Vamos à difícil missão de comentar um bom livro e o filme baseado nele sem dar spoilers (sem entregar coisas que você vai gostar de descobrir lendo ou assistindo).

Jogos Vorazes (Hunger Games) é uma trilogia distópica focada no público jovem adulto (adolescentes e até uns 25 anos) e Em Chamas (Caching Fire) é o segundo da série.

Já falei dele dentro de um enfoque mais antropológico no post Jogos Vorazes e a nova mulher no meu outro blog e falei do primeiro no post Jogos Vorazes, do livro ao filme.

Pois então. Segunda parte da trilogia e muita coisa acontece.

Imagino que a maioria das pessoas que chegará a esse post terá visto só os filmes e, nesse caso, talvez estejam muito mais atentas ao problema amoroso de Katniss entre Gale e Peeta do que ao que realmente torna essa obra fora de série a ponto dela ser um grande sucesso e outros livros similares não: a própria Katniss.

Como eu já disse ao comentar o primeiro livro essa história é mais do que uma narrativa em primeira pessoa. O que vemos não é a protagonista dizendo coisas como

“entrei na sala, encontrei todos sentados me olhando com uma cara estranha e então lhes disse que sabia que tinha feito besteira, mas não tinha outro jeito pois estava nervosa, com medo que matassem minha família se eu dissesse a verdade e ainda tinha o problema da gratidão que tenho com fulano etc.”

Tudo no texto acima que vem depois de “besteira” teria sido apenas pensado por Katniss. Ela não fala sobre o que está sentido ou pensando optando por guardar tudo para ela.

Jennifer Lawrence tem feito um ótimo trabalho, mas não há como passar todo o universo de ideias, sentimentos e mudanças de Katniss apenas por expressões (apesar de ter um momento no filme em que a jovem atriz realmente mostra do que é capaz em poucos segundos).

Continuo achando que os que assistem apenas os filmes perdem o que Hunger Games tem de melhor.

A autora tem uma habilidade ímpar de nos conduzir pelos mesmos processos que a protagonista está passando e, em vários momentos, nos pegamos percebendo um desvio moral, uma imaturidade emocional dela e logo depois a personagem percebe exatamente o que estávamos gritando em nossas mentes.

Quando acompanhamos o despertar da menina para o seu papel no mundo, e esse papel é diferente do papel das mulheres fortes do passado, percebemos que estamos mesmo diante de uma autora que conseguiu ver um novo tipo de jovem mulher amadurecendo no ventre da nossa sociedade que não está tão distante da caricaturizada Pannen.

É claro que o triângulo amoroso é interessante na obra e certamente nos reserva alguma surpresa no terceiro livro (que ainda não li) e nos dois últimos filmes (sim, dividiram o último livro em dois filmes, espero que seja para mergulhar melhor no que passa pela cabeça da Katniss), mas sou capaz de apostar que ele é mais uma via para mostrar o tipo de mulher que Katniss (e talvez muitas adolescentes) está se tornando.

Leitura recomendadíssima. A trilogia até agora é a que mais admiro por conseguir ser pop atraindo leitores casuais ou novos ao mesmo tempo que levanta importantes questões sociais, políticas e pessoais.