Temos que falar de 13 reasons why (antes de ler)

Até agora só li o primeiro capítulo, mas percebi que há uma urgência em falar nisso por causa da série da Netflix que muita gente está vendo. Umas achando importante ver, outras com muito medo.

Tem muita coisa que podemos falar sobre o assunto tendo visto apenas o primeiro episódio ou lido o primeiro capí­tulo, mas antes vou falar da minha própria experiência com realidades difíceis de encarar.

Eu tinha uns 19 anos quando peguei para ler O Sapateiro, da mesma autora de Sybil, Flora Rheta Schreiber.

Era um livro sobre um assassino serial que acreditava receber mensagens divinas.

Nesse perí­odo eu estava questionando a minha religiosidade. Até que ponto ela não era um delírio semelhante ao daquele assassino serial claramente perturbado?

Não dei conta de ler e procurei uma psicanalista (infelizmente não lembro o nome dela e já deve estar aposentada com uns 70 anos.

Pois essa é a minha opinião: se um filme, série ou livro te perturba a ponto de você não conseguir assistir (e vejo pessoas com medo de sequer tentar assistir 13 reasons why) então você muito provavelmente devia estar procurando uma psicanalista (e não se sinta mal por isso! Todos devíamos procurar psicanalistas. O mundo é que tá maluco, não nós)

Porque a história (qualquer história) é um ambiente controlado que te permite explorar coisas que podem acontecer de fato com você em ambientes totalmente descontrolados.

Desconfio que a maioria das pessoas que tenho visto com medo de tentar ver a série não estão confusas como eu estava aos 19 anos e estão apenas inseguras em relação à s própria estabilidade.

Eu mesmo não estava tão confuso quanto temia.

Nós temos esse mito, não é? Que basta mostrar um jogo violento para alguém e a pessoa será convertida em uma pessoa brutal. Aliás, mais ou menos na mesma época alguns amigos diziam que existia um livro que enlouquecia quem o lia! Acho que era o Neuromancer. Se você já leu deve estar rindo. Ninguém enlouquece lendo Neuromancer.

Nossa identidade não é tão frágil assim.

13 reasons why fala de uma realidade muito séria e presente. Conheci várias pessoas que passaram por isso. Algumas delas não sobreviveram, outras eu pude ajudar e poderia ajudar muito mais se tivesse lido mais obras como essa. Tenho certeza que várias pessoas que eu conheço estão vivas porque foram ajudadas por alguém. Ah! Claro, há quem consiga se salvar sozinha e histórias podem ajudar muito, eu mesmo fui salvo por várias!

Mas vamos ao que sabemos da história depois de ver apenas o trailer ou ler o primeiro capí­tulo.

A protagonista se suicida, mas antes deixa sete fitas K7 com 13 dos 14 lados gravados.

Nessas fitas ela conta a história de como ela foi sendo envolvida pela desistência da vida por causa de pequenas e grandes pressções cotidianas e comuns que muitos de nós sofrem, que muitos de nós impõe a outras pessoas.

A voz da protagonista, pelo menos no livro, é espirituosa, engraçada e até alegre. Ela poderia ser qualquer pessoa que você ou eu conhecemos.

A propósito. Já passei por isso algumas vezes: receber a notícia do suicí­dio de alguém que nunca desconfiei que era outra coisa além de uma pessoa feliz e de bem com a vida.

Esse é um primeiro ponto que já nos permite sair da sinopse da história e passar para as opções do autor, Jay Asher.

No mundo real uma pessoa prestes a se suicidar teria aquela leveza? Duvido muito. Teria a iniciativa de gravar 13 lados de fitas K7 (people menos seis horas e meia de gravação)? Extremamente improvável.

Vejo isso como uma opção.

13 reasons why não é uma obra realista. Bem, pelo menos suponho que não.

Ela é, no mínimo suavizada. Pode ser consciente para evitar que a culpa do suicí­dio recaia sobre a protagonista “perturbada”. Esse é o perfil comum dos suicidas em filmes e livros. É algo, aliás, que certamente deve tornar as coisas muito mais difí­ceis para quem está diante desse problema.

Também pode ser suavizado para tentar evitar que o leitor ou leitora que está seguindo o mesmo caminho não acabe ainda mais envolvido ou envolvida pelos problemas. Conheço quem tenha o perfil da protagonista e que sentiu a obra como um processo de libertação.

Talvez venha daí o interesse na história. Muitos de nós se sentem libertados da culpa de nos sentirmos como a protagonista: não é fraqueza.

Sim. Isso é perigoso, mas desde a primeira página o suicídio é colocado como um desastre, de forma alguma uma solução viável.

Claro que essa suavização também preocupa algumas pessoas que receiam que o suicídio acabe visto como algo leve, como uma opção até poética.

Não é o que me parece pelo primeiro capítulo, mas realmente há muitas obras assim, começando pelo Pequeno Príncipe. São numerosos os filmes, séries e livros que envolvem o suicídio em uma aura de nobreza ou julgando a pessoa pensando em nele como alguém fraco, reforçando fatores que a levaram até ali.

E esse é um segundo ponto: infelizmente a industria de entretenimento muitas vezes não tem compromisso com a estabilidade emocional ou com o respeito aos outros e isso dificilmente mudará pois é um preço que nossa civilização vem decidindo pagar em troca de liberdade.

Mas, veja bem, nunca vi estudos revelando que podemos ser desestruturados por alguma leitura.

Como aconteceu comigo lá no início desse post, as histórias podem nos revelar algo que está em processo. Pode sim piorar tudo, mas também pode nos salvar.

Pelo que tenho visto já no início do livro e mais ainda nas conversas online e offline 13 reasons why está sendo um importantíssimo fator de reflexão e tomada de consciência do problema.

Claro que nos assustamos ao ver uma história sobre suicídio, muito embora não nos incomode tanto as numerosos histórias onde ele (ou assassinato) é tratado irresponsavelmente.

Há pelo menos uma boa razão para isso: TV e livros são para nos distrair e não para refletir sobre coisas tão sérias assim. Vi até gente dizendo que “a série não me pegou”. Não é para pegar! É para outro tipo de relação.

A Netflix tem isso em seu DNA. É uma produtora de conteúdo para as massas (bem, ela não é de nicho) com produções de nicho. Como aquelas produções altamente experimentais que a Globo colocava à  meia noite, só que passando na hora que qualquer um quiser.

Me parece que esse e o ponto de corte: essa história não é um Jogos Vorazes ou Divergente (ambas aliás tratam irresponsavelmente de suicídio e violência). Ela está aqui para trazer à baila o astronômico problema de uma sociedade em que a perversidade passa despercebida, onde podemos até pensar que a vida não é para amadores e que é necessário ser cascudo ou cascuda.

Estamos tão dessensibilizados que essas mesmas questões estão aí­ em uma infinidade de obras até infantis sem notarmos, mas em 13 reasons está incomodando e isso é bom!

É como aquele medo que nos dá quando alguém diz que a rua está escura e parece perigosa e achamos que isso pode atrair o perigo. Não pode. O que atrai o perigo é não reconhecer que a rua está perigosa e não mudarmos nosso rumo.

Até aqui o que estou vendo é 13 reasons why despertar muita gente para o perigo ao nosso redor e das pessoas que amamos (ou seja, todas, afinal somos todos irmãos e irmãs nessa ainda breve jornada da humanidade).

Mais informações:

FACTORES DE RISCO E SITUAÇÕES DE RISCO DE SUICÍDIO (PDF) DE ACORDO COM A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE
Os comportamentos suicidas são mais comuns em certas
circunstâncias devido a factores culturais, genéticos,
psicossociais e ambientais. Os factores de risco gerais incluem:
• Estatuto sócio-económico e nível de educação baixos;
perda de emprego;
• Stress social;
• Problemas com o funcionamento da família, relações
sociais, e sistemas de apoio;
• Trauma, tal como abuso físico e sexual;
• Perdas pessoais;
• Perturbações mentais tais como depressão, perturbações
da personalidade, esquizofrenia, e abuso de álcool e de
substâncias;
• Sentimentos de baixa auto-estima ou de desesperança;
• Questões de orientação sexual (tais como
homossexualidade);
• Comportamentos idiossincráticos (tais como estilo
cognitivo e estrutura de personalidade);
• Pouco discernimento, falta de controle da impulsividade, e
comportamentos auto-destrutivos;
• Poucas competências para enfrentar problemas;
• Doença física e dor crónica;
• Exposição ao suicídio de outras pessoas;
• Acesso a meios para conseguir fazer-se mal;
• Acontecimentos destrutivos e violentos (tais como guerra
ou desastres catastróficos).