O grito cruza os corredores de concreto. A voz é aguda de uma jovem mulher, mas se levanta com a força de gerações de grandes mulheres e homens que vieram antes de nós, que nos falaram sobre algo que só nós humanos temos: espírito. Esse fogo que queima dentro de nós que nos permite agir diferente dos animais diante do medo. Eles fogem ou atacam, nós somos capazes de nos colocar no lugar dos outros, somos capazes de ter compaixão, mas nem todos… Não o tempo todo. Mas ela tem!

– PAREM! NINGUÉM VAI MATAR NINGUÉM AQUI! VOCÊS NÃO SÃO DEUS PARA DECIDIR QUEM VIVE E QUEM MORRE!

Atrás dela um homem branco, na casa dos trinta anos. Seu rosto desfigurado pelo sangue. À sua frente uma multidão com olhos primatas injetados de sangue, ódio e medo ansiosos pelo gosto do sangue, pela sensação de tirar a vida de outro ser, de exterminar o monstro interno que projetam no outro.

Vocês não entendem nada!! eu não defendo o que ele fez! que sociedade é essa que acabamos com bandidos virando assassinos? eu não vou deixar ninguém morrer!

E não deixou…

Uma única guerreira entre seres prestes a dar o primeiro passo para o abismo, uma única com a coragem de se colocar acima dos próprios medos e forte o suficiente para, apesar de ter sido vítima de assalto várias vezes, lembrar que a vida vale mais. A vida sempre vale mais. E matar é sempre matar. Seja justo ou injusto é errado. É errado… Para os cristãos é errado. Para quem segue a lei é errado. Para ateus ou religiosos… É errado.

– Meu cachorro ia matar ele – ameaça outro, pobre cão… Criaturas meigas que sempre nos protegeram usados como ferramenta para homicídio.

– Se você não fosse mulher ia apanhar junto – Diz alguém.

Mentira. Uma pequena humana de coragem tem mais força do que quase todas as turbas irracionais. O olhar da razão os faz lembrar de algo que poderiam ser, algo que deveriam ser. Uma parte deles sente vergonha pois todo humano sabe que a vida é sagrada.

A jovem guerreira humana consegue um pano no restaurante para ajudar o bandido que teria roubado um celular a estancar o sangue.

Chega a polícia. O agente da lei que todos nós aprendemos a temer pela violência com que tem nos tratado quando nos atrevemos a exigir transparência do governo, das contas do trasporte público. Agente da mesma força que todos vaiaram quando ela foi a voz negativa do Estado que se recusava a negociar com os professores dispersando-os com armas químicas e balas de borracha.

O policial chega repetindo o refrão do ódio “Gosta de bandido? Leva para casa”

Não, agente deturpado da lei, ela não gosta de bandido. Nem do que assalta, nem do que mata. Seja por dinheiro, por um celular ou por puro medo e ódio covardes.

Saem todos dali levando criminosos para casa. O criminoso dono do cão que o treina para matar, o criminoso policial que incita ao crime a mesma população que espancará amanhã quando ela se atrever a questionar o estado, os criminosos que se foram impedidos pela jovem moça de atravessar a linha entre pessoas… mais ou menos… normais e assassinos.

Só não levou para casa um criminoso a jovem moça, que, ironia dos temos modernos, não é grande, não é forte, não é guerreira, é apenas uma mulher normal, uma herdeira de Cristo, Luther King, Gandhi, Hobbes, Buda, Roddenbery e muitos outros humanistas e religiosos que nos ajudaram a sair das trevas que sempre ameaçarão se apossar de nós.

Qualquer animal é capaz de odiar. É necessário ser forte para ser humano.

Referências

  • Artigo no Globo sobre a jovem que impediu um linchamento (fiz cópia no clipping caso o link mude)
  • Relato da moça no Facebook
    A histeria coletiva:Bom, eu não sou muito de falar sobre nada além do humor no facebook, muito menos de postar sobre política, mas hoje passei por uma das experiências mais aterrorizantes da minha vida:

    Estava realizando minha primeira entrevista para a pesquisa sobre intervenções temporárias, num papo incrível com a Fernada, quando ouvi do outro lado da rua : “Pega ladrão!” , num ato instintivo aproximei meus pertences de mim, achando que tudo aquilo que ali acontecia, mesmo que atravessando a rua, estava longe de mim, quando cercaram o tal do sujeito, e ele , no desespero, voltou correndo na direção do bar que eu estava.

    Nisso, um jovem, de uns 20 poucos anos, forte, deu uma banda no sujeito, que voou com a cara no chão, ficando com o rosto completamente dilacerado, sendo recebido então com chutes e pontapés na cara, e eu não aguentei > pode-se falar de instinto, mas eu levantei.

    Fui até o sujeito, separei a briga, aos berros, enquanto uma multidão se reuniu aos gritos de “mata! mata! ” , e ouvi “sorte sua que você é mulher, se não apanhava também”, deixei o sujeito – branco, entre 25-35 anos- na parede, pedi que ligassem pra polícia e o que fosse, e pedi um pano pra estancar aquelas poças de sangue que escorriam no chão.

    Nisso surgiram as ameaças, os “se fosse com você, você ia deixar que ele apanhasse” ou “você não deve ser moradora da freguesia”, que adiantava eu dizer que já fui assaltada diversas vezes? ou que a própria assaltada não permitiu que seu namorado machucasse o homem? por quantas vezes eu tive que gritar “vocês não são Deus, e não podem decidir a morte de um ser humano “, e ser recebida com o adjetivo de “defensora de bandidos”, por mais que eu berrasse “vocês não entendem nada!! eu não defendo o que ele fez! que sociedade é essa que acabamos com bandidos virando assassinos? eu não vou deixar ninguém morrer”, e eu tremia, e tremo até agora, tive medo de ser espancada por ele, de ver tanto ódio nos olhos de quem nem nunca foi assaltado , de ouvir “sorte sua que esteve aqui, porque meu cachorro ia matar ele”,

    mas sorte minha de ter ouvido 6 pessoas me agradecendo, falando do coração que eu tive de defender até quem não merecia, ao ver deles, de me arriscar e chorar por ter medo de quem nos tornamos, daqueles que ali me rodeavam, que enchem o peito pra dizer que são ‘gente de bem’, mas que mataria qualquer um que vissem sendo espancado na rua.
    Não, que chegue a polícia, e chegou.
    O pior foi que os que tanto queriam matar o homem , criticaram muito nossa polícia, como ela não faz nada, como não funciona, e a primeira frase do policial, ao chegar , foi dizer “devia ter apanhado mais, gosta de bandido então leva pra casa”, aos coro de palmas da maioria que estava ali.

    Vocês entenderam tudo errado, quem defende essas pessoas não é defensor de bandido ou de monstros, mas está te dando uma chance de não se tornar um monstro como eles.
    E faria de novo.”

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Ahsoka e jovem jedi ferido por Raikoh