Close de Gregory House - Ilustrao

a tarde de um sbado de preguia, alguns pais de famlia oscilam morosamente em redes esticadas entre as rvores do seu quintal.

Tambm outono e um calor indeciso sopra as folhas secas que escaparam da orda de adolescentes que passaram a manh com ancinhos colhendo folhas por uns trocados para ir ao cinema, comprar um celular turbinado ou pagar a noite com uma menina.

Ele caminha a passos lentos arrastando sessenta ou setenta anos bem pesados. Usa um terno preto e sapatos de couro negro como a noite, brilhoso como o cap de um BMW.

A calada, a rua sem carros e as casas plantadas em seus jardins parecem novas e ele pensa como as aparncias enganam e, apesar daquele ainda ser um pas de bairros belos, padronizados e bem cuidados a moral se perdeu. O tecido da clula mter da sociedade se rasgou durante o sculo XX e o incio do XXI s parece indicar a falncia definitiva.

Suas mos calejadas empurram a frgil portinha da cerca branca produzindo o mesmo rangido que fazia h 50 anos quando ele a construiu, alguns anos antes de ser escalado para o projeto Arca de No, mas ningum conhecia o projeto, nem mesmo seu nome.

Um rosto se ilumina na varanda e volta-se para ele. Sua neta. Feliz por v-lo depois de trs meses. Ele s aparece a cada trimestre e ningum sabe onde ele vai nos intervalos. E ela no sabe que o estopim da sua difcil deciso.

Abraos, risos, beijos, histrias e piadas de famlia. Todos esto acostumados ao jeito que tem que ser com o av austero e misterioso: quando ele faz uma visita apenas o vovozinho ou o sogro pacato e normal.

Depois do jantar ele senta na varanda e chama sua neta “La, venha contar para seu av os segredos do novo sculo”.

Ela especial e no por sorte ou acaso, ele quis assim e cuidou para que ela tivesse a melhor alimentao, professores e recursos que a tecnologia pudesse dar, era a observadora perfeita para ajud-lo a entender como a humanidade vinha mudando.

Conversaram por duas ou trs horas. A lua se esticava entre as rvores reluzinho ocasionalmente nos olhos de gatos que cruzavam os jardins compenetrados em seus prprios planos. Falaram sobre o que acontecia na TV, no cinema e nos livros. Sobre a manipulao da mdia ele j sabia tudo e estava preparado para ignorar suas complexas teias de interesses escusos, mas seus olhos se embaaram ao no encontrar entre os dolos e paixes da neta seus velhos princpios de moral.

O mundo era preto e branco. Sempre foi. H um lugar para os homens, outro para as mulheres, um para os operrios e outro para os administradores e a quebra desse equilbrio conduziria ao fim…

E foi assim que alguns milhares mulheres grvidas foram levadas para as profundezas da Arca e seus filhos foram criados moda da dcada de 50, a ltima dcada pura e moral. Livre do fundamentalismo medieval e da libertinagem dos anos sessenta.

Milhares de jovens e adultos vivendo com a crena de que o mundo externo havia acabado e somente ele sabia a verdade e agora devia decidir.

Durante a madrugada ele deixou pela ltima vez a casa da sua filha, olhou pela ltima vez sua neta compenetrada diante do computador (a essa hora uma moa de 23 anos devia estar agradando o futuro marido e no mergulhada em redes de amigos).

Quando o primeiro raio da manh se insinuasse na grande entrada do mundo subterrneo da Arca ele j teria dado a ordem “selem as portas! lacrem tudo! O mundo externo est perdido, inabitvel e hostil por pelo menos mais cem anos. A civilizao humana terminou e cabe a ns sobrevivermos para recome-la das cinzas”.

Esse post um presente para @yas_snape