Para quem n?o conhece o projeto e caiu aqui meio de paraquedas:

https://www.roney.com.br/2014/09/11/um-sabado-um-conto/

A Primeira Noite

Carlos est? sentado numa mesa na cal?ada mais afastada da entrada do boteco, um desses points ao redor dos quais centenas de pessoas se acumulam como que orbitando uma estrela an? com luz p?lida, mas quente surgindo na madrugada vazia. S?o sistemas solares separados por v?rios quarteir?es de sil?ncio sepucral at? onde ? poss?vel uma cidade ser silenciosa pois o rugido dos carros passando produzem golpes de vento estranhos, antinaturais e sempre ? poss?vel escutar um tipo de murm?rio t?o difuso que pode parecer vir do pr?prio ch?o.

Carlos est? sozinho, seus amigos acabaram de ir e ele disse que ficaria um pouco mais observando uma mo?a num grupo de amigos mais ? frente. Cabelos pretos bem lisos e curtos, a pele t?o branca que ela parece estrangeira, os l?bios se destacando vermelhos sob a luz amarelada da ilumina??o p?blica. Os tr?s amigos lhe d?o um tapinha nas costas, um soco no bra?o, uma piscada insinuante.

Jasmim Campello

Jasmim Campello

Carlos n?o entende bem o que v? na mo?a, ele prefere mulheres direitas e aquela tem at? uma tatuagem, mas algo nela atrai seu olhar e parece prend?-lo no ch?o. Ele decide simplesmente ficar observando a mo?a e tentando descobrir que ? atra??o ou um tipo de curiosidade que o capturou.

“Jos?! Fecha a?!”

Ele tinha pedido mais um chopp depois que os amigos partiram, mas agora a mo?a dava sinais de ir embora e, sem perceber, ele teve o impulso de pedir a conta? Que n?o veio a tempo ent?o, quando a mo?a saiu do bar dando beijinhos e abra?os apertados nos amigos, ele se aproximou do Jos?, o gar?on que sempre pegava o turno da madrugada e com quem todos conversavam e brincavam, mas sem nunca saber ou se interessar de fato pela vida do homem que j? deixara a juventude para tr?s h? d?cadas, e coloca em seu bolso uma nota de 20, bem mais do que o necess?rio para pagar a conta, e segue atr?s da mo?a como quem simplesmente segue para sua casa pr?xima dali.

A cal?a jeans apertada, a bolsa-mochila de couro preto balan?ando nas costas dela e a blusa tamb?m preta de tecido flex?vel s?o quase hipn?ticas para ele, um homem de quase trinta anos seguindo uma mulher pela rua, mas tanto ele quanto seus colegas faziam isso com frequ?ncia ainda que n?o comentassem isso uns com os outros, no m?ximo falavam de suas aventuras sexuais com as gurias que encontravam por uma noite na balada, que algumas vezes levavam para o motel para nunca mais ligar para elas e mal se lembrar do rosto.

Isso causava umas situa??es um pouco constrangedoras de vez em quando, como dar em cima de uma mo?a com quem eles j? estiveram meses antes e sentir o rosto quente do tapa que receberam seguido de um olhar de reprova??o, ou at? de desprezo, e a voz suave (mulheres sempre tinham vozes suaves para eles) dizendo algo como “para voc? sumir de novo? Cai fora!”, mas algumas acabavam saindo com eles de novo.

Ela entrou por uma viela escura, mocinhas n?o deviam entrar por vielas escuras de madrugada! E se tiver ali no meio do caminho um mendigo oportunista, ou um assaltante verificando o ganho da madrugada com uma faca enfiada na cal?a pronto para uma outra v?tima.

Ele decide segui-la. Tem medo de entrar na viela, mas? Uma mulher entrou, porque n?o ele? E se algo acontecesse seria mais ? frente, ele teria tempo de? Decidir o que fazer. Ele achava que deixaria rolar, afinal quem mandou a mo?a se enfiar al?, mas tamb?m desconfiava que poderia virar um her?i repentinamente, gritando com a voz forte “Cai fora, moleque! Vou te queimar filho da puta!” e isso bastaria para o meliante fugir e a mo?a se atirar em seus bra?os querendo agradecer de todas as formas por ter sido salva.

A viela cheira a mijo e coc? acumulados ao longo de eras de moradores de rua e frequentadores de bares que usam o lugar como banheiro p?blico. No meio das sombras ele v? um bolo de panos e um movimento breve, algu?m dormindo no meio daquela porcaria? Como essas pessoas chegam t?o baixo? Mas ele n?o pensa na hist?ria da vida daquele mendigo, pensa apenas que aquilo n?o ? mais uma pessoa.

A mo?a tinha passado por ali sem olhar para o lado, sem que seus passos firmes vacilassem por um segundo sequer, mas quando ele passou pelo homem (porque ele assumiu que era um homem? Poderia ser uma mulher, uma crian?a?) os passos param. Ele olha para frente e v? que a mo?a est? olhando para tr?s, para onde ele est?. A luz vem de tr?s dela ent?o ele v? apenas sua silhueta. Tem a impress?o de ver seus olhos brilharem, podem estar refletindo a luz da rua que vem do outro lado da viela, pode ser apenas impress?o dele. Ser? que ela consegue v?-lo? Ele olha para tr?s avaliando se a luz ? suficiente, mas v? apenas as sombras dar paredes apertadas espremendo a viela como se fossem se fechar sobre ela.

Algo bate em seu p? e Carlos d? um salto e um grito que ele prefere considerar que foi muito m?sculo. No meio das sombras surge o rosto sujo de uma crian?a com seus 12 ou 13 anos, n?o d? para definir seu sexo “Tio, tem um cigarro a??” “N?o fumo!” e se vira para fugir dali. Ao olhar para frente n?o v? mais a mo?a. Ele segue sem correr para n?o se entregar ao susto que levou e, ao sair da viela tem tempo apenas de ver, ou ter a impress?o de ter visto, a sombra da mo?a entrando em outra viela escura.

“Ai merda!!!” – O grito agudo vem da mesma dire??o, ele corre um pouco e coloca a cabe?a para dentro da segunda rua estreita. Existe um tipo de sarjeta bem no meio da cal?ada estreita por onde escorre uma ?gua escura. Mais uma vez ele v? a silhueta da mo?a. Ela ? mais para cheinha, com curvas bem delineadas, atraente?

Ela est? apoiando uma das m?os na parede, uma das pernas est? levantada e, com a outra m?o, ela verifica o tornozelo, procura ajeitar o sapato de salto alto at? que decide tir?-lo. Caminha alguns passos at? perceber que tem que tirar o outro tamb?m e segue descal?a pela cal?ada imunda cercada pelas paredes opressoras dos pr?dios antigos que ela parece ter cortado como um tipo de eros?o. As cidades sofrem eros?o?

Carlos j? n?o sabe bem porque segue a mo?a e nem lhe passa pela cabe?a se ela pode v?-lo. O que uma mo?a jovem, n?o devia ter mais de 25 anos, faz atravessando fendas escuras de uma cidade perigosa?

? uma travessa longa, estranhamente longa. Ele mergulha mais de 100 metros entre as paredes escuras e o desagrad?vel odor imundo at? que seu alvo se vira para a parede, come?a a afundar no ch?o e desaparece.

Ele congela. Como algu?m afunda no ch?o? Um homem iria l? verificar! Mas nesse momento ele n?o ? um homem. ? um menino assustado vivendo em um mundo cheio de mist?rios, assombrado por dem?nios.

Virando-se abruptamente ele escorrega, cai de joelhos na ?gua podre que escorre pela sargeta no meio da cal?ada, se levanta apoiando as m?os nas paredes oleosas e consegue correr, mas n?o sem antes de ter a n?tida impress?o de sentir uma respira??o arrepiar os pelos do seu pesco?o.

Escuro. Fica tudo escuro diante dele por algum tempo, ele sente apenas seus passos martelando o ch?o dolorosamente. Ele est? correndo apavorado, t?o apavorado que a vis?o lhe falta, ou talvez apenas a consci?ncia dela, ele v?, dobra a esquina ao sair das profundezas escuras e segue correndo, ele apenas n?o tem consci?ncia de estar vendo porque s? consegue pensar na mo?a afundando no ch?o, na coisa que o est? perseguindo, tem que ter alguma coisa perseguindo-o, como mais ele poderia ter tanto medo?

Quando sua vis?o volta ele est? em uma grande avenida, a tr?s quarteir?es do pesadelo que viveu. Est? sujo, ofegante, mas h? um ponto de ?nibus logo ? frente, um o?sis para ele, a salva??o.

Finalmente ele tem coragem de olhar para tr?s e a rua est? vazia. Nem mesmo carros est?o passando por ela, mas s?o 3h da manh? e n?o passa mesmo viva alma na rua numa hora dessas?

As pessoas olham de lado para ele, torcem o nariz e fingem n?o v?-lo. O ?nibus parece demorar uma eternidade para chegar. Ele entra sob o olhar neutro do motorista e do trocador, acostumados a estranhas figuras noturnas, paga e se instala no fundo do ?nibus torcendo para n?o o perceberem mais.

Sua casa nunca lhe pareceu t?o longe, o corredor at? sua porta nunca foi t?o escuro. Ele mal se lembra de ter tomado banho e ir dormir. Acordou no dia seguinte, um s?bado, ?s 10h totalmente quebrado.

O Primeiro Dia

“Vamos para a praia?” A mensagem estava no grupo do Whatsapp de amigos mais pr?ximos, aqueles com quem ele sa?a sempre e lhe mandavam v?deos toscos pelo grupo para que eles rissem das pessoas rid?culas que existem no mundo, das velhas desdentadas at? as gordas desajeitadas.

“T? quebrado, vou dormir at? segunda-feira”

Na verdade ele precisa voltar para a viela, ver como ? aquilo ? luz do dia, espantar seus dem?nios, tentar entender.

A roupa est? no ch?o do banheiro, a cal?a rasgou no joelho e agora ele lembra de ter sentido arder ao tomar banho. Olhou para o joelho e viu que estava esfolado. Decidiu passar um anti-s?ptico, se vestiu, jogou a cal?a da noite anterior em um saco e atirou na lixeira do pr?dio.

Ele fez o caminho at? a viela sem pensar. De repente ele estava ali diante daquela boca para o inferno. Mesmo de dia era um espa?o escuro.

As paredes seguem s?lidas, de rocha maci?a dos dois lados da viela. N?o h? um bueiro ou nada parecido no ch?o, e por que diabos uma mulher se enfiaria em um bueiro ou caixa concession?ria? Ele tinha certeza que foi ali, quase no final da viela, que a mo?a pareceu afundar no ch?o e desaparecer. A mo?a que caminhava descal?a depois de quebrar o sapato na cal?ada irregular e talvez torcer o tornozelo. Mas ser? que era mesmo uma mo?a? Ela era? Diferente. Porque ele saiu atr?s dela em uma madrugada perigosa? Poderia ser? Talvez fosse? Algum tipo de armadilha, uma isca para assaltar ot?rios e ele foi ot?rio. Escapou por pouco.

Jasmim Campello

Jasmim Campello

Com passos vacilantes ele entra pela viela observando o ch?o, mas sua cabe?a se move para todos os lados em busca de algum perigo. No meio da travessa ele acha o salto preto do sapato que a mo?a usava. Ele n?o o pega porque est? na sarjeta, no meio da ?gua escura e podre que flui por ela como um fluxo vertendo de um fur?nculo necrosado. Ele est? parado h? ⅔ da travessa. Na noite anterior ele estaria do lado de fora quando a mulher quebrou o salto aqui e ele a ouviu xingar.

Carlos se estica, estufa o peio, alonga as costas, ele sente que estava todo encolhido. As extremidades da travessa s?o ret?ngulos de luz por onde pessoas passam rapidamente, como aqueles v?deos que mostram o fluxo do sangue nas veias de uma pessoa. Ningu?m entra ali? H? ruas mais adequadas para atravessar mesmo de dia, de noite? O que ele tinha na cabe?a quando seguiu a mo?a por ali?

Ele termina de percorrer a travessa no sentido contr?rio que tinha percorrido na noite anterior e se sente aliviado ao voltar para o mundo vivo e quente que circula do lado de fora. Ainda se volta para o corredor escuro e tem a impress?o de ver coisas se movendo nas sombras? Podem ser somente sombras, mas n?o ? o que ele sente.

J? ? de tarde e sua barriga geme. Ele ri pensando que ela ? mais assustadora do que qualquer mulher que afunda no ch?o e decide comer alguma coisa, acaba indo para o mesmo boteco da noite anterior, mas ? claro que n?o adianta perguntar sobre a mulher, afinal seria outro turno, o Jos? n?o estaria l?.

Carlos n?o presta aten??o no bife, fritas, alface, cebola crua, tomate, arroz e feij? que est? comendo, ele s? pensa em como ? rid?culo ter medo de uma mulher, n?o importa que ela entre no ch?o, ? uma mulher, merda. Ele n?o pode conviver com isso, ele percebe antes de chegar ao meio da sua refei??o que ter? que voltar de noite, mas ficar? vigiando a viela de longe, da seguran?a de um outro boteco que d? vista para o ponto onde a mulher sumiu no ch?o, misturando-se ?s sombras. Ele tem tudo planejado, vai segui-la at? o final agora, vai filmar, fotografar, vai faz?-la parar e explicar o que aconteceu.

O In?cio da Segunda Noite

Modelo: Kiara Luz

Modelo: Kiara Luz

Carlos sai vai correr de tarde e depois resolve passar pela mesma regi?o, a mo?a deve morar por perto, afinal estava indo a p? para algum lugar, ela mora ou tem? algo a ver com aquela regi?o. Ele senta no bar onde pretende ficar mais ? noite. S?o perto de cinco horas e n?o anoitecer? em menos de duas horas.

O fluxo de pessoas ? pregui?oso, o boteco s? abre porque tem umas lojas, um shopping pr?ximo e algumas empresas na regi?o que trabalham no s?bado.

Todos ignoram o ret?ngulo escuro da travessa, Carlos tem certeza que, se perguntar a quem passa por ali, ningu?m saber? dizer que acaba de passar por uma travessa. No m?ximo talvez se lembrem de uma sensa??o de desconforto, de um vento que arrepiou os seus cabelos, mas achar?o que foi um golpe repentino de ar ou um anjo que passou.

As pessoas imaginam que anjos passam quando tem sensa??es estranhas pois tem medo de imaginar a verdade, que o mundo n?o ? somente aquilo que vemos que, h? coisas rastejando bem nos limites da nossa vis?o perif?rica, coisas que n?o podem ser vistas, mas nos cercam.

Carlos pensa no medo que ele tinha de chegar em casa com o corredor todo escuro, mesmo quando seus pais estavam com ele. As fra??es de segundo que o sensor de movimento demorava para perceb?-los e acender as luzes eram momentos de terror para o pequeno Carlos, ele tinha certeza que havia coisas respirando pesadamente na escurid?o e que a luz s? as revelaria para eles e seriam devorados ou estra?alhados.

O fato de nunca haver sangue nas paredes dos corredores, ou mesmo nas escadas de emerg?ncia, n?o queriam dizer nada, os monstros podiam limpar o sangue. O fato de ningu?m comentar de vizinhos que sumiam tamb?m n?o significava nada, afinal eles tinham tantos vizinhos que nunca viam que v?rios podiam sumir sem que eles percebessem.

Carlos cresceu como a maioria de n?s, aprendendo a ignorar esses medos. Como nunca nada aconteceu ele foi esquecendo do que pensava e foi ficando apenas um medo normal do escuro, todo mundo tem medo do escuro e n?o pensa nisso, certo? Quem tem que se preocupar com os mist?rios do Universo? Que diferen?a faz em nossas vidas se pensamos que a escurid?o ? falta de luz ou se ? uma coisa que afasta a luz? Saber o que ? vida n?o serve para administradores, historiadores, f?sicos, programadores, m?dicos? N?s s? temos tempo de nos aprofundar em nossas ?reas de especializa??o para conseguirmos uma boa posi??o em nossos empregos, ganhar nossa vida e preencher os momentos escuros e assustadores da vida com idas ao cinema, papos com os amigos numa balada e a paquera? Ah!! A paquera! Conquistar uma mulher, deix?-la doidinha por n?s, com?-las e seguir em frente para outra conquista. A vida ? boa, n?o temos que ficar nos ocupando dos mist?rios que nem os cientistas sabem explicar. ? s? a gente se apegar em nossa f?, afinal todo mundo tem que acreditar em alguma coisa que afaste nossos medos, certo? O resto se acerta.

S? que o mist?rio algumas vezes chega sorrateiramente por tr?s de n?s? Sentimos sua m?o gelada deslizando sobre nosso ombro, talvez pelos dois ombros vindo por nossas costas e se fechando lentamente ao redor do nosso pesco?o pronto para nos estrangular.

Ele estava t?o perdido em pensamentos que s? percebeu depois. Algu?m tinha entrado na travessa! Foi como quando escutamos algu?m dizer alguma coisa e o som demora um eterno minuto para chegar ? nossa consci?ncia e nos viramos meio abobalhados perguntando “Como ?? O que voc? disse?”.

Carlos n?o conseguiu registrar a imagem, era apenas um borr?o em sua mem?ria. Quanto tempo faz? Segundos? Minutos? Ele corre para a travessa, se det?m bem na fronteira entre o dia ainda claro e a penumbra que nunca abandona o espa?o espa?o estreito diante dele.

Ele se lembra do filme O Hobbit? L? adiante nas sombras ele v? um corpo encurvado em dire??o ao ch?o, poderia ser uma fera abaixada sobre as pernas preparando-se para saltar em sua presa.

Ele entra nas sombras pois percebe que fica muito vis?vel ali emoldurado pela luz do dia. Se encosta na parede e fica observando. A travessa ? longa e a figura est? no primeiro ter?o do lado oposto, ele ter? tempo de sobra para? para fugir? Que droga! Um homem n?o foge de uma mulher!

N?o d? para ter certeza se ? ela ou n?o, a coisa parece vasculhar o ch?o caminhando abaixada at? que que ele escuta um “Ah!” sussurrado, vindo meio rouco do fundo do peito e a coisa se levanta, ela tem um saco na m?o e come?a a caminhas na dire??o oposta (ainda bem). Parece a silhueta dela, da criatura noturna que ele viu na noite anterior. Ent?o ela n?o existe apenas sob a luz da lua. Ele precisa segui-la.

Ele corre pela travessa prestando aten??o para n?o escorregar novamente e sai do outro lado ainda a tempo de ver a mo?a uns 200 metros adiante, ele segue em passo r?pido diminuindo a dist?ncia lentamente at? v?-la entrar em um tipo de galeria comercial em baixo de um pr?dio.

Um lance de escada com menos de dez degraus desce at? o espa?o sob o pr?dio onde corredores de lojas se cruzam formando um pequeno labirinto. H? uma loja de conserto de TV, outra que vende esmaltes e outros artigos femininos, uma lanchonete de ladrilhos gastos e coloridos, j? desbotados pelo tempo, porosos e p?lidos, um tipo de brech?, mas que seria melhor chamar de loja de bugingangas.

Carlos vai percorrendo os corredores. Cinco ou seis, ele fica um pouco perdido e n?o tem certeza se passou por algum deles mais de uma vez j? que tem lojas que s?o muito parecidas. No fundo de um dos corredores ele v? uma que conserta sapatos. O letreiro ? um enorme sapato feminino de salto alto sob o qual fica pendurada a placa “Consertamos”. Ele caminha lentamente para a loja sem saber como agir, ele n?o pode simplesmente abordar a mo?a e perguntar “Porra, o que tem de errado com voc??”.

? o tipo de loja onde n?o se entra, temos que ficar encostados no balc?o enquanto o propriet?rio nos atende do outro lado. S?o apenas dois passos curtos at? o balc?o, mas n?o d? para ver a mulher, apenas alguns vislumbres quando ela coloca um p? para tr?s chutando o ch?o com a ponta da bota, ou quando se afasta um pouco revelando a nuca m pouco das costas e a bunda novamente apertada em uma cal?a jeans.

Carlos mal tem tempo de disfar?ar quando ela se vira e sai da loja. Por sorte ele est? bem na porta de um cybercaf? Bem, est? mais para umas bancadas de f?rmica empenadas com uns computadores amarelados pelo tempo e um jovem atendente, ainda com espinhas no rosto. Provavelmente metade dos computadores n?o funcionam direito, mas ele n?o quer ver seu email, nem entrar no Secret, ele quer se esconder e para isso o lugar ? o suficiente.

Quando ela passa ele olha como todo homem olha uma mulher que passa. Seu medo ? que ela o reconhe?a, mas n?o h? tra?o nenhum de reconhecimento, ela simplesmente passa olhando s?ria para frante como muitas mulheres fazem quando os homens as observam. “Ha! Elas gostam, mas tem que fazer esse joguinho de dif?ceis” pensa Carlos enquanto ela some em outro corredor.

“Ol?! Oi! Aqui no balc?o”

O velho reparador de sapatos vem se arrastando dos fundos da loja dizendo “J? vai!” com a voz rouca de quem fuma desde os 12 anos e j? parece ter dado adeus aos setenta faz tempo.

“Opa! O senhor faz reparo em sapato social de cromo alem?o? Tenho um que preciso usar na semana que vem, mas a sola est? soltando do bico”

“A gente d? um jeito, deixa eu dar uma olhada”

“N?o trouxe? Posso trazer logo mais ? noite?”

“Traz s? amanh? porque hoje tenho que terminar um servi?o urgente”

“?? Da mo?a que passou aqui agora?”

“Uhum. Precisa para hoje ainda, para usar de noite? Tanta pressa? E ainda me trouxe um salto imundo.”

“T?. Obrigado, senhor! Vou ver se trago amanh?, n?o vou atrapalhar seu trabalho”

Tinha algo estranho no velho, uma impaci?ncia. ? como se ele n?o gostasse de gente do tipo do Carlos, mas aceitasse um trabalho urgente de uma mulher qualquer.

Bem, pelo menos ele sabe que ela passar? ali mais tarde. Decide montar guarda, ele precisa se livrar daquele medo, daquele fantasma. Sente que n?o andar? mais tranquilo pela rua se n?o esclarecer as coisas.

A Segunda Noite – A ?ltima noite…

S?o quase 19h quando a mo?a entra na galeria. A placa da sapataria dizia “Aberto s?bados at? 18h”, mas alguns minutos depois ela saiu de l? j? vestindo os sapatos de salto alto.

Ao entrar ela vestia um par de t?nis que n?o combinavam nada com o vestido preto que ia apenas at? metade das coxas e deixava os ombros nus ? vista. Ela usava uma bolsa muito pequena para caber os t?nis que devem ter ficado com o velho na sapataria. Estranho. O velho n?o parecia do tipo de fazer favores.

Carlos a seguiu, dessa vez por ruas normais onde outras pessoas normais passavam, poucas pois a regi?o s? explodia em movimenta??o de segunda a sexta com as pessoas que saiam dos numerosos pr?dios de escrit?rios ao redor.

A essa altura ela j? tinha conseguido ver melhor a mo?a, n?o mais que 22 anos, olhos muito escuros e cabelos negros como a noite contrastando com a pele branca como a Lua cheia no alto do c?u. Ele tinha receio que ela n?o fosse como tinha visto no bar na noite anterior, que sua mem?ria o tivesse tra?do e ela fosse horr?vel, mas n?o. S? faltava ver o sorriso pois ela s? a vira sorrir com os amigos na noite anterior.

Somente agora ele notou? Em nenhum momento ela pegou um celular. Quem anda pela rua sem se comunicar com os amigos pelo celular para confirmar que est? indo ou simplesmente ver o que est? rolando? Ela tinha olhado o celular na noite anterior com os amigos? Ali?s, ser? que eram mesmo amigos? N?o seria de esperar que um deles a acompanhasse at? em casa?

Ah! Claro! Ela n?o tinha uma casa, ela sumia na cal?ada em vielas escuras e imundas. N?o, ? claro que aquilo foi uma ilus?o! Ela n?o estava misteriosamente olhando para tr?s segundos antes, ela n?o tinha se enfiado por um gueto horr?vel, fedorento e perigoso porque ? dela que as coisas devem ter medo e sim porque? Por algum outro motivo qualquer.

Mesmo com os saltos altos ela caminhava r?pido e com seguran?a.

Ela segue um caminho totalmente diferente dessa vez, n?o entra em vielas, mas desaparece pelo port?o de uma pra?a onde casais de porteiros e empregadas se encontram de noite para namorar, pelo menos ? a impress?o de Carlos a julgar pelas roupas pobres que eles usam e principalmente pelas sandalhas de dedo rasteiras que as mulheres usam.

Ainda ? cedo para ter gente na pra?a, mas j? est? escuro o suficiente para ser dif?cil identicar qualquer movimento entre as ?rvores baixas e arbustos de plantas que parecem cactos.

Carlos vai seguindo pela pra?a em busca da mo?a, ela pode ter entrado para cortar caminho at? a outra rua onde h? algumas boates, mas se fosse assim ela j? deveria estar chegando no outro port?o. Ele olha ao redor e decide buscar a sombra de uma ?rvore.

A lua est? cheia sobre sua cabe?a, j? quase em seu ponto mais alto no c?u. Os ru?dos da cidade parecem ser devorados por alguma coisa nas fronteiras da pra?a pois chegam abafados como se houvesse paredes muito altas cercando a pra?a, mas ele ainda podia ver as pessoas caminhando do lado de fora, n?o mais de 300 metros dele que est? mais ou menos no centro da pra?a retangular.

N?o h? brisa, mas ele escuta as folhas das ?rvores ro?arem umas nas outras fazendo um som de mar, como ondas se espalhando sobre as copas das ?rvores. Ele pensa que deve ser um lugar tranquilo, devia ser um lugar tranquilo se n?o estivesse errada. Uma pra?a no meio de uma cidade ? um buraco obscuro para onde convergem as coisas estranhas. Mendigos, marginais, pobres, moradores de rua? ? noite s?o evitadas por cidad?os que fazem parte do sistema produtivo da sociedade.

O vento parecia frio demais para a ?poca do ano. Carlos sentiu novamente a nuca se arrepiar.

Ao se virar ele depara com o rosto da mo?a a meio metro dele, colada atr?s da ?rvore olhando para a lua com uma express?o terr?vel, como se estivesse se alimentando da sua energia obscura antes de mergulhar novamente por vielas escuras e desaparecer no ch?o.

Carlos grita atacando antes que fosse atacado, arremessando seu punho esquerdo contra o rosto da criatura acertando o nariz de os l?bios superiores, a nuca dela se choca contra o tronco da ?rvore. Carlos pensa que n?o h? ningu?m para ajud?-lo, ningu?m vai escutar por mais que ele grite e homens n?o gritam. Ele percebe que precisa se defender sozinho e instintivamente arremessa o joelho contra a barriga da mo?a que parece rosnar e estica a m?o direita acertando o rosto de Carlos com as unhas afiadas, afiadas demais? Ele sente o calor no rosto, mas n?o se deixar? vencer. Ele a segura pelos ombros jogando-a contra o troco e puxando v?rias vezes. Ele sente estalos, como se ela estivesse se transformando em alguma coisa, a noite ao redor dele parece rir com uma maldade visceral, mas ele continua se defendendo chutando a coisa sucessivas vezes enquanto soca seu rosto que lhe parece cada vez mais hediondo.

“Papai…” a palavra escapa dos l?bios dela como um suspiro quase inaud?vel. Um choro fr?gil, um ?ltimo f?lego antes que suas pernas percam a for?a e ela desabe diante de Carlos.

Ele d? dois passos atr?s olhando para as pr?prias m?os e para a mo?a ca?da sobre os joelhos, mas pernas para tr?s e o corpo encostado no tronco da ?rvore. Uma mancha escura come?a a ao formar ao redor dela. “? negro! O sangue dela ? negro como a noite” Carlos repede para ele mentalmente at? que as palavra n?o fa?am mais sentido, s? que ele sabe que n?o? Que o sangue ? vermelho como o dele e s? parece negro pois est? muito escuro. O sangue em suas mais, mais iluminadas pela lua, ? bem vermelho e n?o ? dele.

Um ?ltimo suspiro parece se desprender da mo?a e j? n?o d? para identificar nenhuma palavra e Carlos sabe que foi o ?ltimo f?lego de vida que a abandonou para se tornar um fantasma ao redor dele para sempre, ele agora era o monstro escondido nas sombras aguardando para saltar sobre sua v?tima estra?alhando-a insens?vel com suas garras sujas e podres.

Carlos se afasta de costas sumindo novamente nas sombras enquanto algu?m entra na pra?a gritando para algu?m “Aqui! Vem, aqui! ? uma menina!”

Carlos est? mergulhando nas sombras entre as plantas que parecem cactos, elas espetam sua pele, mas ele n?o se importa, ele sequer sente?

“Caralho! Andr?!! Andr?!! ? a Chris!! Chama uma ambul?ncia! Chris! Chris!”

O homem n?o tem coragem de tocar nela e fer?-la ainda mais, entretanto Carlos tem certeza que ela est? morta… Por suas m?os? Morta? O rosto desfigurado voltado para a sua como se ainda a contemplasse, uma menina apaixaonada pela Lua, apaixonada pela vida e sem medo do mundo.

Mais tarde Carlos saberia que ela era filha do velho sapateiro, sua ?nica fam?lia, ela cuidava dele e talvez sua ?ltima palavra tenha sido um pedido de desculpas “Papai? Vou te deixar? Perd?o…”

O processo criativo

Se voc? leu o link l? em cima j? entendeu porque essa sess?o est? aqui, se n?o leu explico de novo ;)

Esse conto foi escrito em menos de quatro horas enquanto as pessoas assistiam o que eu escrevia letra a letra pelo Google Docs (aqui est? o link para o documento original).

Antes de escrever eu compartilho o processo criativo com quem est? assistindo. Isso foi o que o pessoal viu:

Hoje estabeleci algumas coisas novas.

Para as pessoas saberem quanto tempo parei para pensar, quanto tempo foi necess?rio para cada trecho etc. vou inserir as horas de parada e retomada entre []. Assim:

[8:20] Revisando

[8:45] Retomando

Desse jeito, mesmo quem n?o ler ao vivo ter? uma no??o do fluxo da escrita.

Na semana passada escrevi por instinto, partindo de uma imagem. Cada semana tentarei usar uma t?tica diferente para construir o conto.

Hoje vou planejar de outra forma. Vamos ver como foram as vota??es porque preciso saber o tema pelo menos para decidir qual ser? a estrat?gia?

[8:22] Vendo o resultadodo dos votos

[8:24] Voltei

Ficou decidido Terror, Adulto, Presente. Foram apenas 13 votos. Acho que preciso pensar num jeito de divulgar melhor, mas n?o quero ser chato. Vamos seguindo assim que o importante ? ser divertido :-)

Na semana passada? Ah! Vou deixar o link para o post explicando o projeto l? no come?o? Pronto?

Na semana passada eu achei que n?o ficou adulto (que foi o p?blico alvo vencedor) ent?o vou me esmerar mais nisso hoje.

Como vou planejar o conto dessa vez?

Terror ? um bom estilo para nos fazer encarar nossos medos (duh), mas tamb?m ? bom para colocar os terrores da nossa sociedade. N?o querendo demonstrar que ela ? doente, perversa e doentia apesar de ser poss?vel, ? claro, mostrar isso tamb?m (s? n?o acho que essas sejam caracter?sticas b?sicas da humanidade), no entanto estou pensando em mostrar aqueles terrores que n?o percebemos que s?o terr?veis? Como as pessoas que sofrem em sil?ncio em rela??es perversas com maridos ou esposas, pais e m?es, tios ou tias.

Outro terror ? o do preconceito. ?tnico (humanos ao que parece n?o tem v?rias ra?as, n??), cultural e por outras caracter?sticas livres de ideologia pois o preconceito contra a pessoa que defende uma ideologia (como odiar ateus) tem uma natureza diferente de odiar algu?m por ser canhoto, por exemplo.

Hummm? Quem poderia ser o protagonista? Um adulto, mas homem ou mulher? Mulheres est?o no centro das hist?rias de terror h? muito tempo, no come?o como v?timas para serem salvas e, conforme nossa cultura em rela??o a elas foi mudando, foram se tornando as hero?nas. Gosto muito de colocar as mulheres no centro pois ainda h? muito que vencer no preconceito contra elas, mas ? lugar comum?

Um casal? Seria divertido fazer sem deixar transparecer o sexo, mas acho que n?o consigo administrar isso em pouco mais de 3h.

Enquanto escrevo a imagina??o vai jogando umas ideias? Uma pessoa em situa??o de risco e outra que vai percebendo isso de fora e vai entrando no universo da primeira enfrentando o perigo junto e? vencendo? N?o sei ainda, isso ficar? de surpresa para o final do conto.

[8:37] Pensando?

[8:38] Voltando

T? certo! Decidi! O conto vai abordar um tema que vou deixar voc?s descobrirem. Essa ser? minha t?tica: vou falar de uma quest?o cultural que me preocupa muito. O tema n?o ser? amizade, n?o ser? constru?do ao redor de uma cena ou de um cl?max pr?-pensado que seriam outras t?ticas. Vou construir uma situa??o que me permita falar de uma caracter?stica cultural que pode nos levar a sofrer terror, a viver com medo. Isso j? define um bocado como ser? o final, mas s? posso dizer quando acabar. A? volto aqui e escrevo. Vou comentar tamb?m no hangout.

[8:42] Organizando as ideias antes de come?ar a escrever

[8:46] Pensei nos pontos vitais da trama, quem s?o os personagens, como o terror vai se estabelecer ao redor deles, em quem estar? o foco da narrativa (ser? apenas um deles, mas seria interessante escrever os dois se desse tempo), mais ou menos qual ser? o cl?max seguido pelo final.

Ajude a definir o pr?ximo conto:

Hangout

Quando termino o conto fa?o um hangout comentando a experi?ncia do dia:

Galerias

Decidi abrir espa?o nesses contos para contribui??es fotogr?ficas de artistas ou modelos apresentarem vis?es para os personagens, cenas ou lugares.

Jasmim Campello – Atriz