Estou cansado novamente.

Digo novamente porque estou revisando esse blog (tem a ver com um caos nos acentos) e ainda estou em 2004.

Eu estava cansado em 2004.

Cansado das pessoas não buscarem mais arte para suas vidas, de beijarem vulgarmente os delírios que agradam seus enviesamentos deturpando a realidade, cansado dos rumos, ou melhor, da falta de rumos, do passo impreciso, indeciso, inconsciente da humanidade.

Da humanidade…

Quem sou eu para me achar capaz de perceber que rumos a humanidade está seguindo?

Estava cansado na época porque, do mesmo jeito que me incomodava com quem confundia seus delírios, seu viés, com a realidade eu também via o que queria ver, ou talvez visse o que não queria ver. De qualquer forma via o que não estava lá ou, na melhor das hipóteses via apenas a fração ínfima que decidia ver.

E novamente estou cansado.

Depois de 2004 passei, lembro bem, por um período quase de euforia com a humanidade e, consequentemente, com os meus próprios rumos.

Escrevi literalmente milhares de posts, descobri (obrigado André Branco) a memética, criei ou ajudei a criar muita coisa na Globo, no Café 22, no Twestival, na Blogosfera, em gigantes agências de marketing e RP, deixei marcas e caminhos em Campus Partys e em outros eventos.

Hoje estou ajudando a construir a Win-Win, que tem potencial para ajudar a revolucionar a universalização do conhecimento humano (criação do Reginaldo Francisco, não minha, mas adoro ser coadjuvante!) e que precisa da dedicação integral do meu tempo de trabalho. Além dela tenho um pequeno grupo de amigos que se debatem juntos para sobreviver ao cansaço.

É, porque apesar de todas as coisas boas que a gente está fazendo, de todas as coisas incríveis que vemos acontecendo (como avanços tecnológicos e científicos além do crescimento de produtores de conteúdo independentes cada vez mais sérios) a gente é assombrado pelo cansaço.

Digo assombrados porque assombro é uma palavra quase perfeita para isso!

Mesmo com tantas coisas maravilhosas acontecendo do meio para as bases da pirâmide da civilização…

Acho que vale a pena dizer como estou vendo essa pirâmide, né?

Do meio para cima temos a mídia, o marketing, os políticos, as corporações e os monstros da concentração de capital (mais ou menos nessa ordem mesmo). Quando mais para cima, menos se compromete com a base da pirâmide: nós todos, mas perto do meio tem produtores de conteúdo enquanto conforme vamos descendo menos produzimos e mais consumimos conteúdo.

Bem, então é isso, quem produz conteúdo do meio para baixo tem feito coisas cada vez mais incríveis.

Tá, eu sei que tem coisas horríveis também, mas se observar bem elas estão no lugar errado. Seja por projeto ou por delírio, elas querem estar no topo da pirâmide.

Aliás, lá na base, onde tá o tio do WhatsApp que credita em tudo que é mentira que lhe passam, tenho certeza que a maioria está cada vez mais sintonizada na diversidade de gêneros, na igualdade entre os sexos, na diversidade cultural que os imigrantes trazem.

Não se trata de otimismo, se trata de não cometer o mesmo erro que eu cometia em 2004: achar que estamos vendo o quadro geral. Não estamos.

Pode ser que esteja tudo se desfazendo?

Pode.

Mas também pode ser que as pessoas horríveis que nos cercam, como o vizinho que se acha no direito de atravessar a madrugada fazendo barulho embaixo da janela do seu quarto porque outras pessoas fazem barulho em outros dias, ou aquele colega de trabalho que compra a homofobia e a teocracia de governos podres sejam apenas pústulas estourando pela febre que vai nos ajudar a criar anticorpos para doenças antigas que foram se desenvolvendo sem percebermos.

Então é mesmo uma assombração que devemos exorcizar!

E, se tudo o mais falhar, ainda assim temos que lembrar que já mudamos de vida várias vezes, que sempre podemos nos retirar do caos se temos bons amigos e rejeitamos grilhões que não deveriam nunca nos prender, mas que aceitamos porque: se não cuidarmos deles, quem cuidará? Sempre tem quem cuide.