Sobre o projeto Um Sábado, Um Conto

Esse é o quinto conto do projeto #UmSábadoUmConto (clique para conhecer e ver os outros)

Durante a semana as pessoas votam em estilo, gênero, público e época. O autor só pode saber o resultado às 8h de sábado e tem até meio dia para terminar o conto (esse foi até as 13h).

Cada conto é escrito com uma processo criativo diferente (veja no final).

O conto foi escrito em 5h e tem um final, mas algumas partes foram resumidas para maior desenvolvimento posterior.

O que você vê a seguir é o conto com a mínima revisão. Ele pode ser visto em estado bruto no Google Docs.

O Conto

– Então Samuel? Como foi sua semana de aposentado? – Os cinco amigos caminham diariamente no grande parque no centro de Belo Horizonte. O mais novo deles completou 72 anos no mês passado e o exercício é recomendação médica.

– Movimentadíssima, Saulo! Movimentadíssima! Além de aturar vocês quatro todo dia de manhã tive que fazer as compras do mês na quarta-feira, contei? Minha neta está viajando a trabalho e não foi comigo. São vinte e cinco reais para entregar, para mandar entregar em casa, vocês sabiam? Quase morri de três ataques fulminantes do coração ao ver o preço e aí decidi levar sozinho, não devia ser mais de 6Kg, velho come pouco, menos o Jorjão, né Jorjão? harharhar (a risada dele vem sempre acompanhada de um arranhar na garganta, fruto de décadas fumando; ele já parou). Aí quase tive mais três ataques fulminantes até chegar em casa. Uma aventura… Uma aventura… Da próxima acho que gasto os trinta e cinco reais…

– Vinte e cinco – Esse era o Jorge que é o mais magro dos três, mas que realmente come como um touro

– Hein? Vinte e cinco onde?

– Você disse vinte e cinco e depois trinta e cinco Samuel. Quanto era a entrega afinal?

– Trinta e cinco… Sempre dou mais dez para o entregador ficar feliz e não querer me assaltar.

– Ele vai te assaltar do mesmo jeito enquanto você tiver aquelas coisas caras dentro de casa – Esse era o Saulo de novo.

José e Ricardo vinham mais atrás resfolegantes como sempre. Eles participam fielmente das caminhadas, mas moram perto e, tirando esse momento, quase não se exercitam, passam a maior parte do dia vendo TV ou se fazendo passar por garotões na Internet. Eles estão esperando a vida acabar. De certa forma todos eles estão já no compasso de espera do fim e só tentam ocupar suas mentes para não pensar nisso.

Eles já não enxergam sentido na vida, nem tem propósitos. Que propósito alguém que não tem muito mais do que 10 anos pela frente pode ter? Também já viram de tudo, não contemplam mais a vida com o encanto dos que ainda tem curiosidade de ver para onde as coisas vão e que papel eles terão nisso.

Outro dia o neto do Ricardo ligou para ele dizendo para ele ver a Lua, como estava tão rubra que parecia uma moeda de cobre. Ele disse que foi ver, até citou algum poema que leu ou que talvez tenha escrito há décadas, mas não se levantou da cadeira. Nem tirou as pernas do pufe que fica em frente para ele não deixar os pés para baixo o que poderia fazer a trombose voltar. O médico deu as recomendações alimentares, mas, que diabos, agora na reta final ele ia se privar dos prazeres da vida? Os prazeres da vida ele pensava… A vida dele teve muitos prazeres, mas a memória deles não lhe traz satisfação, é bem o contrário… Há somente nostalgia em suas memórias.

– Hei! ‘spera aí! – ele engole o “E” no esforço para falar alto – O José tá tão cansado que não consegue nem falar! Vamo reduzir esse passo aí?

O José olha para ele com aquele misto de reprovação e carinho de amigos que atravessaram décadas juntos. O último a entrar no grupo foi o Saulo há quase vinte anos quando conheceu o Samuel no trabalho e foi apresentado ao resto do grupo nas noites de sexta feira.

Alguns deles tinham sido casados, José e Saulo nunca, mas já estavam todos sozinhos… Todos sobreviveram às suas esposas o que não estava certo, as mulheres costumam viver mais e… Bem… Agora eles estavam sozinhos. No fundo cada um deles se alegra um pouco por elas não terem que viver esse resto de vida onde sentido e propósito são apenas memórias nostálgicas.

O grupo se formou porque todos eram geólogos e tinham assunto para levar uns com os outros. Logo cedo na vida eles descobriram que, se tem um assunto que não chama a atenção de ninguém é geologia… Até ginecologista, lixeiro e auxiliar de escritório tem histórias que interessam mais gente.

Saulo, Samuel e Jorge reduzem o passo para que o José e o Ricardo reduzam a distância.

É nesse momento que uma moça jovem, com não mais de 25 anos, passa correndo como uma gazela por eles, quase fazendo boliche com os cinco. Eles observam as pernas grossas e fortes apertadas na calça jeans, o cabelo azul e rosa amarrado em um rabo de cavalo girando ao redor enquanto ela se vira para olhar para trás.

As primeiras coisas que eles pensam são “que potranca”, “que saúde”, “que maluca, vai machucar alguém correndo assim”.

Ela pula a cerquinha de dois palmos que separa a trilha do gramado, mas não dá três passos antes que um homem apareça diante dela obrigando-a a parar abruptamente escorregando na grama e caindo de bunda. A blusa de seda fina sobe a ponto de mostrar a barriga. A bolsa cai um pouco atrás dela.

O homem avança para pegá-la e mais dois vem do mesmo lado que ela veio e logo passarão pelos cinco amigos que se encolhem com receio de serem derrubados no chão pelos brutamontes.

É o Ricardo que tem o primeiro impulso e grita “Hei!! O que três homens grandes tem que se meter com uma mocinha só?”

Oito pares de olhos se viram para ele, os dos amigos, o da moça e o dos três perseguidores, mas ele só vê o da moça: firme, determinado e profundo, mas com medo. Aquele tipo de medo que temos pelos outros, pelo que outros vão sofrer se nós falharmos, não era o medo do tipo “o que vai acontecer comigo?”

Ele se dirige para a moça enquanto os outros quatro velhinhos encaram os perseguidores, um deles está de terno o que é muito estranho, o outro usa uma roupa de correr e o terceiro roupas normais de quem ia a um cinema ou trabalhar (era sexta-feira).

A situação produz a pausa que a moça precisava. Ela consegue se levantar e disparar correndo novamente entre os quatro amigos (Ricardo está a dois passos dela e chega a ouvir um leve “Obrigada” escapar junto com a espiração ofegante da moça).

Ela dá um encontrão forte no Jorge, mas já está longe na fração de segundo seguinte quando grita “Foi mal! Espero não ter te machucado”. O “Espero não ter te machucado” eles só supõe que foi dito pois já não dava mais para escutar conforme a voz dela se perdia na retomada de fôlego e na correria desembalada.

Os perseguidores não perderam tempo com eles e partiram de novo atrás da moça. Os cinco mal podiam andar rápido o que dirá tentar correr para impedir aqueles homens.

– Vou ligar para a polícia – Diz Saulo já pegando o celular, daqueles de botões porque ele não gosta de tecnologia como os outros que vivem insistindo para ele ter um WhatsApp.

– Polícia!!! Polícia!!! – José prefere uma abordagem mais direta. Não há ninguém para ouvi-lo, mas ele continua gritando e apontando – Para lá! Para lá! Três brutamontes atrás de uma moça.

Somente o Jorge parece quieto enquanto os outros discutem o acontecido. Demora quase três minutos para eles notarem e perguntarem o que foi, se ele tinha se machucado com o encontrão da moça. Ele disse apenas para irem para o boteco onde tinha a mesa da diretoria, sempre vazia lá no fundo a essa hora.

Chegando lá ele tira um envelope de dentro da camisa.

– Quando a moça esbarrou em mim ela me virou para os três perseguidores não verem que estava enfiando isso debaixo da minha camisa. O que fazemos? Abrimos? Mandamos para a polícia? Jogamos fora?

– Abrimos…

– Abrimos…

– É Abrimos – Esse é o Samuel, que é mais covarde, digo, cuidadoso

– Abrimos, claro! – Ricardo está decidido, algo acendeu dentro dele ao ver aquela moça meio pirada, é verdade, mas determinada e cheia de vida, fugindo de algo que ele não tinha entendido, mas queria entender.

É um envelope pardo, desses com uma cordinha que embola numa peça de metal para fechar, mas não tem nada escrito nele, nem mesmo um logo de empresa.

Eles desenrolam a cordinha e tiram o conteúdo. São cinco grupos de folhas presas, cada um com três páginas preenchidas.

Primeiro grupo

Córdoba – Monsenhor Joaquim Cruz Barbosa

Um mapa impresso da cidade de Córdoba na Argentina com um X marcado sobre uma igreja e um círculo sobre uma casa na periferia perto de um shopping Center (DinoMall).

O restante é um texto teológico em espanhol.

Segundo grupo

Amesbury, Wiltshire SP4 7DE, Reino Unido – Amy Easternvale

Não tem mapa, mas tem a estranha instrução “Entre o portal leste, quarenta passos ao norte”.

O texto é em inglês, uma carta para Amy falando sobre mergulhar nos fluxos de vida da Terra, sentir as linhas de conexão da vida, em sua fragilidade, em como devem ser preservadas ou um dia se desfarão sozinhas levando embora as formas de vida atuais e abrindo espaço para outras

Terceiro Grupo

Freeport – Texas – Jonh Smith

O mapa aponta uma parte da cidade, e tem três zooms mostrando uma esquina, uma hora e a data dentro de quatro dias.

O texto em inglês diz apenas “não desista” e “Na casa da sua avó. Sob a escada dos fundos”

Quarto Grupo

São Paulo – Centro Cultural Vergueiro

Tem uma foto de um monumento que parecem fitas dobradas e uma seta para um ponto sob ele.

As outras páginas estão em branco.

Quinto Grupo

Rio de Janeiro – Forte de Copacabana – Coronel Antonio Carlos Epstein

Não tem foto ou mapa, apenas uma longa lista de tarefas como “Estudar geografia”, “Conhecer Armas Antigas”, “Viajar para a Inglaterra”, “Leia James Lovelock e duvide”, “Duvide sempre”, “Duvide de você mesmo” (essas três estêo agrupadas).

– Que porra é essa? – José é o mais desbocado, ainda que nenhum deles seja exatamente… delicado

– A questão é o que fazer com essa porra, não? – Jorge olha intrigado para os grupos de papéis. Talvez por ter sido escolhido pela moça ele sinta alguma responsabilidade. Talvez uma forma de devolver os papéis – Vamos tentar achar a moça? Ela certamente não queira que isso caísse em mãos erradas, essas pessoas devem ter alguma importância.

– A moça tinha cabelo colorido, mas já viu quanta gente tem cabelo colorido hoje em dia? A única chance de achá-la é se os caras pegaram ela, mataram e a polícia encontrar em algum lugar… Pobre moça. Certamente está morta agora e ela não servirá para nada morta. – Saulo, o amargo.

Samuel e José se entreolham, os outros se calam e olham para eles.

– Que se foda! A gente vai morrer daqui a pouco mesmo e somos cinco, vamos entregar essas merdas dessas mensagens nesses lugares. É isso que vocês estão pensando, né seus putos?

Os cinco caem na gargalhada. Saulo não tem grana guardada, mas os outros tem o bastante para rachar as despesas da viagem dele. Estavam guardando para a velhice… Um deles comenta o fato e caem todos na gargalhada de novo.

– Meu neto mora em São Paulo, ele não vai gostar muito, mas pode me ajudar e… Bem… Essa pode ser a nossa última viagem, não é? – Curiosamente o olhar de Ricardo não é triste. É como se pela primeira vez em mais de dez anos ele estivesse feliz

– Bem, acho que o Jorge deve ir para a Inglaterra, algo me diz que vai ter um bocado de caminhada envolvida e você é o mais forte de nós. Quem mandou passar a vida sem fumar, quase sem beber e comendo alfafa? – Ricardo é o mais estrategista dos cinco.

– Faz sentido – dizem todos em coro e o Jorge concorda com a cabeça pensando que talvez seja melhor um negro zanzando na Inglaterra do que vagando pelas ruas no Texas.

– Samuca, Freeport ou Córdoba? – Ricardo permanece na função de coordenação

– Córdoba nem pensar! Meu espanhol é um terror! Vou pedir táxi e vão me enfiar em uma casa de orgias!

– Olha lá se não é isso que você quer, hein Samuca? – A risada do Jorge é contagiante. Os garçons pensam que eles estão comemorando o aniversário de algum deles de tanto que gargalham.

– Vou para Freeport. Já estive por lá algumas vezes em congressos do petróleo. – Samuel bate o martelo

– Acho que sou o único no grupo que fala espanhol pelo menos decentemente, né? Passei uns quinze anos trabalhando com aquela empresa de mineração Argentina e até já estive em Córdoba há uns 20 anos. É uma cidade pequena e aconchegante, não deve ter mudado muito. – diz José.

– Então o Saulão aqui fica com a cidade das bundas e seios voluptuosos, o Rio de Janeiro! Vou causar um estrago por lá!

Os amigos caem novamente na gargalhada!

Os preparativos são rápidos. Dois dias depois Samuel deixa um envelope na portaria da neta com as chaves e endereços dos apartamentos de cada um deles para que ela possa cuidar das coisas “caso nenhum de nós volte”. Ele deixa também a chave de um cofre privativo num banco acrescentando para ela esconder aquela chave e só usá-la se não souber deles em uma semana. Tudo estará explicado nos documentos que estão no cofre.

Eles se preocupam em deixar esse peso sobre os ombros da neta que tem aproximadamente a mesma idade da moça que lhes deu os documentos, mas sentem que aquilo não pode acabar ali com eles, caso falhem.

Os cinco se separam no aeroporto. Olham desconfiados à volta, mas não enxergam ninguém suspeito. Talvez as pessoas que perseguiam a moça não saibam que ela passou o envelope para eles ou nem façam ideia de como encontrá-los. Quem esperaria que um bando de velhos moribundos saíssem em uma aventura pelo mundo?

Os Voos do Jorge e do Samuel são os primeiros a sair, mas serão os últimos a chegar, principalmente o Jorge que ainda terá que viajar para o norte da Inglaterra até o endereço indicado.

Saulo

Ele é o primeiro a chegar. O voo é curto e o horário foi feliz, tinha pouco trânsito.

O forte na verdade é um ponto turístico. Saulo não sabia disso. Chega no lugar e tem uma guarita/bilheteria onde ele se identifica, mas não precisava. Idosos entram sem pagar e ninguém duvida que ele é idoso.

– Rapaz, com quem posso falar para encontrar o coronel Antônio Carlos Epstein?

– Senhor, não tem nenhum coronel com esse nome aqui… Mas o senhor pode ser informar naquele prédio ali.

Ele passa por uma infinidade de jovens militares que dizem que não podem fazer a pesquisa para um civil, mas que não tem nenhum coronel Antônio Carlos Epstein ali. E ficam lhe sugerindo que vá na Colombo tomar um chá e aproveitar a vista como se ele fosse um velho maluco.

Mas ele nota uma mulher comprida encarando-o de trás de óculos escuros, ele tem certeza que ela o está encarando, sentada numa das mesas externas da confeitaria/restaurante/casa de chá e resolve disfarçar e adotar outra tática.

Entra no salão, vai até o balcão como quem quer olhar para os salgadinhos e pergunta para uma moça muito solícita do que são e qual ela acha mais gostoso?

A moça gosta da coxinha que tem o osso da galinha espetado nela, um fêmur espetado na coxinha? Lugares chiques tem umas coisas estranhas, Saulo pensa com seus botões.

Uma outra moça vem perguntar se ele não quer se sentar a uma das mesas e ele estica o papo com ela também, mas sem arredar pé do balcão fingindo que precisa ver as coisas para escolher.

Finalmente, entre risos ele diz que acha que o filho de um amigo trabalha naquele forte, o Antônio Carlos Epstein “vocês conhecem?”

– Claro! É o Carlinhos! Sei por causa do cartão de débito que tem o nome inteiro, achei engraçado o sobrenome, sou fã dos Beatles, sabe? – Não, Saulo não sabia e não entendeu a relação, mas não se importava

– Que ótimo! Será que consigo encontrá-lo hoje?

– Carlinhos? Ah! O Antônio Carlos? Ele se chama Epstein? Que engraçado! – Diz a outra moça, a que queria levá-lo para uma mesa – Claro, ele deve aparecer aqui daqui a pouco, eu digo a ele para ir para a sua mesa. O senhor quer se sentar agora? Tem preferência?

Ele vê a mulher que estava do lado de fora entrar para olhar o balcão também e se apressa em desconversar dizendo “claro! Claro! Aquela ali está ótima” – e senta torcendo para as moças não mencionarem que ele está procurando alguém.

Felizmente elas não fazem isso. A mulher estranha ainda volta umas duas vezes e o vê tomando chá e comendo um salgadinho. Ela acaba desistindo e não aparecendo mais.

Demora quase duas horas até que uma das moças apareça na porta apontando sua mesa para alguém.

Surpreso Saulo vê que a pessoa vindo para a sua mesa não pode ter mais de 20 anos. É praticamente uma criança. Ele jamais poderia ser um Coronel, quer dizer, pode vir a ser um dia? Estranho…

– Oi, o senhor conheceu meu pai? É que eu lamento dizer que ele morreu pouco depois que eu nasci… Fui o último filho dele quando já estava com quarenta e cinco anos.

– Sente-se! – E Saulo sorri com uma alegria curiosa que ele talvez nunca tenha sentido. Que mistério será esse? – Você se chama Antônio Carlos Epstein?

– Sim senhor, de onde meu pai o conhecia?

– Você gosta de mistérios meu jovem? Pois não vejo outra forma de resolver isso. Veja só, há dois dias uma moça fugindo de uns caras no parque onde eu caminhava – ele achou melhor não falar dos amigos – me entregou isso discretamente antes de continuar a fugir.

Ele entrega o papel para o rapaz que primeiro olha com a testa franzida e absoluta descrença nos olhos e até um sinal de ira como se estivesse achando que era alvo de alguma pegadinha ou golpe até que seus olhos se arregalam enquanto vão lendo a lista.

– Senhor? Como mesmo o senhor disse que era seu nome?

– Saulo, meu filho, Saulo. Eu não tinha dito ainda. Isso significa alguma coisa para você?

– As três últimas frases… É algo que minha mãe dizia para mim toda noite antes de dormir. Ela ainda diz de vez em quando… Só pessoas muito importantes para a nossa família sabem dessas frases… O senhor precisa me dizer mais sobre isso!

– Lamento, jovem. Eu não sei nada! Nada mesmo! Só estou aqui porque sou um velho sem nada a perder, minha vida já devia ter acabado, quase todo mundo que conheci já partiu e sinto que vivo de créditos que não merecia… Tem só uma coisa. Tinha os homens perseguindo a moça, acho que tinha uma mulher suspeita me vigiando logo que cheguei aqui. Talvez o melhor seja você guardar muito bem esse papel e fazer de conta que nunca me viu. Faça segredo, filho?

Antes de sair da mesa Saulo manda um torpedo para o Ricardo. Ele xinga a cada palavra que escreve, como é difícil escrever naquele treco, porque não deu ouvidos aos amigos e comprou um daqueles telefones espertos? Medo do aparelho ser mais esperto que ele, talvez?

Foi mais de meia hora escrevendo torpedos explicando tudo que acontecera a fim de alertar os outros que o mistério é maior do que eles pensavam e que, pelo jeito, há riscos.

O Ricardo com certeza terá mais facilidade de repassar a história para os outros pelo WhatsApp ou o que quer que eles usem naquelas parafernálias. Veja só… Velhos usando essas coisas de jovens… eles não tem vergonha mesmo!

Saulo começa a rir sozinho e decide pedir uma cerveja “tem cerveja? Me traz uma cerveja moça, tenho uma vida muito longa pela frente ainda”.

Ricardo

O Centro Cultural Vergueiro é at? perto do aeroporto de Congonhas para uma cidade do tamanho de São Paulo e o Ricardo é o segundo a chegar ao seu destino.

O monumento fica no meio de um canteiro central. Há uma casa de mendigos mais no canto sob umas árvores e Ricardo tem medo. Ele já recebeu os torpedos do Saulo e repassou para os amigos. Passou meia hora zanzando pelo centro cultural para ter certeza que não era seguido antes de ir para o ponto marcado.

Tinha mesmo uma seta no chão… Não daria para notar, era como se algum ácido tivesse queimado a grama formando uma seta e, bem na ponta, a terra estava fofa com um fiapo de arame para fora.

Ao puxar veio uma caixa de um pouco mais de um palmo, dessas de plástico que vedam hermeticamente. Dentro dela tinha quatro canetas envelopes e uma instrução: quando os outros terminarem use as páginas em branco para enviar uma carta para cada uma das pessoas contactadas com o nome e último endereço conhecido das outras pessoas. Diga para procurá-las apenas em 27 anos.

José

Ao chegar em Buenos Aires, escala para Córdoba, José consegue wifi num café no próprio aeroporto e fica sabendo da experiência dos outros.

Ele decide que sua primeira parada será a casa marcada no mapa e depois a igreja, mas antes passa no DinoMall, o grande shopping Center que aparece no mapa para se informar sobre a região e não andar às cegas. Come em um restaurante chamado La Parrilla de Mirta, há 12 anos ele não comia carne assim, era perigoso para sua saúde, “para o inferno a saúde! nunca me senti tão bem pensa ele”.

Ele fica sabendo que a região é um pouco deserta e que é perigoso um senhor idoso andar entre as ruas onde fica a casa, ele então decide passar em frente de táxi e vê que a casa tem uma placa de “Vende-se” e uma família muito pobre olha para ele do jardim.

Ao chegar na igreja ele não se surpreende ao saber que não existe um Monsenhor Joaquim Cruz Barbosa, mas tem um coroinha Joaquim que ele logo descobre que se chama Cruz Barbosa.

Ele mostra o endereço da casa para o garoto e a mensagem teológica. Os olhos dele brilham. Ele é de família rica, a casa tinha sido da família dele. Ele agradece muito.

José tem o cuidado de já chegar na igreja perguntando pelo jovem Joaquim e conversa com ele sem que ninguém ouça e passa os papeis para ele discretamente e avisa para ele cuidar muito bem do segredo.

Ao sair ele acha que o padre da paróquia o acompanha com atenção demais.

Samuel

Samuel chega 24 hora antes do horário determinado e tem tempo de planejar bem sua linha de ação. As pessoa não andam a pé em Freeport. O encontro dele só pode ser com algum tipo de morador de rua e ficarão expostos. Como a moça pretendia fazer esse encontro em segurança? Ela teria que ter parceiros, afinal não dá para estar em vários cantos do mundo ao mesmo tempo. Alguém colocou a caixa em São Paulo. Onde estarão os associados da moça?

Samuel decide se vestir como um mendigo e chegar meia hora antes na esquina marcada. Senta no chão perto de uma cerca meio recuada onde é difícil ser visto. Fica olhando desconfiado para um e para outro lado pois no saguão do hotel ele tem certeza de ter visto três pessoas sentadas longe umas das outras, mas que se entreolhavam e olhavam para ele.

Ao sair foi pela cozinha e saiu pela área de carga e descarga do hotel certo de que os despistou. Trocou as roupas num beco e escondeu a mochila com as roupas boas em um espaço estratégico que achou.

A pessoa que surgiu na esquina pontualmente na hora indicada era um funcionário público que foi fazer manutenção em um poste de eletricidade ou telefonia.

Ele aborda o homem que tem cerca de quarenta anos. Primeiro ele olha surpreso, depois começa a chorar ao ver a referência à escada… Ele diz que a filha de 8 anos está muito doente em casa e ele estava pensando em forjar sua morte para que a família ganhasse o seguro e pudesse viver pelo menos mais um tempo. A vida não vinha sendo boa para eles.

Samuel segue com o homem até a casa da avó onde eles encontram títulos ao portador e uma carta dizendo “Salve a Caroline e guarde o resto para a faculdade dela”.

O homem, que realmente se chamava Jonh Smith pensa que Samuel é o benfeitor, mas ele diz que não e conta a história para o homem sugerindo manter segredo.

– Do Brasil??? – É só o que o homem consegue dizer perplexo.

Jorge

Jorge é o último a chegar, tanto pela distância do voo quanto pela dificuldade de acesso ao endereço indicado que o leva para… Stonehenge!!!

Ele caminha um bom tempo até lá e fica claro o que significa o portal leste. Um dos conjuntos de pedras aponta diretamente para o nascer do sol. Ele caminha os passos indicados na direção certa e encontra uma rocha encravada no chão. Parece estar ali há anos e tem uma seta apontando para o sul e uma distância 3,48km (em KM mesmo).

Ele segue na direção contando com o apoio do GPS até encontrar uma casa. Na porta tem a caixa postal e o nome Easternvale. É uma família.

Ninguém o seguiu, ele tomou bons cuidados para isso também.

Ele bate à porta e é atendido por um casal bonachudo de ingleses, ela negra, ele branco como a neve. Ela com uma grande barriga.

Jorge já desconfia e pergunta apontando para a barriga: essa é a Amy?

E conta a história para os dois

27 anos depois

Um monge argentino que trabalha pelos pobres, uma jovem bruxa inglesa e bióloga premiada por desenvolver tecnologias de recuperação do ecossistema, uma educadora americana que se dedica à educação universal e um militar brasileiro que está fazendo a segunda tese de doutorado abordando a transformação das forças armadas em forças de paz recebem cada um uma carta com os nomes e últimos endereços dos outros.

O remetente é uma mulher de pouco mais de cinquenta anos que diz apenas que o avô dela pediu há 27 anos que ela enviasse essas cartas e que os destinatários entenderiam (alguns talvez depois de conversar com os seus pais)

Os quatro decidem se encontrar. O que os unia? Que inteligência superior previu seus futuros?

Eles se reúnem na África, em Sfax na Tunísia que ainda tem um ferry boat que a liga à Fran?a.

A mais nova é Amy, com 27 anos.

Eles passam um longo tempo comparando histórias de família que possam levá-los até o Brasil de onde teria vindo aquele senhor 27 anos antes. Percebem que são vários senhores e não um só, provavelmente mortos há muito tempo, já teriam mais de noventa, talvez mais de 100 anos.

Finalmente eles chegam a um nome. Uma empresa para a qual a família de cada um deles trabalhou, uma empresa de geologia cujo dono fez prospecção no mundo inteiro com a desculpa de estudos geológicos, mas que amava mesmo era as pessoas. A família de cada um deles tinha acolhido esse homem em algum momento.

Eles passaram a vida achando que uma força maior tinha antevisto o futuro deles. Tiveram forças para continuar nos momentos mais difíceis porque sabiam que tinham um sentido na vida, que tinham um propósito.

Na verdade a força maior tinha sido um homem agradecido que preparou um grande esquema para dar propósito a cinco dos seus amigos e a quatro famílias que lhe mostraram amor.

O propósito de cada um deles foi definido por eles mesmos no final das contas. A grande força superior que talvez nem imaginasse que criaria quatro pessoas que teriam muito a dar pelo bem da humanidade, era uma boa pessoa que soube dar espaço à sua gratidão.

Fim
[12:45]

Considerações finais

Desculpem mais uma vez pelo fim corrido… É mais um conto que merece ser mais desenvolvido se for publicado. Espero pelo menos que vocês consigam sentir o suspense e a aventura (acabou virando suspense também, né?) e não fiquem decepcionados com a trama que criei, ela pode acabar mudando quando o conto for mais trabalhado. O que acham?

Ao desenvolver a aventura de cada um dos amigos terei mais material para deixar claro que as pessoas perseguindo os cinco, incluindo a moça e os perseguidores no começo, foram contratadas para compor a trama.

Notícias etc

1- vou acrescentar gênero às opções: scifi, fantasia, realista

2- a partir da semana que vem vou fazer o Hangout no domingo em vez de logo depois de escrever

3- vocês podem fazer perguntas e sugestões pelo Twitter (@roneyb) ou nos comentários no Blog ( https://www.roney.com.br/2014/09/11/um-sabado-um-conto/)

[8:10]Voltei!!

Processo criativo

Vamos ver como foi a votação:

TemaVotosPúblicoVotosÉpocaVotos
Terror4Infantil2Passado5
Romance4Jovem3Presente6
Aventura7Adulto12Futuro6
Suspense2    

Aventura, Adulto e… Ih! Empatou! Presente e futuro… Humm… Que tal nas duas épocas então? ;-) Mas ainda não vou fazer scifi… Tenho facilidade em escrever scifi e quero dificultar :-)

Entre as sugestões tem “mente e comportamento humano” e “Proibido, Idosos, Brasil, Serra” será Serra político ou serra o acidente geográfico? Algo me diz que era o político… Vou deixar isso na cabeça e ver se surge alguma coisa.

Vamos ver agora que processo criativo vou usar, já foram quatro, esse é o quinto e tenho mais uns 7. Vou ver a lista que fiz… Já volto[8:19]

[8:21] Estilo épico: pensar em várias locações que combinem com o tema e conectá-las. Essa é boa para um conto que tem que acontecer no presente e no futuro, né?.

Os meus contos adultos não andam tão adultos, tirando o de terror, né? Vou tentar melhorar isso hoje.

Então a regra é pensar nos lugares que me permitam viajar entre o presente e o futuro sem ficção científica, ou seja, a história começa no presente e continua no futuro, ou começa no futuro e vem para o presente.

O segundo caso é melhor para suspense do que para aventura pois a gente vê o resultado e vai descobrir depois as causas, mas talvez faça o contrário para dificultar, hehehehe.

Enquanto escrevo Stonehenge fica na minha cabeça, mas é porque tenho um universo de fantasia para RPG que acontece por lá em várias épocas, isso vai acabar influenciando a criatividade. Vamos ver.

Como não tenho muito tempo para pesquisar o ideal é pegar lugares que eu conheça e um futuro que já ande sempre pela minha cabeça… Ah, e que se preste a uma história de aventura, claro! Queria pegar um lugar no Brasil e na serra por causa das sugestões…

Eu poderia oscilar entre presente e futuro. Fica ótimo, mas normalmente eu teria que ter planejado o conto todo antes.

Tá, os lugares são São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Córdoba na Argentina e Stonehenge (porque não? Hehehehe).[8:30 – Esse é meio que o limite que eu notei que tenho para começar o conto e acabar até o meio dia]

Agora tenho que pensar em que tipo de aventura poderia ligar esses cinco lugares, talvez com algo proibido e mexendo com a mente e o comportamento humano? Não, isso deve vir naturalmente, o proibido é uma boa ideia.

Tem idosos nas sugestões!! Isso é bom! Não teve idosos ainda nos contos do projeto!

[8:35]Deixando a mente divagar entre o que já decidi[8:41]

Aha!!! Já sei quase tudo! Como começa, por que começa, mas falta decidir exatamente qual é objetivo da aventura. Preciso de mais uns minutos para pensar nisso. Algumas vezes dá para ir construindo enquanto escrevemos, mas esse exige um pouco mais de detalhes antes de começar. Já volto.

[8:55]Não consegui fechar tudo não, mas acho melhor começar com o que tenho[8:56]

O Hangout

Ajude a definir o próximo conto: