O primeiro objetivo desse post é contextualizar a série e explicar porque você provavelmente deve assisti-la! A menos, claro, que não goste de ficção científica.

O segundo objetivo é trazer algumas reflexões sobre por que essa série é um marco como já foram Babylon 5 e Battlestar Galactica.

Sendo assim farei duas sessões no post. A primeira, logo abaixo, sem spoilers e dedicada a contextualizar a série e te preparar para entrar no clima. A segunda, bem identificada, com algumas observações que podem ser vistas como spoilers pelas pessoas mais puristas, ainda assim costumo evitar ao máximo, principalmente porque as melhores histórias se destacam por como são contadas e não pelo que contam.

Contextualizando a série

A humanidade colonizou o sistema solar. Temos os “internos” vivendo em planetas (Terra e Marte) e os cinturões (belters) que nascem, crescem, vivem e morrem no cinturão de asteroides extraindo os recursos que os internos usam para desenvolver suas indústrias e sociedades.

As articulações geopolíticas são centrais na história e servem tanto de paralelo com a estrutura atual do capitalismo quanto como um exercício de reflexão sobre o futuro: será que vamos continuar a reproduzir o sistema de exploração capitalista?

O elogio mais frequente à série é ao seu realismo que a coloca ao lado de outras como Battlestar Galactica.

Isso quer dizer que vemos diferenças culturais e até linguísticas entre os três principais grupos em que a civilização se distribuiu (Terra, Marte e cinturão) além da preocupação com o realismo em relação física. Por exemplo, as naves só tem gravidade se estão girando ou sofrendo aceleração/ desaceleração. No entanto, francamente, acho isso interessante e até instigante, mas não consigo achar importante a menos no sentido de, em tempos de pós verdade e negacionismo científico, mostrar que a realidade pode ser “divertida”.

O que faz uma grande obra é uma grande história ou mesmo grandes histórias com arcos coerentes para diversos personagens e panos de fundo ricos e significativos. E por significativo quero dizer que as histórias paralelas acrescentam significado, sentido e fontes de reflexão.

Com tanta riqueza de história (expressões idiomáticas e gírias, vários arcos de personagem além da trama central) a primeira temporada pode ser um pouco desafiadora para quem começa a assistir desavisadamente.

É desnecessário fazer anotações (a menos que você goste ou queira registrar para refrescar a memória em alguns anos), mas é bom prestar atenção ao que acontece em torno dos protagonistas desde o começo e acho aconselhável assistir um episódio por dia.

O centro da história está em um grupo de pessoas que será reunido pelas circunstâncias logo nos primeiros episódios e no desenvolvimento das relações entre eles, no aprofundamento do que sabemos sobre cada um e até de como as próprias personagens se percebem. E por falar em circunstâncias elas perseguem esse grupo, mas por motivos que fazem muito sentido.

Além desse núcleo central temos pelo menos mais três arcos de história que são importantes e poderiam sustentar sozinhos a trama se fosse essa a decisão de roteiro e direção. Você notará quais são e talvez até lamente que o seu preferido não tenha sido escolhido para ser o núcleo central. Não fique assim, dá para imaginar a vida deles fora do que é contado na série.

Finalmente acho interessante observar que, apesar de ter uma atmosfera distópica a série também tem aspectos utópicos. Por exemplo, o racismo por cor de pele ou etnia e o machismo praticamente desapareceram e é bem difícil identificar momentos em que alguém sofre discriminação por etnia, cor, gênero ou orientação sexual ainda que falte à série alguma representatividade.

Observações que podem conter spoiler

Se o seu olho sem querer caiu nesse parágrafo apesar do alerta vermelho acima e você não quer ver nem a mais sutil sugestão de spoiler, tudo bem, não tem nada nesse parágrafo, mas pare aqui porque não posso garantir pelos outros!

Tá avisade? Vamos lá!

The Expanse conta duas histórias: uma das tensões políticas e sociais entre Terra, Marte e os cinturões e outra sobre um mistério que vai crescendo desde o primeiro episódio e terá um impacto intenso na disputa sócio política da humanidade.

De certa forma a humanidade hoje também vive isso: por um lado temos pandemias e mudanças climáticas nos ameaçando, por outro parecemos ignorá-las e continuar em nossas mesquinhas disputas de poder. Aliás, encontramos o mesmo dilema em Babylon 5 e Battlestar Galactica. Pelo jeito a produção scifi está tentando nos acordar há um bom tempo.

EU diria que esse dilema é o questionamento central da história, mas encontramos também muita riqueza nas pequenas histórias e jornadas individuais.

Temos questões de relacionamento com pais e irmãos, personagens que temem terem perdido ou nunca tido humanidade, a busca obsessiva por poder ou por um objetivo que acaba colocando a própria humanidade de lado, temos jornadas de redenção que demandam o exercício do perdão.

Talvez possamos dizer que outra busca central da história é pelo senso de empatia e humanidade que está sempre sob ameaça conforme os tempos se tornam mais precários e rudes.

Vamos encontrar ainda arcos menores de história em momentos vividos por alguns personagens que buscam se reconectar com sua história ou simplesmente encontrar um pouco de alívio no meio de um período de perturbação.

A quinta temporada encerra o ciclo do mistério iniciado lá no primeiro episódio abrindo espaço para uma outra fase na história que chega a ser iniciada nos últimos episódios.

A sexta será a última temporada e parece garantida, mas ainda está sem data para lançamento, mas nela devemos ver um rápido arco de história resolvendo um novo mistério, ligado ao primeiro, que é apresentado nos últimos episódios da quinta temporada.

Uma última temporada pode ser muito bem vinda, mas eu já ficaria satisfeito com a forma como a quinta se encerra ainda que deixe algumas grandes pontas soltas, entretanto, quanto ao desenvolvimento de personagens, já dá para se satisfazer.

Referências e mais informações

Imagem: material promocional da Rafy/SYFY