É a tarde de um sábado de preguiça, alguns pais de família oscilam morosamente em redes esticadas entre as árvores do seu quintal.

Também é outono e um calor indeciso sopra as folhas secas que escaparam da horda de adolescentes que passaram a manhã com ancinhos colhendo folhas por uns trocados para ir ao cinema, comprar um celular turbinado ou pagar a noite com uma menina.

Ele caminha a passos lentos arrastando sessenta ou setenta anos bem pesados. Usa um terno preto e sapatos de couro negro como a noite, brilhoso como o capô de um BMW.

A calçada, a rua sem carros e as casas plantadas em seus jardins parecem novas e ele pensa como as aparências enganam e, apesar daquele ainda ser um país de bairros belos, padronizados e bem cuidados a moral se perdeu. O tecido da célula máter da sociedade se rasgou durante o século XX e o início do XXI só parece indicar a falência definitiva.

Suas mãos calejadas empurram a frágil portinha da cerca branca produzindo o mesmo rangido que fazia há 50 anos quando ele a construiu, alguns anos antes de ser escalado para o projeto Arca de Noé, mas ninguém conhecia o projeto.

Um rosto se ilumina na varanda e volta-se para ele. Sua neta. Feliz por vê-lo depois de três meses. Ele só aparece a cada trimestre e ninguém sabe onde ele vai nos intervalos. E ela não sabe que é o estopim da sua difícil decisão.

Abraços, risos, beijos, histórias e piadas de família. Todos estão acostumados ao jeito que tem que ser com o avô austero e misterioso: quando ele faz uma visita é apenas o vovozinho ou o sogro pacato e normal.

Depois do jantar ele senta na varanda e chama sua neta “Léa, venha contar para seu avô os segredos do novo século”.

Ela é especial e não é por sorte ou acaso, ele quis assim e cuidou para que ela tivesse a melhor alimentação, professores e recursos que a tecnologia pudesse dar, era a observadora perfeita para ajudá-lo a entender como a humanidade vinha mudando.

Conversaram por duas ou três horas. A lua se esticava entre as árvores reluzindo ocasionalmente nos olhos de gatos que cruzavam os jardins compenetrados em seus próprios planos. Falaram sobre o que acontecia na TV, no cinema e nos livros. Sobre a manipulação da mídia ele já sabia tudo e estava preparado para ignorar suas complexas teias de interesses escusos, mas seus olhos se embaçaram ao não encontrar entre os ídolos e paixões da neta seus velhos princípios de moral.

O mundo era preto e branco. Sempre foi. Há um lugar para os homens, outro para as mulheres, um para os operários e outro para os administradores e a quebra desse equilíbrio conduziria ao fim…

E foi assim que alguns milhares mulheres grávidas foram levadas para as profundezas da Arca e seus filhos foram criados à moda da década de 50, a última década pura e moral. Livre do fundamentalismo medieval e da libertinagem dos anos sessenta.

Milhares de jovens e adultos vivendo com a crença de que o mundo externo havia acabado e somente ele sabia a verdade e agora devia decidir.

Durante a madrugada ele deixou pela última vez a casa da sua filha, olhou pela última vez sua neta compenetrada diante do computador (a essa hora uma moça de 23 anos devia estar agradando o futuro marido e não mergulhada em redes de amigos).

Quando o primeiro raio da manhã se insinuasse na grande entrada do mundo subterrâneo da Arca ele já teria dado a ordem “selem as portas! lacrem tudo! O mundo externo está perdido, inabitável e hostil por pelo menos mais cem anos. A civilização humana terminou e cabe a nós sobrevivermos para recomeçá-la das cinzas”.

Esse post é um presente para @yas_snape