Sobre o conto

Esse ? o quarto conto do projeto #UmS?badoUmConto (clique para conhecer e ver os outros)

Durante a semana os leitores votam em estilo, p?blico e ?poca. O autor s? pode saber o resultado ?s 8h de s?bado e tem at? meio dia para terminar o conto (esse foi at? as 13h).

Cada conto ? escrito com uma processo criativo diferente (veja no final).

O que voc? v? a seguir ? o conto com a m?nima revis?o. Ele pode ser visto em estado bruto no Google Docs.

O Conto

Fevereiro. 1899. Calor surreal. As roupas colam na pele apesar do vento que sobe o morro da Provid?ncia vindo da cidade mais abaixo? trazendo cheiros e poucas vozes. S?o duas da tarde e o sol parece mais cruel do que ao meio dia.

Jos?, Carlos, Jorge e o Coronel est?o empenhados em construir uma casa. Eles trabalham em equipe desde que sobreviveram ? guerra. Confiam nos outros mais do que neles mesmos porque um homem muitas vezes trai a si mesmo entregando-se ? bebida, ao jogo ou ? mulher errada.

Coronel ? apenas um apelido pois Josu? ? aquele homem sem medo, o que sempre mant?m a cabe?a no lugar e v? o melhor caminho a tomar, a melhor estrat?gia a seguir. Ele n?o se entrega ?s emo??es e sabe a hora de se esconder e a de contra-atacar.

Mas agora eles j? n?o precisam se esconder ou contra-atacar nada. A guerra acabou e deixaram de servir. Eles sabem tirar a vida de uma pessoa, n?o sabem como vender produtos em uma quitanda, nem como arar a terra ou colher caf?, mas o caf? tamb?m j? n?o ? como antes e parece que ? na ind?stria que estar? o futuro. Foi o Coronel que disse. Ele sabe das coisas.

Agora eles precisam de casas. De tetos onde possam se proteger das chuvas violentas do Rio de Janeiro.

Os vinte mil soldados vindos de Canudos tomaram a provid?ncia de se instalar naquele morro onde j? havia outros moradores vindos de corti?os destru?dos pelo prefeito anos antes. A partir da? o morro passou a ser conhecido como morro da Provid?ncia.

Os quatro amigos chegaram pouco depois disso pois antes tentaram se estabelecer em outras regi?es percebendo, enfim, que a capital lhes proporcionaria mais oportunidades.

Essa era a ?ltima casa que eles estavam construindo. Finalmente o Coronel teria um lugar dele pois insistiu que constru?ssem as casas dos amigos antes, afinal eram mais jovens e j? vinham se engra?ando com boas mo?as enquanto ele, bode velho, j? tivera sua dose de casamento para a vida. Ele deu azar, diziam os outros, mas o fato ? que ele provavelmente passaria o resto da vida sozinho dedicando-se aos amigos.

Uma semana depois a casa estava de p?, os quatro amigos tinham onde se abrigar do tempo… onde construir fam?lias.

Toda sexta feira eles se re?nem na casa do Coronel para falar dos velhos tempos e jogar cartas. Sem dinheiro, pois jogo a dinheiro destr?i amizades e manda homens para o inferno.

J? ? tarde da noite quando voltam para suas casas, quase onze horas. Os ru?dos noturnos s?o estranhos? Entre os gemidos abafados de casais em suas casas h? estalos seguidos de outros tipos de gemidos reprimidos por sussurros selvagens de homens que odeiam mulheres, mas as querem assim mesmo. H? choros de beb?s dessas e de outras casas e, vez por outra, pode-se ver os olhos assustados de crian?as engolindo o choro enquanto se escondem nas sombras.

Mesmo um soldado que j? passou as noites entre os ru?dos do mato, certos de que est?o cercados por caaporas, mulas sem cabe?a e sacis perer?s sente arrepios quando percebe outras coisas entre as casas que n?o conseguem descrever. N?o enxergam e nem ouvem, eles percebem.

Hora ? como se o ch?o tremesse com passos pesados pr?ximos. Hora ? um vento que parece soprado de narinas quentes e apodrecidas.

Foi Josu?, o Coronel, que falou nisso uma noite, em como parecia que o ch?o do morro ou as casas ao redor deles, transformavam os seres do mato em outras coisas na cidade grande. Coisas mais raivosas, coisas com inten??es mais? cru?is.

Os outros n?o falariam no assunto com medo de parecerem tolos supersticiosos, mas o Coronel podia. Ele n?o falava com medo, falava com a sabedoria de quem sabe que h? perigos que n?o percebemos racionalmente, que s? podem ser percebidos nos pelos arrepiados do bra?o.

Poucos anos mais tarde o morro da Provid?ncia seria um dos lugares mais violentos do pa?s, mas os quatro j? n?o estariam l?.

A Terra tem esp?ritos, os quatro sabiam disso, os quatro tinham vivido semanas seguidas no meio do mato e sabiam.

Quando os homens come?am a lutar, derrubar ?rvores, cortar morros e manchar o ch?o com sangue e fuligem esses esp?ritos se irritam ou se transformam. Um homem s?bio entende que deve prestar as homenagens a esses esp?ritos.

Os negros que estavam no morro antes deles entendem isso melhor que os brancos e tratam de agradar seus esp?ritos lhes prestando homenagens e entregando oferendas.

Jos?, Carlos, Jorge e o Coronel n?o se entregam a essas crendices, s?o homens de Deus, mas n?o s?o tolos de ignorar os outros deuses que nos cercam. J? tinham visto o bastante para saber que cada um tem seu Deus e alguns lugares tem seus pr?prios Deuses.

Durante os carteados n?o deixavam de entregar o primeiro gole de cada copo ao santo deixando cair no ch?o de terra batida. Ao ir para casa faziam o sinal da cruz ao sair e ao entrar. Batiam a porta tr?s vezes para espantar qualquer esp?rito maligno que os tivesse seguido e faziam suas ora??es ao dormir e ao acordar.

A sombra

Foi numa noite de inverno, se ? que existe inverno no Rio de Janeiro. Era o ano de 1905 e os barracos de Carlos, Jorge, do Coronel e de Jos? j? apresentavam t?buas enegrecidas pela umidade e pelo tempo, as paredes j? mostravam as marcas das hist?rias vividas ali. Das pessoas que passaram por suas vidas. Outros amigos perdidos em suas jornadas pela vida, alguns que se acharam ali gra?as ? ajuda dos quatro amigos.

Jos? e Jorge se casaram e j? tinham crian?as, um teve uma menina o outro um menino. Ainda fr?geis em seus 2 ou 3 anos de idade.

As noites de carteado nas sextas continuam, mas agora tinham novas hist?rias, novos sonhos e projetos. Cada um deles estava aprendendo uma nova profiss?o. Nada demais, posi??es na ind?stria ou no com?rcio como todos os outros.

Foi numa dessas noites, j? bem depois das 11 horas, que Jos? acordou sobressaltado sem saber por qu?. Se esgueirou sob a janela e olhou para fora a tempo de ver uma sombra se afastando da sua casa e passando por tr?s da casa do Coronel logo ? frente.

Agora que ele estava acordado percebeu que a raz?o de se levantar repentinamente foram batidas r?pidas, mas firmes em sua janela. Gabriela, sua esposa dormia profundamente e o beb? tamb?m.

Ele saiu de casa descal?o sentindo a terra sob os p?s. O Cruzeiro do Sul ia alto no c?u o que significava que o alvorecer j? devia estar pr?ximo. Quem estaria se esgueirando entre as casas?

Cautelosamente ele d? a volta em seu pequeno barraco at? que encontra, sob a janela onde tinha visto a sombra, uma caixa de metal pesada.

Ele a leva e coloca sob a cama. Nem pensa em abr?-la, mas percebe que est? lacrada e que tem uma fechadura. Amanh? ? outro dia e ele poder? falar com os amigos.

? claro que ele n?o poderia ter visto que a sombra entrou pela janela do Coronel porque ela ficava do outro lado, virada para um espa?o onde n?o havia mais casas e que, meia hora depois, o Coronel saiu carregando algo grande e pesado nas costas e sombra nunca chegou a sair da casa dele.

Duas horas depois o c?u est? azul como se vivessem no para?so, mas para Jos? parecia meio obscuro, como se houvessem nuvens fazendo sombra.

Ele teria que ir ao trabalho, mas n?o podia passar o dia todo sem falar no assunto. Se arrumou mais cedo que de costume, n?o tinha dormido depois de pegar a caixa de qualquer forma, ent?o foi s? esperar um pouco para n?o despertar suspeitas na mulher.

Um homem n?o divide seus problemas com sua mulher, seria crueldade al?m de fraqueza. ? o homem que tem for?a e recursos para resolver as coisas, o que uma mulher faria? Sairia entre os barracos reunindo outras mulheres para tomar alguma iniciativa? Todos ririam. Elas mesmas riram ao se olharem.

N?o, ele teria que falar com os amigos antes de ir trabalhar. Jorge ? quem reclamaria mais pois costumava dormir at? mais tarde nos s?bados j? que n?o trabalhava nos fins de semana, os outros acordavam junto com o Sol tamb?m para correr atr?s da vida.

De qualquer forma n?o seria um problema dele j? que, ? ?bvio, o Coronel seria o primeiro que ele iria procurar.

O Coronel atendeu a porta totalmente desperto. Olhou para um lado, depois para o outro e deixou o amigo entrar. Jorge e Carlos j? estavam l? dentro. O Jorge? Ent?o algo aconteceu a todos naquela noite.

? Voc? demorou, n? Jos?? – O sorriso do Jorge era largo e cheio de dentes brancos, mas sua testa estava ligeiramente franzida e seus olhos refletiam preocupa??o.

? O que te deram, Jos?? – Carlos parecia assustado, n?o ria. Ele sempre sobreviveu gra?as a esse medo, era o mais cuidadoso e melhor em se esconder e s? n?o dava ouvidos ao medo quando um amigo estava em perigo, nesse caso ele virava uma verdadeira on?a e se atirava contra o inimigo sem pensar.

O Coronel sentou-se no estrado da cama, alguma coisa tinha acontecido com seu colch?o feito de palha, e olhou para os tr?s.

? Uma caixa. O Jos? recebeu uma caixa. Ela est? em seguran?a, Jos??

? Est? sim Coronel! Coloquei atr?s da madeira que uso no fog?o, est? bem coberta e ningu?m vai mexer ali t?o cedo at? porque j? coloquei uns troncos novos no fog?o.

? O neg?cio ? o seguinte? J? falei para os outros. O Carlos veio para c? ainda no meio da madrugada j? que mora sozinho e a esposa do Jorge acordou junto com ele quando a sombra passou ent?o n?o havia sentido em esconder, mas somente n?s podemos saber o que est? acontecendo e, lamento, n?o podemos saber de tudo.

Os tr?s pares de olhos est?o voltados para ele refletindo a aceita??o. O que o Coronel disser ? a lei. Eles s? queriam poder carregar o fardo, seja ele qual for, ajudando-o com o peso.

? Eu n?o sei o que est? na caixa Jos? e voc? n?o pode saber o que a sombra trouxe para os outros. Voc? ficar? com ela at? chegar a hora e um de n?s lhe dir? qual ? a hora. Nenhum de voc? pode saber o que eu recebi. ? tamb?m para a seguran?a de voc?s. Hoje, esse momento, ? a ?ltima vez que falaremos nisso at? que chegue a hora e isso pode demorar anos. Se acontecer alguma coisa com algum de n?s temos que ter um plano de reserva, entenderam? Voc?s devem escrever em um papel onde est? o que lhes foi entregue e deixar com algu?m de confian?a dizendo para s? olhar se algo acontecer a voc?s. ? claro que n?o pode ser algu?m da fam?lia. Todos n?s temos colegas em quem podemos confiar al?m de n?s, pelo menos para essa tarefa.

Os tr?s se foram juntos. O Coronel saiu quinze minutos mais tarde, fechou a porta e voltou uma hora depois carregando compras.

As esposas do Jorge nunca mais perguntou sobre aquela noite e a do Jos?, mesmo tenho visto que ele movia uma caixa pesada para um lado ou para o outro de tempos em tempos at? que acaba por fazer um pequeno al?ap?o que ? mais um buraco para ela. Ela lhe pergunta apenas uma vez o que era aquilo e aceitou calmamente “esquece que essa caixa existe, t? bom Gabriela” como resposta suficiente.

As ?nicas vezes que quatro amigos quase falam daquela noite s?o nas noites de carteado nas sextas-feiras. Eles se entreolham, algu?m chega a abrir a boca como se fosse dizer algo, mas a fecha de novo com um estalo dos dentes ou fala sobre outra coisa como “essas cartas est?o t?o velhas e marcadas que eu j? sei a m?o toda do Coronel” e todos caem na gargalhada porque ? verdade e n?o pensam mais na noite e na sombra.

Na noite da sombra Carlos acordou com uma m?o forte segurando sua boca. Ele tentou levantar, mas n?o conseguiu, quem o segurava era forte como o diabo!

Ele arregalou os olhos tentando ver seu inimigo, mas ele estava envolto em sobras, estava escuro e a luz que vinha da lua n?o chegava o rosto do homem mesmo quando ele se inclinou at? seu ouvido e uma voz desconhecida lhe disse para n?o ter medo, que um amigo o tinha enviado e que ele devia apenas decorar uma frase. Um dia ele saberia o que fazer com ela. O homem repetiu a frase tr?s vezes e depois mais duas. Mesmo no meio das sombras Carlos finalmente conseguiu ver os olhos do homem encarando-o enquanto perguntava se ele tinha entendido, se ia se lembrar e gravar na alma o que ele tinha dito. Que outra alma, uma alma inocente, dependia disso. Carlos assentiu e a sombra sumiu. Talvez ela tenha apenas partido rapidamente, mas, em sua mem?ria, ele lembra dela ter sumido.

Foi a esposa do Jorge que acordou antes dele. Apertando com firmeza seu bra?o, Matilda era forte como um cavalo, os olhos arregalados e sussurrando “acorda. tem algu?m” em seu ouvido. O barraco dos dois tem dois c?modos: o quarto e a sala e ? na sala que Jorge v? uma sombra perto da porta.

? Lamento que voc?s tenham acordado. N?o se preocupem. Sou apenas um mensageiro. Tenho que falar com voc?. Sozinho, Jorge.

Vendo que Jorge carrega uma barra de ferro na m?o esquerda (ele ? canhoto, coisa que esconde de todos durante o dia por via das d?vidas, mas agora ele precisa do m?ximo da sua habilidade para defender sua fam?lia) a sombra coloca uma coisa sobre a mesa, se vira lentamente e, antes que Jorge possa fazer alguma coisa, desliza velozmente pela porta desaparecendo na noite profunda.

Em cima da mesa Jorge encontra um saco de couro. Dentro dele h? uma chave. Somente uma chave.

Carlos

“A vida ? dos solit?rios” ? o chav?o do Carlos. Por solit?rio ele quer dizer “n?o casado”.

Ele e o Coronel foram os ?nicos a n?o casar. O Coronel porque nunca mais amaria outra mulher al?m da Josefina, que se foi e ele porque simplesmente n?o sentia vontade. N?o queria ter filhos, muito meno esposa e nem era muito correr atr?s de rabos de saia, era “bicho solto”.

Trabalhava pesado para melhorar de vida. Muito cedo os quatro perceberam que ali no Morro da Provid?ncia n?o ia dar para ficar. O pessoal que tinha nascido ou tido filhos l? acabava se afei?oando, afinal a gente segue as nossas mem?rias, mas ele e os outros tinham outros motivos. Achavam que n?o era boa ideia ficar l? com os segredos que a sombra lhes havia confiado.

Ele estudou e encontrou um emprego nos correios. Os anos passavam, mas n?o tinha uma noite em que ele n?o pensasse na frase que tinha recebido. Ele a adicionou ?s ora??es di?rias para n?o esquecer. Estava gravada em sua pele como uma marca de gado.

Acabou se mudando para uma rua no centro da cidade e disse para os outros que a parte confiada a ele estaria numa caixa dos correios, um pequeno truque que ele tinha bolado. Mesmo que ele desaparecesse um deles poderia ir l? e pegar a coisa apenas entregando um n?mero.

Onze anos se passariam at? que ele tivesse que agir.

Jorge

Ele nunca soube que o Jos? tinha uma caixa, uma vez por m?s ele pegava a chave e olhava para ela pensando o que abriria, pensando se estava bem guardada, mas n?o t?o bem guardada que ningu?m pudesse ach?-la caso ele morresse. Sua esposa n?o sabia da exist?ncia daquela chave, era como se fosse uma arma escondida que a fam?lia n?o podia saber onde estava para evitar um acidente.

Ele acabou se envolvendo com m?sica, sempre foi bom de rimas. N?o era rico, nem perto disso, mas dava para viver e sua esposa tamb?m trabalhava como lavadeira.

A chave acabou sendo escondida em seu viol?o e ele somente disse para os outros “viol?o” num dia que estavam num bar bebendo e rindo das hist?rias do passado, de outros soltados que haviam lutado a lado deles como aquele recruta que saiu do meio do mato gritando que o caapora tinha mordido ele, mas no final das contas ele tinha ? sentado em um porco-espinho.

Entre as risadas um deles falou “mist?rios da floresta” o que instalou um sil?ncio repentino entre os amigos. Todos se lembraram da sombra? E foi quando ele disse para eles “viol?o” e todos souberam do que se tratava.

Ele tamb?m estava vivo e bem 11 anos depois da visita da sombra. J? com quarenta anos apesar de um pouco envelhecido pela vida noturna de m?sico.

Jos?

Ele era o mais novo do grupo, tinha pouco mais de 35 anos quando completou 11 anos da visita da sombra.

Nenhum deles jamais ficou sabendo quem era ou o que significava cada parte do que eles tinham, nem sabiam exatamente o que os outros estavam guardando.

Ele realmente se esqueceu da caixa depois de uns 5 anos. ela estava muito segura dentro de um pr?dio que ele tinha ajudado a construir, um edif?cio p?blico com um grande por?o que n?o seria dif?cil de acessar mesmo sendo um visitante comum, mas que ningu?m frequentava por ser apenas um espa?o para dep?sito. Ele marcou a parede com a silhueta de uma sombra raspada nos tijolos bem acima do buraco que ele tratou de deixar coberto apenas com uma camada de reboco fr?gil que poderia ser quebrada sem dificuldade ou estardalha?o.

Josu?, o Coronel

Onze anos depois Josu? estava com quase 50 anos. Uma idade avan?ada para quem lutou em uma guerra. L?der nato e sempre calmo nas situa??es mais desesperadoras, ele acabou conseguindo se tornar gerente de uma pequena quitanda.

Come?ou l? carregando mercadorias nas costas largas e fortes apesar de j? ter quarenta anos e foi conquistando rapidamente a confian?a do dono do lugar que, poucos anos depois, praticamente confiou todo o neg?cio a Josu?, que s? era chamado de Coronel no morro e pelos colegas de armas. No trabalho ele era o pac?fico Josu? que trabalhava duro e gastava pouco, quase nada.

Mesmo ganhando um pouco mais do que os outros e gastando pouco Josu? sempre esteve apertado de grana porque teve essa sobrinha de sete anos que foi entregue a ele um m?s depois da visita da sombra.

Os pais dela tinham morrido e n?o havia mais ningu?m na fam?lia restando apenas o bom e velho Coronel que lhe deu tudo que podia e um pouco do que n?o podia.

Era uma menina calada, nunca a viram chorar, e o Coronel n?o tinha muito jeito com crian?as educando-a como se fosse um pequeno soldado.

Ela fazia pequenos consertos na casa junto com ele, n?o usava roupas de menina e sempre fazia os amigos brincarem de soldado, de pique pega ou de esconder.

Foi um problema quando, aos quatorze anos, ela arranjou o primeiro namorado. Os rapazes diziam ao Coronel que ele tinha que ficar de olho, mas ele dizia que ela tinha que saber se cuidar.

? Maria, eu sei o que voc? anda fazendo com o Ricardo. – A imagem dele diante dela era gigante, ela tinha que olhar para cima para v?-lo inteiro e a sombra dele a cobria completamente. Qualquer crian?a teria medo do olhar sever que o Coronel lhe lan?ava, mas n?o ela.

? N?o t? fazendo nada, tio!

? Pois saiba que ele quer fazer e mo?as que n?o s?o casadas n?o deviam fazer o que ele quer, mas ? voc? que tem que cuidar disso. Eu n?o estarei sempre do seu lado, voc? sabe por qu?.

Ningu?m viu esse di?logo, mas todos viram o Ricardo com o pulso quebrado e o nariz sangrando quando ele saiu de um beco seguido logo depois por Maria que estava com os cabelos emaranhados e os olhos brilhando com um fogo selvagem.

Mulheres n?o se cuidavam sozinhas, muito menos menininhas, mas, talvez por ser mais velho e ter medo de morrer muito cedo o Coronel a criou como um menino soldado e n?o para ser uma esposa obediente.

A revela??o

Maria completou 18 anos h? menos de dois meses. Est? trabalhando em um teatro, onde mais uma mo?a criada como menino trabalharia? Ela ajuda nas coxias nas trocas de figurino e na opera??o de polias para mover os cen?rios. N?o tem futuro como atriz, mas gosta do ambiente livre e das conex?es dos atores com os diversos submundos de uma cidade como o Rio de Janeiro. Em suas fantasias eles conhecem at? monstros que andam pelos esgotos e que lhes garantem o sucesso nos palcos mediante o sacrif?cio de algumas virgens. Maria, quem sabe, poderia escrever pe?as se sua imagina??o arredia demais n?o fosse mais fantasiosa que os anos 10 daquele s?culo permitiriam.

Ela chega em casa tarde da noite, eles ainda moram no morro, seu tio ? o ?ltimo do grupo ainda morando naquela pocilga, mas ela gosta, deixa a gente mais resistente.

? Maria. O que voc? lembra antes de vir para c??

Ela nem tinha colocado o segundo p? em casa ainda e seu tio a recebe com um golpe desses.

Fazia mais de dez anos que ela n?o pensava em outa vida al?m daquela com o tio, o per?odo at? seus sete anos era uma regi?o sem luz, totalmente apagada da sua mem?ria e sobre o qual eles nunca tinham conversado, at? aquele momento.

O jeito como algumas mem?rias ficam totalmente obscurecidas como se nunca mais fossem voltar, mas retornam com toda for?a em uma fra??o do tempo necess?rio para inspirar nos fazendo engolir o ar r?pido demais e ficarmos tontos? S? n?o sabemos se ? o ar ou as mem?rias repentinas que nos atordoam.

Assim ficou Maria. Encostada na parede do barraco olhando para o tio. Uma l?grima correndo pelo rosto (mas ela n?o chora!) e o cora??o martelando no peito a ponto de doer.

Ela lembra de tudo.

? De tudo, tio. De tudo que importa. De me esconder debaixo da cama. De ouvir os gritos de desespero da mam?e e o rosnado grave do meu pai e o barulho de coisas pesadas batendo contra a carne fraca at? que os sons sumiram. Lembro do Sebasti?o, que era cozinheiro, me tirar do esconderijo segurando minha boca e correr comigo pulando pela janela para o jardim da casa e disparando para a seguran?a da escurid?o me cobrindo com o seu corpo negro para ningu?m nos ver fugindo. Ele estava descal?o e s? com as cal?as que, por sorte, eram pretas. Lembro dele me esconder no mato dizendo para n?o sair de l? sen?o o Curupira ia me virar do avesso e eu ia pedir para morrer de tanta dor que ia sentir. Lembro de ficar sozinha muito tempo em um lugar e depois vir morar com voc?, tio. N?o lembro dos meus pais? Quem eram meus pais? Como eles eram? Porque eles morreram?

Ele n?o responde. Apenas lhe entrega um endere?o e lhe diz para levar o seguinte recado para quem mora l? “A sombra me enviou. Me leve at? os outros”

Maria n?o sabe exatamente o que esperar, mas confia plenamente no tio e bate ? porta do Carlos que n?o atende. Ela v? umas pessoas na cal?ada em frente ? casa e pergunta se sabem do morador dal?. “Ah! o Carlos, ele saiu mais cedo, vai voltar com certeza”.

Ela espera por tr?s horas at? que ele apare?a.

Ao v?-la ele a reconhece imediatamente e corre preocupado achando que aconteceu alguma coisa ao Coronel.

? Maria! O que voc? faz aqui? O Coronel est? bem?

? A sombra me mandou, me leve at? os outros

? Agora, Maria? N?o quer entrar um pouco? ? que? Eu n?o sei do que se trata toda essa hist?ria, mas algo me diz que voc? ? muito jovem ainda para enfrentar o que quer que seja.

? Meu tio n?o pensa assim. Nem eu, Carlos. Se n?o for inc?modo para voc? prefiro ir o quanto antes.

Ele assente com a cabe?a e nem entra em casa. Ele sabe bem onde Jorge e Jos? moram e trabalham. Sabe at? onde achar as outras partes, mas seguir o plano ? sempre o melhor caminho.

Em menos de duas horas eles re?nem as partes. Maria n?o deixa que ningu?m v? com ela. O fogo que queima no seu peito lhe diz que ela n?o deve envolver ningu?m de quem ela gosta nisso.

Foi f?cil achar a caixa com as instru??es do Jos?. Ela lava a caixa para o teatro, acima dos cen?rios, onde ficam as roldanas das polias, onde ningu?m poder? interromp?-la.

A chave abre a caixa. A primeira coisa ? uma carta escrita com uma letra de caligrafia impec?vel de mulher.

Maria,

Minha alma se parte em peda?os ao lhe escrever essa carta e rogo a Deus que voc? nunca tenha que l?-la ou que o fa?amos juntos em alguns anos aliviados por temos superado essa fase t?o terr?vel.

Seu pai est? organizando o restante do conte?do da caixa que lhe ser? entregue quando voc? estiver pronta, caso o pior aconte?a, caso nossos inimigos se movam mais rapidamente que n?s.

A caixa ser? confiada ao Sebasti?o, soldado nobre que teve que vir trabalhar como nosso cozinheiro por ser negro e n?o haver espa?o melhor para ele ele nosso pa?s, salvo raras exce??es como aquele escritor mulato, Machado de Assis, espero que voc? leia as coisas que ele escreve um dia.

Talvez aqueles que a proteger?o diante da nossa aus?ncia achem melhor n?o lhe contar suas origens, portanto vou cont?-las agora.

Eu, sua m?e, sou descendente de linhagem nobre de Portugal e seu pai ? um General que comandou muitos homens at? perceber que as guerras s?o um caminho de dor e de domina??o que n?o ajudam a construir um mundo melhor e sim um mundo mais violento.

Nossos documentos estar?o na caixa e voc? ter? um nome e sobrenome.

A pol?tica n?o s? desse, mas de muitos outros pa?ses, est? sendo constru?da sobre os alicerces do poder, da for?a e do medo e n?o da raz?o, do humanismo e da sabedoria.

Seu pai enxerga um futuro de guerras terr?veis pela frente e se op?e a isso e eu sigo ao lado dele por ser sua esposa e tamb?m por compartilhar das mesmas ideias e ideais.

Entretanto, enfrentar quem usa a viol?ncia e o medo com a raz?o ? extremamente perigoso, mas n?o temos alternativas, n?o podemos usar os mesmos artif?cios deles.

Gra?as aos nossos contatos militares e aristocr?ticos conseguimos reunir grande quantidade de provas sobre alguns dos pol?ticos mais influentes desse pa?s e de grandes latifundi?rios do caf?, do gado e outros que tem planos de explorar a popula??o mais pobre desse pa?s. O mesmo acontece em outras col?nias. N?s n?o podemos nos calar diante disso e temos nos reunido com outras pessoas de vis?o humanista e humanit?ria. Queremos construir um mundo melhor.

A caixa onde est? essa carta cont?m t?tulos financeiros que voc? pode usar para viver bem at? decidir se casar ou ter outro tipo de vida, n?o importa o quanto queiram impedir, os ventos do s?culo XX vir?o para todos e nos abrir? outras possibilidades!

Tamb?m h? uma c?pia de todas as provas que mencionei acima. Cabe a voc? decidir o que far? com elas, s? pe?o que n?o se coloque em risco, minha filha, que procure dar continuidade ao legado de amor da sua fam?lia, amor por esse pa?s e pela humanidade.

Seu pai e eu j? cometemos muitos erros dos quais nos arrependemos, j? fomos preconceituosos e belicistas, isso parecia correto na ?poca, mas despertamos para um outro mundo quando voc? nasceu.

Com amor, Mam?e e Papai

 

Mam?e e papai estavam assinados com a letra dela e a dele.

Folheando os dossi?s Maria viu os nomes de v?rios dos patriarcas mais poderosos da atualidade. Algum deles enviou os homens que esmagaram seus pais at? a morte. Ela quer que eles paguem, mas percebe que n?o foi apenas um deles, que todos eles tinham causado extrema dor e morte a outras pessoas de acordo com o que constava nos pap?is.

Que se destruam entre si?

Maria se lembra de Sonhos de Uma Noite de Ver?o, de Hamlet e de Muito Barulho por Nada, das intrincadas tramas de Shakespeare e percebe que n?o seria nada dif?cil fazer com que cada patriarca achasse que o outro estava deixando vazar seus segredos para obter vantagens.

No mesmo dia Maria come?a a escrever uma pe?a sobre um senhor de terras que desvia o curso de um rio para prejudicar o vizinho, comprar suas terras e restaurar depois o curso das ?guas. Tudo suavemente temperado com as trai??es de esposas e maridos com outros patriarcas.

Ela assistir? l? de cima as trocas de olhares entre os familiares reconhecendo suas hist?rias nos palcos do teatro. Ela tem at? o autor perfeito para as pe?as? Ricardo, aquele cujo pulso ela quebrou anos antes, ele jamais desconfiar? que foi ela que deixou o texto da pe?a diante da sua porta durante a madrugada.

O Processo Criativo

Vamos ver o que vai ser escrito hoje :)

Tema Votos P?blico ?poca Votos
Terror 3 Infantil 5 Passado 10
Romance 4 Jovem 9 Presente 7
Aventura 8 Adulto 12 Futuro 9
Suspense 11

 

[8:01]Suspense, adulto no passado.

Entre as sugest?es tivemos pedido de distopia, de n?o ser distopia (hehehe), ambientado na cidade, scifi, fantasia, dimens?o paralela, retrospectiva da semana (n?o sei se entendi bem), relacionamento na era social, brasil favela folclore (os tr?s juntos), conto dentro de um conto, asia? Um dia vou tentar fazer um conto com todas as sugest?es da semana :-)

Hoje tenho que usar uma estrat?gia diferente para criar a hist?ria, ? a quarta da minha lista que tem 11 por enquanto. J? criei em cima de um tema (supersti??o), partindo de uma imagem e deixando a imagina??o correr solta e partindo da situa??o que dificulta a trama, do problema a ser resolvido.

O que ser? hoje? O folclore, Brasil, Favela est? insistindo em ser usado. Tem a ver com passado e estamos na v?spera do nosso exerc?cio do sufr?gio. ? uma boa ideia falar do pa?s e de favela.

Tem vezes que a imagina??o quer agir sozinha. A minha est? querendo inventar em cima de um tema que e estrat?gia que j? usei, ent?o tenho que domestic?-la pq me comprometi a fazer diferente sempre, n?? :-)

Os ?cones que o Docs coloca para as pessoas s?o engra?ados, tem uma hiena, um fur?o e um pinguim. O fur?o parece um canguru?

Vamos l?! :-)

Vou partir de um momento hist?rico. Isso ? meio complicado porque, em condi??es normais, exigiria pesquisa e n?o terei tempo para isso. Vai ter que ir de mem?ria.

Forma para me inspirar: retalho de refer?ncias, pegar um pouco de cada lugar. Cabe aqui um pouco de Deuses Americanos de Neil Gaiman, Legado Folcl?rico de Felipe Castilho e vai acabar tendo um pouco de Stephen King (IT) que estou lendo al?m de outro tanto de um conto steampunk que l? h? tempos e depois vou colocar aqui.

[8:22] N?o resisiti e pelo menos abri o artigo da Wikipedia sobre favelas. Passando olhos?

[8:24] Ok, primeiras favelas em meados do s?culo XIX, primeiras favelas modernas em 1920 com ex-escravos, soltados vindo de Canudos, europeus vindo atr?s das oportunidades da era industrial.

A ideia ? construir o suspense em torno desse ambiente: surgimento das favelas. O folclore entra no choque cultural nesse ambiente t?o diversificado com soldados, ex-escravos e europeus.

Agora qual ? o suspense? Como escolher um suspense? Um crime? Algo que parece, mas n?o ? como em Muito Barulho por nada, de Shakespeare? N?o? Esse ? complexo de fazer sem trair a confian?a do leitor. At? agora nenhum dos contos teve algo realmente sobrenatural, pode ser a hora j? que pediram fantasia?

[8:29] Pausa para pensar em qual ser? o suspense? Como fazer isso? Pensando no ambiente e nos elementos que j? decidi. Ali?s me transportando mentalmente para l?.

[8:36] Aha! J? sei! Uma sombra se esgueira entre as ruas j? estreitas do morro da Provid?ncia em 1899. Ela bate em uma porta e deixa uma coisa com a pessoa l? dentro. J? tenho uma boa ideia do que ?, mas voc?s saber?o no fim do conto e ele come?a antes disso.

Agora j? posso come?ar e ele vai se definindo no caminho. Me desculpem pelas imprecis?es hist?ricas.

[8:40] Escrevendo o conto at? [13h08]

[13:08]Acho que posso acabar assim! A hist?ria da vingan?a dela ? outro conto, talvez um livro, n?? Com certeza tem muito a revisar e a cena em que Josu? sai de casa com o colch?o de palha ficou solta, s? para falar em uma das coisas a revisar. Esse conto foi um pouco mais dif?cil que os outros. Em parte por causa da abordagem que escolhi, em parte por precisar de pesquisa o que me deixou inseguro ao longo da hist?ria. Vou dar um tempo e fazer o hangout falando sobre isso.

Comentando no dia seguinte:

Al?m da cena do Coronel saindo de sua casa com o colch?o (que ficou solta) tive que abandonar a ideia inicial de envolver a deturpa??o das cren?as mitol?gicas e folcl?ricas na cidade grande e na favela. A ideia seria intercal?-la com os outros fatos como um suporte metaf?rico para a corrup??o da sociedade. As criaturas continuariam sendo puras, mas seriam percebidas como viciosas e apodrecidas pelos homens.

Percebi que n?o haveria tempo para isso e tomei a dif?cil decis?o de abandonar a ideia.

O mais importante ? que a minha estrat?gia criativa foi por ?gua abaixo: n?o consegui colher inspira??o de outras obras como Deuses Americanos e Legado Folcl?rico (de Felipe Castilho).

No entanto isso tamb?m ? importante como li??o: a inspira??o pode tomar conta e nos levar para outros lados. Se eu n?o tivesse me imposto um limite de tempo poderia for?ar a conviv?ncia do plano com a inspira??o e ? o que eu sugeriria, a menos que a inspira??o seja muito forte (n?o era o caso aqui).

Enfim, esse ? um conto que, para ser publicado, ter? que ser muito mais bem trabalhado.

Espero que os desvios do estado atual dele n?o irritem demais o leitor, mas tenho o compromisso de deix?-lo assim, no estado mais bruto poss?vel.

Fontes de consulta:

Imagem ilustrativa no cabe?alho – Guia Arquitetura – Cl?udia Quaresma

O Hangout

 

Ajude a definir o pr?ximo conto: