizar os pensamentos: um cômodo para cada coisa e ele os visita periodicamente para dar uma arrumada. O Jardim de Verão tem portas para todos os cômodos e ele sempre passar por lá.

– Vou mandar whatsapp para ele agora. Ligar é muito invasivo, ele vai achar que sou uma louca grudenta! Mas chamo ele para quê? Outra noite de agarração bêbada? Tem uma exposição legal no CCBB, ou será que ele vai me achar arrogante? Cinema, 50 tons de cinza… Ele vai achar que sou uma virgem adolescente atrás de um príncipe encantado maluco… Pior! Se ele for maluco vai achar que é um sinal de que pode me matar, partir em mil pedaços espalhar…

– Jú, você sabe que 50 tons de cinza não tem nada disso, né? Quer dizer, é bobinho e meio perverso, mas é a versão sessão da tarde disso. Organize seus pensamentos, vai!

Elas já estão na sobremesa, uma só para as duas para economizar e não se entupirem de doce. A Júlia olha para a Gabriela com seu olhar de esquilo curioso e as duas caem na gargalhada. Todo mundo parece maluco hoje em dia, quer dizer, na verdade quase todo mundo parece normal, mas temos medo que seja só uma fachada e que um psicopata se esconda atrás de cada pessoa nova que encontramos.

A Gabriela segura a mão da amiga, por um instante ela tem medo de dar pinta que seu amor é mais do que amizade, mas ela se controla pois sabe que a Júlia não tem qualquer interesse por outras mulheres. Então ela afasta o pensamento, olha no fundo dos olhos da amiga e diz que “a gente tem que mergulhar na vida, ter cuidado, claro, mas é só ouvir os amigos e não ir para lugares afastados com alguém que já não tenha passado pelos testes do tempo e dos amigos”.

A Júlia decide mandar o whatsapp com todas as opções: cinema, museu, jantar. Mas tira 50 tons das sugestões de filme deixando só umas três mais genéricas.

O Mauro vê que chegou mensagem dela, mas não abre para ela não saber que ele viu. Ele não quer parecer o maluco sem vida que fica o dia todo olhando para o celular e respondendo imediatamente as mensagens das vítimas que ele está mirando no momento. Ainda é quinta-feira e dá para responder mais tarde, na hora de sair do trabalho e pegar o ônibus para casa.

No meio da tarde ele não aguenta, coloca o celular off-line e vê a mensagem.

Cinema, museu e papo… Sendo que papo pode ser “que tal um motel depois?”, museu pode ser para dar a impressão de que ela se preocupa com cultura e que não está olhando para ele como um objeto, e cinema… simplesmente que tá na pilha de um filme e conhecer ele melhor.

Também pode ser que ela queira mesmo é ser namorada… Mas tão rápido? Será que é uma dessas malucas que gruda no pé? Uma maníaca que vai matar o coelhinho de estimação dele? Bem… Pelo menos ele não tem um coelho de estimação… Aliás não tem nada de estimação porque mora sozinho em um apartamento dos pais na Barra para ficar perto do trabalho.
Ou será que é o museu que ela quer mais? Vai ver ela é super-culta e quer testar para ver se eles tem interesses e prioridades parecidos.

Isso o faz lembrar da amiga que, com menos de 20 anos, falava latim, russo, espanhol, francês, inglês era mega-culta e dark/gótica, branca como cera e ouviu a seguinte cantada na fila do banco “E aí, gata… Eu surfo!”.

Ele não quer receber a mesma gargalhada que o cara recebeu em resposta. Tem que pensar bem no que vai dizer… Ou talvez não! Ele pode simplesmente ser sincero!

“Ha! Ha! Ha! Sincero!? Isso vai contra todas as regras de precaução na cidade-grande-febril-apressada-individualista moderna”
Ele reconecta o celular para ela saber que ele viu. Falta uma hora para terminar o expediente e então ele responde, já no elevador…

Ele não consegue não ser sincero… Aliás a maioria dos amigos dele acaba fazendo o mesmo, muito embora a pessoa do lado de lá nunca fique sabendo com certeza. “Todas as opções são ótimas, mas que tal CCBB e um café por lá mesmo?”

Júlia está acabando de enviar um email interno pedindo o pagamento de três capistas e dois tradutores (ela trabalha em uma editora) quando o whatsapp grita “I wanna see my sestra” e ela se pergunta pela milésima vez se não devia trocar esse toque… Por um lado deixa claro para estranhos que ouvem que ela pode ser perigosa, por outro afasta gente normal, afinal a Helena de Orphan Black é uma louca homicida… Ou não… Cada um vê de um jeito.

Sem pensar ela vai logo abrindo e vendo a mensagem “Droga! Ele vai achar que fico plantada do lado do celular desesperada por uma resposta! Pelo menos vou demorar para responder!”

– Gabi, ele escolheu exposição e papo no café do CCBB! Será que foi para fazer tipo ou é o que ele curte mesmo? Será que ele é chato? Bem, eu adoro exposições… Eu sou chata?

Ela se lembra dos pagamentos! Se não mandar o email logo o financeiro demora mais quinze dias para pagar o pessoal e ela não pode deixar isso acontecer. O Mauro tem que ficar para depois, aliás o coração dela tem que ficar para depois, tem gente dependendo dela agora! quinze minutos! Melhor mandar mensagem também avisando que mandou o email.
Lá está a Júlia no escritório com as pessoas já arrumando as coisas para ir para casa. Livros par ler no caminho, beber um último café, combinar o que fazer para os aniversariantes do mês… E ela está girando na cadeira esperando o Zé Antônio do financeiro responder o chat… Se ele já foi embora ferrou… Chega a mensagem dele “Tudo ok! Agendados os pagamentos! Pode respirar, Jú!”

– Yay!!!

Ela pula e grita levantando os braços e todo mundo olha até perceberem

“Ah! É a Jú”.

Ela responde o whatsapp:

“Formou! CCBB amanhã de noite. Saio do trabalho às 19h e posso chegar lá em meia hora.”

Já são quase oito da noite e Mauro decide que a essa hora não pega mal ver logo a mensagem.

Só então ele se toca que demora seis semanas para ir da Barra até o centro com o trânsito impossível do Rio de Janeiro. Ele terá que sair mais cedo do trabalho… E não é o tipo de empresa em que isso é fácil. Porque ele não marcou para sábado de manhã?

Agora é tarde e ele responde que tá de pé!

Isso não é normal. Combinar de encontrar com a menina da balada numa exposição. Será que ela vai? Será que está pensando que ele está fazendo tipo? Mas, pô, é uma exposição foda… Ela vai pensar que ele é gay! Não… Não vai… Teve os beijos que ele lembra bem… Mas será que ela lembra? Pode achar que ele é bi… E daí? Se ela achar isso, mas não se incomodar… E se ela for bi, a amiga for namorada e ele só um brinquedo? Ele não é do tipo que só se importa com o prazer, ele quer respeitar e ser respeitado como uma pessoa completa, com sonhos, sentimentos, ideias…

Ele passa a sexta trabalhando febrilmente, prevendo tudo que pode acontecer no final do dia e resolvendo previamente, avisa logo cedo que tem que resolver problemas pessoais que surgiram de repente e por isso tem que sair no máximo 15h30 do trabalho.

Ele pega um táxi até o metrô para fugir do trânsito final até o centro e consegue chegar até cedo demais. Decide ir ao museu dos correios para matar tempo e chegar só 19h30 para não dar na vista que chegou muito mais cedo e a Júlia pensar que ele é um desocupado que fica só esperando a próxima vítima.

Ele está observando uma peça que parece estar de cabeça para baixo. Está torcendo o pescoço de um jeito estranho para tentar entender a obra quando percebe alguém ao lado dele fazendo exatamente a mesma coisa. É a Júlia! O que ela está fazendo ali? Ela o reconheceu? Ele decide tentar fugir parao CCBB. Faz de conta que não viu e vai se virando.

– Fala, Mauro!! Já encontrou com a mina?

Isso só pode ser sacanagem. O que o Lúcio está fazendo ali? Mauro arregala os olhos fazendo que não com a cabeça.

A voz suave atrás dele faz seu corpo todo gelar. Ele não lembrava como a voz dela era linda…

– Mauro? – Assim que fala ela aperta os lábios achando que não devia ter falado nada, agora ele vai saber que ela chegou cedo e resolveu matar tempo ali para não parecer a louca que quer tanto casar que sai correndo do trabalho para encontrar com um cara que só conheceu bêbada.

– Errr… Eu estava indo pro CCBB, mas passei aqui na frente e vi que tinha um tempinho, achei que você ia demorar mais para chegar porque eu trabalho muito pertinho daqui e… Bem… Eu tô atrasada?

– Não! Não! Eu… dei sorte no trânsito, cheguei cedo também e… bem… Esse é o Lúcio, um amigo meu que já está indo embora porque tem… Né Lúcio? Te vejo outro dia! Err… Eu fiquei com medo de te assustar chegando muito cedo.

“BURRO! BURRO!” – Mauro só consegue pensar que devia paquerar mais, aprender as manhas. Sinceridade nunca é certo.

“Que fofo ele tímido! Será que ele tá falando a verdade? Será que ele é desses infantis que moram com os pais? Com certeza não racha um apê com amigos como eu, mas é fofo!”

Ela está olhando para ele ouvindo atentamente o que diz enquanto pensa essas coisas além de que não devia ter dito que o tinha reconhecido. Agora o primeiro encontro deles tá todo esquisito. Se ele não for um psicopata se fazendo de frágil deve estar achando que ela o seguiu para dentro do museu dos correios…

“I Wanna see my sistra”… “I wanna see my sistra”… “I wanna see my sistra”

O alerta fica um pouco abafado dentro da bolsa e a Júlia decide fazer de conta que não é com ela, que não ouviu, que deve ser de alguém do outro lado da Lua e o Mauro, que escuta, é claro, reconhece o toque e tem vontade de rir, acha que uma mulher que tem esse toque só pode ser interessante… Ou louca, claro, mas com esse olhar fofo de esquilo curioso e esse sorriso tímido de criança levada?

Ambos fazem de conta que não perceberam o toque.

– Então Júlia! Acho que preciso de um café antes de ver mais obras de arte, até agora não sei se aquela ali está de cabeça para baixo ou não.

– Eu também não! Acho que é moderna demais para mim! Entendo melhor as mais antigas como as da exposição do CCBB, vamos para lá?

Enquanto os dois estão falando um faxineiro se aproxima e esvazia a “obra de arte” que na verdade é um lixo estilizado. Os dois começam a rir um pouco sem graça, pensando que os dois se entregaram e que nenhum deles entende de arte e só marcaram esse encontro para desfazer os rótulos de encontros em noites etílicas na balada.

Júlia segura a mão do Mauro sem perceber, ela é assim, tem dificuldade em fazer tipo. Só depois que entrelaçou os dedos nos dele ela pensa que pode ser um pouco de intimidade demais… Mesmo eles tendo entrelaçado as línguas sete dias antes, mas foi em outra vibe… Agora vai ficar parecendo que ela está acelerando um namoro… Mas é tarde, ela faz de conta que não é nada demais, que dá mãos para todo mundo.

Mauro sente o coração apertar quando os dedos macios e quentes dela envolvem os dele. Não é sempre que a gente encontra com alguém espontâneo assim. Talvez ela seja meio infantil, mas eles dois tem menos de trinta anos, ele ainda joga Super Mário, droga! Não pode ficar tirando de maduro. Além disso tem esse aperto no coração com um mero entrelaçar de mãos, como se ele fosse adolescente. Será que ela percebeu? Que vai achar que ele se apaixona fácil? Apaixona… Ele está apaixonado? Eles já estão no café, ela está falando e ele olhando para os movimentos sutis das pálpebras, dos olhos dela… Tenta olhar de outro jeito, como se fosse uma desconhecida, como se estivesse só passando pela rua. É uma mulher como qualquer outra, apenas mais um rosto, assim como ele. Nem bonitos nem feios, nem carismáticos, nem sem graça, mas não tem jeito, ela tem um encanto sobre ele.

“Será que estou falando demais” é uma plaquinha flutuando sobre os pensamentos da Júlia enquanto ela fala e tenta decifrar o olhar atento dele. Será que está sendo só educado fingindo interesse nas besteiras que ela está falando? Aliás o que ela está falando? Ela continua falando enquanto recapitula mentalmente: biografia do artista que estão indo ver, contexto histórico das obras, como foram interpretadas na época que foram feitas… “Meu deus! Estou sendo uma nerd arrogante e chata!”

– Eu falo demais, né?

Ela ri, baixa um pouco os olhos olhando para a xícara de café ainda quase cheia, ela pediu duplo… Por que ela pediu duplo? Ele vai achar que ela é viciada em café e ligada em 220! Bem… Ela é ligada em mil volts na verdade e ele parece em câmera lenta…

– Que nada! Estou achando ótimo! Ando trabalhando demais, não conhecia esse artista e não tive tempo de me informar sobre ele antes de vir. E gosto de ter minha própria opinião antes de… me informar melhor…

Ela levanta os olhos assustada.

– Ah! Não! Então estraguei tudo para você!! Me desculpe!
Mauro levanta as mãos balancando-as no ar. “É oficial, sou uma anta e agora sou uma anta rude”.

– Não!! Não! Estou achando ótimo mesmo! É bom fazer as coisas diferente de vez em quando! E você tem uma visão tão apaixonada da arte que vai melhorar meu jeito de ver!

– Hummm… Tem certeza? Você não está só querendo me agradar?

– Admito que dá vontade de te agradar… Você tem um jeito tão natural de ser que… Mas você também é muito segura de si, né?

“Oh! Oh! Oh! Segura de mim! Claro! Claro! Totalmente! Aí digo que sou feminista e descubro que o cara é um idiota machista que vai sair correndo de mim. Ainda não!”

– Bem, todos nós temos que ser muito mais seguros hoje em dia, né? Tem uma instalação nessa exposição que fala nisso… Quero te mostrar!

A exposição é fortemente feminista, ela não pensou nisso quando sugeriu o encontro… Ferrou… Ele vai ter certeza que foi um teste dela, mas será que ele vai se fazer de feminista só o tempo necessário para ir com ela ao motel? Vai fingir que não é feminista com medo dela não gostar de feministas para levá-la ao motel? Talvez ele nem perceba, homens são tão desligados às vezes… Aliás pessoas são desligadas.

– Interessante como um homem faz um conjunto de obras tão feministas, né Júlia? Tem gente que acha que homens não deviam se meter nisso, que a gente não vive na pele então como podemos traduzir o peso do preconceito com as mulheres? Mas esse cara parece ter se saído muito bem na minha opinião.

Ela olha para ele por alguns segundos, o bastante para ele ter medo de ter falado besteira… Bem, é melhor saber se a menina se transforma num monstro anti-feminista ou pró-feminista agora, né? A última coisa que ele quer é descobrir isso depois de um tempão de namoro… Namoro… Ela não pode saber que ele está pensando nisso, aliás ele mesmo não devia estar pensando nisso!

– Acho que as pessoas acabam levando as causas a sério demais, como se todo mundo fosse obrigado a levantar a mesma bandeiras que elas, com as mesmas cores, mesmas frases, tudo igual. Prefiro evitar os rótulos, sabe? As pessoas precisam ser respeitadas em sua individualidade, ter controle das suas vidas. Isso não acontece para mulheres, negros, gays, lésbicas, religiosos… E homens também. Isso tudo pode ser visto como feminismo, direitos lgbt e direitos humanos. Aliás o machismo é péssimo para homens também que são obrigados a se encaixar no “padrão homem” que não gosta de arte, não lê, é rude, não estuda…

“Pronto, agora tô parecendo a feminista maluca. Bofe arranjando uma desculpa e fugindo em 3… 2… ”

Mauro não foge, pelo contrário… Responde…

– É dose ser simplesmente simples atualmente, né? Temos que nos enquadrar em alguma causa ou não-causa, vestir um monte de rótulos religiosos, culturais, morais… Você tem razão, Júlia. Desculpe se dei a impressão que queria te enquadrar como isso ou aquilo. Eu só quero te conhecer e… Me deixar conhecer… Mas tenho medo… O que você vai pensar de mim? E seu eu não te entender? Se eu for só um passatempo para você? – E suspendendo as sobrancelhas com receio de ter sido grosso – Não estou dizendo que você é assim! Foi mal! É que o mundo anda tão pirado… Parece que a gente tem que estar sempre atrás de um biombo para se proteger.

– Uau!!! Que fôlego, cara!

Os dois ficam em silêncio se olhando. Cercados de obras de arte, mas com olhos apenas para os olhos um do outro, como se fossem oceanos infinitos e profundos dos quais eles mal tocaram a superfície, mas há uma paz, como se eles fossem veleiros oscilado lentamente nos seus oceanos mútuos, ou balões soltando os lastros para atravessar aquelas cadeias de montanhas que todos construímos ao nosso redor.

– Jantar? – Mauro pergunta acariciando a bochecha corada dela.

– Huhum… Huhum sim…

Júlia segura o quadril dele e o puxa para ela lentamente, mas com firmeza, “ela é forte…” Ele pensa, ela levanta o rosto e o beija ali no meio do museu.

“Será que é de verdade? Ela é tão…”

“Será que é de verdade? Ele é tão…”

Seus pensamentos fluem juntos sem que eles saibam, mas eles tem todo o tempo do Universo à disposição dos dois, apesar das noites em claro trabalhando no projeto da startup, lendo dezenas de livros para achar o próximo bestseller, dos encontros e desencontros das nossas inseguranças e dificuldades de comunicação.

[12h39 – terminei de escrever!]

Vlog

Observações

O final poderia melhorar… Pensei em terminar neles dois pensando a mesma coisa sem saber, mas achei que devia deixar isso mais claro, não sei… Hoje ele vai ficar assim.

Tenho a impressão que a maioria das pessoas é assim: fazem dos relacionamentos jogos intrincados de esconde-esconde quase sempre, mas gostariam de ser transparentes, de ser eles mesmos, mas tem o medo de sofrer, de ser usado ou usada…

Ainda ontem estava lendo… Vou pegar a citação…”We will do more to avoid pain than we will do to seek pleasure”. É de Gavin de Backer em The Gift of Fear.

O medo de sofrer nos impede ser abertos com nossos amigos.

Quem tem sorte… Não é sorte, talvez seja um pouco mais de capacidade de sofrer, de arriscar. Bem… Quem arrisca um pouco mais acaba encontrando pessoas em quem confiar o bastante para se abrir, mas o tempo todo temos essa outra voz interna nos avisando que o outro pode estar jogando o jogo que achamos que todo mundo joga.

A outra pessoa pode ser boa lá no fundo, mas não tem coragem de sair do jogo e acaba sendo funcionalmente igual ao psicopata.

Nesse conto todo mundo é corajoso e bom. Saiu assim. Até um certo ponto eu tinha dúvidas se um dos dois acabaria sendo ruim para o outro, mas achei que seria difícil trabalhar isso direito dentro do tempo que tenho para terminar o conto então decidi pela coragem de se abrir.

Também influenciou essa decisão o fato de eu preferir relacionamentos assim (coisa que aprendi aos 18 anos com a minha Júlia… Que não se chama Júlia), de ter visto esse tipo de relacionamento em obras recentes como Orphan Black.

Além disso um tweet que troquei com a @JanAndrade ainda no processo criativo que me fez pensar que, quando a gente mostra uma realidade ruim num conto, muita gente pode acabar só vendo um reforço ao ruim. No caso do nosso papo envolvia a visão da mulher como escrava do processo de reprodução, um tema em alta na semana que passou.

O Processo Criativo
(escrito antes do conto)

Isso de mudar as regras das coisas pode nos confundir mais do que pensamos! Estou com dificuldade para escolher o que escrever! Acostumei a mandarem em mim!

Aliás isso de acostumar a ser mandado é fogo, né?

Essa semana apareceram em minha TL vários tipos de escravidão… Teve o mais forte que foi uma campanha contra os direitos da mulher sobre o próprio corpo feito por outras mulheres que compartilhavam fotos grávidas dizendo que gravidez é lindo e que ninguém pode ter o direito de interrompê-la.

Fiquei pensando em uma campanha oposta… Mulheres mostrando corpos lindos, barrigas bem de acordo com os padrões atuais de beleza e dizendo que isso é sagrado, que a gravidez devia ser proibida ficando só para mulheres feias que poderiam servir de barriga de aluguel para as bonitas.
Pensei em um conto distópico usando isso e mostrando como os dois casos são idênticos em sua perversão contra as mulheres, mas não estou conseguindo pensar em uma forma de fazer isso sem ficar… didático. Panfletário. Estou desistindo… Se bem que, enquanto escrevo me surgem uns personagens na cabeça… Uma jovem mulher suave, mas determinada, um amigo machista somente porque o meio dele é assim… Talvez use isso no conto da semana que vem.

Também pensei em um conto singelo, de gente se encontrando e lidando com os diversos medos das amizades modernas: a pessoa está só fazendo tipo ou é minha amiga mesmo? Essa pessoa é perversa, todo mundo parece perverso hoje em dia…

Acho que vou ficar com esse. Jovem adulto com gente ainda em seu começo de carreira, alguns amigos antigos, outros amigos novos…

Imagem: Andrew Catellier – Flickr