Crônicas de realidades fragmentadas


O mundo está mudando, pode-se sentir na água, pode-se sentir na terra, farejar no ar…

É mais ou menos assim que começa Senhor dos Anéis no cinema. É em primeira pessoa, mas decidi mudar.

O que acontece é que tenho 56 anos e sempre percebi que a realidade era muito frágil aos olhos das pessoas. Em dada medida nos meus também, claro.

Lembro do surfista na década de 70 que nem fazia ideia da existência do Skylab e muito menos que ele estava prestes a cair da órbita sobre nós me deixando perplexo com meus 12 anos. Crianças certamente tem mentes mais vorazes por informação, né? Seja como for essa foi a primeira vez que fiquei perplexo com o desinteresse de algumas pessoas pelo que está acontecendo.

Vou defender o surfista. Quem tinha que se preocupar com estações espaciais ou mesmo agentes poluidores nos anos 70 ou mesmo 80? Olhando de hoje é fácil notar que seria inútil. Não havia a possibilidade de mobilizações capazes de mudar as coisas, então talvez o certo fosse ele de viver uma vida agradável e satisfatória.

Mas então vieram os anos caóticos da voz individual tornada coletiva.

Lembro bem, ali por 2008, como vozes solitárias alcançavam eco a ponto de pressionar enormes corporações.

Mas foi demais… Não no sentido de recebermos voz demais e sim no de que foi demais para absorvermos: do papel que nossa voz pode assumir ao engarrafamento cerebral de milhões de horas de vídeos, audios, fotos, textos (como esse) despejados na rede a cada minuto, talvez segundo.

Pode ser que esse post devesse estar no Meme de Carbono… Mas estou precisando mesmo é desabafar as coisas que temos ouvido de uns anos para cá que faz parecer que 1984 de Orwell está acontecendo diante dos nossos olhos.

Ainda ontem, em 2018, o atual presidente demonizava o Centrão político condenando quem negociava com ele e parentes meus e conhecido, até alguns amigos aplaudiam. Não estavam de todo errados. Agora o mesmo presidente sobe a um palco com as maiores lideranças do Centrão e os mesmos parentes e conhecidos continuam aplaudindo.

Entre as pessoas que conheço parece que se repete a ignorância do surfista pois sempre foi óbvio que aquele político cairia sobre as nossas cabeças como chuva ácida. Aplaudiam em 2018, continuam aplaudindo agora em uma assustadora paródia do duplipensar de 1984 (ainda bem que muitas outras pessoas parecem ter despertado para a realidade e o homem perdeu muito do apelo popular que tinha. Estou mal de amigos e parentes).

Toda semana, mais de uma vez.

É o vídeo dos barcos ônibus escolares que a Marinha teria feito por iniciativa do atual governo, mas 15 segundos de pesquisa mostra que foi há 12 anos e sequer deu certo porque foram mal feitos e acabaram se mostrando inseguros para uso. Aliás vejo o vídeo e a repórter mostra centenas de garrafas PET sob o piso do barco. Para quê? Qual é a diferença para flutuabilidade ou estabilidade? Como engoliram isso na época?

Outra hora é a notícia de uma senhora japonesa que recebeu indenização do ministério da saúde depois de receber alguma vacina contra a covid e morrer. O primeiro caso no país… 105 milhões de vacinados no país. Sem as vacinas, uns 10 milhões teriam morrido. Uma morreu. É mais perigoso subir uma escada que se vacinar. Mas será que morreu de vacina mesmo? Não; 30 segundos de pesquisa e lá está o artigo original: a indenização foi dada sem verificar se foi mesmo por causa da vacina que a senhora de 91 anos faleceu. Sequer se sabe quantas doses, de que imunizantes e há quanto tempo ela recebeu.

Antes desse caos todo, tem uns 15 anos? Um amigo veio com a notícia de não colocar limão no gargalo da cerveja porque reagiria com os lactobacilos provocando sei lá o quê, mas… lactobacilos na cerveja? “Quem foi o idiota que te passou essa notícia?” “Foi meu pai, cara!” “Nossa… pirou ele?”. Dessa vez são 3 segundos de pesquisa. Falso, claro!

Não é de hoje que os Skylabs transitam anônimos enquanto delírios e monstros que ninguém nunca viu são incorporados com cores e tecidos vistosos.

Voltando lá aos anos 80 tinha a kombi do roubo de órgãos e até um boato de que vinham roubando cérebros em banheiros de shopping vi circulando… Me sinto tentado a acreditar que aconteceu!

Mas, não! Taxar essas pessoas de burras não é só perverso, é errado! Elas tem mesmo medo do lactobacilo na cerveja, da conspiração da Nasa para implantar chips em nós através da vacina (em alguns anos vão achar que inventei isso, mas é verdade que muita gente acreditou nisso).

Vacina, então! Campeã em plena pandemia de covid-19 enquanto mais de 600 mil pessoas morriam no Brasil (um país que poderia facilmente restringir as perdas a dezenas de milhares ou ainda menos).

“Vamos empurrar quatro doses para eles com propaganda e medo e depois, quando tiverem reações, vamos dizer que é varíola dos macacos e empurrar mais doses” lê-se em uma foto de Regan rindo com outros políticos na década de 80 que recebi pelo recanto do terrorismo informacional, o WhatsApp.

– Pô, cara! Que absurdo isso! O que está dizendo é que a vacina não era necessária e ainda diz o absurdo que não existe varíola dos macacos impelindo as pessoas a não se vacinarem se for necessário!

– Não é isso! Está falando do oportunismo pra ganhar dinheiro!

Hã?? Até agora não entendi como funcionou essa interpretação do texto. Se a pessoa fosse comunista e achasse que não devia existir capital e muito menos empresas… Não era o caso.

Aliás, a vacina, uma tecnologia de milhares de anos, aprimorada de forma cristalina e fácil de entender nos últimos 200 anos vi muita gente recusar, mas tomaram ivermectina às pencas, ferraram o fígado e acabaram pegando a covid-19 e sofrendo 4x mais. Muitos morreram. Por isso digo que não devemos ter raiva deles pois são vítimas de um tempo de, esses sim, oportunistas que se aproveitam das inseguranças, cansaço, ignorância, medos, preconceitos das pessoas para lhes incutir um tipo de fatalismo, de desesperança que deixa entrar qualquer delírio como se fosse sólido e palpável.

Teve quem fosse tomar vacina clandestina no estacionamento quando outros 3 segundos de pesquisa bastariam para ver que obviamente não era vacina que estavam recebendo (nem estava disponível no Brasil ainda). Teve quem me dissesse que um amigo médico tinha trazido doses com ele do exterior e que tinha lhe aplicado. Nesse caso certamente mentiram para mim e só. Fingi que acreditei, o que podia fazer? Já estava cansado de argumentar com o vácuo.

A propósito do vácuo…

“Mas a vacina não pode dar efeitos adversos em 5, 10 anos?”

Li um livro inteiro sobre o sistema imunológico recentemente fazendo anotações para recuperar os detalhes quando necessário (Immune, do Kurzgesagt) e passo bem umas dezenas de minutos explicando o sistema imune e o funcionamento das vacinas, mostrando que é preciso argumentos muito fortes para falar em reações a vacinas dias depois, o que dirá anos e depois de perder o tempo de um episódio de Stranger Things da quarta temporada…

“Respeito sua opinião, mas vou ficar com o que me disseram mesmo”

Respeito… sua… opinião!

Cara! Como isso me irrita!

Primeiro que opinião não tem emoções para ter que ser respeitada! Segundo que opinião é “acho que esse tijolo é mais frio que aquele”. Quando temos um termômetro e dizemos qual tijolo é mais frio não é opinião! Quando estamos colhendo informações de centenas de anos de estudos por literalmente milhares de estudiosos NÃO É OPINIÃO!

Claro que as realidades fragmentadas não carecem dos seus falsos estudos e estudiosos e talvez sejam necessários alguns minutos e não segundos de pesquisa para verificar a solidez dessas informações (tem que ter profundo respeito pelo empenho de gente como a Bibi Bailas), mas, cara, dá para desconfiar que tá estranho, né?

Aliás… Tô com o respeito à opinião engasgado ainda! Como funciona isso de “respeito sua opinião mas foda-se ela”? Se respeita não era para, sei lá, pelo menos pensar nela com carinho, dar uma pesquisada… Isso é que nem “não sou racista/homofóbico/anti-semina/machista mas…”, né? Podia falar na real: te respeito, mas não quero nem sua opinião, nem os dados e informações que você está me dando, eu quero é te pegar desprevenido sem argumentos e ser obrigado a aceitar o que estou dizendo porque eu mesmo não acredito e quero que o universo inteiro me diga que estou certo!

Hummm… Já tô descarregando em cima das vítimas de novo, mas é difícil, né? Fico lembrando das realidades que tive dificuldade de aceitar, das que aceitei e tive dificuldade de largar depois e não consigo me colocar no lugar dessas pessoas, me soam estranhas, erradas, fragmentos que não se encaixam.

É isso. Um post desabafo porque estava precisando colocar para fora! Capaz de alguma das pessoas acima passar por aqui e de outras vestirem carapuças, mas aí já é demais, né? Pelo menos o direito de desabafar mantendo o anonimato delas eu tenho! E nunca escondi de nenhuma delas o que eu disse aqui.

Foi de propósito que não coloquei link para confirmar nenhum dos delírios acima (e deixei dezenas de fora) porque as pessoas tem que desenvolver o hábito de pesquisar!

Photo by Robby McCullough on Unsplash


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