Crônica de uma expectativa cinematográfica empoeirada: Tideland

Imagem: cartaz do filme

Foi essa imagem aí que hipnotizou minha imaginação há mais de vinte anos! Talvez trinta! Pelo menos é o que eu pensava.

Quer dizer, a imagem está certa, mas o filme foi lançado há onze anos e vi a capa na saudosa locadora Supervídeo em Ipanema. Então esse filme é um devaneio há apenas dez anos no máximo.

A percepção de tempo em tempos modernos… Um ano parece um trimestre, mas uma década parece três porque, convenhamos, já se passaram três descobertas do Brasil, duas revoluções industriais e duas eras espaciais nos últimos dez anos, né?

Expectativas longas podem causar dois efeitos dependendo de como a gente lida com elas.

Jeito um de lidar com expectativas longas: dar um jeito de não descobrir nada, absolutamente nada sobre ela e ir construindo em nossos devaneios tudo que esperamos daquela coisa.

Já aviso que o jeito um é péssimo, horrível! Uma rota certeira para uma vida de decepções. Bem, a menos que você tenha uma imaginação absolutamente humilde (que aqui é um sinônimo de ridiculamente ruim mesmo).

O jeito dois de lidar com expectativas longas: se informar pelo menos do que se trata realmente, ouvir umas críticas que não fazem spoiler etc. Assim a gente vai ajustando nossa expectativa ao que vamos encontrar quando finalmente assistirmos ou lermos o lance. Até já falei nisso no vídeo como gostar de (quase) qualquer coisa.

E por que eu demorei dez anos para ver esse filme? Bem, talvez em parte porque já na época me disseram que era ruim apesar da excelente interpretação da Jodelle Ferland.

Ah! Pode seguir sem medo de spoiler, tá? Acho que comentar história dando spoiler é preguiça e falta de imaginação (tirando raros casos e esse não é um deles).

Vou logo adiantando, o filme é ruim mesmo e merece os menos de 30% do Rotten Tomatoes, mas me causou impacto assim mesmo.

Por que é ruim?

O roteiro e direção de Terry Gillian (o cara é FODA, vai no Rotten Tomatoes ver) procuram construir uma narrativa onírica e desconexa, mas acaba desconexa demais.

Não é que não faça sentido, é que não fica claro onde a história quer ir, o que ela está contando, qual é o início, meio e fim.

Isso pode ser bom quando percebemos que é justamente isso que a obra quer nos mostrar, que a vida não tem compromisso com sentido. Só que não é o caso na minha opinião.

Mas eu achei bom, por quê?

Eu acabei me conectando com as facetas e dimensões da vida da Jeliza-Rose (interpretada pela Jordelle), uma criança de 11 anos tendo que lidar com coisas que acontecem de fato com muitas meninas nessa idade (infelizmente, você há de concordar se assistir o filme) e a forma como ela lida com isso, se você consegue se colocar no lugar dela, é perturbador e impactante mesmo sendo apresentado de formas inverossímeis.

São questões muito atuais e que tem ficado de lado nesses tempos de grandes causas sociais e políticas (o que é bom, não me entendam mal).

Como é anterior à grande explosão das mídias sociais (que aconteceram em 2004, logo um ano antes do lançamento do filme) somos levados a um mundo que é o contrário do atual (como mudou em 10 anos… Mas eu já disse isso, né?), mais particular, mais solitário sem ser sozinho (o que aliás é meio que uma qualidade que impressiona no roteiro) e circula em torno da vida e devaneios íntimos de uma menina comum que vive na era pré-Internet.

Talvez isso também acrescente alguns pontos à experiência do filme, ser algo de um tempo que nos parece mais puro, no entanto ao mesmo tempo é tão perturbador ou mais do que o que vivemos hoje.

Ah! Mas esse perturbador não é gratuito, não se trata da estratégia medíocre de chocar apenas para chocar (infelizmente muito usada principalmente no terror moderno). Sequer é uma perturbação em si, as coisas se tornam perturbadoras de acordo com a interpretação que nós damos de acordo com o nosso viés e estereótipos.

E essa talvez seja a coisa que mais gostei no filme, sabe, acho que perturbar nosso viés e estereótipos é uma das coisas mais importantes para nos tornarmos não só pessoas melhores, mas também para entendermos e nos adaptarmos melhor ao mundo que está mudando tão rápido.

Enfim, até recomendo que você assista esperando um filme estranho, meio mal resolvido, mas que pode te perturbar de formas que podem te mudar.

Em tempo: não assista o trailer. Vá direto nele lá na Netflix pq é mais um desses trailers que só atrapalha, dá spoiler e não passa o clima do filme.