Às 19h29 consegui fazer essa imagem de 180 graus da Rio Branco (17/06/13)

Duas semanas se passaram desde que me misturei a cem mil pessoas (que alguns dizem que eram 300 mil) e, poucos dias depois, caminhei com 300 mil (que juro que era quase um milhão) na Presidente Vargas.

Uma parte de mim tenta entender o que está acontecendo (é a parte que escreve no Meme de Carbono) e a parte que escreve nesse blog tenta dar sentimento ao que estamos vivendo.

Quando surgiu um grande evento no FB para irem todos às ruas em repúdio à forma como a polícia vinha atacando cidadãos que iram às ruas para reclamar do aumento da passagem de ônibus eu sabia que ia muita gente, sabia que o mito do brasileiro dócil estava para cair, mas eu não fazia a menor ideia… Eu não tinha a menor ideia!

Pessoas concentradas em frente ao CCBB
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Concentração entre o CCBB e a Casa França Brasil – Seg 17/06/13


Fui me juntar à massa anônima de pessoas naquela segunda-feira (17/06/13) perto da Candelária esperando andar entre outros dez mil, mas logo ficou claro que era muito, muito mais do que isso!

Lá do meio eu mandava mensagens para minha esposa pelo WhatsApp (todos os sinais da Oi caem no meio de 100 mil pessoas e o WhatsApp se vira sozinho quando aparece sinal) dizendo que me sentia entre cem mil e era emocionante!

À minha volta o que eu mais via eram jovens, universitários, professores e artistas, pelo menos era gente que se encaixava nesses estereótipos, mas vi também funcionários públicos, aposentados.

Andando ao meu lado tinha uma amiga que está prestes a se tornar juíza, um professor universitário que conheci quando ele era criança e, nesses acasos fantásticos, se tornou professor da minha amiga e mais dois ou três amigos.

A gente foi para lá porque algum interruptor foi ligado em nós quando vimos os relatos de amigos e vídeos de desconhecidos que tinham sido covardemente atacados pela polícia que devia nos proteger.

Dava para notar olhando à volta que a maioria que estava ali foi pelo mesmo motivo: não dá mais para ficar jogado à margem do país enquanto políticos e corporações fazem o que querem e nos espancam, física ou moralmente, quando tentamos levantar nossa voz.

É claro que vão dizer que todas as manifestações foram manipuladas. Já tenho amigos dizendo isso, uns tem medo da direita e dizem que foi ela, outros da esquerda cantam a mesma mensagem apocalíptica: golpe de direita! Golpe de esquerda!

Na boa? Acho que boa parte simplesmente está recalcada porque já foi vencida e prefere ficar em casa e deixar que o país seja conduzido sem sua intervenção (ou acham que os 10 minutos dedicados a votar de vez em quando já basta) e outra parte simplesmente não entendeu nada. Se tivesse ido talvez tivesse percebido!

Tanto na segunda-feira quanto na quinta eu notei um detalhe que me impressionou: o chão estava limpo! Não tinha lata de cerveja, os únicos papéis eram os picados que as pessoas jogavam dos prédios enquanto a multidão passava.

Não sei explicar isso, de verdade! Tinha vendedor ambulante, mas talvez estivessem todos tão focados, tão seriamente comprometidos, que bebiam rapidamente sua cerveja, água ou refrigerante só para se refrescar, deixavam a lata com o ambulante e seguiam em frente.

Só sei que foi uma visão bonita, viu? Na quinta fiquei parado por uns 40 minutos só vendo o fluxo constante de gente e não vi um olhar revoltado. O que via era determinação e esperança.

Manchetes sobre a primavera brasileira
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No dia 27/06/13 as manchetes dos principais jornais e revistas festejavam as manifestações.

E por falar na quinta…

Você conhece o Rio de Janeiro? A Rua presidente Vargas tem três pistas com quatro faixas cada uma e se estende por uma vasta linha reta que vai da Catedral da Candelária até a prefeitura. São vários quilômetros que estavam absolutamente apinhados de gente!

Cheguei lá de metrô uma hora depois do início da passeata e tive dificuldade em sair da estação pois era gente demais convergindo para o mesmo ponto. Nunca em minha vida estive numa multidão tão grande!

Enquanto subia lentamente a escada mandava uma mensagem para minha esposa e as pessoas começaram a cantar o hino… Meus olhos ainda enchem de lágrimas e na hora me arrepiei todo!

Esse é o povo que todo mundo diz que é alienado, que não sabe cantar o hino.

Ah! Mas tenho que ser realista, né? Quem estava ali não era “o povo”. Mal se via “gente pobre” (as tais classes D e E), mas tinha sim quase todo tipo de gente ali e não eram as classes mais altas que eram ditas as mais alienadas?

Depois desses dois dias parei de ir a protestos pois sentia que já tinha assistido o corpo central do que estava acontecendo e que a maioria das pessoas voltaria à tão subestimada poltrona que na verdade é uma ágora moderna onde as ideias se propagam e se fortalecem, onde se forma a massa crítica que possibilita esses protestos enormes nas ruas.

Em nenhum momento cheguei a esbarrar com a violência da polícia simplesmente porque tenho sorte, mas me revoltei em casa com os relatos, fotos e vídeos de amigos pessoais que foram atacados com bombas de gás onde não havia qualquer sinal de manifestação (e mesmo que houvesse, né?) e ainda espero explicações de por que a polícia estava atacando cidadãos enquanto em outras partes pessoas saqueavam lojas (visto por amigos pessoais também).

Foram dois dias que ligaram alguma coisa em todos nós e, assim como ninguém imaginou que ia acontecer, duvido que alguém realmente tenha uma boa ideia do que virá a seguir, só sei que eu estava lá, eu vi com meus próprios olhos uma enorme mobilização espontânea de milhões de brasileiros que começaram a mudar sua cultura.

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Linha do tempo dos protestos