Esse ? o quarto e ?ltimo dia publicando um poema por dia conforme provocado no Facebook.

As regras s?o simples:

  1. Um poema por dia, por quatro dias
  2. Se voc? esbarrou aqui sinta-se convidada(o) para fazer o mesmo
  3. Publique um poema famoso e um desconhecido (pode ser seu)

Termino com o desafio de ler um poema longo.

Navio Negreiro

Castro Alves

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espa?o
Brinca o luar ? dourada borboleta;
E as vagas ap?s ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
? Constela??es do l?quido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abra?o insano,
Azuis, dourados, pl?cidos, sublimes…
Qual dos dous ? o c?u? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das vira??es marinhas,
Veleiro brigue corre ? flor dos mares,
Como ro?am na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai?? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se ? t?o grande o espa?o?
Neste saara os corc?is o p? levantam,
Galopam, voam, mas n?o deixam tra?o.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo ? o mar em cima ? o firmamento…
E no mar e no c?u ? a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que m?sica suave ao longe soa!
Meu Deus! como ? sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando ? toa!

Homens do mar! ? rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crian?as que a procela acalentara
No ber?o destes p?lagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra ? ? o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do p?vido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar ? doudo cometa!

Albatroz!? Albatroz! ?guia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espa?o,
Albatroz!? Albatroz! d?-me estas asas.

II???

Que importa do nauta o ber?o,
Donde ? filho, qual seu lar?
Ama a cad?ncia do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte ? divina!
Resvala o brigue ? bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa ap?s.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as mo?as morenas,
As andaluzas em flor!
Da It?lia o filho indolente
Canta Veneza dormente,
? Terra de amor e trai??o,
Ou do golfo no rega?o
Relembra os versos de Tasso,
Junto ?s lavas do vulc?o!

O Ingl?s ? marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra ? um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa p?trias gl?rias,
Lembrando, orgulhoso, hist?rias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Franc?s ? predestinado ?
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga j?nia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que F?dias talhara,
V?o cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu …
Nautas de todas as plagas,
V?s sabeis achar nas vagas
As melodias do c?u! …

III

Desce do espa?o imenso, ? ?guia do oceano!
Desce mais … inda mais… n?o pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu a?… Que quadro d’amarguras!
? canto funeral! … Que t?tricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de a?oite…
Legi?es de homens negros como a noite,
Horrendos a dan?ar…

Negras mulheres, suspendendo ?s tetas
Magras crian?as, cujas bocas pretas
Rega o sangue das m?es:
Outras mo?as, mas nuas e espantadas,
No turbilh?o de espectros arrastadas,
Em ?nsia e m?goa v?s!

E ri-se a orquestra ir?nica, estridente…
E da ronda fant?stica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no ch?o resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma s? cadeia,
A multid?o faminta cambaleia,
E chora e dan?a ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que mart?rios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capit?o manda a manobra,
E ap?s fitando o c?u que se desdobra,
T?o puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dan?ar!…”

E ri-se a orquestra ir?nica, estridente. . .
E da ronda fant?stica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldi??es, preces ressoam!
E ri-se Satan?s!…

V

Senhor Deus dos desgra?ados!
Dizei-me v?s, Senhor Deus!
Se ? loucura… se ? verdade
Tanto horror perante os c?us?!
? mar, por que n?o apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borr?o?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tuf?o!

Quem s?o estes desgra?ados
Que n?o encontram em v?s
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a f?ria do algoz?
Quem s?o??? Se a estrela se cala,
Se a vaga ? pressa resvala
Como um c?mplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa lib?rrima, audaz!…

S?o os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
S?o os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solid?o.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje m?seros escravos,
Sem luz, sem ar, sem raz?o. . .

S?o mulheres desgra?adas,
Como Agar o foi tamb?m.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe v?m…
Trazendo com t?bios passos,
Filhos e algemas nos bra?os,
N’alma ? l?grimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
T?m que dar para Ismael.

L? nas areias infindas,
Das palmeiras no pa?s,
Nasceram crian?as lindas,
Viveram mo?as gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos v?us …
… Adeus, ? cho?a do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte!…
… Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de p?.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos s?…
E a fome, o cansa?o, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra n?o mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a ca?a ao le?o,
O sono dormido ? toa
Sob as tendas d’amplid?o!
Hoje… o por?o negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… c?m’lo de maldade,
Nem s?o livres p’ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
? F?rrea, l?gubre serpente ?
Nas roscas da escravid?o.
E assim zombando da morte,
Dan?a a l?gubre coorte
Ao som do a?oute… Irris?o!…

Senhor Deus dos desgra?ados!
Dizei-me v?s, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se ? verdade
Tanto horror perante os c?us?!…
? mar, por que n?o apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borr?o?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tuf?o! …

Voltando ao nosso tempo, uma breve poesia que grita contra o sistema no estilo t?o mais seco, sem arte, do in?cio do s?culo XXI

O dia de ontem

?lvaro Rom?o (veja o original)

Impress?o minha ou a pol?cia est? filmando, com uma c?mera de v?deo enorme, o rosto da pessoa detida?
? impress?o minha ou ? pol?cia demais para manifestantes de menos?
? impress?o minha ou sim estamos ? beira de uma ditadura?
? impress?o minha ou as pol?cias, com apoio de partes das for?as armadas, est?o planejando tomar o poder pelo golpe de for?a?
? impress?o minha ou esta foto foi tirada a cinquenta anos atr?s?
? impress?o minha ou s? por escrever isto eu j? me coloco em risco de morte?
? impress?o minha ou ? covardia?
? impress?o minha ou a pol?cia ? o bandido pago pelo estado?
? impress?o minha ou ser espancado pela pol?cia ? entendido como coisa normal entre n?s?
? impress?o minha ou gostamos mesmo de apanhar?