Sobre o projeto

Esse ? o d?cimo quinto?conto do projeto #UmS?badoUmConto (Post explicando o projeto)

Durante a semana as pessoas votam em estilo, g?nero, p?blico e ?poca. O autor (eu) s? pode saber o resultado ?s 8h de s?bado e tem at? meio dia para terminar o conto.

Cada conto ? escrito com um processo criativo diferente (veja no final).

O que voc? v? a seguir ? o conto com a m?nima revis?o. Voc? pode ler? sem revis?o no Google Docs.

Voc? pode votar no que devo escrever no pr?ximo aqui: http://bit.ly/1w5JcZT

Antes de ler vota a? no pr?ximo, t?? Por favor?

O Conto (N?o recomendado para menores)

O celular vibra na sua bochecha? Por que o celular est? vibrando na minha bochecha? Gisele come?a a tomar consci?ncia de quem ela ?, onde est?, como chegou ali.

Um vento frio a arrepia, um fio de baba escorre pela boca, o celular vibra insistentemente. Atender. Tem que atender? N?o! Antes ? melhor ver quem ?! “Cacete! Meu pai! E eu t? tonta! O que eu bebi? O que eu andei usando?”.

? Major Tom to ground control? Ground Control to major Tom ? ela canta sussurrando pois v? que est? em uma cobertura cercada de outras pessoas, umas dormindo, outras entre amassos. Todo mundo acha estranho que uma pessoa de 19 anos conhe?a essas m?sicas velhas, mas ficou na cabe?a dela desde que viu o astronauta cantando na Esta??o Espacial Internacional. ?, parece que a voz est? calibrada o bastante para enganar o pai.

? Oi pai? ? ela sussurra ? As meninas est?o dormindo! N?o posso falar alto! O que t? pegando?

? Gisele!!! N?s falamos para voc? voltar para casa at? meia noite! S?o 2h da manh? e ficamos sabendo que voc? n?o voltou para casa s? por causa da fofoqueira da vizinha que ligou para a sua m?e! O que voc? est? aprontando? Voc? acha que somos idiotas? Voc? disse que ia estudar com uns colegas?

Ele est? cuspindo marimbondos. “? claro que ele desconfia que devo estar na casa de algum namorado que n?o quis contar, que vou transar sem camisinha e que devo estar b?bada? Nem eu sei o que estou, se ele imaginasse”.

Gisele realmente estudou na v?spera, mas tinha essa festa na cobertura de algu?m que conhece algu?m que conhece uma das pessoas que estava estudando com ela. ? meia noite eles estavam chegando l?. Tinha todo tipo de bebida e um card?pio farto de drogas? Festa de gente rica. ?cido, ela se lembra que certamente tomou ?cido.

O pai continua cuspindo marimbondos enquanto ela sussurra tentativas de desculpas e justificativas. Pelo jeito est? se saindo bem com a hist?ria de que ficou tarde e que a Beatriz (onde estava a Beatriz por falar nisso, ela olha ao redor) a convidou para dormir na casa dela em vez de pegar um ?nibus pela madrugada da cidade.

? Pai, eu tenho que ir para cima e para baixo nessa cidade, se n?o souber cuidar de mim mesma estou ferrada. Te garanto que estou mais segura aqui do que se tivesse sa?do meia noite para pegar o ?nibus ou at? um t?xi. Tem uns sinistros de madrugada.

A festa ainda rolava do outro lado da porta da varanda, mas ela estava em uma espregui?adeira ao lado da piscina, o som n?o chega l?, mas ela vai para o canto mais distante por via das d?vidas.

Os pais est?o fora da cidade, em um congresso, se desse eles iam querer ir busc?-la. Por que ela n?o se impunha e falava a verdade? Porque ficar nessas mentirinhas adolescentes? No entanto, se os pais soubessem da vida dela provavelmente a prenderiam com correntes em casa ou a mandariam para a rua.

O pai desliga desconfiado avisando que quer que ela ligue para ele assim que chegar em casa depois que amanhecer.

Ela olha para o celular e est? cheio de mensagens? Devem ser dos pais.

N?o? Tem um Whatsapp? Eles n?o usam o Whatsapp? ? mensagem de voz da Bia.

? Gi!! T? ferrada Gi!! Eu n?o sei onde estou! Sa? da festa com uma galera que ia comprar bebida, vieram para um lugar estranho comprar drogas, Gi! Vim no banheiro, mas t? tudo bizarro aqui! N?o sei o que fazer! Me ajuda!!!

Logo depois ela mandou o mapa de onde estava. Uma rua chique cheia de casas e alguns pr?dios pequenos, com menos de 5 andares.

Gisele respira fundo avaliando seu estado. Todo mundo, quase todo mundo, bebe e se droga hoje em dia…

Gisele respira fundo, olha ao redor avaliando a situa??o e a si mesma. Ela sabe bem seus limites, por isso foi ali para a varanda pegar um ar e se desintoxicar. Era uma festa estranha com gente esquisita e ela decidiu que n?o dava para confiar no carinha que estava dando em cima dela. Deu um jeito de se livrar dele e ir ali para fora para encontrar novamente seu centro e bom senso. A Bia pelo jeito n?o fez isso?

“Cad? o Jorge? Viemos no carro dele, vou precisar de um carro para pegar a Bia”.

Ela sai vasculhando as pessoas at? achar o Jorge nuns amassos com um cara. A fam?lia dele n?o sabe que ele ? gay e, quando ele pode, se solta at? demais, pegando umas pessoas que n?o conhece bem. Bom? N?o ? diferente das outras pessoas nas festas e boates da vida e provavelmente a Gisele est? sendo preconceituosa, ou est? simplesmente nervosa.

? Jorge, a gente tem que pegar a Bia!

Ele vira para ela. Totalmente tonto. Os olhos vidrados de quem usou coca?na? O torpor do ?lcool com o excesso de confian?a da coca?na? Ele n?o pode dirigir, nem pensar.

O cara que ele est? pegando ? um leprechaum? S? ent?o a Gisele lembra que a festa ? tem?tica de Natal. Que rid?culo? Papais No?is, duendes e at? renas totalmente alucinados ao som de tecno?

? Me d? sua chave, Jorge.

? Voc? vai para a minha casa? Vai acordar meus pais?

? N?o, Jorge, a chave do carro!

Ele se apalpa olhando para um lado e para o outro at? achar a chave jogada no ch?o. N?o consegue se abaixar por estar muito tonto e a Gisele o segura pelo ombro dizendo para deixar com ela. Pega a chave, sussurra no ouvido dele “Se cuida cara, bebe uma ?gua, respira algumas vezes, se d? um tempo”.

Ela sai correndo entre as pessoas, passa pela festa, o cara que estava atr?s dela ainda vem em sua dire??o, mas ela balan?a a cabe?a e estica a m?o mandando ele se afastar.

O carro continua na vaga onde eles deixaram! Sempre existe o medo de terem roubado o carro. O Jorge nem perguntou como ele voltaria para casa depois ou o que ela ia fazer com o carro e o pior (ou melhor) ? que ele era assim s?brio tamb?m. Um cara desapegado das coisas e que confia muito nos bons amigos que tem. E Gisele ? uma boa amiga. S? bons amigos saem pela madrugada para socorrer amigos desmiolados que se metem em lugares estranhos? N?o que a festa onde eles estavam n?o fosse um lugar estranho.

Gisele segue tensa pela rua. N?o pode demorar, mas tamb?m n?o pode correr porque sabe que seus sentidos n?o est?o bons e vai se ferrar muito se for parada em uma blitz. Ela d? prefer?ncia ?s ruas pequenas com pouco tr?nsito.

As mensagens que ela mandou para a Bia n?o foram respondidas, mas foram vistas “T? indo. N?o sai da?” e “Se sair da? d? um jeito de me avisar para onde te levaram!”

Blitz! Ela entra com o carro em uma vaga. Sai olhando ao redor respirando fundo para clarear as ideias. Manda uma mensagem para o Jorge dizendo que est? com o carro dele indo pegar a Bia e que depois vai para casa. Manda o mapa de onde a Bia est? tamb?m por via das d?vidas, mesmo sabendo que ele s? deve ver de tarde quando acordar.

O lugar no mapa ? a quatro quarteir?es dali. Ela pode pegar um t?xi at? l? e depois voltar com a Bia at? o carro e assim evitar a blitz. Porque ela n?o pegou um t?xi desde o come?o? Bem, ter um carro parado do lado de fora para elas fugirem poderia ser providencial, mas ela podia fazer isso com um t?xi tamb?m?

Ela para o t?xi e combina o servi?o.

? Cara, tenho que pegar uma amiga ali na frente e voltar para c?, te pago a corrida at? l?, mas quero que voc? espere para nos trazer de volta para c? e a? de dou 50 pratas. Pode ser?

? Opa! Demor?! Entra a?.

No curto espa?o de tempo at? o ponto no mapa chega outra mensagem de voz da Bia pelo Whatsapp?

“Tr?s mil, man?? Voc? s? tem tr?s mil a?? E me faz despencar at? aqui por causa de tr?s mil? E que porra de notas s?o essas, todas novinhas? T? t? armando para mim, seu playboizinho? E quem ? a vaca? Voc? sabe que gente nova ? merda na certa!”

O motorista para o carro.

? Pera a? que a coisa n?o ? bem como voc? disse, n? mo?a? Na boa? T? fora! Tenho mulher e filhos em casa! N?o vou me meter na merda dos outros!

O cora??o da Gisele est? apertado, ? claro que a vaca ? a Bia. Levaram ela para uma negocia??o de drogas. Como ela vai entrar l?!? Pior ainda, como vai sair? Ela nem sabe em que estado a Bia estar?, se vai poder correr. Ela precisa do carro!

? Cara, por favor! Minha amiga n?o ? uma m? pessoa, ela s? se meteu com o desconhecido errado! Se voc? n?o der uma for?a alguma coisa muito ruim vai acontecer! Ela tem um pai assim como voc? ? pai! Eu sei que sua filha nunca vai se meter numa fria dessas, mas o pai da minha amiga tamb?m acha que ela nunca se meteria com esse tipo de gente? Me deixa aqui e fica esperando na esquina. Ningu?m vai te ver! Se eu n?o voltar em 15 minutos, n?o 20, voc? vai embora? Mas me faz um favor? Liga para a pol?cia?

? Vai. Eu espero? Cacete? Ainda vou me arrepender disso?

Gisele sai correndo do carro, mas n?o sem antes agradecer quase chorando.

Enquanto corre pela rua atr?s do ponto no mapa e sem saber exatamente em que casa ou pr?dio a Bia est? ela vai secando as l?grimas, tentando se acalmar e pensar em uma hist?ria.

Ela passa em frente a um pr?dio de tr?s andares bem a tempo de ouvir o som abafado de discuss?o ficar repentinamente alto, alguma coisa pequena se espatifa ao seu lado na cal?ada e som volta a ficar abafado. ? um celular. O celular da Bia!

Uma ?rvore cresce bem perto do muro, o bastante para a Gisele subir nela e pular por cima dele, depois ela v? como entrar no pr?dio, ser? que tem porteiro? Talvez d? para passar um papo nele.

? claro que n?o tem porteiro, esses pr?dios pequenos nunca tem. Tamb?m n?o d? para adivinhar qual ? o apartamento para tocar o interfone para l?, e dizer o qu??

“Vou escalar essa parede, foda-se!” ? Ela realmente seria capaz de escalar, mas ? uma ideia desesperada que ela n?o consegue come?ar a executar porque a janela se abre novamente, dois tiros ressoam pela rua vazia e a Gisele olha para cima bem a tempo de ver algu?m se atirando pela janela do segundo andar.

Sem pensar ela pula na dire??o da pessoa para amortecer sua queda e as duas se embolam rolando no ch?o, esfolando cotovelos, batendo com a cabe?a no gramado. Se fosse um ch?o de concreto elas teriam se ferido seriamente.

Gisele se recupera primeiro e senta sobre a pessoa imobilizando-a. ? a Bia! Algu?m aparece na janela de costas, mais dois tiros e um outro corpo caindo. Antes dele chegar ao ch?o Gisele v? uma sombra na janela e rola com a Bia para perto do muro, coberta pela sombra de um arbusto que cresce colado nele.

? Cad? a mina maluca que pulou?

? De onde voc? tirou essa arma Ricardo? Voc? tem no??o que meteu bala num traficante? Os caras v?o vir atr?s de mim aqui em casa! Voc? me ferrou, cara!

? Eu?? Voc? que estava negociando com um maluco! De onde voc? tirou esse cara?

? Ele era muito bem cotado no Mercado Livre ? o tom jocoso n?o disfar?a o desespero ? Voc? acha que traficante ? que nem loja de shopping, seu doente? A gente n?o escolhe! Pega o que tem!

Eles saem da janela, o traficante ainda est? vivo se arrastando com um bra?o inutilizado, mas o outro segurando uma arma.

? Bia! Bia, sou eu, a Gisele! Pelo amor de Deus, diz que voc? est? consciente! Fala comigo!

? Gi? Ai! Meu pulso t? doendo para caralho! Eu pulei, cara! Pulei pela janela! Achei que ia ficar aleijada! Foi voc? que me segurou?

? Segurei? A gente se embolou no ch?o! Achei que ia virar uma panqueca. Se tivesse pensado melhor tinha deixado voc? cair direto no ch?o, sua doida! Levanta, eles v?o descer! Temos que correr daqui! Voc? consegue levantar?

Com alguma dificuldade a Beatriz se levanta e, antes que tenha tempo de pensar, ? puxada pela Gisele para o muro e v? a amiga “fazendo pezinho” com as m?os para ela pular.

O traficante se vira de costas olhando para cima e para a porta do pr?dio sem poder se preocupar com a menina que pulou e deve estar desmaiada de qualquer jeito, pelo menos ? o que ele pensa.

Desnorteado com a queda ele n?o toma consci?ncia dos sussurros, gemidos e ru?do de folhas enquanto as duas pulam o muro.

Quando Gisele chega ao ch?o do outro lado encontra a Beatriz chorando.

? Que merda! Onde fui me meter Gi? Eles ficaram com a minha bolsa? Sabem quem eu sou? T? morta cara! V?o querer acabar comigo porque sei onde eles moram? Me deixa aqui e vai embora.

Ela come?a a dar sinais de que vai perder o controle se ? que j? n?o perdeu.

Gisele segura o rosto dela pelo queixo, aproxima bem o rosto olhando fundo nos olhos mareados da amiga.

? Agora n?o Bia. Depois a gente pensa nisso, agora voc? vai levantar e vir comigo. N?o existe outra op??o! Vem!

Algumas pessoas tem essa capacidade de impor tamanha tranquilidade e autoridade na voz que n?o nos deixa muito espa?o para ter d?vidas. A Bia parece um zumbi, mas se levanta e aceita ser puxada pela amiga que segura firme sua m?o que n?o est? machucada.

As duas correndo pela rua arborizada ?s 3h da manh? parecem aqueles bonecos de sombra projetados na parede por um abajur girat?rio. ? como se elas estivessem paradas e as sombras das ?rvores passassem por elas.

Antes de chegarem ? esquina escutam mais dois tiros, quer dizer, Gisele escuta mais dois tiros pois a Beatriz est? ? beira do colapso e n?o escuta mais nada.

Quando chegam na esquina o t?xi n?o est? l?. Gisele empurra a amiga para as sombras e v? que duas pessoas atravessam o port?o do pequeno pr?dio. Uma est? mancando. Com certeza s?o o “amigo” da Bia e o dono do apartamento. O traficante deve estar morto.

Ela consegue for?ar os ouvidos e escutar entre os sussurros dos dois coisas como “culpar”, “guria” e “bolsa”. Isso ? o bastante. V?o tentar culpar a pobre da Bia pelo que aconteceu com o traficante. Se bobear v?o dizer para a pol?cia que ela que o levou at? l? para assalt?-los ou coisa assim e para os traficantes que a guria ? que era chave de cadeia e estava armada.

“Tenho que recuperar a bolsa dela? Droga! Cad? o t?xi?”

Uma pessoa vem vindo pela rua caminhando trocando as pernas, um b?bado, era o que faltava? Ele vai dar em cima delas e revelar onde est?o.

Gisele encosta a Beatriz na parede mandando que ela fique ali, que n?o se mexa, e parte para cima do b?bado para impedir de alguma forma que ele fale, mas n?o ? um b?bado. Quando ela vence os seis passos entre eles v? que ? o taxista.

? Ouvi os tiros, menina. N?o sei o que tem na minha cabe?a, mas decidi parar o carro e vir fingindo ser um b?bado para n?o desconfiarem de mim e poder ver o que estava rolando.

? Cara! Se existe um c?u tem um t?xi esperando por voc? l? para te levar para onde voc? quiser de gra?a! Nem acredito que voc? ficou! ? Ela faz uma pausa para respirar e pensar duas vezes em beijar o cara na boca de gratid?o, mas lembra que o tempo ? curto ? Minha amiga t? meio catat?nica, cara. Olha, toma aqui, cem reais? Leva ela para a minha casa, t?? Essa ? a minha chave. Tem porteiro 24h. Entrega ela e a chave para ele, t?? Eu tenho que ficar? Resolver uma coisa ainda?

? T? maluca? Ficar? Eu ouvi pelo menos quatro tiros!

Mas ela j? est? entregando a Beatriz na m?o dele e dizendo “Bia, fica na minha casa, eu j? chego l?!”. Olhando para o taxista com seus melhores olhos de gatinha abandonada ela repete o pedido “Deixa ela na minha casa! Por favor”.

Meio a contragosto o motorista leva sua passageira. Gisele tamb?m n?o tem certeza do que est? fazendo. Deixar sua amiga vulner?vel com um desconhecido, ir atr?s de dois malucos para recuperar a bolsa da amiga? Ela manda mais uma mensagem para o Jorge. “Cara, mandei a Bia para a minha casa com o taxista placa TXE 1328. ? um cara de uns 40 anos meio gordo e de cabelo curto. ?culos” e aperta send porque v? que os dois desistiram de procurar pela Bia e entraram falando no celular.

Ela corre de volta para o pr?dio. Tem que chegar l? antes que eles fechem a porta?

Nos poucos metros de volta ela v? uma pedra solta no ch?o e a pega. Antes de chegar ao port?o ela arremessa a pedra em dire??o ao corredor da garagem ao lado do pr?dio.

D? certo, quando ela olha pelo port?o v? os dois indo em dire??o ? garagem. O corpo do traficante est? jogado no ch?o. Como ? poss?vel que ningu?m esteja nas janelas? Ela olha ao redor e pensa ver uma cortina se mexer num apartamento, uma luz brilhar dentro de outro, um celular sendo usado talvez? Algu?m chamando a pol?cia? Ela n?o tem muito tempo!

Sabendo que os dois voltar?o a qualquer momento Gisele se agarra ao port?o, coloca o p? entre as grades e d? impulso para segurar o alto do muro e se erguer girando e caindo do outro lado com menos gra?a que gostaria, mas fazendo pouco barulho. Ela v? que a porta do pr?dio est? s? encostada. Ser? que eles deixaram o apartamento aberto tamb?m?

Com as pernas tremendo ela atravessa o jardim o mais r?pido poss?vel, quando isso acabar ela vai desabar chorando e solu?ando? Pelo menos ? o que ela pensa ao passar pelo corpo morto do traficante e quase escorregar no seu sangue.

Ela est? atravessando a porta quando os dois voltam da garagem e s? n?o ? vista por segundos. Ela sobe correndo as escadas. Segundo andar de frente? Eles v?o subir? Ela vai ter que pular pela janela? Ser? que ela consegue? Seus m?sculos j? doem de ter aparado a queda da Bia e rolado com ela no ch?o.

Ela escuta os dois subindo atr?s dela, mas eles seguem andando enquanto ela procura correr o mais r?pido poss?vel sem fazer barulho. Por sorte est? de t?nis?

A porta est? aberta! Se n?o estivesse seria o fim!

Tudo remexido dentro da casa, ela deve ter menos de um minuto at? os dois chegarem! Seus olhos vasculham o ambiente freneticamente. A casa pelo jeito j? ? normalmente remexida, meio nojenta… Onde a Bia teria deixado a bolsa em um lugar assim? Uma cadeira em algum tipo de mesa de jantar? Tem uma mesa de jantar nesse lugar? Ali, a cozinha? A porta est? se abrindo. A bolsa! Em cima da mesa! Aberta e remexida. Os documentos da Beatriz espalhados ao redor! Tem uma porta dos fundos ali? Um banheiro de empregada? Jogar tudo na bolsa. correr para a porta, trancada, n?o tem chave? Uma vassoura? O banheiro de empregada?

Quando os dois chegam na cozinha Gisele est? espremida no banheiro de empregada com a vassoura em punho.

? Cad? a merda da bolsa, Ricardo? Cad? A? MERDA? DA? BOLSA???

? T? na mesa da cozinha, seu idiota.

? N?o est?! Voc? deve ter jogado na bagun?a que ? essa casa! A gente precisa disso, algu?m deve ter chamado a pol?cia, seu idiota!

? Se acalma, a gente j? teve problemas demais por uma noite

? Problemas que voc? criou!!

Os dois seguem discutindo pela casa enquanto procuram a bolsa. Ela tem que sair do esconderijo, n?o ? uma boa alternativa, mas ficar ali escondida at? a pol?cia chegar ou ser encontrada pelos dois ? uma alternativa pior.

“Caramba? Eu mandei a Bia para a minha casa! Como vou explicar pros meus pais o que aconteceu? T? fudida? E n?o ? hora de pensar nisso! Pensa Gisele, pensa!”

No caminho para a sala ela abre todas as bocas de g?s sem saber por qu?, pega uma panela pesada e cheia de restos de macarr?o come?ando a mofar. Se esconde atr?s da parede olhando os movimentos dos dois na sala. Como passar por eles?

? O que voc? est? fazendo com essa arma na cintura, seu est?pido? Esconde isso antes que a pol?cia apare?a!

Ele vai com a arma n?o m?o para o banheiro, talvez para esconder no teto rebaixado ou na cuba da descarga? Mas isso deixa apenas um na sala. Talvez d? para acert?-lo e sair correndo. N?o d? para pensar muito.

Tem coisas espalhadas no ch?o ent?o a Gisele precisa seguir cautelosamente para n?o fazer barulho, mas precisa chegar antes que ele se vire. N?o d? Quando ela j? est? levantando a panela ele se vira. Ela atira a panela com toda for?a contra o nariz dele provocando um barulho surdo que parece um monte de repolho sendo pisado por botas do ex?rcito. O cara Cambaleia para tr?s sem conseguir falar, trope?a num sof? e cai batendo com a cabe?a, mas n?o apaga. Do banheiro o outro grita “Que barulho ? esse?”.

A porta de sa?da est? a menos de dois metros, mas Gisele ainda ? vista saindo.

? VOLTA AQUI!

? claro que ela acelera o passo em vez de voltar. Ser? que o cara vai esperar na janela ela passar para dar um tiro nela? E ainda tem a porta fechada do port?o? N?o, deve ter um bot?o para abri-la pelo lado de dentro do pr?dio, mas ela n?o ter? tempo para procurar? A vassoura, ela ouve passos vindo atr?s dela e deixa a vassoura atravessada nos degraus logo depois de uma curva na esperan?a do seu perseguidor trope?ar. A porta logo ? frente. Tem um papel enorme escrito “port?o interno” e outro “port?o externo” bem acima dos interruptores! Ela aperta um com cada m?o no mesmo momento que ouve o barulho ruidoso de algu?m caindo atr?s dela, o cara trope?ou na vassoura e se espatifou a menos de dois metros dela. Ser? que ele viu o seu rosto? Melhor n?o olhar para tr?s!

A noite ainda est? silenciosa quando Gisele atravessa a primeira porta e depois o port?o como um b?lido. Sombras, ela precisa de sombras! Segue correndo, o ar queimando nos pulm?es at? a rua mais pr?xima e mais estreita. Se atira por ela correndo sem parar e tentando se orientar para seguir na dire??o do carro. Eram s? quatro quarteir?es, certo? Ela corre dezenas com frequ?ncia, n?o pode ser dif?cil. Todos os sinais da bebida ou do ?cido j? foram pela for?a adrenalina, ou pelo menos ? como ela se sente.

Quando vai virar a segunda esquina ela olha para tr?s e v? uma pessoa meio zonza caminhando pela rua que ela acabou de deixar. Deve ser o cara procurando por ela. Ele passa direto. Tem que se preocupar com as luzes vermelhas que ela v? lan?ando reflexos na rua. A pol?cia chegou?

O caminho at? o carro ? a corrida mais dif?cil da vida da Gisele e talvez ela nunca tenha corrido t?o r?pido na vida. A blitz ainda est? l?, mas ela vai seguir na dire??o oposta. Olha desconfiada para todos os lados antes de sair. Precisa ter certeza que n?o foi seguida e que n?o v?o pegar a placa do carro do Jorge. Confere pela d?cima vez se a bolsa est? no banco do carona e se lembra que a pr?pria bolsa ficou na festa? Mas ela ter? que ver isso depois. Quanto mais r?pido ela chegar em casa melhor! Tem que ver se a Bia est? l? e se preparar para dar uma desculpa quando os pais ligarem.

Ela decide parar o carro na garagem dos pais. J? est? tudo ferrado mesmo e o carro estranho ser? s? mais um detalhe a explicar.

Quando ela entra na portaria o porteiro, Miguel, vem logo falar com ela.

? Sua amiga t? a?. Ela n?o est? bem n?o. O taxista que deixou ela aqui pediu para te entregar esses 100 reais.

O tom de voz deixava claro que ele n?o deixaria a hist?ria morrer, que a fofoca ia rolar solta no pr?dio e que ele queria detalhes s?rdidos. Por que n?o era o Roberto que estava de servi?o? Ele seria discreto.. S? mais um ponto para tornar imposs?vel sair dessa sem se ferrar com os pais? Pelo menos os caras n?o ter?o como achar as duas. Com um pouco de sorte eles nunca descobrir?o quem era a Bia e como chegar at? ela.

Ao entrar em casa ela encontra a Bia jogada no sof?. Tranca a porta. V? se ela est? respirando, por um instante Gisele pensou “S? falta ela ter morrido de overdose ou de ataque card?aco”, mas a amiga est? apenas apagada.

“Jorge, t? com o seu carro. Acha minha bolsa a? na festa e me traz. Depois explico tudo”

Gisele fica olhando para o celular meio parva torcendo para ele responder logo. Pelo menos a bolsa ela podia recuperar nessa noite maluca.

? Bia? Bia? Acorda? Bebe isso aqui. ? ?gua e rem?dio.

A Bia se encolhe assustada no sof? arregalando os olhos, mas logo reconhece a amiga e a abra?a.

? Voc? est? bem, Gi? A gente est? bem? Me desculpa! Me desculpa!

Ela est? menos abalada do que a Gisele temia, mas se sente profundamente envergonhada.

? T? tudo bem, fofa! Olha, recuperei a sua bolsa. Voc? acha que eles sabem quem voc? ?? Que, sem a sua bolsa, eles conseguem te achar?

A Beatriz olha para um lado, olha para o outro ao longe, pensando, se lembrando? D? uns tr?s sorrisinhos safados, depois franze a testa e faz uma express?o de nojo? Repassando as mem?rias da noite?

? N?o. Imposs?vel! Eu s? falei meu nome, ali?s meu apelido, Bia. Mas eles ficaram com a minha bolsa..

? Eu peguei de volta. Eles olharam dentro dela, mas n?o achei nada com o seu endere?o e duvido que eles tenham decorado seu nome da identidade e, mesmo que tenham, duvido que eles descubram voc? no meio de todas as Ana Beatriz Teixeira da Silva que devem existir na Internet. De qualquer jeito voc? vai ficar uns dias aqui em casa, t?? Avisa pro pessoal com quem voc? racha o ap?. Vou ligar pros meus pais? Eles voltam s? na semana que vem.

S?o menos de 5h da manh? quando a Gisele decide que hist?ria contar para os pais e decide contar imediatamente.

? Al?, filha?

? Pai, coloca no Viva Voz e chama a mam?e.

? O que voc? andou aprontando Gisele? Querida, acorda, ? a sua filha?

A voz da m?e surge ao fundo anda meio torpe de sono.

? Prestem aten??o. Ontem, depois de estudar, a gente foi para uma festa vip na casa de um rica?o amigo, do amigo do amigo. Drogas e bebida e pega??o para todo lado. Bebi e me droguei. Fa?o isso de vez em quando h? anos. Uma amiga sumiu com um dos organizadores da festa e tive que ir resgat?-la com o carro de outro amigo?

E contou a hist?ria inteira, sem tirar nem por, sem diminuir nenhum dos riscos que correu, nenhuma das imprud?ncias que fez e terminou dizendo que eles decidissem o que querem fazer com ela, mas que j? basta de ficar escondendo o que faz e quem ?.

Um longo sil?ncio?

? Voc? est? bem? ? Os pais dizem em coro?

? T? Cansada, suja e dolorida, mas t? bem.

? Se cuida? Filha? Conversamos na volta?

Os pais se revezam na frase e fecham dizendo juntos para ela tomar um banho e dormir.

N?o era o final de discuss?o que a Gisele esperava. Os dois devem estar em choque, ela saber? nos pr?ximos dias, por enquanto ela precisa mesmo descansar. Toma um banho e dorme no ch?o ao lado do sof? onde a Bia se atirou e dorme profundamente.

O processo criativo

At? o d?cimo quarto conto eu seguia uma “f?rmula” criativa para cada conto. Achei que seria interessante para o leitor interessado em como funciona o processo criativo, mas era uma coisa artificial, n??

Essa fase acabou e agora entro em outra mais livre! Ufa!

Vou descobrindo junto com os leitores as melhores formas de compartilhar o processo criativo agora que posso deixar a mente solta. Esse ? um dos objetivos principais dessa segunda fase (al?m de escrever que ? algo que me faz muito bem!!)

J? t? na ?rea, um pouco atrasado.

[8:12]

Vamos ver o que tenho que escrever hoje.

Como muitas vezes esque?o de pensar nas sugest?es vou come?ar por elas. Pediram para abordar drogas e tamb?m para fazer algo aproveitando o Natal.

Acordei pensando em tentar ambientar o conto no Natal ou fazer alguma refer?ncia a isso. Mesmo que a vota??o tenha dado terror um bom f? de Doctor Who n?o tem dificuldade em fazer um conto de Natal catastr?fico, n??

Bem, vamos ver o resultado da vota??o?

Aventura, jovem, presente e realista.

Ontem mesmo a minha esposa estava me mostrando que uma boa parte do mercado de literatura em 2014 foi sustentada por adultos que leram jovem adulto. Pelo jeito vivemos uma ?poca que demanda esse estilo e at? desconfio por qu?!

O jovem e o jovem adulto s?o adapt?veis, mas tamb?m tem f?lego para tentar mud?-lo al?m de uma mente mais aberta para possibilidades.

Como estamos justamente em um per?odo? N?o, n?o ? um per?odo qualquer, n?s talvez estejamos vivendo a maior mudan?a de paradigma da hist?ria da nossa esp?cie desde que sobrevivemos ? quase extin??o em nosso ber?o h? mais de 100 mil anos? Mas isso ? outra hist?ria.

Como estamos justamente nesse per?odo de intensa transforma??o o esp?rito jovem se mostra essencial. A rebeldia, a disposi??o de agir contra o sistema?

Veja bem, estou repensando o que significa “literatura jovem” como parte do processo criativo desse conto. ? algo que eu n?o devia fazer porque o tempo ? curto, n?? Isso ? o tipo de coisa que devia ficar para um dos v?deos que estou planejando para 2015?

O problema ? que a literatura jovem e jovem adulta tem sido sin?nimo de distopia e n?o d? para fazer uma distopia realista? Hummm? D? at? d?, mas n?o sei se consigo pensar nisso e executar em 4h. Deixa a ideia em suspenso.

Hoje ? o primeiro dia que vou escrever com total liberdade criativa, sem ter que me encaixar em uma das 14 abordagens e isso ? bom. Quer dizer, algumas vezes fica dif?cil decidir como come?ar, mas acho que n?o ? o caso porque voc?s me ajudaram com a vota??o e sugest?es.

Ter? drogas e natal. T? pensando em duas coisas: uma personagem rebelde como a Paige Mahoney do The Bone Season e centrado na protagonista como parece ser o filme Wild com ?a Reese Witherspoon.

[8:30] Espera uns 10 minutos que tenho que fazer uma coisa aqui em casa? [8:42]

Por que mulher e com tanto destaque? Acho que j? falei nisso, mas sempre ? bom relembrar porque nem todo mundo leu e, a cada vez que a gente fala em alguma coisa, desenvolve as ideias.

Mulher ajuda a me distanciar da hist?ria um pouco j? que, por mais feminino que eu possa ser, n?o sou mulher (duh!) e esse distanciamento me ajuda a se menos monotem?tico, a falar sobre realidades que n?o s?o a minha. Al?m disso as mulheres foram coadjuvantes nas artes (e na forma como s?o vistas pela nossa cultura) por muito tempo causando um desequil?brio claramente ruim para quem ? mulher, mas p?ssimo tamb?m para os homens e para o funcinamento da nossa civiliza??o. Acho que ? um pouco nossa responsabilida (nossa me referindo a todos n?s, humanos) fazer alguma coisa para compensar esse desequil?brio.

Bem, uma aventura jovem. Vou colocar o jovem na faixa dos 19 anos agora.

Aventura? J? vou pensar nela.

Presente. Mas presente onde? Cidade grande? Periferia? Brasil? Outro pa?s? Coreia? ? chato, digo, delicado, fazer em outros pa?ses porque n?o conhecemos bem a cultura e pessoas de l?. Acabamos falando besteira. Ser? presente em uma cidade grande n?o identificada.

Como vai ter drogas fica mais f?cil pensar em coisas realistas. Tenho a tend?ncia de pensar em aventuras scifi ou de fantasia. Essa deve ser a dificuldade do conto de hoje, me manter realista.

Drogas? Natal? Aventura? [8:52]

Lembrei de um filme da d?cada de 80. Uma Noite Alucinante? Era infantil. Uma bab? com nus 16 anos que sai em uma aventura com as crian?as pela cidade, nem lembro por qu?. Tinha at? um Thor no filme, o mec?nico onde ela leva o carro. Pensei nisso porque me veio ? mente uma jovem tendo que ajudar um amigo ou amiga envolvido com drogas?

?! Na noite de Natal! Ela vai se embolar por v?rias regi?es de uma cidade grande para ajudar o amigo ou amiga passando mal por uma overdose ou talvez por ter se envolvido com uma mil?cia que lida com drogas.

Esse ? o tipo de hist?ria que d? para come?ar a escrever por um ponto cr?tico, ela recebendo uma mensagem de voz por Whatsapp por exemplo, e partir da? num crescendo de a??o deixando a imagina??o trabalhar no momento seguinte mesmo sem ter planejado o final.

Tenho uma ideia de final n?o muito feliz, mas jamais? Jamais ? exagero, mas n?o gosto de castigar o protagonista que se aventura dando-lhe um final ruim. A menos que a hist?ria se desenvolva de tal forma que me imponha isso.

O final que antevejo n?o ? feliz e ? meio adulto, mas jovens modernos se deparam com situa??es adultas? Todo dia quando corro de manh? por volta das 8h vejo jovens vestidos para festas a rigor andando pela praia depois de virar a noite provavelmente em festas de formatura. Sei que crian?as com menos de 15 anos j? se embebedam em festas e at? escrevi um post h? tempos com uma menina numa situa??o dessas? Hummm? Ela pode ser a protagonista? Depois coloco o link para ele aqui. Vou demorar a achar no meu blog.

Ali?s vou come?ar com a mesma cena que come?a nessa cr?nica!

S?o nove horas e dois minutos. Tenho que come?ar sen?o fica apertado no final!

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