Antes de mais nada: pode ler sem medo pois não faço spoilers. Meu objetivo aqui é tentar explicar o encanto que essa série exerce nas pessoas.

Doctor Who é um paradoxo.

Em geral a primeira pessoa que nos fala da série é um daqueles amigos que admiramos pela inteligência, sabedoria ou cultura, mas aí nós assistimos o primeiro episódio e, no final, desligamos o aparelho, ficamos olhando para a tela e pensando algo do tipo:

“É Meu amigo é uma farsa! Esse programa é estúpido! A inteligência (ou sabedoria ou cultura) que meu amigo demonstrava só pode ser uma mentira!”

Talvez você decida dar mais uma chance à pessoa que admirava e assista o segundo e até o terceiro episódios e, lá no fundo, você sinta o sinal de alguma emoção diferente, mas sendo uma pessoa adulta e crítica você continuará pensando que não tem como levar aquilo a sério.

Pode ser que você decida assistir mais dois episódios e a essa altura você talvez pense que seu amigo só poderia estar te sacaneando pois o quarto e o quinto são simplesmente trash.

Entretanto um certo incômodo pode te levar a pesquisar sobre a série e aí você descobre que alguns dos maiores cientistas e escritores da atualidade, gente que você respeita como Neil Degrasse Tyson e Neil Gaiman (dois Neils… engraçado) entre uma miríade de outras pessoas são fãs ou pelo menos admiram a série e se informam sobre ela e dizem ter amigos que a adoram.

Aqui tem uma boa amostra da diversidade de fãs de Doctor Who. 200 fãs músicos se uniram para reproduzir a trilha de um dos momentos mais emocionantes da série:

Afinal de contas, o que torna Doctor Who tão atraente para tantas pessoas que achamos notáveis?

Outro dia li um artigo de um fã que dizia ter chorado já em vários dos episódios do primeiro ano da série e que isso não era comum para ele.

Sim, existe sob o jeito pastelão um tipo de sacrifício pelos outros e perspectiva sobre a vida que nos emociona e é uma emoção positiva que nos faz valorizar mais cada momento que vivemos e o que podemos fazer para mudar as pequenas coisas ao nosso redor, mas outras séries tem isso… Ok, não muitas, mas outras séries definitivamente tem esse teor, então isso não basta para explicar o encanto.

Hei! Não precisa torcer o nariz e pensar que vou falar que existe algo de sobrenatural na série! Eu não acho isso e nem acredito muito em sobrenatural (alienígenas na Terra ou coisas similares…). Se você tem certeza que o Doctor existe e esse é o segredo da série a gente conversa secretamente ;-)

Na primeira temporada fica claro que os roteiristas estão buscando a nova identidade da história que já estava com 42 anos e então vemos episódios esquizofrenicamente diferentes, mas de certa forma há algo que permeia todos eles.

Há histórias que vem de uma região tão rica da nossa cultura que aqueles que decidem traduzí-las em palavras acabam absorvidos por elas. Machado de Assis tem um texto espetacular sobre isso, mas ele não é o único. Essa é uma das características das grandes obras: elas conduzem seus autores e não o contrário.

Creio que esse é um dos maiores segredos de Doctor Who: ele é arquetípico e, ao não ser “sério”, se torna flexível o bastante para se adaptar às nossas expectativas.

No entanto ele não é um arquétipo para as massas é, e digo isso sem qualquer demérito para as massas, certo? Ele fala com aquele pequeno grupo de pessoas que se atreve a ver ou até só consegue ver o Universo como algo flúido, em constante transformação que, não importa o quanto nós aprendamos sobre ele, pode se revelar totalmente diferente das nossas expectativas e sonhos mais loucos.

Com a onda de ação que toma os cinemas, livros e séries Doctor Who talvez seja a única série que carrega aquele olhar curioso e deslumbrado diante do Universo que víamos em Jornada nas Estrelas ainda que ele seja muito, mas muito diferente dela em praticamente todos os outros aspectos.

Ao redor disso os roteiristas vão construindo diversos outros motivos para nos encantarmos.

Tenho a impressão, por exemplo, de que o Doctor não é o protagonista da série e sim você, eu, a humanidade representada geralmente por seus companheiros de viagem. Mas a humanidade é uma protagonista a ser amada. Ela tem seus erros, suas mesquinharias, entretanto, vista pelos olhos de alguém que já viu séculos e milhares de civilizações florescerem e se extinguirem, ela é simplesmente fantástica, perfeita em sua constante viagem sempre nos surpreendendo.

Posso falar também na capacidade quase sobrenatural dos roteiristas para criar tramas intrincadas e surpreendentes em um universo complexo em sua natureza nonsense. Não falarei muito sobre isso pois, como disse, não faço spoilers. Se você se encantar pela série verá por si.

Também podemos falar que Doctor Who é o triunfo do intelecto e do romance sobre a força bruta e o cinismo como destacou recentemente Craig Ferguson bem no estilo pastelão característico da série:

Noite passada sonhei um episódio (sim, lamento que isso possa acontecer a qualquer fã) com uma outra característica forte na série: a coragem. As pessoas, mesmo as que menos esperamos, tem uma coragem fora de série. Coragem e disposição ao auto sacrifício de uma forma um pouco diferente dos auto-sacrifícios que estamos acostumados a ver. Tem a ver com senso de dever, não de responsabilidade que sempre vem carregada de culpa, mas de dever, de consciência de que aquilo é o certo a ser feito.

No final das contas cada fã naturalmente verá algo de mais especial na série, uma lição, uma fonte de inspiração diferente, mas o que mais me inspira na série é a forma como eles enfrentam os problemas.

Eles não querem uma vida sem problemas. Cada um dos personagens de Doctor Who poderia virar as costas para o senso de dever e viver uma vida tranquila assistindo séries, lendo livros, se divertindo com amigos, mas eles optam por se atirar em um Universo imprevisível e repleto de perigos mortais.

Eles não fazem isso em uma busca infantil e inconsequente de emoções, mas porque o Universo está lá para ser explorado e os problemas que aparecem no caminho são um preço justo a pagar e oportunidades de superação ainda que possam custar (e frequentemente custam) as nossas vidas.

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