Vamos lá, em geral escreve sem fazer qualquer spoiler, mas essa série pede alguns, não para contar referências que aparecem porque isso você vai achar em vários lugares e sempre achei fan service uma coisa meio… blé.

Primeiro vou falar sem spoilers e depois vou fazer algumas considerações sobre as questões morais que são legais de você experimentar em primeira mão, então pode ler a sessão abaixo sem medo, mas só leia a segunda se já tiver assistido a série ou não se importar.

Sem spoilers

Bem, talvez você não tinha visto os, sei lá, 17 filmes recentes do universo Marvel e pense que precisa assistir tudo se quiser assistir WandaVision, mas não precisa (eu mesmo não vi). Pode assistir a série mesmo sem ter a menor ideia de quem são Wanda ou Visão, a série explica tudo (e faz uns 3 ou 4 spoilers dos filmes, mas se você não se importou de ver até agora imagino que não vá se importar).

Vale a pena assistir para quem ama o universo Marvel e viu tudo? Vale porque fã vai gostar de tudo, né?

Vale a pena assistir para quem acha esse lance de herói meio século XX? – apesar de não ser um julgamento justo – Vale porque é bem diferente.

Logo nos primeiros minutos do primeiro episódio notamos que Wanda e Visão estão em algum tipo de realidade alternativa, presos em um mundo de séries de TV antigas ou algo assim.

A série explica muito bem o que está acontecendo com um roteiro coerente, momentos de humor (mais engraçados para quem conhece seriados do século passado), um pouco de mistério, tensão emocional crescente e algumas reviravoltas.

Muitas séries terminam e nos irritam com finais muito abertos, não é o caso. Tem espaço para outras temporadas, aliás dá vontade de ver como aquelas personagens vão se desenvolver, mas o arco se fecha muito bem, principalmente a tensão emocional e jornada de transformação das principais personagens.

Tenho a impressão que a maioria das pessoas que comenta WandaVision é fã do universo Marvel e acabam fazendo um desserviço para quem não é ao destacar coisas que não nos interessam, sim, não sou fã (mais) de super heróis. Acho que ficaram datados como os mocinhos do faroeste.

No entanto WandaVision é uma série sobre pessoas, sobre amadurecimento, ética, moral, empatia e várias outras qualidades humanas vitais.

Apenas o pano de fundo, o ambiente, é de super-heróis e, mesmo assim, a estruturação em torno de séries de TV antigas dá um tom muito mais humano. A tal ponto que acho que quem não sente atração por heróis possivelmente gostará da série.

Só não assista, obviamente, se você odeia ficção científica, fantasia, poderes sobrenaturais pois eles tem um papel na série, coadjuvante, mas está lá. É como eu que raramente assisto faroeste porque enjoei do cenário.

Agora pare! Spoilers adiante!

Ah! Para você ter mais tempo de não ver sem querer os spoilers: as atuações e caracterizações de época, incluindo culturais, estão ótimas!

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Photo by Andrés Gómez on Unsplash

Com spoilers

“WandaVision é uma história sobre luto” talvez seja o que você mais ouviu e leu. E está certo, mas primeiro que isso é vago, segundo que acho que não é nem de perto o mais importante da série.

Por isso quebrei minha regra e decidi comentar com spoilers.

Pode até ser que a intenção da produção e roteiro tenha sido “só” mostrar o luto de uma mulher (como me disse uma amiga apesar de eu achar que sirva para qualquer luto), no entanto enxerguei uma peculiaridade na forma de lidar com essa dor:

Wanda não aceita viver com a perda e cria um mundo de fantasia onde ela não aconteceu. E esse mundo, inclusive, volta para antes do fim da sua infância quando a violência das guerras encerra abruptamente qualquer possibilidade de ver o mundo pelos olhos da inocência.

Vou direto ao ponto: estamos passando todos por isso há décadas. Temos rejeitado a realidade em que vivemos e nos polarizamos, nos tornamos inimigos de quem sofre os mesmos medos que nós.

A metáfora termina aí, não posso dizer que Wanda representa o viés político tal e a cidade o viés outro-tal… Muito embora seja tentador… Você verá se ainda não assistiu a série e talvez esteja sorrindo com o canto da boca agora se já assistiu.

Isso nos leva a outro ponto surpreendente da série: tenho visto um certo consenso de que Ágata é a vilã… Certo. Sou um observador um pouco suspeito porque Ágata e a Feiticeira Escarlate são de longe as personagens que mais gosto do universo Marvel, no entanto pretendo provar minha hipótese.

A vilã de WandaVision é… A Wanda! E isso é fantástico porque ela definitivamente não é má, muito menos fraca, afinal é forte a ponto de reconhecer que errou, controlar o poder da feiticeira escarlate, abrir mão são só da fuga, mas do marido e dos filhos.

Os vilões podem não ser maus, podem estar sofrendo profundamente, podem ter se perdido, podem estar patologicamente confusos e pouquíssimas vezes vi um vilão assim no universo de heróis! Me corrija quem viu todos os filmes, mas não tem nenhum outro vilão como Wanda no universo Marvel, tem?

Tenho ainda outra evidência a favor da Wanda vilã: como tem sido dito por aí “Heroínas sacrificam seus amados para salvar a cidade e vilãs salvam quem amam ainda que isso custe a cidade”.

A propósito vamos combinar que a maioria dos heróis – principalmente masculinos – até poucos anos eram vilões por essa definição, concorda?

Sim. No final Wanda se redime, liberta seus escravos e sacrifica quem amava para salvar a cidade e, como eu disse, a série encerra brilhantemente o arco das principais personagens. Você verá similar com pelo menos outras três (não vou dar spoiler de tudo, né? Já tá sendo difícil dar tantos assim!).

E Ágata, uma das bruxas mais poderosas do universo Marvel? Mestra da Wanda nos quadrinhos? Ela é uma vilã?

A resposta fácil é “Sim, ela queria tomar para ela o poder da Feiticeira Escarlate matando assim a Wanda, que gostamos tanto”.

No entanto no processo – e ela declara isso claramente – estaria corrigindo uma anomalia, salvando a cidade e retirando do mundo uma ameaça de proporções planetárias, uma Feiticeira Escarlate que não entende os próprios poderes e claramente os está usando para o mal.

No final Wanda não pode confiar nela, nem a conhece, e precisa provar para si mesma e para Ágata que pode controlar os poderes da Feiticeira Escarlate.

Essa é para mim a jornada principal de WandaVision (que, você que já assistiu, deve ter pensado no jogo de palavras, certo? Visão da Wanda): Mais do que lidar com vários lutos (da infância perdida, do irmão morto, do marido e futuro violentamente interrompidos) trata-se de lidar com a dor sem fugir da realidade, do medo sem se cercar de uma pós-verdade, de uma fantasia.

Dizendo assim pode parecer que acho que WandaVision é a melhor série de todos os tempos. Não chega nem perto disso pois tem séries que nos confrontam com muito mais coisas e que nos causam a perturbação necessária para nos ajudar a mudar, entende?

O que estou dizendo é que o tema principal é muito atual e propício e que é passado com uma suavidade que provavelmente plantará muito mais sementes inconscientes do que revelações extáticas (com x mesmo, siga o link), o que é bom pois o que perturba carece de alcance e plantar sementes é tão importante quanto fazer crescer florestas.

Deixei algo de fora? Deixei. Tem outros personagens com mini-arcos bem instigantes, mas são pequenos (ainda) e decidi me concentrar só nas… principais… Bem, pode ser o fã babão de Ágata de da Feiticeira Escarlate que quer falar só delas hehehe.