Sobre o projeto Um S?bado, Um Conto

Advert?ncia: se voc? for menor mostre esse conto ao seu respons?vel antes de ler. Ele tem tem?tica adulta.

Esse ? o s?timo conto do projeto #UmS?badoUmConto (Post explicando o projeto)

Durante a semana as pessoas votam em estilo, g?nero, p?blico e ?poca. O autor s? pode saber o resultado ?s 8h de s?bado e tem at? meio dia para terminar o conto (esse foi at? as 13h).

Cada conto ? escrito com uma processo criativo diferente (veja no final).

O que voc? v? a seguir ? o conto com a m?nima revis?o. Voc? pode ler? em estado bruto no Google Docs.

O Conto

Ela parece um feixe de luz verde cruzando na noite escura velozmente, correndo com seguran?a apesar dos saltos altos. O verde vem dos reflexos no tecido do seu vestido. Os cabelos vermelhos come?am a se revoltar na cabe?a, soltando-se enquanto segue em disparada seguindo pela viela mais escura.

John ? despertado do seu torpor pelo martelar dos passos quando ela entra na viela onde ele est? jogado no fluxo p?trido de ?gua escura que corre pelo cal?amento de paralelep?pedo. O l?quido passa por seus l?bios com um sabor salgado e ocre. Ele n?o tem certeza se a mo?a que passa ? real ou mais uma imagem do ?pio que ainda persiste nas brumas por tr?s do seu olhar lento. No entanto sua mente est? acelerada.

Duas pessoas passam por ele logo depois da mo?a cujo rosto ele chega a ver como se tivesse se congelado diante dele. Ela n?o tem medo, h? um certo prazer no brilho dos olhos dela, mas corre assim mesmo? E solta o prendedor do cabelo escondendo-o sob a manga comprida de tecido verde e brilhante.

Os que seguem em persegui??o s?o um homem e uma mulher, mas h? mais? As sombras da viela tremulam de um jeito estranho, elas parecem fluir como a ?gua, mas em sentido oposto, vindo da escurid?o onde a primeira mulher desapareceu e se espalhando pelas paredes, pela rua suja, ao redor dos p?s dos perseguidores at? que a mulher parece escorregar, ou ?trope?ar e cair violentamente contra a parede fazendo um barulho, um estalo que desperta John do seu estado de letargia. Ela rosna como uma fera segurando o bra?o solto ao lado do corpo e n?o consegue se levantar pois seu tornozelo est? virado como se fosse uma quina de mesa. Um fiapo de sangue escorre do seu nariz.

O homem continua sua persegui??o sem se importar com a mulher que fica para tr?s, ambos com o olhar repleto de ?dio.

John se levanta escutando os passos se afastarem e se aproxima cautelosamente da mulher sentada ofegante e ferida diante dele. Nos olhos dela ele n?o v? medo, apenas uma escurid?o profunda. A mesma escurid?o que parece cerc?-la cada vez mais. Ele esfrega os olhos com as m?os imundas deixando o pr?prio rosto ainda mais empesteado. Seus olhos azuis formam um estranho contraste no meio daquela podrid?o que ? seu corpo e sua mente. Ele se lembra por um instante da fam?lia que deixou para tr?s em uma bela mans?o n?o muito longe de Londres, a cidade onde ele procura se perder dele mesmo. Eles provavelmente nem sabem se ele vive, se morre lentamente ou se j? se entregou ?s profundezas rubras da morte.

A respira??o da mulher est? cada vez mais acelerada em vez de se suavizar, ? como se ela estivesse em trabalho de parto, mas n?o ? a uma crian?a que ela dar? a luz, ela n?o dar? luz a nada. N?o s?o apenas suas vestes e seus olhos que s?o negros como o carv?o molhado que ? incapaz de se tornar em brasas. Sua pele ? acinzentada? Ou est? ficando assim conforme as sombras se movem em um lento turbilh?o ao seu redor, convergindo das ?guas na sarjeta, das paredes ao redor.

O negro olhar da mulher come?a a se tornar distante. N?o h? dor, h? entrega, h? vazio, um vazio furioso, um vazio que amea?a puxar John, um vazio que aumenta. Sim? Os olhos da mulher parecem um par de redemoinhos de ?leo negro, cada vez maiores, certamente maiores do que olhos normais.

John tenta se afastar, mas n?o consegue, ele ? atra?do pelas trevas diante dele dentro daqueles olhos que j? parecem do tamanho de laranjas cobertas de mofo ? ? imposs?vel pensar na cor laranja nesse momento, ? imposs?vel lembrar da luz ? John se surpreende ao perceber que suas m?os est?o ao redor do pesco?o frio, mas macio da mulher apertando cada vez mais. Ela engasga, tem espasmos, mas ele n?o se importa. N?o ? que seu corpo n?o lhe obede?a, ele simplesmente precisa fazer aquilo, ele precisa apagar aquela chama negra que come?a a subir pelas suas m?os at? que a mulher tem um ?ltimo espasmo e seu rosto volta ao normal? As sombras escorrem de volta para ela dos bra?os de John e s? ent?o ele percebe que ainda ouve passos morrendo ao longe na dire??o que os outros dois tomaram.

Ele d? dois passos para tr?s observando a morta diante dele, uma mulher protestante pelas vestes, com certeza? Olhando para a direita ele v? a rua mais iluminada, mas a luz parece cansada, enevoada. As poucas pessoas que passam por l? n?o olham para a viela. ? esquerda s? existe a escurid?o da viela que ele nem mesmo sabe onde vai dar, mas ? para onde seus passos o levam. Primeiro indecisos, tr?pegos, depois cada vez mais firmes e r?pidos at? que alcan?a o homem parado em uma bifurca??o tentando decidir em qual deles sua v?tima deve ter entrado.

Ao ser visto John come?a a cantar uma das m?sicas que drogados cantam e pede dinheiro ao homem, ele sabe que isso o far? ignor?-lo como mais um maluco moribundo das ruas? Mas ele realmente ? apenas mais um maluco moribundo das ruas?

Quando o homem se vira a mulher aproveita a distra??o e sai das sombras sorrateiramente, descal?a para n?o produzir nenhum ru?do. Seus p?s brancos como a neve contrastam com a lama negra que come?a a cobri-los conforme ela corre silenciosamente em dire??o ao seu perseguidor. O prendedor de cabelo em punho.

John a olha involuntariamente dando ao homem uma fra??o de segundo para perceber e se virar ferozmente girando o bra?o para acertar o punho no que quer que esteja vindo atr?s dele sem se importar se ? a mulher, uma crian?a ou um policial. A mo?a se atira sobre ele cravando o prendedor em sua coxa e puxando antes que ele possa esbo?ar uma segunda rea??o. O sangue jorra da ferida, mas o homem ri e consegue arremessar a jovem contra a parede com viol?ncia deixando-a desorientada por tempo suficiente para agarrar seus bra?os contra as pedras enegrecidas atr?s dela.

A mo?a parece n?o ter mais de vinte anos, ela lan?a um sorriso estranho para o homem, h? um prazer s?dico em seus olhos, ela lambe os l?bios como quem saboreia um resto de mel que se prendeu a eles. John se surpreende com a suavidade da voz que diz “Isso n?o precisa acabar agora bonit?o? Vem? Me bate! Mostra que ? homem!”

Em resposta ele bate com a m?o dela contra a parede fazendo-a soltar o afiado prendedor de cabelo que gira duas vezes antes da sua l?mina de metal frio atingir o ch?o na po?a de sangue que j? se formou jorrando da perna do homem. Os l?bios da mo?a tremem com a dor, mas os olhos continuam repletos de lux?ria e prazer “Mais!!” ela diz com sua voz que traz um pouco do dia longe das noites enevoadas de Londres.

O homem solta a m?o direita da mo?a e acerta o rosto liso e alvo dela com for?a fazendo-a virar para e esquerda, mas a m?o dela encontra agilmente outro prendedor no cabelo e penetra profundamente o pesco?o do homem. O sangue espirra no rosto e no vestido dela. Com o p? ela o empurra contra a parede oposta. T?o logo ele se choca contra as pedras frias ela j? est? sobre ele segurando sua cabe?a pelos cabelos e batendo com sua nuca contra a parede v?rias vezes at? que a consci?ncia o abandona e ele escorrega para a mancha vermelha que o fluxo da ?gua ainda n?o conseguiu diluir.

? Catherine, e voc? senhor, como se chama? ? Ela diz olhando para John

Ela limpa as duas l?minas nas pr?prias roupas e as coloca de volta no cabelo mal arrumado.

? N?o precisa ter medo de mim, se voc? ficar aqui eles o matar?o. Venha, mas antes? Qual ? seu nome?

Ela est? parada empertigada como uma jovem nobre que teve aulas de ballet, o bra?o direito esticado, a m?o p?lida aberta esperando pela m?o de John. Os dedos levemente flexionados e movendo-se suavemente. Seu rosto livre do sadismo e da luxuria que ele acabou de testemunhar. Ela parece uma crian?a, poderia ser sua filha? Ao redor sombras parecem fluir novamente de tudo ao redor, convergindo para eles dois, sombras deixando o homem que jaz (j? morto?) ao lado da mo?a de vestido verde, cabelos ruivos e pele alva.

Ela olha para os lados com uma leve preocupa??o, estar? vendo as sombras tamb?m?

? Vamos, senhor. O tempo est? terminando ? e ela sorri como quem est? prestes a jogar uma divertida partida de cr?quete e n?o como quem acaba de matar um homem em uma viela escura e pobre ? raios, tudo ? podre nesse mundo ? cercada de sombras vivas e chamando um estranho para ir com ela.

? John? Eu me chamo John senhorita ? Sua voz saiu tr?mula, indecisa.

Ela se estica, segura o seu bra?o e o puxa dizendo apenas “Corra”, mas ainda encontra tempo para pegar os sapatos que tinha deixado numa reentr?ncia na viela onde estivera escondida para tocaiar seu perseguidor.

Na pocilga
A jovem corre com facilidade, como se o ch?o n?o fosse realmente s?lido para ela, como se fosse um gramado macio e as paredes, vielas e postes passam ligeiros pelos dois, a respira??o de John queima, mas ele n?o se atreve a parar sentindo que as sombras ainda os seguem pelas paredes, nos limites das luzes dos postes e a mo?a segura seu bra?o com for?a obrigando-o a seguir seu ritmo.

??Ali! Atr?s daquela porta estaremos seguros! ? A mo?a faz uma curva para a esquerda na dire??o de uma escada que desce meia d?zia de degraus e termina em uma porta com uma argola de metal enferrujada. Ela se atira contra a madeira abrindo uma fresta e fazendo dobradi?as enferrujadas guincharem como uma ninhada de ratos.

Dentro do lugar John v? alguns porcos, ? uma pocilga sob um a?ougue talvez. Os porcos n?o parecem se incomodar muito com a entrada deles. Catherine acende rapidamente v?rias lamparinas que se espalham pelo lugar inteiro. O cheiro ali seria insuport?vel se John n?o fedesse muito mais e se j? n?o tivesse deixado de se importar com isso h? muito tempo, entregue ? espera da morte em um mundo sem sentido e agora cada vez pior?

Quando sua fam?lia protestante e temente a Deus o mandou para a Universidade a fim de estudar medicina n?o imaginava o inferno em que o estava atirando.

John foi criado na seguran?a de um lar moral, alheio ao mal do mundo. Aprendeu a reprimir seus impulsos desde cedo gra?as ao ar austero da m?e e as marcas deixadas pelas chicotadas do pai em suas n?degas quando ele violava algum bom princ?pio crist?o.

A mo?a diante dele olhando com curiosidade para seu rosto, virando a cabe?a para um lado e para o outro como se fosse um pardal poderia ser sua filha. Sim? Ele tinha se casado, mas isso foi logo ao final da universidade h? 20 anos. A ?ltima tentativa de se livrar do pesadelo dos questionamentos em que ele foi atirado pelo conflito entre sua educa??o familiar e as her?ticas promessas da ci?ncia de prolongar a vida, de restaurar o animamundi a corpos mortos e at? criar vida da mat?ria inanimada?

? O que aconteceu com a mulher? ??Catherine chegou seu rosto t?o perto do dele que por um momento seus narizes quase se tocaram. Ela olhava analiticamente para os seus olhos ? O que voc? fez com ela?

John gaguejava para dizer que apenas a viu cair, trope?ar, s? que se feriu demais, como algu?m se fere tanto em um mero tombo? O bra?o, o tornozelo destru?do, os olhos? O que aconteceu com os olhos dela? John balbuciava e perdia controle do que estava dizendo? “Minhas m?os em seu pesco?o, eu n?o? n?o foi de prop?sito? Foram as minhas m?os? E as sombras? Elas me apertavam tamb?m? As sombras”.

Catherine agora o olhava como sua filha uma vez olhou para um tordo com o pesco?o quebrado que se agarrava aos ?ltimos fiapos de vida. Havia compaix?o e um carinho que somente as crian?as tem. Na ocasi?o John n?o foi capaz de abreviar o sofrimento do animal. Hoje ele teria feito isso, mas n?o diante da sua filha que o olhava pedindo com a express?o do rosto que ele salvasse o pobre p?ssaro. Ser? que Catherine ser? t?o compreensiva? Ser? que ela notar? que ele tamb?m ? um ser moribundo, mas, ao contr?rio dele que deixou a ave morrer, lhe dar? um fim r?pido e indolor?

Foi naquele dia que John procurou os bra?os do ?pio pela primeira vez, para tentar fugir para um mundo onde seus questionamentos n?o o perseguissem? S? piorou? Mergulhado no submundo do ?pio encontrou um universo infinito de outras cren?as e mitologias at? que se convenceu de que era tudo inven??o de mentes fracas como a dele, que a humanidade n?o passa de animais disputando poder para poder ter prazer, que no ?ntimo seus pais sentiam desprezo pelos infi?is e se sentiam superiores tanto quanto seus colegas cientistas se sentiam acima de todos os tolos que acreditavam no sobrenatural. Outros n?o se davam ao trabalho dessas complexidades religiosas ou cient?ficas escolhendo casualmente uma ou outra por mera conveni?ncia, como quem n?o tem prefer?ncias por nenhuma cor, mas escolhe azul para declarar como predileta nos papos casuais pois todos precisam ter uma cor de prefer?ncia, mas na realidade eles s? buscam ter mais dinheiro, poder sobre sua mulher, seu homem ou ou sobre seus subalternos. Um poder perverso? Tudo para se sentirem poderosos senhores da Terra.

? Voc? a matou ent?o? Bom! Muito bom!

Catherine olha rapidamente para os lados, os cabelos rubros como o crep?sculo seguem seus movimentos como se fossem chamas em sua cabe?a.

? Essa noite ? a ?ltima chance. Se eu n?o estou muito enganada voc? tem um nome que pode nos levar para onde temos que ir, para a festa do Conde de Cardif. N?o pode ser coincid?ncia ter esbarrado com voc? hoje. As sombras! Voc? v? as sombras, n?o ?? Qual ? seu sobrenome? Vamos, senhor! J? est? na hora de acordar!
? Gainsborough. Sou John Gainsborough. Minha fam?lia tem rela??es com a do conde, mas devem achar que estou morto ou pior? Bem, estou pior, n?o ? mesmo? E sinto que vou morrer hoje. Finalmente vou morrer?

? Pode ser nobre Gainsborough, mas n?o antes de me ajudar com uma coisinha de nada. Sabe, eu nasci nas ruas. Quando me lembro de ser alguma coisa eu andava sozinha pelo mercado dos peixes. ? claro que devo ter nascido de algu?m, mas devem ter me jogado na rua, sei l?. N?o tenho nome e minha apar?ncia nobre n?o passa de disfarce que aprendi observando as mo?as saltando de suas carruagens enquanto eu vendia flores para seus cavalheiros lhes presentearem. Os dois que me perseguiam foram avisados pelas sombras das minhas inten??es. Voc? est? acompanhando?

John fez que sim com a cabe?a, mas era apenas medo de ser torturado se n?o estivesse entendendo.

Catherine lhe falava de como as pessoas como ele n?o estavam preparadas para a realidade, que somente quem veio ao mundo sem um nome, sem um teto, tinha for?a para ver o mundo de verdade.

Enquanto ela falava o cora??o de John parecia prestes a quebrar suas costelas tamanha a for?a com que batia. Ele percebia que o mundo negro em que vinha mergulhando nos ?ltimos dez anos n?o era uma podrid?o artificial criada pela humanidade, era o estado natural do Universo, o caos? E a podrid?o ? apenas a forma humana de lidar com o caos.

Seu peito do?a, sua mente parecia derreter dentro do seu c?rebro percebendo que ele foi apenas o primeiro da fam?lia e que logo o caos devoraria tamb?m suas filhas, sua esposa que, ele tinha visto outro dia se esgueirando diante da casa, ainda chorava por ele.

? ? banho, umas roupas e voc? vai nos colocar l? dentro porque conhece os c?digos internos, as formas como a gente deve falar quando estamos apenas com os nobres e as pessoas normais como eu n?o podem ver.

Catherine lhe deu banho com as pr?prias m?os removendo cada placa de podrid?o de seu corpo que, surpreendentemente n?o tinha p?stulas ou mesmo feridas. Ao redor ele via sinais de que algo terr?vel tinha acontecido ali e que explicava a aus?ncia do a?ougueiro e sua fam?lia. Quando tomou coragem e perguntou Catherine simplesmente disse que coisas ruins acontecem a ad?lteros.

John se deixava conduzir por Catherine como um fantoche. Ela o vestiu e preparou de acordo com sua extirpe. “Acredite em mim, eles n?o vou ligar se voc? foi dado como morto ou como assassino, eles querem a possibilidade de ter rela??es com? suas posses” foi o que ela lhe disse diante do medo de se identificar ? porta do Conde de Cardif.

J? diante da mans?o John se tranquilizou. Sabia que sua esposa vi?va ou mesmo suas filhas n?o poderiam estar ali. Pelas pessoas que entravam era claramente uma festa de neg?cios onde apenas homens e concubinas podiam entrar. N?o haveria mulheres respeit?veis ali e Catherine seria a sua mulher da vida, uma das mais lindas que ele jamais teve a chance de ver, s? agora ele percebia sob a luz e calor que emanavam das janelas da mans?o.

? John Gainsborough e Catherine, meu caro, pode nos anunciar e, por gentileza, tome meu chap?u e casaco. Catherine, sua estola, por obs?quio.

O linguajar ? nobre, mas no interior da mans?o a cena remete a Baco e suas bacantes. H? uma antessala onde tudo parece civilizado, mas logo depois dela h? m?scaras que os convidados podem pegar se n?o levaram as suas, apenas mais uma forma de se iludir pois todos s?o capazes de se reconhecer.

Numa sala lateral duas mulheres seguram uma terceira que grita em p?nico genu?no enquanto ? possu?da por v?rios homens e lentamente estrangulada por um dispositivo que pende do teto at? que sua voz come?a a engasgar e falhar deixando as pessoas entregues a um crescente frenesi. John vira a cara e tenta seguir, mas Catherine o det?m observando a cena at? o final quando aperta seu bra?o com mais for?a dizendo “Ali! Olhe, agora!”

As pessoas parecem alheias ao fato, mas uma sombra parece se soltar da mulher, consumindo seus ?ltimos suspiros de vida e fluindo lentamente para seus algozes, tornando seus olhos negros como o da mulher que John estrangulou lentamente na viela poucas horas antes.

John olha para as outras salas ? volta e percebe que aquela n?o ? a cena mais grotesca da festa. Enquanto alguns homens discutem neg?cios servindo-se de bebidas fortes, estupros, assassinatos e torturas terr?veis s?o perpetradas ao seu redor. Os gritos, gemidos e suspiros parecem energiza-los e todos tem a pele estranhamente tingida pelo cinza das sombras que invadem o lugar vastamente iluminado.

Catherine o solta e diz apenas “Voc? saber? o que fazer…”

Ela entra na primeira sala, atira longe sua m?scara, segura uma mulher pelo pesco?o com firmeza empurrando-a contra o homem atr?s dela, ao lado jaz a mulher morta ainda servindo aos prazeres dos homens que se revezam. Ela aumenta a press?o contra o pesco?o enquanto beija voluptuosamente a mulher perplexa. Sua outra m?o explora o corpo do homem at? chegar ao seu rosto. Ela descarta a mulher para o lado, morta ou desmaiada, John n?o consegue perceber, e beija o homem cujos olhos negros se afrouxam de prazer.

Catherine parece beber da maldade de lux?ria de cada um deles atraindo-os como o flautista atra?a os ratos. Ela segue entre as salas livrando-se das suas roupas e se entregando aos pecados que encontra em cada cora??o negro. Usando as l?minas que traz em seus cabelos corta a pr?pria pele oferecendo seu sangue para eles, desenha marcas nos peitos nus que se deitam sobre ela possuindo-a com viol?ncia, mas seu corpo suporta a tudo. As l?minas escolhem alguns aleatoriamente para tingir de vermelho o altar em que ela est? transformando a casa, corpos de homens e mulheres jovens e velhos s?o deixados para tr?s ainda com jatos de sangue fluindo dos seus pesco?os.

Todos seguem o feiti?o de Catherine, John v? as sombras vertendo primeiro lentamente para dentro da casa pelas frestas das janelas como se a casa estivesse mergulhada em um profundo lago de sombras at? que os vidros explodem, as portas se rompem e as sombras formam um jorro t?o volumoso que John ouve o barulho como de uma cachoeira ou de corredeiras.

As sombras seguem em dire??o a Catherine que ? um ponto de luz cercado de corpos obscuros em movimentos perist?lticos como uma profunda garganta. Seus bra?os e pernas nus est?o abertos e sangram enquanto seu s?quito se serve sedento da sua vitalidade.

Ela est? h? talvez vinte metros de John, mas suas voz caminha at? ele suave como a brisa de primavera e ? como se ela falasse ao seu ouvido, ele praticamente sente a respira??o quente em seu pesco?o e se arrepia.

? As trevas precisam ser contidas agora. Algu?m que conhece a luz e o caos precisa absorv?-las e impedir que se libertem novamente. A humanidade precisa ser livre para criar o pr?prio caos e aprender a dissolv?-lo sem a influ?ncia das trevas que nos cercam. Algu?m precisa ficar para sorver cada bruma do caos primordial e mant?-lo preso, essa ser? nossa ?ltima chance. A primeira e ?ltima.

A luz em torno de Catherine come?a a se apagar lentamente, os homens e mulheres que castigam seu corpo f?sica e sexualmente, que entregam o pr?prio sangue e de outros sobre sua boca suave e tingem de vermelho arterial sua pele branca parecem se tornar as ?guas podres que cruzam as sarjetas das ruas esquecidas de Londres.

John quebra as lumin?rias a g?s da casa enquanto corre para a porta chorando sem saber se ? por sua pr?pria alma, pela de Catherine ou mesmo das pessoas naquele festim diab?lico.

Ao chegar ao hall agora vazio, o cheiro de g?s j? turvando seus pensamentos, ele olha para a sala o fundo e a ?nica luz que vem de l? emana do corpo de Catherine, agora vermelho como seus cabelos. John n?o se importa mais com ele mesmo. Acha um charuto ainda em brasa e o usa para atear fogo a um len?o de algod?o. Quando o arremessa para ?corredor cheio de g?s o ar se incendeia jogando seu corpo com viol?ncia para tr?s fazendo-o atravessar a porta e ser atirado ? rua deserta ao lado de uma sarjeta novamente.

As chamas sobem pelas paredes com viol?ncia, h? gritos, mas os mais altos s?o de prazer, um prazer que faz a coluna de John tremer e congelar. As trevas ainda penetram as chamas procurando o ponto central do vortex que as suga, o corpo que abra?ou t?o completamente a podrid?o que se transformou em um sorvedouro, o corpo que agora queima dentro daquele lugar maldito.

John se arrasta para tr?s sentado, se afastando o calor e das sombras que n?o param de convergir para o lugar. Os gritos n?o cessam, ele acha que para pessoas que tem ouvidos como os dele n?o cessar?o jamais.

Horas passam, o fogo j? consumiu tudo que havia na casa, mas as sombras parecem aliment?-lo. Bombeiros e civis tenham aplacar sua f?ria sem sucesso.

John n?o pode se mexer. Ele precisa ficar parado para tentar fixar em sua mente o que aconteceu, se convencer que n?o foi tudo alucina??o e que ele sequer entrou na casa, mas as roupas que usa s?o uma evid?ncia e ? ent?o que ele v?. Somente ele v?

Vindo do meio das chamas um corpo nu, claro como o cristal, caminha em sua dire??o com os cabelos vermelhos esvoa?ando pelo efeito do ar quente do fogo ao seu redor. Ela chega at? ele, aproxima seu rosto do seu pesco?o e inspira profundamente. Seus dedos suaves caminham por sua face. Ela se ajoelha entre suas pernas. Ele sente os seios contra seu peito e as coxas ao redor da sua perna. Ele sente uma pontada profunda, uma excita??o que nunca havia sentido antes e percebe que seu sangue escorre quente por um segundo, mas ? estancado logo em seguida.

? John Gainsborough, nem eu, nem os que vierem de mim jamais se esquecer?o do cheiro do seu sangue e manter?o intocada sua descend?ncia, esse ? meu ?ltimo ato de humanidade e gratid?o. V? Busca sua fam?lia pois voc?s tem outro caos para cuidar.

Ela toma seu casaco, se veste com ele, caminha alguns passos em dire??o a um bombeiro que s? ent?o a nota e ela parece desmaiar sendo levada por ele logo em seguida. John percebe que as sombras continuam convergindo para ela deixando o ar cada vez mais leve conforme ela desaparece em uma ambul?ncia e some da sua vista.

Sobre o conto

Dois votos! Hahahaha!! Sempre tenho menos votos do que gente assistindo. A mente humana ? um universo de surpresas, n?? Porque ser? que as pessoas se interssam nos contos, nas n?o votam, n??

Para mim n?o tem realmente grande problema, s? ? mais divertido quando mais gente vota porque fica mais imprevis?vel.

As duas pessoas (elas se identificaram) s?o at? parecidas! Ambas pediram fantasia, adulto no passado, mas a menina quer terror e o rapaz aventura.

Ent?o vou atender os dois. Uma aventura de terror adulta no passado e de fantasia.

Dessa vez quero fazer adulto mais adulto. Tenho achado que estou pegando muito leve na tem?tica adulta.

Ah! Vou mudar bastante a estrat?gia tamb?m. Notei que, com 4h para escrever o conto n?o d? para ficar fazendo muita introdu??o. A coisa precisa come?ar meio que no meio, j? com alguma coisa acontecendo para dar tempo de concluir em 4h.

Processo Criativo

Cada conto ? um processo diferente, pelo menos nos 12 ou 14 primeiros. Vou ver na minha listinha um que eu n?o tenha usado ainda.

Estou em d?vida entre dois? Pegar um personagem interessante e construir ao redor dele ou pegar uma frase chave e fazer o conto em torno dela.

Os dois s?o bons para terror, mas mudam bastante o tom do conto. No primeiro caso o que vai acontecer ? menos previs?vel e o conto provavelmente vai girar em torno da supera??o humana, no segundo caso tende a abordar quest?es morais, ?ticas ou existenciais.

Eu devia pensar num jeito de decidir isso colaborativamente tamb?m hehehe! Cheio de d?vida hoje, mas estou com vontade de fazer uma personagem feminina. Gosto de escrever mulheres. Em parte porque acho que elas me permitem falar de coisas de homem e de mulher? Se bem que isso ? uma limita??o tola? T? a?! Vou fazer isso com um personagem masculino. ? um pouco mais dif?cil para mim, mas, pombas, eu inventei de escrever um conto inteiro em 4h s? sabendo sobre o que ? na hora que come?o n?o ? porque quero fazer do jeito f?cil, n??

Um homem ent?o? Ele ter? mais de quarenta. Fa?o isso para ajudar minha imagina??o a sintonizar em uma tem?tica mais adulta (se bem que homens muitas vezes permanecem infantis por toda a vida). Ele acaba de chegar aos quarenta, no m?ximo 42 para dar um distanciamento de mim.

T? parecendo que vou fazer em torno do personagem, n?? Mas ele ainda est? muuuuuuito xoxo. Talvez ainda apare?a uma frase?

? de terror? E ? aventura? Ah! E no passado!! J? andaram pedindo era vitoriana que ? um estilo que n?o estou muito pronto para escrever pois o respeito muito e acho que precisa de pesquisa para ficar bom usando nomes, fatos, datas e locais reais da ?poca. Seja como for quero fazer pelo menos cem anos no passado? Mas pode ser mil, n??

Tem ainda a fantasia. Normalmente isso puxa para um mundo alternativo, mas d? para fazer no nosso mesmo.

[8:39]Agora preciso dar uma parada para deixar a cabe?a voar e descobrir uma frase boa ou tornar esse personagem a? mais interessante? ? que t? dif?cil me concentrar? A mente est? indisciplinada? T? querendo fazer no Renascimento (s?culos XIV a XVII) que ? bom pois seu finalzinho pega o come?o da era cient?fica, ou na era Vitoriana que (fim do s?culo XIX) que ? ?tima para terror, aventura e fantasia, mas tenho receio de cometer uns erros hist?ricos grosseiros?[8:48]

[8:57]Acho que j? sei? Nosso protagonista ? um anti-her?i. Viciado em drogas, ?pio que era comum na era Vitoriana. Ele tem pouco mais de quarenta anos, ? algu?m que est? entre o povo, mas n?o nasceu no povo, sabe ler e escrever, teve acesso ? educa??o e ?s obras cl?ssicas, mas foi mergulhando na loucura primeiro por sua estupefa??o diante do conflito entre o mundo das cren?as e o das ci?ncias a que ele teve acesso. Sua percep??o da realidade est? prejudicada ou talvez ele a veja bem demais. Ele n?o sabe, ele nem se importa. Sua vida n?o lhe importa mais, s? se entorpecer enquanto a morte n?o chega pois ele jamais se mataria com medo das consequ?ncias, com medo de se tornar um esp?rito errante na Terra em vielas podres e escuras como as que ele est? acostumado conhecer com seu rosto se esfregando em suas podrid?es quando ele cai ou ? jogado expulso de algum lugar. Ele assiste das sombras coisas acontecerem, pessoas passarem, vidas serem tiradas com viol?ncia. Ningu?m se importa com o traste humano jogado nas sarjetas, encostado nas paredes imundas com o olhar sem vida perdido no horizonte, mas ele v?, ele ouve, ele sente. Essa hist?ria ser? a da jornada dele para as profundezas da loucura ou sua liberta??o dela. J? tem um quadro geral se formando? Mais uma pausa para divagar e come?o o conto[9:07]

[9:12]Acho que esse conto vai ficar pesado? Menores de 18, por favor, mostrem aos seus tutores antes para saber se devem ler, ok? Deve ter alguns aspectos perversos da natureza humana que s? conseguimos observar de forma mais saud?vel com um pouco mais de experi?ncia de vida[9:14]

 

Cr?ticas, sugest?es, perguntas, coment?rios:

Ajude a definir o pr?ximo conto: