Diluição… Essa é a palavra que estava procurando para começar esse post.

Quando era criança tinha a família se reunindo em torno do natal (no meu caso eu e meus pais), as famílias dos amigos fazendo reuniões natalinas maiores mesmo quando não eram cristãs. Tinha também os jornais, as revistas e a TV. Fim.

Tudo era Natal.

Então fomos virando uma civilização digital, memética, assíncrona e o tempo e o espaço foram se transformando em um tipo de caleidoscópio que, se por um lado nos dá liberdade, por outro fragmenta e dilui tudo.

Não é de hoje que as festividades perdem força para outros “hipes” que estouram a todo momento. É natal e aquele casal famoso se separou, é natal e a aquele ator famoso foi descoberto envolvido em machismo e estupro, é natal é várias mulheres denunciam o famoso líder religioso que as assediava e traficava crianças.

O mundo não para mais para compartilharmos o mesmo costume centenário que nos colocava no mesmo lugar e tempo.

O mundo já estava diluído, já estávamos flutuando em nossas mesas à deriva na vasta realidade paralela em que entramos absorvidos por nossas telas que nos levam para a Internet (com “I” maiúsculo mesmo porque é um planeta como a Terra, uma galáxia como a Via Láctea ou talvez seja mais como uma misteriosa Andrômeda) e então veio o firehosing, a guerra híbrida e o pânico moral despejados sobre nós de todo lado.

Aí já não estávamos mais à deriva, estávamos sendo pintadas de uma cor ou de outra e não tinha escapatória: a pessoa próxima se tornou o inimigo, os próprios pais, amigues, irmãos enquanto o problema real… Se compararmos com uma nave espacial de dimensões planetárias talvez fosse como Pandorum: o perigo é o mal funcionamento do sistema que nos enlouquece e não a pessoa ao nosso lado tomada pela loucura de um jeito ligeiramente diferente.

Chega dezembro de 2019 e o mundo logo… ia dizer que pararia de rodar, mas era apenas o tempo que ia parar nos cercando com a tempestade perfeita para nos pirar: a pandemia de covid-19 logo seria a espinha dorsal de todo terror que o sistema defeituoso faz fluir entre nós e parece que dezembro de 2020 até hoje não chegou, aliás, estamos na prisão de março de 2020.

Vejo com carinho e felicidades sinceros as pessoas que estão se reunindo para o Natal (ainda que continue não sendo uma boa ideia do ponto de vista de segurança para a saúde pessoal e menos ainda pública) ou vivendo o espírito natalino mais uma vez com o pequeno núcleo familiar.

Isso é resiliência! Alguém precisa preservar as culturas que nos uniram um dia mesmo que elas um dia venham a ser substituídas por outras afinal, por ora, ainda não temos novas redes de conexão social e cultural.

Já percebeu que aqui o Natal foi diáfano como a névoa que cobre o primeiro centímetro das florestas boreais até que o primeiro sopro da manhã a desfaça como se nunca tenha estado ali, né?

Uma parte de mim se entristece com isso pois mesmo o natal não significando nada para mim era belo ver amigues com os olhos brilhando e irradiando gentileza e carinho e esse ano, mais uma vez, não verei isso de perto… Outra parte de mim percebe que não é o espírito de natal que se perdeu, somos nós que estamos sofrendo todos os cansaços que listei há pouco e que isso vai passar, a humanidade sempre supera essas crises e não será dessa vez que capitulará! Logo ali adiante tem o reencontro das nossas mesas flutuantes, a redescoberta das nossas conexões, a descoberta de novas conexões e estruturas culturais universais e locais.

Tudo vai dar certo…