Portas mágicas em corredores escondidos

Imagens: meu Instagram

Copacabana, a princesinha do mar, bairro cercado de mística para os estrangeiros, mas para quem mora na cidade é apenas mais uma coleção de edifícios, concreto, asfalto e pessoas perdidas e ameaças de violência a cada esquina.

Isso porque nos deixamos envolver pelo cotidiano vivendo apenas os caminhos conhecidos da cidade e esquecemos dos lugares secretos. E são tantos…

Há 50 anos esse prédio já estava aqui, plantado bem no meio de Copacabana com a arquitetura superlativa dos anos 60. Ocupando um quarteirão inteiro e dois andares de vastos corredores onde poderia passar uma manada de bisões descontrolados.

Shopping dos Antiquários é como se referem aos dois andares desde sempre pois aqui proliferam as lojas com antiguidades empilhadas que, por si, já parecem pertencer a um outro universo ou talvez páginas de uma obra clássica que tenham fugido para o mundo comum e entediante.

Estou vagando pelo segundo andar e meus passos me levam a uma das vielas esquecidas dessa cidade que se disfarça de edifício. Sei que milhares de pessoas devem estar acima de mim nas centenas de apartamentos distribuídos em um alfabeto inteiro de blocos, mas somente mais tarde lembrarei disso porque agora estou hipnotizado diante de uma porta, essa porta.

Há luz escapando por frestas, vozes quase fora do alcance da audição emanam de lá. Como se viessem das raízes das árvores que já cresceram aqui há séculos, mas hoje só existem em lembranças e fantasmagorias.

São graves… as vozes, mas por algum motivo são jovens e lindas bruxas que meus delírios colocam lá dentro.

Quando dou por mim estou totalmente envolvido em brumas que só existem em minha mente. Estou em meio a uma floresta invisível para meus olhos, mas absoluta para meus sentidos… E a Copacabana de asfalto e concreto se dissipa, os ruídos se distanciam abafados pelos sussurros que rompem o feitiço da porta.

Me lembro que a cidade é um acontecimento recente, montanhas são acontecimentos recentes nesses quatro bilhões e meio de anos desde que a Terra se aglutinou aqui ao redor do Sol, oras! Daqui a pouco a floresta, ou talvez geleiras, voltarão a dominar absolutas. Talvez a cidade é que seja uma ilusão diáfana.

Ah! Mas nesse momento a cidade devia ser muito real! Tem pessoas tremendo e fazendo tremer logo ali do outro lado da rua, gente tentando perder suas angústias à deriva na Adega Pérola, mas não, a porta, a magia e as fadas, tenho certeza que são fadas, já dobraram minha mente.

O sensato seria sair correndo dali, fadas gostam de torcer pessoas humanas deixando-as loucas para sempre… Como aquele velho mendigo de barbas longas como um rio e a exótica mulher de branco que vagam por essas mesmas calçadas e parecem sumir em praças quando a lua se esconde atrás das nuvens.

Não corro, permaneço ali desejando que a porta se abra, que uma fuga se apresente para mim também, quem sabe a loucura das fadas não seria mais suportável que a loucura da humanidade?

É… Me lembro da vontade de fugir. Logo eu que nunca fui de me curvar ao cansaço ou mesmo à impotência diante de um mundo que não podemos mudar.

Ophicina de Restauros… Acho que ainda não é minha hora. Mando um beijo para a porta, por um instante penso ouvir um estalo suave em reposta.

Sigo pelo corredor contornando as lojas, a magia se desvanecendo aos poucos conforme deixo a porta para trás e estou novamente no segundo andar de um shopping dos tempos que eles eram chamados de “galerias comerciais”, nome tão vazio quanto “shopping”, é uma tristeza quando não sabemos dar nomes às coisas.

Então… Exatamente do lado oposto da porta que acabo de deixar, encontro outro portal sorrindo ironicamente para mim.

Ju Fazdeconta é o nome:

Assim mesmo, junto, pois faz de conta junta tudo, sono e sonhos, realidade e fantasia, medo e coragem, vida… morte.

Não se deixe iludir! São as portas mais luminosas que nos levam aos caminhos mais perigosos.

No entanto são esses caminhos que nos levam finalmente para casa…

Antes de me afastar de mais esse recanto encantado tenho certeza de escutar uma risada rouca e um pequeno vulto escapando ali pelo fundo onde a luz rosa revela uma porta.