Antes de mais nada aviso: pode ler sem medo de spoiler, não gosto de estragar a graça dos outros.

É Mais uma historinha adolescente com romance bobo que nem os vampiros que brilham no Sol.

Foi isso que eu pensei por um tempo a cada vez que via um trailer de Jogos Vorazes ou alguém falava em Katniss ficar com Peeta ou com Gale.

Aí o tempo foi passando e meus amigos mais cultos, maduros e admiráveis de todas as idades e sexo começaram a dar seus testemunhos sobre os livros e acabei vendo o filme.

Hummm… Tá… Maneiro. É distópico, uma coisa distópica dificilmente é estúpida ou infantil (nada contra ser infantil ou mesmo ingênuo), mas percebi que teria que ler os livros para entender o encanto de pessoas tão legais dos 13 aos 40 e tantos anos.

Acabo de ler o primeiro livro e agora entendi tudo!

Logo no início a gente percebe que a narrativa é toda em primeira pessoa, passamos o livro todo dentro dos pensamentos de Katniss Everdeen, a protagonista, e como a moça pensa, viu?

Creio que não há uma página onde não encontremos alguma informação sobre os costumes, história e política de Panem (país onde ocorre a história). É uma enxurrada de informações que não cansam porque a autora tem uma capacidade exemplar de intercalar ação e informação inserindo a segunda no meio da primeira muitas vezes de uma forma que formamos laços emocionais com a informação ajudando a fixá-la na memória.

O filme jamais teria como passar toda essa informação. A atriz principal trabalha muito bem nos transmitindo boa parte do perfil psicológico de uma personagem que não tem muita chance de falar e os roteiristas inserem vários eventos que não acontecem no livro para completar as lacunas, mas ainda assim a experiência de ler o livro é incomparável.

O filme é uma obra de ação que nos prepara para uma trilogia com forte temática política contra o totalitarismo que os jovens modernos enxergam escondido atrás de uma camada de democracia que servia ao século passado, mas não serve mais.

O livro no entanto é um hino é cultura ocuppy desde a primeira página (sem exagero) e arrisco dizer que essa é a razão de 500 mil pessoas terem comprado os livros no Brasil e mais de 50 milhões no mundo.

Basta olhar para qualquer manifestação moderna no Brasil para esbarrar com algum cartaz ou camisa com frases do filme e até bandeiras nacionais com o símbolo com o tentilhão (mockinbird) substituindo o globo.

Uma amiga (de 13 anos) estava comentando comigo que uma das boas coisas da história é que ela tem romance, mas continuaria ótima mesmo sem ele. Vou um pouco mais longe, o romance não é tolo, ele é cercado por dúvidas que podemos considerar bem adultas ainda que não se perceba isso no filme. Leia o livro e me diga se não concorda.

Está dando para notar que adorei o livro e vou correr para ler os dois seguintes, né?

Vou mesmo, mas isso não quer dizer que acho que a obra é perfeita em seu estilo. Como ela é toda contada através dos olhos, ouvidos e pensamentos de Katniss os outros personagens acabam ficando um pouco menos ricos, eu gostaria de entrar um pouco nos pensamentos deles também.

Ainda assim isso tem uma vantagem que talvez compense a falta: Nós mesmos vivemos à mercê apenas dos nossos olhos, ouvidos e pensamentos e muitas vezes assumimos como real o que imaginamos e frequentemente estamos errados.

Esse é um aprendizado que o livro pode levar a quem o lê: a realidade pode não ser o que você assume.

Katniss tenta o tempo todo imaginar o que passa pela cabeça dos outros – ela precisa fazer isso para sobreviver em uma situação para a qual ninguém está preparado – e nós passamos pela mesma experiência que ela, descobrindo sobre a natureza das pessoas o tempo todo.

A dificuldade de aceitar que nossa percepção é falha talvez seja um dos maiores problemas da nossa espécie (se bem que graças a isso inventamos a metodologia científica, mas essa é outra história) e é bom ver uma obra que nos alerta para isso e de uma forma que não é “didática”.

Esse aliás é outro grande trunfo do estilo da Suzanne Collins: ela não subestima o leitor e nem quebra o ritmo da narrativa para explicar nada. Tudo vai sendo apresentado com naturalidade na história.

Mas eu estava falando do que não é tão bom na trama, né?

Hummm…

Essa é difícil de fazer sem spoiler e acho que preciso ler os outros dois para poder falar sobre a profundidade dos questionamentos políticos da obra que, no final das contas, me parece no momento ser o tema central e não a jornada de amadurecimento da Katniss que, apesar de tudo, já parece chegar pronta à arena, ela aliás parece ter nascido pronta.

Atualizando em jan/2014
Escrevi sobre o segundo livro e o filme: Jogos Vorazes, em chamas!