– Menina abusada! Acha que pode sair por aí feliz com seus amigos, seus sonhos, seus projetos colecionando memórias felizes que guarda carinhosamente numa caixinha! A vida é amarga criança! Nos momentos mais importantes da vida estamos sozinhos e em todos os outros também! Idiotas! Todos são idiotas sentimentais que vão de um lado para o outro achando que suas vidinhas medíocres fazem algum sentido. Im-be-cis! Todos!

Ele tinha acabado de atirar ao fogo todo o conteúdo da caixinha da menina. Ela não sabia… Tinha confiado a caixa a uma pessoa que precisava dela para preencher um espaço em cima da lareira (preencher espaços vazios é muito importante!) e somente uma ou duas semanas depois ela saberia quando fosse lá pegar uma coisa importante, um cordão mágico que usava para falar com seus amigos à distância.

Assim que encontrou a caixa vazia ainda tentou remexer as cinzas na lareira deduzindo corretamente (é uma menina esperta) que aquela criatura desprezível, que sempre achava um jeito de frequentar os lugares onde ela ia, teria jogado tudo no fogo.

Nada… Somente cinzas.

Ela sentou e chorou…

Tantas coisas guardadas ali, tantas lembranças, projetos inacabados, ideias para projetos, memórias… Tudo perdido para sempre.

Ela chorava, mas não era de tristeza pois as meninas nesse lugar tem os cabelos vermelhos e são fortes como os dragões mais altivos. Ela chorava de raiva.

Tinha raiva da guardiã que permitiu que o Grinch chegasse perto de sua caixinha, tinha raiva do monstro e tinha raiva dela mesma por não ter emprestado a caixinha vazia mesmo não tendo outra adequada para guardar as coisas no meio tempo.

Menina olhando um artefato m?gico
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Uma das amigas recebendo a mensagem da menina – Fonte: Seshat22

Ela olhou para o espelho em seu pulso, as lágrimas ainda correndo, e chamou pelos amigos mais próximos desabafando o que tinha acontecido, justo no dia anterior ao Natal, uma das épocas do ano que ela mais gosta e agora destruída.

No espelho as palavras de apoio dos amigos se materializavam como se fossem névoas que se solidificavam formando frases e depois se dissipavam novamente. Eles também estavam com raiva da guardiã, do Grinch e deles mesmos por não terem pensado em oferecer as próprias caixinhas para a amiga, mas da amiga eles não tinham raiva, tinham compaixão.

Estavam todos às voltas com as últimas preparações para o natal, mas queriam se encontrar com a menina para distraí-la, consolá-la ou apenas estar por perto.

A menina no entanto insistiu que eles continuassem seus natais, disse que preferia ficar sozinha um tempo, organizar algumas coisas. Não era verdade, ela não queria que o veneno do natal dela contaminasse as festas dos amigos que tanto ama. Eles sabiam disso, mas a respeitaram pois certamente tentariam fazer o mesmo. Além disso, como eu disse, as moças desse vale tinham o poder das montanhas dentro do peito e eles sabiam que a amiga os tinha dentro do coração. Ela sabia que não estava sozinha, ela nunca estava sozinha e nunca estaria sozinha.

As horas passaram, o dia se foi, a noite estendeu e retirou seu véu de estrelas tímidas (o tempo estava nublado) e veio o sol do dia de natal.

A menina e seus amigos ainda não se veriam, provavelmente só no dia seguinte ao natal, mas o Grinch e a amiga que não tinha cuidado da caixinha só apareceriam novamente em alguns dias e ela já havia curado boa parte das feridas.

Enquanto voava pelo teto do seu quarto (as pessoas fazem essas coisas em mundos mágicos simplesmente porque podem) ela percebeu que as memórias poderão ser todas refeitas com os mesmos grandes amigos e tantos outros que virão, os projetos realmente bons estão sempre crescendo nela (literalmente crescendo! são como pequenos passarinhos que pousam vez por outra em seus cabelos de fogo e lhe sussurram o que apreenderam) e, o melhor de tudo, o Grinch não sabia como ela tinha sofrido, como o natal dela tinha sido destruído naquele ano. E ele ja-mais saberia!

Conforme descia em espiral atravessando o chão do quarto em direção à rua para beber um chá com torradas em uma taberna próxima ela olhou para o espelho e mandou para aqueles amigos mais próximos uma mensagem: “Tenho um plano, mas como vocês sabem, eu não sei mentir! Preciso que vocês me ajudem a contar para a minha boa – e tola – amiga que o Grinch jogou todo o conteúdo da caixinha no fogo, mas preciso contar isso como se não significasse nada, afinal Grinchs são assim mesmo, eles vivem desfazendo as coisas, mas, claro, eu vou adorar refazer tudo de novo! Viver tudo de novo e melhor ainda dessa vez!”

Em algum lugar verde, húmido e escuro o Grinch rastejava pela lama chorando sua solidão…

Imagem: Fröken Skicklig – Como fazer uma caixa mágica