– Gato de botas… Hei, Gato! Tá me ouvindo?

Ele brinca displicentemente com uma folha que pende da árvore e balança com o vento produzido pelos ônibus que passam. Toda aquela ironia que faisca nos seus olhos sumiu totalmente e tudo que se vê é o brilho ingênuo de uma criança que se diverte com os próprios sonhos.

– Oi!? – responde interrompendo a brincadeira, afastando para o lado o hábito de mosqueteiro e levantando a aba do chapéu para me espiar com os olhões sorridentes.

– Queria te perguntar… Bem… Por que você é tão grosseiro de vez em quando? Apesar de ser um bom… quer dizer, uma boa pessoa para algumas coisas a sua falta de sensibilidade é chocante!

– É… Você tem razão… Fico me perguntando isso de vez em quando também… Ando perto dos humanos faz tanto tempo que até esqueci um pouco das minhas origens, sabe? Mas elas estão lá berrando nos meus ouvidos o tempo todo! Sabe? Lá de onde vim não tem moleza e no mundo dos homens parece que é tudo que todos querem! Moleza! Arre! A vida no mundo longe dos homens não é fácil! O mundo foi feito assim, raios! Para os fortes, predadores como eu e corredores como os coelhos! Ha! Mas nas cidades não! Vocês parecem mergulhados em um sonho onde o mundo é um conto de fadas! Isso me tira do sério…

É… depois disso achei que devia sentar diante da lua e pensar um pouco na vida.