Uma das memórias que frequentemente me visitam sem aviso ou razão, simplesmente porque vivemos tempos difíceis e a alma resgata espontaneamente momentos de gentileza, carinho, cuidado, empatia, é a de quando Daniel nos levou ao aeroporto: minha esposa ia passar um mês fora em um intercâmbio com outras pessoas tradutoras. Ele disse “É um momento importante de vocês e quero fazer parte”.

Fazer parte. Daniel sempre foi alguém que fez parte. Por isso escolhi a imagem acima para ilustrar o post, afinal ainda que exista distância entre nós, somos como balonistas reunidos em nossas cestas vagando pelo céu infinito, mas mantendo os outros pequenos grupos à vista. Quando os ventos assim desejam tripulamos a mesma cesta por um tempo.

Agora Daniel está em todos os balões dos que o conheceram pessoalmente ou pelas palavras já que não está mais limitado pelo corpo e pode estar igualmente presente em memórias e em palavras como a água de um rio que flui.

Há alguns meses Daniel deixou de habitar um corpo físico como todos faremos um dia, mas o Daniel tradutor, jornalista, escritor, amigo é eterno enquanto durarem as memórias e as palavras e se torna um pouco mais eterno quando trazemos para palavras nossas memórias.

Aliás, sua voz também persiste. Em 2013 ele fez uma participação no Tradcast (1º podcast brasileiro sobre tradução) falando da relação do tradutor com sua obra em que ele até lê um trecho de O espantalho e seu criado, de Philip Pullman, tradução dele que recebeu menção de altamente recomendada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Tradutores são mutantes. A língua emana a cultura em que se desenvolveu e traduzir entre línguas é transportar uma cultura para outra mantendo a identidade original. Tradutores desenvolvem a capacidade de transitar entre culturas mantendo-se invisível. É o estilo da obra e não o próprio estilo que deve ser vertido.

No entanto é claro que eles tem a própria voz e geralmente são vozes ricas e envolventes.

Em sua jornada final lidando com a doença que o levou – jornada que apenas a família realmente é capaz de conhecer – ele foi capaz de achar espaço para materializar a própria voz em uma coletânea de pequenos textos que são como janelas para observar o Rio de Janeiro pelas lentes dele. E por Rio de Janeiro talvez estejamos falando mais na alma da cidade e das pessoas, na história e nos segredos, do que na geografia e arquitetura.

Ontem fui ao lançamento póstumo da obra, e nesse momento me retiro do meu lugar de ateu, e espero profundamente que Daniel estivesse por lá vendo sua obra ganhar vida enquanto as pessoas a tomavam em mãos e se atiravam logo dentro das páginas.

Foi no Museu da República em uma tarde de sol dentro de uma sala cercada por uma feira de artesanato e outra de cafés. Foi um momento mágico para mim também porque foi a primeira vez que estive em uma feira depois que se iniciou a pandemia de covid-19.

Rio abaixo, Rio acima ou A palavra mordida começa chegando ao Rio pelo mar a braçadas entre as ondas cercadas por dois fortes e uma muralha à frente. Vamos, frase a frase, montando o cenário, mas também uma visão específica da Cidade Maravilhosa e das suas sombras e barreiras.

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“Será aquilo uma imensa arca de guerra, que se erguerá das âncoras e navegará pelos oceanos, um Leviatã que tudo devora? Não sei, parece-me tudo tão fixo, tão sólido, tão seguro, em oposição a essa massa líquida sobre a qual me arrasto e que desejo, preciso, deixar para trás. Além da muralha, sobre um topo, vejo um homem vestido de branco. Ele olha para mim, tem os braços abertos, como se me esperasse.”

Trecho de Kopakabana – Daniel Estill

Talvez “palavra mordida” se refira ao ato de, ao ler, saborear não só a história contada ou as imagens que vão se formando, mas também o ritmo das palavras, o fluxo das frases.

É leitura para criar uma esfera de silêncio ao nosso redor afastando os estímulos enquanto mergulhamos em registros dos ruídos do mundo.

Li apenas o primeiro conto, mas já foi o bastante para ser capturado. Além disso conheci Daniel e sei o que esperar: surpresa! Afinal ele sempre foi capaz de nos surpreender com sua visão multifacetada do mundo.

Deixei aqui no post três trilhas para seguir o corpo que agora habita entre todos nós pelas próprias palavras, pelas palavras de outros traduzidas para as nossas e pela própria voz. Espero que seja uma jornada marcante para você como foi para nós conhecer o Daniel.

Capa do post por ian dooley on Unsplash