Estou me referindo ao ciberspaço, claro! Ao nosso avatar no WhatsApp, Telegram, Facebook, Twitter (que pode até fazer todo sentido serem diferentes, vou falar nisso mais abaixo) e ao que publicamos nos Instagram da vida.

As respostas de sempre podem não servir mais: fazemos nossas fotos para agradar a sociedade, para ter mais chances de arranjar emprego, para parecer mais sexy e, a mais sonhada, para me sentir bem comigo mesme.

Sério. Elas até servem, mas não deveriam e temos que pensar em mudar mais esse estereótipo. Vem comigo.

O que nossa aparência pode dizer sobre quem somos de fato? Não existe uma expressão, conjunto de adereços ou maquiagem capaz de transmitir seu viés político, moral, econômico, suas habilidades, profissão ou estado de espírito predominante.

Além disso somos muitas coisas a mesmo tempo. Sempre fomos, mas antes a sociedade nos obrigava a adotar um perfil único, como por exemplo, uma pessoa de roupas sérias ainda que, à noite, frequentasse noites dark-punk.

Se você estuda psicologia deve estar querendo perguntar dos meus problemas com meus pais e terá acertado o alvo. Em parte ;-)

Meus pais ficaram desesperados porque coloquei um avatar no WhatsApp com o céu azul atrás de mim e os olhos um pouco apertados reagindo ao excesso de luz. Os amigos acharam a expressão plácida (e estava mesmo, um momento de leveza no meio de uma pandemia que está longe de ser o nosso pior problema diante do que o necrogoverno tem feito) e meus pais inventaram um sofrimento profundo nos meus olhos e passaram a pedir, quase implorar, para mudar minha foto. Pus uma pior antes de voltar para a que causara a crise.

O problema com meus pais, no entanto, não é o ponto central aqui. O episódio me fez pensar no sentido dos avatares, no que queremos dizer com eles, no que poderíamos tentar dizer com eles.

Escolho os meus pela semelhança, para que, quando puder voltar a encontrar com as pessoas, não olhem para mim e digam “Nossa! Você está horrível no seu avatar” ou “No seu avatar vc parece bem, se eu soubesse que você está assim teria oferecido ajuda” hehehehe!

Sei que muita gente procura parecer o melhor possível nas fotos que tira e não julgo os motivos; que inclusive costumam ser justos! Tanto o “pelo menos na fantasia quero parecer bem” quanto o “Se eu não parecer ter muito dinheiro perco oportunidades de trabalho” passando por “coloco um passarinho porque me acho horrível”.

Cada um sabe das suas demandas objetivas e subjetivas, né? Não é disso que estou falando.

Antes vou cumprir a promessa lá de cima: a gente pode ter avatares diferentes para cada rede. Acho até que devíamos.

Vou usar meu caso como exemplo:

  • No Facebook sou uma personalidade um pouco mais comercial, então uso uma foto que acho que reflete um pouco mais os estereótipos em que o meu perfil profissional se encaixa: ligeiramente fora do padrão e em um ambiente público de óculos e headphone;
  • No WhatsApp praticamente só falo com uns poucos amigos então mudo um pouco a foto de acordo com o humor do período. Sem óculos, às vezes fazendo uma careta e a atual é com os ombros nus e o céu azul emoldurando meus cabelos grisalhos um pouco descabelados;
  • No Telegram participo (pouco) de alguns grupos de biohacking, literatura, geopolítica. Lá meu avatar está (espero) entre o pessoal e o profissional.

Fui pensando nessas coisas e percebendo que talvez seja hora de pensar os avatares de outro jeito. Não só de acordo com o papel que temos naquela rede, mas de acordo com as causas que queremos refletir e com o a nossa auto-imagem.

Somos avaliados o tempo todo por nossa aparência e muites de nós escondemos alguma caraterística ou “defeito” da gente. Eu escondo um sinal que apareceu sob o meu nariz, vejo muita gente mostrando seus corpos e rostos fora do padrão de beleza tanto para empoderar sua própria auto-imagem quanto para que outras pessoas encontrem representatividade, mas ainda assim volta e meia vejo uma dessas pessoas comentando que expõe a barriga, mas nunca tinha mostrado o rosto sem maquiagem porque tem falhas na pele.

A gente tem que superar essa neurose do corpo versus alma (ou personalidade, se preferir) temos que olhar para a pessoa que tem epidermólise bolhosa com naturalidade pois é uma condição natural. O que devia nos causar rejeição são os comportamentos perversos que algumas pessoas optam por seguir, como a homofobia, o racismo, o machismo… Que, sim, estão estruturalmente inseridos na sociedade, mas se tornam desvios morais conscientes no momento que tomamos consciência racional deles.

Eu descabelado fingindo sofrimento
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Enfim, como ficam os avatares? Ora! Como você se sentir bem! Só queria deixar aqui algumas reflexões, afinal pode ser muito importante para alguém de nós mostrar um momento de dor ou de tristeza como esse, que nem verdadeiro é.

Photo by The New York Public Library on Unsplash