Todo ano me vejo explicando a alguém que a data em que meu corpo passou a existir não significa nada para mim, mas nunca tinha refletido muito sobre isso, era apenas uma constatação antiga já que foi aos 11 anos (e já tenho 54) que percebi que o conceito de aniversário não fazia sentido para mim.

Lembro bem do dia. Minha mãe se maquiava diante do espelho do banheiro, apoiei meu ombro no batente da porta e lhe disse que já tinha 11 anos e estava crescido demais para aniversários.

A propósito, se eu fosse comemorar alguma coisa que me formou não seriam datas, mas eventos como esse e vários tirados das fantasias de Senhor dos Anéis, Hermann Hesse e Richard Bach entre outros. Uma mistura um tanto heterogênea, não é mesmo?

Outro momento de “nascimento” importante para mim foi quando sentei na sala escura do segundo andar do apartamento da minha namorada, diante da escada que descia para as trevas da sala no andar de baixo, e me confrontei pela última vez com os medos do escuro. Eu tinha uns 18 anos…

A propósito aquele foi o dia que entendi definitivamente que o medo é um demônio interno. Não que isso tenha me libertado totalmente dos medos, afinal somos muito mais internamente do que a nossa consciência é capaz de abranger.

Mas o que está me trazendo a isso é que ontem foi novamente a data em que esse corpo em que a consciência que de apresenta como “Roneyb” passou a existir.

Para sermos mais exatos temos que falar da sucessão de consciências que respondem pelo mesmo apelido, afinal o jovem de 18 anos que enfrentava o medo do escuro sentado em meio às trevas no apartamento da namorada não existe mais há muito tempo e certamente as mudanças que atravessou são muito mais intensas que as que modificaram o corpo onde ela, a consciência, está instalada.

Chegando nesse ponto você provavelmente entende muito bem por que de fato o dia do aniversário do meu corpo não significa mesmo nada para mim a ponto de frequentemente esquecer dele… E da minha idade também. É comum demorar um pouco para responder quando me perguntam para calcular: nasci em… 1967; estamos em 2021, então são 54 anos. Inclusive, para facilitar, já assumo que mudei de idade alguns meses antes, afinal 53,6 anos está mais para 54, certo?

O que pode não estar muito claro agora é por que o aniversário é importante para tanta gente e, questão bem séria e delicada, pode parecer que me sinto superior por isso!

Não! Não! Por favor! E nem se sinta uma consciência “menos evoluída” por gostar do seu aniversário!

Todo ano, desde antes de termos consciência de que somos uma consciência ou temos uma forma de consciência, depende um pouco do seu viés, as pessoas se reúnem à nossa volta nesse dia, comemoram suas amizades e relacionamentos conosco, lembram ao nosso lado do que passou que podem ser alegrias, superações transformações ou descobertas.

Aniversario é uma linda cerimônia de transição o que vira de ponta-cabeça a hipótese mais acima e na verdade eu seria uma pessoa estranha e talvez meio triste ou ainda que carrega as marcas de profundos traumas de infância.

Hummmm…

Tenho traumas de infância, é claro! Mas sinceramente acho que são medianos. Todas nós temos traumas por esses ou aqueles motivos e o que acaba importando mais é que saibamos lidar com eles e tenhamos pessoas por perto que nos ajudem a conhecê-los e transformá-los nos tornando… mais… equilibradas? Esse é um assunto vasto demais para um post sobre aniversários e pandemia, né? Digamos apenas “melhores”.

A questão que realmente me intriga é que eu nunca tenha parado, em 43 anos (lembra que foi aos 11 anos que descobri que aniversário não fazia mais sentido?), para pensar nessas coisas, nunca tenha dado importância à falta de conexão que tenho com a data em que comemoramos a nossa existên… ci… aha!!

Disse para uma amiga que ia descobrir enquanto escrevia!

É tão óbvio! Aniversários são comemorações da nossa existência e adoramos existir! Tá… Também são comemorações… do ego! Aha! de novo!

Veja só você! Aos 11 anos três coisas aconteceram, uma teve importância na formação do meu caráter (é, Senhor dos Anéis) e as outras duas na minha percepção da existência e do ego.

Nessa época li “Da Física Clássica à Física Moderna” de Albert Einstein e Leopold Infeld que me fez chegar a conclusão que toda existência era uma ilusão da nossa limitação de perceber a energia como matéria… É… Meus pais não sabiam filtrar o que eu lia… E, talvez por ter lido O Evangelho segundo Sidarta, decidi que o orgulho e o ego eram a origem de todos os males humanos… Errado não estava, né? Mas já depurei essa visão incontáveis vezes depois disso.

Aí está a fórmula do meu desapego, que na verdade é uma rejeição até meio “não saudável” do meu ego e uma dissociação da existência.

Vale inverter a pergunta: isso me torna inferior?

Bem, depende, não é? Depende de como vivemos a nossa visão de mundo.

Em geral me parece que a incrível diversidade de percepções da realidade nos enriquece desde que elas não nos torne fechadas, excludentes.

Por exemplo, todo ano comemoro meu aniversário com amigos.

Aos 16 anos foi a primeira vez. Duas amigas me deram o ultimato: Roney, a gente não faz aniversário por nós, a gente faz pelas amizades! Para quem gosta de nós ficar feliz. E fiz uma festa enorme para milhares de pessoas (na verdade menos de 200, acho) que elas convidaram.

Só impus uma condição: cada pessoa receberia um tipo de “sorte”, um papelzinho com uma frase escrita que, acho, eu mesmo selecionei. E nesse dia a pessoa com quem eu passaria a navegar a vida desde então recebeu a frase “Não nos encontramos por acaso”. Irônico para uma pessoa estoica e cética, né?

Acabou que parece que a pandemia não tem nada a ver com isso, mas tem tudo.

Estou convencido que foram os 11 meses de isolamento em que encontrei com o total de 5 pessoas pessoalmente e pouquíssimas vezes por pouquíssimo tempo (não mais que três vezes cada pessoa) estão causando mudanças em mim apesar de ainda não perceber isso muito conscientemente.

Tenho certeza que a pandemia não só está nos mudando, mas continuará a nos mudar por anos mesmo depois que estiver controlada ou normalizada.

Arrisco dizer que não passarei a valorizar meu ego ou a achar que a realidade é menos fluida, pelo contrário, mas estou valorizando muito mais o contato, a presença de outra pessoa, inclusive em situações desagradáveis que constroem a nossa dinâmica de relações sociais e pertencimento.

Hum… Antes de terminar pode ser bom deixar claro: Para existir interação é necessário haver vida e acabar com a pandemia, então não retire das minhas linhas que é hora para abrir escolas (a menos que sejam reformadas para serem realmente seguras) ou quebrar o triângulo do isolamento social, higiene, máscara.

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