Imagem: Bill Williams

─ É uma pena, não acha? Um pedaço de rocha girando em torno de outro e nada mais…

─ Você tá falando da Lua? Mas de forma nenhuma! Você sabe que, logo no começo da história da Terra um corpo enorme se chocou com ela e a Lua na verdade é um pedaço da Terra, né? Da Terra misturada com esse corpo enorme.

─ Jura? Não sabia… Mas ainda é uma rocha. Quando eu era jovem via São Jorge, um grande holofote no manto negro do céu… Era bela e romântica…

─ Hummm… E porque não é mais? A propósito para mim não é São Jorge, é um grande coelho! Ali, à esquerda, é a orelha… Além disso sempre converso com ela, com a Deusa Lua.

─ Ué? Mas de todas as pessoas que eu conheço achava que você era a mais atéia!

─ Sou. Mas e daí? Também “rezo” pela força da princesa Leia nos momentos difíceis. Você já notou que ela é a personagem mais mega-blaster da saga toda?

É uma noite de verão numa cidade do hemisfério sul, as duas pessoas são apenas silhuetas e os ruídos da cidade devoram suas vozes antes que elas percorram a extensão de um braço.

Cidades… Paradoxalmente é possível ter privacidade entre milhões de pessoas; é possível estar só entre milhões de pessoas… Bem, mas também é possível encontrar profundamente com outra alma. A realidade das pessoas é repleta de feitos incríveis. Como a intimidade em tempo líquidos.

Quando olhamos para os outros parece que estão todos solitários, que perderam a magia da fantasia e, pior ainda, a magia da empatia, mas… Ali estão duas pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo encontrando profundas conexões entre suas crenças e descrenças.

─ Jura que você, mesmo sabendo toda a ciência da Lua não acha incoerente ver mágica nela?

─ Juro…

─ Prefiro não atrapalhar minha fantasia com a ciência. Sei lá…

─ Acho que te entendo. Também não gosto às vezes de atrapalhar o deslumbramento das coisas reais com umas fantasias que no final das contas são meio bobas… Lembra de Avatar? O filme? Juro para você que tem uns trecos mais fantásticos na Terra do que os lá daquele planeta.

─ E outras horas a gente esquece da ciência ou da fantasia para… Sabe o que eu lembrei? De uma amiga que disse uma vez que parte dela tinha 11 anos e acreditava piamente em unicórnios, outra parte já tinha 12 e sabia que era só fantasia!

─ Tem essa história que li num livro… Acho que se chamava… Mente Aberta, Mente Integral… Sei lá, só lembro que o autor (era um cara) contava que deixou a filha brincando com uns fósforos e, dali a pouco, ela veio chorando apontando para um dos fósforos e dizendo “É a bruxa! É a bruxa!”

─ Exatamente! Porque a gente não pode fazer de conta…

─ … que as coisas são mágicas de vez em quando?

As risadas se espalham pela praça semi deserta e os dois rostos se voltam para o sorriso da Lua lá no firmamento nos observando e zelando carinhosamente…