Jorge não suportava aquela flor solitária agarrada à sua janela, sua esposa, Raquel, também a odiava. Não parecia coisa de Deus com todas aquelas cores, com sua complexidade imoral. Seus filhos não se incomodavam, quer dizer, Ricardo, o mais novo não dava a menor importância para a flor, mas Maria, de 15 anos, a defendia com todas as forças.

Jorge e Raquel já tinham perdido a conta de quantas vezes tinham conversado no escuro do quarto que deveriam arrancar logo aquela flor medonha pois assim talvez os chiliques injustificáveis da Maria terminassem, eles temiam que ela estivesse possuída por alguma coisa, afinal já tinha até desmaiado e tido um tipo de convulsão.

Uma vez ela passou quase um mês dormindo sob a janela, no chão sobre um edredom, para evitar que ferissem a flor.

— É só uma flor, pai! Por que ela não pode simplesmente ficar ali? Ela não te faz nada! NADA! É só não olhar para ela, fazer de conta que não existe! Por que tanto ódio?

Ela dizia com o rosto transtornado, lágrimas escorrendo volumosas pelas bochechas avermelhadas, a foz tremida e com a boca se retorcendo de emoção.

Maria cuidava tanto da flor que compartilhava com ela o aroma que exalava. Seus pais a faziam tomar banho para tirar aquele perfume, que eles diziam ser nojento, mas de nada adiantava.

Para Jorge e Raquel era tudo culpa daquela flor maldita, aquela única e solitária for para qual ninguém ligava, então decidiram perpetrar o ato final e, na frente de Maria, Jorge avançou contra a flor para esmagá-la com as próprias mãos, Maria tentou impedir, mas Raquel, sua mãe, sua própria mãe, a segurou enquanto ela se debatia inutilmente vendo as belas pétalas serem estraçalhadas, o pistilo e o gineceu caindo ao chão e sendo pisoteados pelo pai até que ele a arrancou pela raiz ao mesmo tempo que Maria perdeu o restante das forças caindo sobre os próprios joelhos. Vazia. Totalmente sozinha. Anulada até o mais profundo da sua alma. Ainda lançou um olhar para seu irmão mais novo e viu que corria uma lágrima discreta por sua bochecha, ele não entendia a flor, mas entendia Maria.

Jorge olhava de soslaio para Maria enquanto ele e Raquel limpavam o chão. A filha não se manifestava, mal se mexia para respirar encostada contra a parede, as pernas jogadas para o lado, os olhos fixos. Não era ódio que ele via, nem tristeza, ele achava que era a resignação, a compreensão que aquela tolice com aquela única e estranha flor não fazia sentido, que atrapalharia sua vida.

Não era isso. Maria estava órfã. Naquele momento ela percebeu que nunca teve uma família que a amaria, exceto pelo irmão.

Ela foi se tornando uma sombra, um silêncio tão profundo que ninguém viu quando se levantou e saiu pela porta para nunca mais ser vista.

Dias se passaram sem que Jorge ou Raquel entendessem o que tinha acontecido, que importância aquela flor rara poderia ter para a filha a ponto de… Eles não sabiam a ponto de quê.

Meses se passaram e ficou claro que Maria desaparecera da existência. Raquel chorava pelos cantos, Ricardo culpava os pais, mas se calava com medo da reação do pai que mergulhou na bebida. Chegava do trabalho já tonto e bebia até dormir no sofá.

Até que um dia Jorge olhou para a janela e lá estava novamente a flor, a demoníaca flor voltara sem que ele tivesse visto até que já estivesse plenamente desabrochada.

Nesse dia ele estava mais bêbado do que nunca e não tinha como caminhar até a flor para destruí-la novamente, então a amaldiçoou: Morra flor dos infernos!

— Eu não posso morrer…

Jorge não chegou a achar estranho a flor ter respondido, ele estava destruído demais para isso, então falou com ela.

— Sua coisa demoníaca! Você veio destruir minha vida!

— Eu sou apenas uma flor, uma criação da natureza como todas as outras coisas vivas, seu demônio são seus pensamentos, não eu. E só não posso morrer porque sou natural e sempre voltarei, sempre preencherei a terra sedenta de vida e diversidade.

Com escárnio Jorge replicou…

— “Preencherei” — e falava como se cuspisse um escarro negro — Você é apenas uma flor solitária na minha janela, uma aberração!

— Olhe sob a janela do quarto que foi da Maria…

Jorge se arrastou, mais por ira do que por razão. Bateu a cabeça no portal e na janela ao colocar a cabeça para fora e lá estava uma dúzia daquelas flores.

Ele estendeu o olhar para o próprio jardim e viu que era árido, exceto por elas, mas estendeu um pouco mais o olhar, e era doloroso fazer isso, até o jardim vizinho e lá estavam dezenas e dezenas daquelas flores.

Jorge se esticou pela janela a tal ponto que caiu esmagando algumas das flores sob a janela e saiu cambaleando pela rua perplexo pois aquela flor estava em todo lado!

Então por que Maria dava tanta importância àquela flor solitária se existiam tantas outras?

— Porque ela também era solitária, Jorge, e sonhava que, ao entender aquela flor, vocês a entenderiam, mas vocês esmagaram suas pétalas, pisotearam pistilo e gineceu, deram apenas escárnio para aquela beleza singela. Vocês a mataram.

Imagem: “Strange blue flower”by Uwe Hermann is licensed under CC BY-SA 2.0