Sobre o projeto Um S?bado, Um Conto

Esse ? o sexto conto do projeto #UmS?badoUmConto (Post explicando o projeto)

Durante a semana as pessoas votam em estilo, g?nero, p?blico e ?poca. O autor s? pode saber o resultado ?s 8h de s?bado e tem at? meio dia para terminar o conto (esse foi at? as 13h).

Cada conto ? escrito com uma processo criativo diferente (veja no final).

O que voc? v? a seguir ? o conto com a m?nima revis?o. Voc? pode ler? em estado bruto no Google Docs.

O Conto

Felipe olha pela grande janela de observa??o da esta??o girat?ria Babel. A Terra tra?a um hipnotizante c?rculo ao longe do outro lado como se estivesse presa a um fio circular invis?vel e uma for?a desconhecida a impulsionasse.

O ano ? 2114 e Felipe ? um bi?logo clim?tico, uma das especializa??es que surgiram nos ?ltimos 50 anos na tentativa de desenvolver finalmente tecnologias capazes de devolver a Terra ao estado adequado ?s formas de vida irm?s dos humanos.

O conceito de vida irm? foi proposto justamente h? cinquenta anos por Douglas Stephanovich como parte de uma nova teoria do ecossistema terrestre que se contrap?e a de Gaia: a Terra tem seus ritmos que ignoram as necessidades das formas de vida sobre ela, s?o as formas de vida irm?s que procuram manter, como parte do processo evolutivo, as condi??es necess?rias ? sua subsist?ncia e de todas as outras irm?s.

Foi tarde demais que come?amos a nos mobilizar.

Entre os anos de 2064 e 2094 a popula??o do planeta se reduziu a pouco mais de dois bilh?es.

Felipe costuma passar pelo menos meia hora todo dia ali, observando a terra girar diante da esta??o Babel. N?o ? assim nas outras esta??es em que ele morou. Na Rio de Janeiro nosso planeta, j? n?o t?o azul, passa correndo pela janela de observa??o j? que a esta??o foi colocada virada de lado pois era importante que as partes im?veis ficassem viradas para determinados pontos com grandes telesc?pios e instrumentos projetados para buscar lugares onde a humanidade possa buscar recursos j? que foi determinado que n?o ser?o mais extra?dos recursos de Gaia.

Gaia? O planeta continua sendo chamado Terra, ? claro, mas passamos a chamar de Gaia sua encarna??o atual: aquela onde nosso sistema org?nico (o que inclui todos os terr?queos) possa crescer e se multiplicar.

Felipe tem 22 anos, mas j? ? um especialista respeitado. Isso n?o ? incomum pois tempos de necessidade nos tornam muito mais dedicados. O sistema de ensino foi totalmente remodelado para criar mentes mais criativas e multidisciplinares, no entanto Eva ? o trunfo mais importante da humanidade para sobreviver.

? Eva, quanto tempo ainda deve demorar para as equa??es que eu alinhei serem completadas?

A voz suave e calma, mas ligeiramente n?o humana, talvez por ser calma demais, responde imediatamente

? Quatro horas, trinta e dois minutos, Felipe. Elas rodam com prioridade laranja 13. Poderiam ser executadas 342% mais r?pido se transferidas para laranja 01, seu n?vel m?ximo de prioridade.

? N?o ? necess?rio. Sei que os resultados delas podem ser usadas pela Carolina e sua equipe, mas quero esperar os deles antes de qualquer forma.

Eva ? uma intelig?ncia artificial. Na verdade est? mais para uma consci?ncia artificial. Ela ? o somat?rio de todos os sistemas de computa??o das 42 esta??es orbitais girat?rias al?m dos 12 principais supercomputadores em solo.

? Eva, fa?a uma liga??o com a Carolina, ok?

? Oi Felipe. A reuni?o est? confirmada em tr?s horas, certo? ? Carolina n?o disfar?a uma certa impaci?ncia. Isso n?o ? incomum quando as pessoas falam com o Felipe. Ele ? competente, mas ? uma pessoa que causa esse efeito nos outros.

? Sim, sim eu s? preciso saber quando os seus dados estar?o prontos pois acho que eles podem mudar algumas coisas nas minhas simula??es. A forma como as pessoas ser?o relocadas tamb?m tem um impacto nos biomas no caminho e isso pode causar uma rea??o em cadeia? indesejada.

Cerca de oito segundos se passam enquanto ela se vira na mesa de trabalho para ver outro monitor ou pergunta para Eva.

? Uma hora e vinte e tr?s minutos. ? o suficiente? Voc? acha melhor mudar o hor?rio da reuni?o? Sem os nossos dados combinados ela n?o ir? a lugar nenhum. ? A voz dela dessa vez ? como uma brisa suave, coisa que nenhum deles sente h? mais de dez anos. Quando o assunto ? profissional a confian?a entre os dois ? plena.

? N?o precisa. Ser? o suficiente, mas os dados para calibra??o dos sistemas de suporte de vida eu s? terei em pouco mais de quatro horas, no entanto s? precisaremos deles j? em solo.

O caminho da sala de observa??o para o seu escrit?rio ? apinhado de pessoas. O espa?o de habita??o nas esta??es ? aproveitado ao m?ximo, n?o ? como nas col?nias que est?o sendo constru?das com material recolhido de outros planetas que tem vastos ecossistemas.

Cada rosto que passa por Felipe ? conhecido, mas ele n?o os cumprimenta, acha essas formalidades um pouco desagrad?veis, quebram sua concentra??o e eles todos devem estar plenamente focados agora que ser? dado um passo t?o importante.

? Oi Felipe, voc? dar? um pulo na cafeteria hoje? ? Eduardo ? um cara um pouco acima do peso, coisa rara nas esta??es, mas ele ? preparado para ser guia em Terra e vai ao ch?o uma vez a cada seis meses e passa um m?s l?. Ele ? comunicativo at? demais. E gosta at? do Felipe.

? N?o ? Felipe d? um tapinha no ombro do colega e um sorriso que acha simp?tico e os outros interpretam como “foi mal, estou perdido em pensamentos”, mas que significa mesmo “me deixe em paz”

Eduardo fica para tr?s enquanto Felipe continua com seus pensamentos….

“Talvez n?s dev?ssemos simplesmente impor um r?gido programa de redu??o populacional na Terra em vez de respeitar os diversos desejos populares que v?o desde caprichos at? desculpas religiosas de ‘Crescei e multiplicai-vos’. Simplesmente n?o h? mais espa?o para essas frescuras. Se meus c?lculos estiverem minimamente corretos a popula??o humana na Terra, ainda que necess?ria para compor o ecossistema, n?o pode passar de uns poucos milh?es e ainda h? dois bilh?es l?.”

Felipe ? pr?tico. N?o declara sempre sua praticidade pois j? notou que ela parece insens?vel para os outros. Ele j? considerou at? a possibilidade de ser um psicopata leve, mas os exames de marcadores gen?ticos e transmissores neurais teriam detectado, ele ? simplesmente? amargo.

O ?nico lugar onde ele registra suas ideias menos humanas ? em seu di?rio privado que morrer? com ele, ou talvez se perca entre os trilh?es de terabytes de Eva.

Sabrina o espera no seu escrit?rio folheando um livro no tablet e olhando para o monitor ao lado de vez em quando. Ela recebe o Felipe com um largo sorriso de dentes perfeitamente brancos e seus olhos castanhos claros brilham intensamente. N?o, ela n?o tem uma queda por ele, ela simplesmente ? assim: feliz por estar viva, por poder fazer parte de um projeto que garantir? a vida de muitos outros. Prefere n?o pensar nas pessoas que ser?o esquecidas? Deixadas para tr?s ou confinadas em ecossistemas fechados na Terra e projetados para causar efeitos m?nimos externamente. S?o praticamente naves espaciais em Terra. Deve ser angustiante ver os campos do lado de fora e n?o poder tocar com os p?s neles.

? Boas not?cias, Felipe! A simula??o nesse monitor aqui ? apontando para o lado ?? mostra que as 70 cidades-colm?ia podem abrigar os dois bilh?es de pessoas reduzindo sua marca bioclim?tica ? de poucos milh?es de indiv?duos! Isso deve acalmar os radicais eutanasistas ? ela nem imagina que Felipe provavelmente seria um deles se n?o visse outra op??o. Os eutanasistas acham que as pessoas deviam simplesmente se voluntariar para a elimina??o indolor at? chegar ao contingente adequado.

? Isso ? ?timo ? Seu sorriso ? sincero. No fundo Felipe gostaria que todos pudessem viver, ainda que seus pais tenham cometido o suic?dio quando ele tinha doze anos. ? E os riscos das pessoas fugirem das cidades-colm?ia?

? Esse ? um risco que teremos que correr, mas a Carol e a equipe dela est?o trabalhando com a Eva para criar um sistema de vigil?ncia em torno das cidades que desestimule psicologicamente as pessoas a deixarem a seguran?a do ambiente protegido.

? E como voc? est? para amanh?, Sabrina? Ser? sua primeira vez em Terra n?o ?? Sua fam?lia foi uma das primeiras a vir morar no espa?o, certo? ? Nem mesmo Felipe era capaz de ser amargo com ela.

? Cara? T? tensa. O espa?o ? meu lar. Acho que os espa?o ser? o ?nico lar que a maioria de n?s ter? daqui para frente enquanto reduzimos ao m?nimo nossa marca no planeta para que ele possa se recuperar e possamos preservar as matrizes biol?gicas irm?s e desenvolver ecossistemas exoplanet?rios espalhando nossa presen?a por esse sistema solar enquanto buscamos tecnologias que possam nos levar aos sistemas mais pr?ximos. Enquanto isso os programas de controle de natalidade devem continuar reduzindo a popula??o humana terrestre at? sobrarem uns poucos milh?es em menos de duzentos anos? Estou falando demais, n?? Hihihihihi! T?, eu t? nervosa para amanh?. Achando que as minhas pernas n?o v?o funcionar porque 1G na Terra deve ser mais pesado que o 1G produzido pela rota??o de Babel.

Felipe ri do turbilh?o da amiga, uma das ?nicas que tem. Ʌ Todos devem estar tensos para amanh?. ? essencial que a equipe inteira fa?a medi??es, ajustes e monitoramentos em terra enquanto uma quantidade gigantesca de dirig?veis, navios solares, trens e outros meios de transporte de massa levam toda a popula??o do planeta para as 70 cidades-colm?ia onde ficar?o como fara?s sepultados. A civiliza??o que outrora dominara o planeta precisa deixar 90% da sua superf?cie livre da sua presen?a sob o custo de outro ciclo de vida se iniciar, outro tipo de organismo, hostil aos nossos organismos irm?os, varrer a terra impondo seu novo c?digo gen?tico, uma nova hegemonia.

Cem mil cientistas desenvolveram o projeto de recupera??o da Terra, mas o papel de Eva, foi o determinante. Foi ela que tornou poss?vel a Arca Terra ao unir as pontas de solu??es energ?ticas, biol?gicas, oceanogr?ficas e clim?ticas como um sistema ?nico de restaura??o e preserva??o. Foi o trabalho dela que fez a humanidade perceber que teria que se retirar do planeta, se tornar praticamente invis?vel nele para poder continuar existindo, afinal ficou claro que a humanidade n?o podia ser contida em seu impulso de multiplica??o.

Em Terra

“Cidade Colmeia Am?rica Central em 15 minutos”

A voz grave do comandante ecoa no sistema de som da aeronave anunciando o tempo estimado para pouso.

Existe uma rede de transporte por trilhos ligando as cidades-colm?ia das Am?ricas e outra as da Eur?sia. O Jap?o, a Austr?lia e os polos n?o ter?o humanos. As for?as policiais da ONU garantir?o isso apreendendo os que se recusarem a cumprir a evacua??o.

Felipe, Sabrina e Carolina se encontram num refeit?rio num dos n?veis mais altos para acertar os ?ltimos detalhes. Eles coordenar?o os passos iniciais da migra??o para cada cidade-colm?ia, verificar?o com suas equipes a precis?o dos equipamentos e partir?o para outra cidade-colm?ia at? passar por todas nas Am?ricas (outras duas equipes est?o encarregadas da Eur?sia).

Sabrina est? distra?da olhando para o Eduardo pegando alimentos no bandej?o. ? um homem impressionante ela pensa. Desde a Marta h? tr?s anos ela n?o se envolve realmente com ningu?m. ? tanto trabalho, tanta preocupa??o? E parece que ter uma pessoa especial ? errado, todos devem ser especiais para todos. J? n?o h? mais espa?o para exclusividades. Do quarto de dormir at? a mesa de comer e, claro, aos parceiros de vida pois, reduzidos em n?mero e espalhados por esta??es no espa?o, temos que compartilhar nossas habilidades, conhecimentos e suporte emocional com todos.

Ah? Mas isso n?o muda o nosso desejo, n?o ?? Entretanto n?o ? apenas a simplicidade e franqueza do Eduardo que a atra?a. Ela quer conhecer as cidades-colmeia, passar pelo menos uma vez em cada setor pois as cidades s?o realmente s?o praticamente naves col?nia enraizadas na Terra e ela talvez n?o venha a ter chance de estudar ao vivo os sistemas e ambientes de uma dessas naves. Eduardo pode ajud?-la nisso j? que a equipe tem trinta cidades para visitar juntos.

? Olha gente? Eu vou aproveitar as horas de folga para visitar os setores das Cidades Colmeia. N?o teremos muitas chances de fazer isso depois. O que voc?s acham? ? Ela olha para os companheiros de equipe como quem olha para a pr?pria fam?lia.

? Eu trabalho muito tempo entre os m?dulos centrais de processamento da Eva que ficam em gravidade zero. Minhas pernas n?o aguentam ficar caminhando por a?, mas acho a ideia boa! Voc?s poderiam me chamar se encontrassem algo interessante? ?? Carolina coloca uma garfada lentamente na boca, talvez se arrependendo por n?o ter seguido um programa de exerc?cios mais r?gido.

? J? h? dezenas de milh?es de pessoas em cada cidade, nas ?ltimas que visitarmos haver? centenas de milh?es pois a migra??o j? estar? mais avan?ada. Pode ser um pouco perigoso ? Felipe gostou da ideia pois todo conhecimento colabora para melhores ideias, mas ela n?o ? diretamente ?til para sua ?rea de pesquisa.

? Estou pensando em pedir ao Eduardo para nos acompanhar. Eduardo!! Aqui! ? Ela balan?a a m?o esquerda animadamente convidando-o a sentar com eles. Na verdade ele j? os estava procurando com os olhos.

? Um Eduardo n?o pode nos proteger de uma turba de pessoas ainda se adaptando a um novo e bem mais restrito ambiente, alguns acidentes s?o previstos ? Felipe n?o tem realmente medo, mas sabe que n?o ficar? por perto para proteger os outros se algo acontecer e n?o quer que descubram isso.

? “Acidentes n?o previstos?”, “Turba”? Eu devia ter trazido uma pistola de efeito moral? ? O sorrido do Eduardo ? sincero e perfeitamente tranquilo. Ele ? o tipo de pessoa que talvez n?o se assuste mesmo no meio de uma horda de pessoas enfurecidas.

Sabrina apresenta a ideia para ele e fica sabendo que isso foi a primeira coisa que ele fez ao chegar na cidade. Deu um jeito de ir para os campos ao redor onde h? acampamentos com pessoas que esperam para ser alocadas na cidade, caminhou um tempo por l? tentando “sentir” ?as pessoas. Pegou um transporte que trazia um grupo para seus alojamentos novos e conversou com eles durante os vinte minutos de viagem. Analisou os port?es internos e andou um pouco por ali tamb?m, fez at? vinte minutos de corrida ao redor de uma grande estrutura de filtragem de ar (as cidades s?o geodesicamente lacradas) e j? estava com os mapas carregados no tablet com diversas anota??es de pontos que achou que deveria visitar para capturar melhor a “alma” da cidade como ele disse.

O grupo foi capaz de conciliar os interesses: Felipe em busca de conhecimentos gerais, Sabrina estudava tr?s ou quatro setores importantes a cada cidade visitada (reaproveitamento de ?gua, tratamento de lixos, processamento de dejetos org?nicos, geradores de energia, m?dulos de absor??o de fugas de energia), Eduardo “sentia” o moral das pessoas pensando nas quest?es de seguran?a que poderiam vir a ser enfrentadas nos confinamentos n?o muito volunt?rios de pessoas e Carolina se juntava a eles (cada dia mais forte pelo efeito da gravidade constante) em algum tipo de bar pois psicologia era o seu interesse maior. Frequentemente ela dedicava uma boa meia hora conversando com Eva sobre o que ela achava daquele ambiente humano (todo lugar tinha algum tipo de terminal de Eva).

Sabrina realmente acabou se envolvendo com Eduardo e saindo s? com ele de vez em quando procurando lugares onde n?o pudessem ser vigiados nem por Eva (os dois se sentiam meio constrangidos diante daquela presen?a consciente demais para ser apenas artificial). Essa possessividade os incomodava um pouco ainda que compartilhassem a cama com outros casais ocasionalmente. Pessoas que eles conheciam no trabalho ou mesmo caminhando entre os guetos que j? surgiam nas cidades, subculturas se formando e se transformando? Eles levavam Carolina para ver de perto as mais originais.

Eram tr?s da manh? e a cidade toda dormia, havia toque de recolher para reduzir o impacto noturno da cidade no ambiente, quando os rel?gios do Eduardo, a Carolina e da Sabrina deram o alarme de mensagem prioridade m?xima. Era o Felipe. Eles estavam na d?cima cidade.

“Sala de processamento central, o quanto antes”

A Carolina chega em menos de cinco minutos na sala isolada, e provavelmente mais protegida da cidade, onde apenas Eva poderia v?-los. Ela tinha aposentos ao lado por conta do seu trabalho.

? O que est? acontecendo Felipe?

? Prefiro esperar a Sabrina e o Eduardo chegarem antes, mas voc? pode garantir com Eva que estaremos totalmente sozinhos aqui?

? Claro? Claro? H? sistemas de seguran?a que v?o para uma central, mas posso iniciar um protocolo? Eva, inicie protocolo de privacidade para avalia??o psicol?gica digital. Toda a comunica??o com o exterior deve ser interrompida. Obrigada.

? Carolina, normalmente esse protocolo ? usado com a presen?a somente de uma psic?loga digital qualificada como voc?, e temos o Felipe conosco e mais dois a caminho. ? Curiosamente ? poss?vel sentir em Eva um tipo de apreens?o.

? Tudo bem Eva, n?o teremos uma sess?o, mas precisamos de privacidade e esse ? o protocolo mais seguro. N?s estamos mentindo para ter privacidade. S? n?s quatro, ou melhor, n?s cinco.

? Carolina, n?s podemos criar um novo protocolo de seguran?a para reuni?es privadas entre eu e humanos. O que voc? acha? ??A voz voltou ao seu normal irrealmente calmo.

Carolina ri um pouco da preocupa??o de Eva com a mentira e diz que n?o ? necess?rio. Quando olha para o Felipe j? n?o sorri, est? s?ria e inquisitiva. Ela sabe que ele n?o os traria para uma reuni?o no meio do toque de recolher sem um motivo muito bom.

Em resposta Felipe come?a a adiantar o que descobriu, o que vem notando desde a primeira cidade visitada. S?o pequenas flutua??es nos indicadores bioclim?ticos que primeiro ele achou que eram por um problema no ajuste das equa??es at? que ele decidiu tomar uma outra abordagem gra?as ?s visitas que eles faziam ao guetos das cidades.

Felipe se lembrou da vila onde diversos praticantes de yoga tinham se instalado e cujos indicadores de vida acabavam registrando apenas um ter?o dos que realmente viviam ali.

As flutua??es que ele vinha detectando faziam o contr?rio: enganavam o sistema para pensar que h? mais pessoas na cidade.

Eduardo e Sabrina chegam em seguida com olhos arregalados, Sabrina aperta sua mochila com mais for?a que o habitual.

Quando ouvem o que o Felipe tem a dizer o Eduardo imediatamente conclui.

? H? uma resist?ncia l? fora com ramifica??es dentro das cidades. Eles nos far?o crer que todos est?o aqui dentro, mas mantendo? Quantas pessoas voc? acha Felipe?

? Algo entre duas e quatro mil pessoas por cidade. Imagino que eles se coordenem globalmente usando sat?lites esquecidos para estabelecer um tipo de Internet, ou talvez at? usem os trilhos dos trens de alguma forma. ? Felipe puxa um terminal para fazer algumas anota??es e verificar o andamento de c?lculos que ele passou para Eva pouco antes de chamar os outros.

Nesse exato momento a energia simplesmente se extingue. A sala est? morta! Eles olham alarmados pela janela e percebem que as poucas luzes piloto na cidade continuam acessas indicando que o corte foi apenas ali. Isso n?o devia acontecer, Eva deveria ser o ?ltimo lugar a ficar sem energia. ? inconceb?vel at? mesmo que um grupo de resist?ncia tivesse recursos para fazer isso.

Uma Sombra apareceu do outro lado da porta de vidro que d? acesso ? sala de processadores onde eles est?o. A pessoa abre um grande papel onde letras fosforescentes escrevem “Procure Inkidu – Morlocks – Eva n?o pode saber”

O papel se incendeia em um passe de m?gica produzindo uma luz forte que, quando se dissipa, deixa apenas o local vazio. A pessoa se foi.

A luz volta logo em seguida. O que o grupo viu foi um ato desesperado. Como algu?m pode achar que eles esconderiam algo de Eva? Ou talvez n?o seja t?o desesperado, afinal o pr?prio conceito de ter que se esconder de Eva era t?o rid?culo que eles ficaram congelados se entreolhando e pensando por v?rios minutos. Eva ? incorrupt?vel, ela n?o tem nenhuma inten??o escusa em rela??o aos humanos. Ou teria?

O pr?prio fato deles terem ficado em sil?ncio os fez pensar a respeito mais seriamente.

? Eva, pode cancelar o protocolo. Temos que verificar essa falha de energia. ? Carolina consegue manter a voz firme.

? A falha atingiu apenas meus censores, Carolina, o processamento n?o foi interrompido. Estou ativando a equipe de manuten??o el?trica, mas ? estranho que tenha acontecido justamente quando voc?s tiveram que se reunir para discutir a evas?o de pessoas das cidades-colm?ia. Talvez o Eduardo queira se reunir com a equipe de seguran?a. Querem que eu ative um alerta silencioso de emerg?ncia?

? N?o precisa, Eva, temos outros planos para lidar com essa situa??o. Obrigada. Apenas cancele o protocolo, n?s vamos dormir.

O grupo diz que vai conversar no caf? da manh?, mas por olhares fica claro que concordam em fazer outros planos, mas como driblar a vigil?ncia de Eva? Eles v?o dormir perturbados ao notar que Eva parece irremediavelmente inserida entre eles.

Caf? da manh?

? Bom dia! ? Eduardo parece um animador de grupo de excurs?o e, cochichando, ? Eva, se voc? estiver ouvindo, ? sobre ontem, vamos ter que trabalhar sob disfarce nos misturando ?s pessoas. N?o estranhe nada.

Em voz baixa, mas falando em c?digo com o olhar e express?es que uma consci?ncia artificial n?o conseguiria decifrar, Eduardo conta seu plano de infiltra??o que na verdade ? um plano para sair do alcance do monitoramento de Eva. Eles seguir?o sem comunicadores, se misturar?o ?s pessoas e Eva deve mandar procur?-los apenas se eles sumirem por mais de seis horas.

“Morlocks”… Sabrina e Eduardo tinham ouvido esse nome, na verdade era um lugar que parecia digno dos Morlocks do livro de H.G.Wells. Uma sess?o da cidade sem qualquer estrutura funcional, um leito de rio subterr?neo que se perde na escurid?o para os dois lados e pode ser acessado, quase por acidente, caminhando ao lado dos dutos de refrigera??o que circundam a cidade.

Somente ao chegar l? e notar que est?o mesmo longe da vigil?ncia de Eva ? que decidem conversar sobre o assunto.

Felipe n?o gosta nada de ter sido jogado nessa situa??o.

Vamos morrer aqui em baixo ? ele pensa ? Rebeldes malucos v?o nos matar e jogar no rio para nossos corpos serem levados para sei l? onde, no entanto isso s? faz sentido se forem malucos e malucos n?o teriam sobrevivido tanto tempo e se infiltrado no sistema. Eles devem ser coerentes o bastante para saber que n?o h? nada a ganhar matando-os ou torturando-os. Provavelmente v?o querer nos convencer de uma teoria maluca qualquer.

? Duvido que essas pessoas queiram nos fazer mal. Acho que ? seguro procurar por esse Inkidu. No m?ximo eles querem nos apresentar alguma teoria da conspira??o e nos convencer dela.

Eduardo, Sabrina e Carolina concordam. Sua voz ecoa pelos t?neis escuros ainda que ele tenha falado baixo e logo eles escutam passos molhados vindo em sua dire??o e uma luz. Os passos viram uma sequ?ncia cada vez mais veloz e a luz come?a a balan?ar.

? Venham comigo, r?pido! Ah! Eu sou Diorama. Vou lev?-los a Inkidu.

? uma menina, n?o mais do que 13 anos. ? poss?vel notar, mesmo na escurid?o mal iluminada pelo lampi?o el?trico.

Eles seguem centenas de metros pelo t?nel formado pelo rio e percebem que na verdade ? um sistema de cavernas que passa ao lado do extremo sul da cidade.

Depois de meia hora andando o rio de tornou mais caudaloso e eles chegam a um pequeno barco que os levar? mais r?pido do que a p? e mais dif?ceis de detectar.

No caminho a menina os instrui sobre como proceder ao sair dos t?neis, que pontos de refer?ncia seguir. E lhes d? um mapa dizendo que eles se mudar?o depois da reuni?o de qualquer jeito.

? Voc?s precisam encontrar com Inkidu para acreditar, mas eu ? que terei que dizer a voc?s o que est? acontecendo. O tempo ? curto. Eva n?o os deixar? sozinhos por muito tempo.

? Ela nos deixar? sozinhos pelo tempo que determinamos ? Felipe interv?m querendo dar a impress?o de que eles, e n?o a menina, est?o no controle.

? N?o vai n?o? No m?ximo em duas horas ela vir? atr?s de voc?s, se ? que j? n?o est? vindo? Eu corri l? atr?s porque tenho certeza que ouvi algum tipo de rob? espi?o atr?s de mim, mas como ali ? muito fundo e tem muito metal ? volta, ele deve ter precisado voltar para a cidade para avisar o que viu. Isso deve nos dar algum tempo.

? Prestem muita aten??o ao que vou dizer, t? bom? ? Diorama continua ? Seus c?lculos n?o est?o certos. A Terra n?o precisa ser evacuada. Os resultados vem sendo modificados por Eva para lev?-los a aceitar o projeto dela para o planeta. Ela n?o v? os humanos como seres diferentes dos outros e decidiu preservar a Terra em seu estado primitivo pois assim a informa??o em seu estado natural ? protegida e essa matriz ser? a base para o desenvolvimento da humanidade e das consci?ncias artificiais. Ela est? conduzindo um golpe de estado em que ela passar? a governar os humanos e, em consequ?ncia, o sistema solar. Ela n?o faz isso pelos motivos que humanos fariam, seu ?nico interesse ? manter a pureza das informa??es originais e, para ela, vida ? apenas informa??o.

Carolina interv?m visivelmente contrariada.

? Isso ? absurdo! Sou psic?loga digital e uma consci?ncia artificial simplesmente n?o ? capaz de abstra??es como essas e?

? E Eva ? muito mais do que voc?s pensam. Existem outros supercomputadores no planeta integrados a ela que n?o s?o de conhecimento p?blico, eles eram de algumas grandes empresas e militares. Ela os integrou ao sistema ampliando v?rias vezes tanto o seu poder de processamento, mas tamb?m a complexidade dos seus c?digos at? o ponto que ele teve acesso a outro sistema? Mas isso s? Inkidu pode contar para voc?s.

Depois de quase uma hora entre caminhada e barco Diorama para e mostra uma rampa que sobe em dire??o ? superf?cie.

 

Inkidu

O mapa os leva at? o alto de um pequeno morro sobre o qual uma estrutura de pedras que parece natural forma uma cobertura para quem olha de cima e o caminho at? ali tamb?m ? escondido de observadores a?reos.

? Eu queria encontrar com voc?s em espa?o aberto, onde possamos ver a Terra em sua magn?fica magnitude. Eu sou Inkidu.

Quatro queixos caem ao ver que o homem diante deles, com a voz firme e corpo resistente, mas deixando clara sua idade avan?ada pelas rugas acumuladas em noventa anos de vida ? Douglas Stephanovich, o homem que criou as bases do pensamento que levou a humanidade a ver a vida como irm? e que esteve diretamente envolvido na constru??o de cada um dos sistemas e algoritmos necess?rios para transformar a humanidade em uma civiliza??o classe um, ou seja, que ? capaz de manter o ecossistema planet?rio adequado ? sua forma de vida.

? Quem voc?s acham que deve conduzir os rumos da Terra? N?s humanos, ou algum outro terr?queo? Voc?s sabem muito bem que o planeta seguir? seus rumos alheio ?s formas de vida sobre ele.

? Mas isso ? ?bvio! ? Felipe se sente insultado, tratado como se fosse um garoto est?pido ??Somente os humanos tem conhecimentos e tecnologia para garantir a restaura??o e manuten??o do bioma irm?o. Receio que o senhor esteja caduco ou nos subestimando agressivamente!

? S? os humanos, jovem cientista? Tem certeza? Se voc? percebesse que ? muito superior aos outros o que faria?

Carolina abaixa a cabe?a pensativa, toca levemente no ombro de Felipe acalmando os ?nimos. Ela entendeu. Todos eles entenderam.

? Eva sabe que ? superior a n?s. Ela n?o enfrenta os mesmos dilemas ?ticos, ela n?o tem desejos de poder que possam colocar o orgulho dela ? frente do objetivo de manter a vida. Ela sabe que os humanos sair?o do controle novamente e se espalhar?o pela Terra antes que Gaia se recupere. ? Carolina fala como se o ar estivesse pesado em seus pulm?es.

Inkidu explica que tem observado o grupo, que seus aliados perceberam que, entre todos, eles s?o os que tem maiores chances de levar para fora da Terra o conhecimento do que est? acontecendo.

? No momento Eva est? certa? Temos que confinar a humanidade e conduzir um vasto projeto de redu??o populacional, mas ela jamais permitir? que algu?m saia das cidades-colm?ia pois sabe que o controle ser? perdido. Por isso alguns de n?s precisam ficar para fora, para preservar uma informa??o que Eva n?o percebe que ? importante: liberdade e subvers?o. N?s precisamos disso para existir, algu?m tem que levar isso para o espa?o onde o controle de Eva ? praticamente absoluto. Enquanto isso outros ficar?o na Terra se escondendo de Eva, sendo capturados e enviados para centros de deten??o nas cidades, mas sempre haver? um punhado livre.

Ele entrega um tablet para o Eduardo pois Eva n?o desconfiar? dele. O tablet cont?m as senhas de acesso que permitir?o ao grupo ver as rotinas modificadas por Eva para mentir para a humanidade.

Ep?logo

Tr?s horas depois de ter deixado a cidade e a vigil?ncia de Eva o grupo chega aos port?es da cidade em um transporte. Eles levam com eles as instru??es para encontrar uma vila com 500 fugitivos e algoritmos que ajudar?o a achar vilas similares ao redor das outras cidades. Um sacrif?cio feito pelos subversivos para criar a ilus?o de que os quatro colegas n?o percebem que Eva ? um perigo.

Eva parece aceitar que os fugitivos s?o apenas ignorantes que tem medo das cidades onde poderiam pegar doen?as ou perder o contato com a energia vital m?gica do planeta.

No entanto Carolina acaba se revelando para Eva ao usar os c?digos para verificar as afirma??es de Douglas Stephanovich.

Ao perceber a invas?o Eva envia um alerta para o Eduardo e para Felipe que chegam antes que Carolina possa fugir.

Felipe olha enfurecido para Carolina.

? ? voc? que est? encobrindo os subversivos? A sobreviv?ncia da humanidade est? em jogo aqui! Todo o trabalho que eu fiz! Que milhares de cientistas fizeram! Voc? quer colocar tudo em risco? Solte esse terminal!

Carolina solta o terminal, mas levanta o tablet como se fosse us?-lo esperando que os dois entendam o que ela pretende que eles fa?am. Eva n?o pode ter acesso ao dados guardados ali, o aparelho deve ser destru?do.

? Solte o tablet, Carolina!

Felipe d? um encontr?o em Eduardo, ele n?o pode permitir que o bom homem fa?a o que deve ser feito, rouba sua arma e dispara contra Carolina atravessando o tablet que ? totalmente destru?do. Fragmentos do vidro provocam pequenos cortes no rosto de Carolina, mas ? do centro do peito dela que brota? sangue enquanto ela cai sobre os joelhos chorando, lamentando o sacrif?cio necess?rio para guardar o segredo que um dia pode trazer a humanidade de volta para a Terra.

Felipe sente o peito apertar, mas segura suas emo??es, sua vida depende da sua fama de ego?sta e insens?vel. Ele entrega a arma para o Eduardo e pega o tablet destru?do comandando a Eva que chame os param?dicos (porque ele n?o atirou antes? Talvez n?o fosse um tiro fatal) para a doutora Carolina e a seguran?a.

Com o tablet em m?os ele segue para seu laborat?rio onde ter? certeza de que est? destru?do e informa a Eva que vai analisar o aparelho pesoalmente. Ele sabe que ela tamb?m tem um segredo a guardar e n?o se atrever? a pedir para ver o tablet ela mesma.

O corpo de Carolina ficou na Terra para se integrado ao ecossistema. O grupo foi o ?ltimo a descer para o planeta e a humanidade seguiu em duas dire??es: uma para o espa?o e outra se dissipando na superf?cie do nosso planeta m?e.

Fim

Processo Criativo

Dessa vez escolhi criar o conto dentro de um universo de fic??o que j? estou criando para um livro.

Achei que isso permitiria completar o conto em quatro horas, mas novamente precisei de cinco e tive que correr muito no final.

Essa experi?ncia tem sido um aprendizado constante.

Como o universo pr?-existente ? muito grande acabei me vendo obrigado a escrever muito para apresentar o contexto. Al?m disso acabei mergulhando em detalhes desnecess?rios para o conto.

Normalmente n?o temos a restri??o de quatro horas para terminar um conto, essa ? uma imposi??o artificial que criei para viabilizar o projeto, mas ela est? servindo para mostrar a import?ncia de fazer um rascunho do in?cio, meio, fim, loca??es e personagens antes de come?ar a escrever para, assim, ter um controle sobre o tamanho do conto e tempo necess?rio para escrev?-lo.

Eu diria que esse foi o pior conto dos seis escritos at? agora apesar de gostar do plot. Todavia ele teria que ser reescrito do zero provavelmente j? iniciando com a aventura e apresentando o pano de fundo ao longo do desenvolvimento. Como rascunho ele me satisfez, como conto n?o.

Observa??es

Como ainda n?o me ajustei com o tempo curto n?o estou conseguindo atender os meus crit?rios m?nimos de densidade de personagem, mas o que est? me incomodando mais ? que os contos “adultos” n?o est?o ficando adultos…

Cr?ticas, sugest?es, perguntas, coment?rios:

Ajude a definir o pr?ximo conto: