Está em cartaz no teatro Poeira, um sobrevivente em tempos de destruição da cultura e outras bases da sociedade. Em tempos da ascensão de tiranos sem que tenhamos realmente um herói a lamentar.

Eva Wilma esteve em uma sessão, ela que esteve em outra montagem em 1978. Andrea Beltrão a convidou a declamar uma frase, um trecho.

Isso foi o que ela disse. Não sei se é da montagem antiga ou se ela improvisou. De qualquer forma é tão forte e inspirador que tive que transcrever em texto para facilitar para quem não é ouvinte (depois do vídeo):

Colocando o cidadão de hoje, atento aí à espera em pé de igualdade com a tenência de faz tantos séculos, lhe damos um resumo da espantosa história; Creonte rei de Tebas vinga-se de Polinices, sobrinho e inimigo, Antígona, irmã de Polinices, enfrenta o rei, é condenada à morte, Hémon, filho do rei rompe com o pai.

E assim a história avança em luta fratricida, ódio mortal, violência coletiva… Tudo pago, por fim, naturalmente com a escravidão do povo na derrota final.

Sabemos bem que ninguém aprendeu muito com essa história de Sófocles, cansativamente nós a repetimos mais de 2400 anos que passaram… Ânsia de Brutos, cruz de Cristo, Heil Hitler, _?_ esquartejado, Tiê(?) nas montanhas…

Há sempre duas faces da mesma moeda: cai um herói, coroam um tirano.

Algo mudou? Nem sei… Ambição mudou de traje, a guerra de veículo, o poder de método.

O mundo girou muito, o homem mudou pouco, mas repetir uma história é a nossa profissão, é a nossa forma de luta, assim vamos contar de novo e de maneira bem clara; e heis nossa razão.

Ainda não acreditamos que no final o bem sempre triunfa, mas começamos a crer, emocionados, que no fim o mal nem sempre vence.

O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar.

Eva Wilma, 2019, Teatro Poeira na platéia para assistir Antígona