Sobre o projeto

Esse é o décimo quinto conto do projeto #UmSábadoUmConto (Post explicando o projeto)

Durante a semana as pessoas votam em estilo, gênero, público e época. O autor (eu) só pode saber o resultado às 8h de sábado e tem até meio dia para terminar o conto.

Cada conto é escrito com um processo criativo diferente (veja no final).

O que você vê a seguir é o conto com a mínima revisão. Você pode ler sem revisão no Google Docs.

O Conto (Não recomendado para menores)

O celular vibra na sua bochecha… “Por que o celular está vibrando na minha bochecha?” Gisele começa a tomar consciência de quem ela é, onde está, como chegou ali.

Um vento frio a arrepia, um fio de baba escorre pela boca, o celular vibra insistentemente. Atender. Tem que atender? Não! Antes é melhor ver quem é! “Cacete! Meu pai! E eu tô tonta! O que eu bebi? O que eu andei usando?”.

– Major Tom to ground control… Ground Control to major Tom – ela canta sussurrando pois vê que está em uma cobertura cercada de outras pessoas, umas dormindo, outras entre amassos. Todo mundo acha estranho que uma pessoa de 17 anos conheça essas músicas velhas, mas ficou na cabeça dela desde que viu o astronauta cantando na Estação Espacial Internacional. É, parece que a voz está calibrada o bastante para enganar o pai.

– Oi pai? – ela sussurra – As meninas estão dormindo! Não posso falar alto! O que tá pegando?

– Gisele!!! Nós falamos para você voltar para casa até meia noite! São 2h da manhã e ficamos sabendo que você não voltou para casa só por causa da fofoqueira da vizinha que ligou para a sua mãe! O que você está aprontando? Você acha que somos idiotas? Você disse que ia estudar com uns colegas…

Ele está cuspindo marimbondos. “É claro que ele desconfia que devo estar na casa de algum namorado que não quis contar, que vou transar sem camisinha e que devo estar bêbada… Nem eu sei o que estou! Se ele imaginasse…”.

Gisele realmente estudou na véspera, mas tinha essa festa na cobertura de alguém que conhece alguém que conhece uma das pessoas que estava estudando com ela. À meia noite eles estavam chegando lá. Tinha todo tipo de bebida e um cardápio farto de drogas… Festa de gente rica. Ácido, ela se lembra que certamente tomou ácido.

O pai continua cuspindo marimbondos enquanto ela sussurra tentativas de desculpas e justificativas. Pelo jeito está se saindo bem com a história de que ficou tarde e que a Beatriz (onde estava a Beatriz por falar nisso, ela olha ao redor) a convidou para dormir na casa dela em vez de pegar um ônibus pela madrugada da cidade.

– Pai, eu tenho que ir para cima e para baixo nessa cidade, se não souber cuidar de mim mesma estou ferrada. Te garanto que estou mais segura aqui do que se tivesse saído meia noite para pegar o ônibus ou até um táxi. Tem uns sinistros de madrugada.

A festa ainda rolava do outro lado da porta da varanda, mas ela estava em uma espreguiçadeira ao lado da piscina, o som não chega lá, mas ela vai para o canto mais distante por via das dúvidas.

Os pais estão fora da cidade, em um congresso, se desse eles iam querer ir buscá-la. Por que ela não se impunha e falava a verdade? Por que ficar nessas mentirinhas adolescentes? No entanto, se os pais soubessem da vida dela provavelmente a prenderiam com correntes em casa ou a mandariam para a rua.

O pai desliga desconfiado avisando que quer que ela ligue para ele assim que chegar em casa depois que amanhecer.

Ela olha para o celular e está cheio de mensagens… Devem ser dos pais.

Não… Tem um WhatsApp… Eles não usam o WhatsApp… É mensagem de voz da Bia.

– Gi!! Tô ferrada Gi!! Eu não sei onde estou! Saí da festa com uma galera que ia comprar bebida, vieram para um lugar estranho comprar drogas, Gi! Vim no banheiro, mas tá tudo bizarro aqui! Não sei o que fazer! Me ajuda!!!

Logo depois ela mandou o mapa de onde estava. Uma rua chique cheia de casas e alguns prédios pequenos, com menos de 5 andares.

Gisele respira fundo avaliando seu estado. Todo mundo, quase todo mundo, bebe e se droga hoje em dia…

Gisele respira fundo, olha ao redor avaliando a situação e a si mesma. Ela sabe bem seus limites, por isso foi ali para a varanda pegar um ar e se desintoxicar. Era uma festa estranha com gente esquisita e ela decidiu que não dava para confiar no carinha que estava dando em cima dela. Deu um jeito de se livrar dele e ir ali para fora para encontrar novamente seu centro e bom senso. A Bia pelo jeito não fez isso…

“Cadê o Jorge? Viemos no carro dele, vou precisar de um carro para pegar a Bia”.

Ela sai vasculhando as pessoas até achar o Jorge nuns amassos com um cara. A família dele não sabe que ele é gay e, quando ele pode, se solta até demais, pegando umas pessoas que não conhece bem. Bom… Não é diferente das outras pessoas nas festas e boates da vida e provavelmente a Gisele está sendo preconceituosa, ou está simplesmente nervosa.

– Jorge, a gente tem que pegar a Bia!

Ele vira para ela. Totalmente tonto. Os olhos vidrados de quem usou cocaína… O torpor do álcool com o excesso de confiança da cocaína… Ele não pode dirigir, nem pensar.

O cara que ele está pegando é um leprechaum? Só então a Gisele lembra que a festa é temática de Natal. Que ridículo… Papais Noéis, duendes e até renas totalmente alucinados ao som de techno…

– Me dá sua chave, Jorge.

– Você vai para a minha casa? Vai acordar meus pais?

– Não, Jorge, a chave do carro!

Ele se apalpa olhando para um lado e para o outro até achar a chave jogada no chão. Não consegue se abaixar por estar muito tonto e a Gisele o segura pelo ombro dizendo para deixar com ela. Pega a chave, sussurra no ouvido dele “Se cuida cara, bebe uma água, respira algumas vezes, se dá um tempo”.

Ela sai correndo entre as pessoas, passa pela festa, o cara que estava atrás dela ainda vem em sua direção, mas ela balança a cabeça e estica a mão mandando ele se afastar.

O carro continua na vaga onde eles deixaram! Sempre existe o medo de terem roubado o carro. O Jorge nem perguntou como ele voltaria para casa depois ou o que ela ia fazer com o carro e o pior (ou melhor) é que ele era assim sóbrio também. Um cara desapegado das coisas e que confia muito nos bons amigos que tem. E Gisele é uma boa amiga. Só bons amigos saem pela madrugada para socorrer amigos desmiolados que se metem em lugares estranhos… Não que a festa onde eles estavam não fosse um lugar estranho.

Gisele segue tensa pela rua. Não pode demorar, mas também não pode correr porque sabe que seus sentidos não estão bons e vai se ferrar muito se for parada em uma blitz. Ela dá preferência às ruas pequenas com pouco trânsito.

As mensagens que ela mandou para a Bia não foram respondidas, mas foram vistas “Tô indo. Não sai daí” e “Se sair daí dá um jeito de me avisar para onde te levaram!”

Blitz! Ela entra com o carro em uma vaga. Sai olhando ao redor respirando fundo para clarear as ideias. Manda uma mensagem para o Jorge dizendo que está com o carro dele indo pegar a Bia e que depois vai para casa. Manda o mapa de onde a Bia está também por via das dúvidas, mesmo sabendo que ele só deve ver de tarde quando acordar.

O lugar no mapa é a quatro quarteirões dali. Ela pode pegar um táxi até lá e depois voltar com a Bia até o carro e assim evitar a blitz. Porque ela não pegou um táxi desde o começo? Bem, ter um carro parado do lado de fora para elas fugirem poderia ser providencial, mas ela podia fazer isso com um táxi também…

Ela para o táxi e combina o serviço.

– Cara, tenho que pegar uma amiga ali na frente e voltar para cá, te pago a corrida até lá, mas quero que você espere para nos trazer de volta para cá e aí de dou 50 pratas. Pode ser?

– Opa! Demorô! Entra aí.

No curto espaço de tempo até o ponto no mapa chega outra mensagem de voz da Bia pelo WhatsApp.

“Três mil, mané! Você só tem três mil aí? E me faz despencar até aqui por causa de três mil? E que porra de notas são essas, todas novinhas? Tu tá armando para mim, seu playboizinho? E quem é a vaca? Você sabe que gente nova é merda na certa!”

O motorista para o carro.

– Pera aí que a coisa não é bem como você disse, né moça? Na boa? Tô fora! Tenho mulher e filhos em casa! Não vou me meter na merda dos outros!

O coração da Gisele está apertado, é claro que a vaca é a Bia. Levaram ela para uma negociação de drogas. Como ela vai entrar lá!? Pior ainda, como vai sair? Ela nem sabe em que estado a Bia estará, se vai poder correr. Ela precisa do carro!

– Cara, por favor! Minha amiga não é uma má pessoa, ela só se meteu com o desconhecido errado! Se você não der uma força alguma coisa muito ruim vai acontecer! Ela tem um pai assim como você é pai! Eu sei que sua filha nunca vai se meter numa fria dessas, mas o pai da minha amiga também acha que ela nunca se meteria com esse tipo de gente! Me deixa aqui e fica esperando na esquina. Ninguém vai te ver! Se eu não voltar em 15 minutos, não 20, você vai embora… Mas me faz um favor? Liga para a polícia?

– Vai. Eu espero… Cacete… Ainda vou me arrepender disso…

Gisele sai correndo do carro, mas não sem antes agradecer quase chorando.

Enquanto corre pela rua atrás do ponto no mapa e sem saber exatamente em que casa ou prédio a Bia está ela vai secando as lágrimas, tentando se acalmar e pensar em uma história.

Ela passa em frente a um prédio de três andares bem a tempo de ouvir o som abafado de discussão ficar repentinamente alto, alguma coisa pequena se espatifa ao seu lado na calçada e som volta a ficar abafado. É um celular. O celular da Bia!

Uma árvore cresce bem perto do muro, o bastante para a Gisele subir nela e pular por cima dele, depois ela vê como entrar no prédio, será que tem porteiro? Talvez dê para passar um papo nele.

É claro que não tem porteiro, esses prédios pequenos nunca tem. Também não dá para adivinhar qual é o apartamento para tocar o interfone para lá, e dizer o quê?

“Vou escalar essa parede, foda-se!” – Ela realmente seria capaz de escalar, mas é uma ideia desesperada que ela não consegue começar a executar porque a janela se abre novamente, dois tiros ressoam pela rua vazia e a Gisele olha para cima bem a tempo de ver alguém se atirando pela janela do segundo andar.

Sem pensar ela pula na direção da pessoa para amortecer sua queda e as duas se embolam rolando no chão, esfolando cotovelos, batendo com a cabeça no gramado. Se fosse um chão de concreto elas teriam se ferido seriamente.

Gisele se recupera primeiro e senta sobre a pessoa imobilizando-a. É a Bia! Alguém aparece na janela de costas, mais dois tiros e um outro corpo caindo. Antes dele chegar ao chão Gisele vê uma sombra na janela e rola com a Bia para perto do muro, coberta pela sombra de um arbusto que cresce colado nele.

– Cadê a mina maluca que pulou?

– De onde você tirou essa arma Ricardo? Você tem noção que meteu bala num traficante? Os caras vão vir atrás de mim aqui em casa! Você me ferrou, cara!

– Eu?? Você que estava negociando com um maluco! De onde você tirou esse cara?

– Ele era muito bem cotado no Mercado Livre – o tom jocoso não disfarça o desespero – Você acha que traficante é que nem loja de shopping, seu doente? A gente não escolhe! Pega o que tem!

Eles saem da janela, o traficante ainda está vivo se arrastando com um braço inutilizado, mas o outro segurando uma arma.

– Bia! Bia, sou eu, a Gisele! Pelo amor de Deus, diz que você está consciente! Fala comigo!

– Gi? Ai! Meu pulso tá doendo para caralho! Eu pulei, cara! Pulei pela janela! Achei que ia ficar aleijada! Foi você que me segurou?

– Segurei? A gente se embolou no chão! Achei que ia virar uma panqueca. Se tivesse pensado melhor tinha deixado você cair direto no chão, sua doida! Levanta, eles vão descer! Temos que correr daqui! Você consegue levantar?

Com alguma dificuldade a Beatriz se levanta e, antes que tenha tempo de pensar, é puxada pela Gisele para o muro e vê a amiga “fazendo pezinho” com as mãos para ela pular.

O traficante se vira de costas olhando para cima e para a porta do prédio sem poder se preocupar com a menina que pulou e deve estar desmaiada de qualquer jeito, pelo menos é o que ele pensa.

Desnorteado com a queda ele não toma consciência dos sussurros, gemidos e ruído de folhas enquanto as duas pulam o muro.

Quando Gisele chega ao chão do outro lado encontra a Beatriz chorando.

– Que merda! Onde fui me meter Gi? Eles ficaram com a minha bolsa! Sabem quem eu sou! Tô morta cara! Vão querer acabar comigo porque sei onde eles moram… Me deixa aqui e vai embora.

Ela começa a dar sinais de que vai perder o controle se é que já não perdeu.

Gisele segura o rosto dela pelo queixo, aproxima bem o rosto olhando fundo nos olhos mareados da amiga.

– Agora não Bia. Depois a gente pensa nisso, agora você vai levantar e vir comigo. Não existe outra opção! Vem!

Algumas pessoas tem essa capacidade de impor tamanha tranquilidade e autoridade na voz que não nos deixa muito espaço para ter dúvidas. A Bia parece um zumbi, mas se levanta e aceita ser puxada pela amiga que segura firme sua mão que não está machucada.

As duas correndo pela rua arborizada às 3h da manhã parecem aqueles bonecos de sombra projetados na parede por um abajur giratório. É como se elas estivessem paradas e as sombras das árvores passassem por elas.

Antes de chegarem à esquina escutam mais dois tiros, quer dizer, Gisele escuta mais dois tiros pois a Beatriz está à beira do colapso e não escuta mais nada.

Quando chegam na esquina o táxi não está lá. Gisele empurra a amiga para as sombras e vê que duas pessoas atravessam o portão do pequeno prédio. Uma está mancando. Com certeza são o “amigo” da Bia e o dono do apartamento. O traficante deve estar morto.

Ela consegue forçar os ouvidos e escutar entre os sussurros dos dois coisas como “culpar”, “guria” e “bolsa”. Isso é o bastante. Vão tentar culpar a pobre da Bia pelo que aconteceu com o traficante. Se bobear vão dizer para a polícia que ela que o levou até lá para assaltá-los ou coisa assim e para os traficantes que a guria é que era chave de cadeia e estava armada.

“Tenho que recuperar a bolsa dela! Droga! Cadê o táxi?”

Uma pessoa vem vindo pela rua caminhando trocando as pernas, um bêbado, era o que faltava… Ele vai dar em cima delas e revelar onde estão.

Gisele encosta a Beatriz na parede mandando que ela fique ali, que não se mexa, e parte para cima do bêbado para impedir de alguma forma que ele fale, mas não é um bêbado. Quando ela vence os seis passos entre eles vê que é o taxista.

– Ouvi os tiros, menina. Não sei o que tem na minha cabeça, mas decidi parar o carro e vir fingindo ser um bêbado para não desconfiarem de mim e poder ver o que estava rolando.

– Cara! Se existe um céu tem um táxi esperando por você lá para te levar para onde você quiser de graça! Nem acredito que você ficou! ? Ela faz uma pausa para respirar e pensar duas vezes em beijar o cara na boca de gratidão, mas lembra que o tempo é curto – Minha amiga tá meio catatônica, cara. Olha, toma aqui, cem reais… Leva ela para a minha casa, tá? Essa é a minha chave. Tem porteiro 24h. Entrega ela e a chave para ele, tá? Eu tenho que ficar… Resolver uma coisa ainda…

– Tá maluca? Ficar? Eu ouvi pelo menos quatro tiros!

Mas ela já está entregando a Beatriz na mão dele e dizendo “Bia, fica na minha casa, eu já chego lá!”. Olhando para o taxista com seus melhores olhos de gatinha abandonada ela repete o pedido “Deixa ela na minha casa! Por favor”.

Meio a contragosto o motorista leva sua passageira. Gisele também não tem certeza do que está fazendo. Deixar sua amiga vulnerável com um desconhecido, ir atrás de dois malucos para recuperar a bolsa da amiga… Ela manda mais uma mensagem para o Jorge. “Cara, mandei a Bia para a minha casa com o taxista placa TXE 1328. É um cara de uns 40 anos meio gordo e de cabelo curto. óculos” e aperta send porque vê que os dois desistiram de procurar pela Bia e entraram falando no celular.

Ela corre de volta para o prédio. Tem que chegar lá antes que eles fechem a porta.

Nos poucos metros de volta ela vê uma pedra solta no chão e a pega. Antes de chegar ao portão ela arremessa a pedra em direção ao corredor da garagem ao lado do prédio.

Dá certo, quando ela olha pelo portão vê os dois indo em direção à garagem. O corpo do traficante está jogado no chão. Como é possível que ninguém esteja nas janelas? Ela olha ao redor e pensa ver uma cortina se mexer num apartamento, uma luz brilhar dentro de outro, um celular sendo usado talvez? Alguém chamando a polícia? Ela não tem muito tempo!

Sabendo que os dois voltarão a qualquer momento Gisele se agarra ao portão, coloca o pé entre as grades e dá impulso para segurar o alto do muro e se erguer girando e caindo do outro lado com menos graça que gostaria, mas fazendo pouco barulho. Ela vê que a porta do prédio está só encostada. Será que eles deixaram o apartamento aberto também?

Com as pernas tremendo ela atravessa o jardim o mais rápido possível, quando isso acabar ela vai desabar chorando e soluçando… Pelo menos é o que ela pensa ao passar pelo corpo morto do traficante e quase escorregar no seu sangue.

Ela está atravessando a porta quando os dois voltam da garagem e só não é vista por segundos. Ela sobe correndo as escadas. Segundo andar de frente? Eles vão subir… Ela vai ter que pular pela janela? Será que ela consegue? Seus corpo já dói de ter aparado a queda da Bia e rolado com ela no chão.

Ela escuta os dois subindo atrás dela, mas eles seguem andando enquanto ela procura correr o mais rápido possível sem fazer barulho. Por sorte está de tênis.

A porta está aberta! Se não estivesse seria o fim!

Tudo remexido dentro da casa, ela deve ter menos de um minuto até os dois chegarem! Seus olhos vasculham o ambiente freneticamente. A casa pelo jeito já é normalmente remexida, meio nojenta… Onde a Bia teria deixado a bolsa em um lugar assim? Uma cadeira em algum tipo de mesa de jantar? Tem uma mesa de jantar nesse lugar? Ali, a cozinha! A porta está se abrindo. A bolsa! Em cima da mesa! Aberta e remexida. Os documentos da Beatriz espalhados ao redor! Tem uma porta dos fundos ali? Um banheiro de empregada? Jogar tudo na bolsa. correr para a porta, trancada, não tem chave… Uma vassoura… O banheiro de empregada…

Quando os dois chegam na cozinha Gisele está espremida no banheiro de empregada com a vassoura em punho.

– Cadê a merda da bolsa, Ricardo? Cadê A MERDA DA BOLSA???

– Tá na mesa da cozinha, seu idiota.

– Não está! Você deve ter jogado na bagunça que é essa casa! A gente precisa disso, alguém deve ter chamado a polícia, seu idiota!

– Se acalma, a gente já teve problemas demais por uma noite

– Problemas que você criou!!

Os dois seguem discutindo pela casa enquanto procuram a bolsa. Ela tem que sair do esconderijo, não é uma boa alternativa, mas ficar ali escondida até a polícia chegar ou ser encontrada pelos dois é uma alternativa pior.

“Caramba? Eu mandei a Bia para a minha casa! Como vou explicar pros meus pais o que aconteceu? Tô fudida! E não é hora de pensar nisso! Pensa Gisele, pensa!”

No caminho para a sala ela abre todas as bocas de gás sem saber por quê, pega uma panela pesada e cheia de restos de macarrão começando a mofar. Se esconde atrás da parede olhando os movimentos dos dois na sala. Como passar por eles?

– O que você está fazendo com essa arma na cintura, seu estúpido? Esconde isso antes que a polícia apareça!

Ele vai com a arma na mão para o banheiro, talvez para esconder no teto rebaixado ou na cuba da descarga. Mas isso deixa apenas um na sala. Talvez dê para acertá-lo e sair correndo. Não dá para pensar muito.

Tem coisas espalhadas no chão então a Gisele precisa seguir cautelosamente para não fazer barulho, mas precisa chegar antes que ele se vire. Não dá… Quando ela já está levantando a panela ele se vira. Ela atira a panela com toda força contra o nariz dele provocando um barulho surdo que parece um monte de repolho sendo pisado por botas do exército. O cara Cambaleia para trás sem conseguir falar, tropeça num sofá e cai batendo com a cabeça, mas não apaga. Do banheiro o outro grita “Que barulho é esse?”.

A porta de saída está a menos de dois metros, mas Gisele ainda é vista saindo.

– VOLTA AQUI!

É claro que ela acelera o passo em vez de voltar. Será que o cara vai esperar na janela ela passar para dar um tiro nela? E ainda tem a porta fechada do portão… Não! deve ter um botão para abri-la pelo lado de dentro do prédio, mas ela não terá tempo para procurar… A vassoura, ela ouve passos vindo atrás dela e deixa a vassoura atravessada nos degraus logo depois de uma curva na esperança do seu perseguidor tropeçar. A porta logo à frente. Tem um papel enorme escrito “portão interno” e outro “portão externo” bem acima dos interruptores! Ela aperta um com cada mão no mesmo momento que ouve o barulho ruidoso de alguém caindo atrás dela, o cara tropeçou na vassoura e se espatifou a menos de dois metros dela. Será que ele viu o seu rosto? Melhor não olhar para trás!

A noite ainda está silenciosa quando Gisele atravessa a primeira porta e depois o portão como um bólido. Sombras, ela precisa de sombras! Segue correndo, o ar queimando nos pulmões até a rua mais próxima e mais estreita. Se atira por ela correndo sem parar e tentando se orientar para seguir na direção do carro. Eram só quatro quarteirões, certo? Ela corre dezenas com frequência, não pode ser difícil. Todos os sinais da bebida ou do ácido já foram pela força adrenalina, ou pelo menos é como ela se sente.

Quando vai virar a segunda esquina ela olha para trás e vê uma pessoa meio zonza caminhando pela rua que ela acabou de deixar. Deve ser o cara procurando por ela. Ele passa direto. Tem que se preocupar com as luzes vermelhas que ela vê lançando reflexos na rua. A polícia chegou…

O caminho até o carro é a corrida mais difícil da vida da Gisele e talvez ela nunca tenha corrido tão rápido na vida. A blitz ainda está lá, mas ela vai seguir na direção oposta. Olha desconfiada para todos os lados antes de sair. Precisa ter certeza que não foi seguida e que não vão pegar a placa do carro do Jorge. Confere pela décima vez se a bolsa está no banco do carona e se lembra que a própria bolsa ficou na festa. Mas ela terá que ver isso depois. Quanto mais rápido ela chegar em casa melhor! Tem que ver se a Bia está lá e se preparar para dar uma desculpa quando os pais ligarem.

Ela decide parar o carro na garagem dos pais. Já está tudo ferrado mesmo e o carro estranho será só mais um detalhe a explicar.

Quando ela entra na portaria o porteiro, Miguel, vem logo falar com ela.

– Sua amiga tá aí. Ela não está bem não. O taxista que deixou ela aqui pediu para te entregar esses 100 reais.

O tom de voz deixava claro que ele não deixaria a história morrer, que a fofoca ia rolar solta no prédio e que ele queria detalhes sórdidos. Por que não era o Roberto que estava de serviço? Ele seria discreto. Só mais um ponto para tornar impossível sair dessa sem se ferrar com os pais. Pelo menos os caras não terão como achar as duas. Com um pouco de sorte eles nunca descobrirão quem era a Bia e como chegar até ela.

Ao entrar em casa ela encontra a Bia jogada no sofá. Tranca a porta. Vê se ela está respirando, por um instante Gisele pensou “Só falta ela ter morrido de overdose ou de ataque cardíaco”, mas a amiga está apenas apagada.

“Jorge, tô com o seu carro. Acha minha bolsa aí na festa e me traz. Depois explico tudo”

Gisele fica olhando para o celular meio parva torcendo para ele responder logo. Pelo menos a bolsa ela podia recuperar nessa noite maluca.

– Bia… Bia… Acorda! Bebe isso aqui. É água e remédio.

A Bia se encolhe assustada no sofá arregalando os olhos, mas logo reconhece a amiga e a abraça.

– Você está bem, Gi? A gente está bem? Me desculpa! Me desculpa!

Ela está menos abalada do que a Gisele temia, mas se sente profundamente envergonhada.

– Tá tudo bem, fofa! Olha, recuperei a sua bolsa. Você acha que eles sabem quem você é? Que, sem a sua bolsa, eles conseguem te achar?

A Beatriz olha para um lado, olha para o outro ao longe, pensando, se lembrando… Dá uns três sorrisinhos safados, depois franze a testa e faz uma expressão de nojo… Repassando as memórias da noite.

– Não. Impossível! Eu só falei meu nome, aliás meu apelido, Bia. Mas eles ficaram com a minha bolsa..

– Eu peguei de volta. Eles olharam dentro dela, mas não achei nada com o seu endereço e duvido que eles tenham decorado seu nome da identidade e, mesmo que tenham, duvido que eles descubram você no meio de todas as Ana Beatriz Teixeira da Silva que devem existir na Internet. De qualquer jeito você vai ficar uns dias aqui em casa, tá? Avisa pro pessoal com quem você racha o apê. Vou ligar pros meus pais. Eles voltam só na semana que vem.

São menos de 5h da manhã quando a Gisele decide que história contar para os pais e decide contar imediatamente.

– Alô, filha?

– Pai, coloca no Viva Voz e chama a mamãe.

– O que você andou aprontando Gisele? Querida, acorda, é a sua filha.

A voz da mãe surge ao fundo anda meio torpe de sono.

– Prestem atenção. Ontem, depois de estudar, a gente foi para uma festa vip na casa de um ricaço amigo, do amigo do amigo. Drogas e bebida e pegação para todo lado. Bebi e me droguei. Faço isso de vez em quando há anos. Uma amiga sumiu com um dos organizadores da festa e tive que ir resgatá-la com o carro de outro amigo…

E contou a história inteira, sem tirar nem por, sem diminuir nenhum dos riscos que correu, nenhuma das imprudências que fez e terminou dizendo que eles decidissem o que querem fazer com ela, mas que já basta de ficar escondendo o que faz e quem é.

Um longo silêncio…

– Você está bem? – Os pais dizem em coro.

– Tô Cansada, suja e dolorida, mas tô bem.

– Se cuida, Filha. Conversamos na volta.

Os pais se revezam na frase e fecham dizendo juntos para ela tomar um banho e dormir.

Não era o final de discussão que a Gisele esperava. Os dois devem estar em choque, ela saberá nos próximos dias, por enquanto ela precisa mesmo descansar. Toma um banho e dorme no chão ao lado do sofá onde a Bia se atirou e dorme profundamente.

O processo criativo

Até o décimo quarto conto eu seguia uma “fórmula” criativa para cada conto. Achei que seria interessante para o leitor interessado em como funciona o processo criativo, mas era uma coisa artificial, né?

Essa fase acabou e agora entro em outra mais livre! Ufa!

Vou descobrindo junto com os leitores as melhores formas de compartilhar o processo criativo agora que posso deixar a mente solta. Esse é um dos objetivos principais dessa segunda fase (além de escrever que é algo que me faz muito bem!!)

Já tô na área, um pouco atrasado.

[8:12]

Vamos ver o que tenho que escrever hoje.

Como muitas vezes esqueço de pensar nas sugestões vou começar por elas. Pediram para abordar drogas e também para fazer algo aproveitando o Natal.

Acordei pensando em tentar ambientar o conto no Natal ou fazer alguma referência a isso. Mesmo que a votação tenha dado terror um bom fã de Doctor Who não tem dificuldade em fazer um conto de Natal catastrófico, né?

Bem, vamos ver o resultado da votação…

Aventura, jovem, presente e realista.

Ontem mesmo a minha esposa estava me mostrando que uma boa parte do mercado de literatura em 2014 foi sustentada por adultos que leram jovem adulto. Pelo jeito vivemos uma época que demanda esse estilo e até desconfio por quê!

O jovem e o jovem adulto são adaptáveis, mas também tem fôlego para tentar mudar além de uma mente mais aberta para possibilidades.

Como estamos justamente em um período… Não, não é um período qualquer, nós talvez estejamos vivendo a maior mudança de paradigma da história da nossa espécie desde que sobrevivemos à quase extinção em nosso berço há mais de 100 mil anos. Mas isso é outra história.

Como estamos justamente nesse período de intensa transformação o espírito jovem se mostra essencial. A rebeldia, a disposição de agir contra o sistema…

Veja bem, estou repensando o que significa “literatura jovem” como parte do processo criativo desse conto. É algo que eu não devia fazer porque o tempo é curto, né? Isso é o tipo de coisa que devia ficar para um dos vídeos que estou planejando para 2015…

O problema é que a literatura jovem e jovem adulta tem sido sinônimo de distopia e não dá para fazer uma distopia realista. Hummm… Dá até dá, mas não sei se consigo pensar nisso e executar em 4h. Deixa a ideia em suspenso.

Hoje é o primeiro dia que vou escrever com total liberdade criativa, sem ter que me encaixar em uma das 14 abordagens e isso é bom. Quer dizer, algumas vezes fica difícil decidir como começar, mas acho que não é o caso porque vocês me ajudaram com a votação e sugestões.

Terá drogas e natal. Tô pensando em duas coisas: uma personagem rebelde como a Paige Mahoney do The Bone Season e centrado na protagonista como parece ser o filme Wild com a Reese Witherspoon.

[8:30] Espera uns 10 minutos que tenho que fazer uma coisa aqui em casa… [8:42]

Por que mulher e com tanto destaque? Acho que já falei nisso, mas sempre é bom relembrar porque nem todo mundo leu e, a cada vez que a gente fala em alguma coisa, desenvolve as ideias.

Mulher ajuda a me distanciar da história um pouco já que, por mais feminino que eu possa ser, não sou mulher (duh!) e esse distanciamento me ajuda a se menos monotemático, a falar sobre realidades que não são a minha. Além disso as mulheres foram coadjuvantes nas artes (e na forma como são vistas pela nossa cultura) por muito tempo causando um desequilíbrio claramente ruim para quem é mulher, mas péssimo também para os homens e para o funcionamento da nossa civilização. Acho que é um pouco nossa responsabilidade (nossa me referindo a todos nós, humanos) fazer alguma coisa para compensar esse desequilíbrio.

Bem, uma aventura jovem. Vou colocar o jovem na faixa dos 19 anos agora.

Aventura… Já vou pensar nela.

Presente. Mas presente onde? Cidade grande? Periferia? Brasil? Outro país? Coreia? É chato, digo, delicado, fazer em outros países porque não conhecemos bem a cultura e pessoas de lá. Acabamos falando besteira. Será presente em uma cidade grande não identificada.

Como vai ter drogas fica mais fácil pensar em coisas realistas. Tenho a tendência de pensar em aventuras scifi ou de fantasia. Essa deve ser a dificuldade do conto de hoje, me manter realista.

Drogas… Natal… Aventura… [8:52]

Lembrei de um filme da década de 80. Uma Noite Alucinante? Era infantil. Uma babá com nus 16 anos que sai em uma aventura com as crianças pela cidade, nem lembro por quê. Tinha até um Thor no filme, o mecânico onde ela leva o carro. Pensei nisso porque me veio à mente uma jovem tendo que ajudar um amigo ou amiga envolvido com drogas.

Ah! Na noite de Natal! Ela vai se embolar por várias regiões de uma cidade grande para ajudar o amigo ou amiga passando mal por uma overdose ou talvez por ter se envolvido com uma milícia que lida com drogas.

Esse é o tipo de história que dá para começar a escrever por um ponto crítico, ela recebendo uma mensagem de voz por WhatsApp por exemplo, e partir daí num crescendo de ação deixando a imaginação trabalhar no momento seguinte mesmo sem ter planejado o final.

Tenho uma ideia de final não muito feliz, mas jamais… Jamais é exagero, mas não gosto de castigar o protagonista que se aventura dando-lhe um final ruim. A menos que a história se desenvolva de tal forma que me imponha isso.

O final que antevejo não é feliz e é meio adulto, mas jovens modernos se deparam com situações adultas. Todo dia quando corro de manhã por volta das 8h vejo jovens vestidos para festas a rigor andando pela praia depois de virar a noite provavelmente em festas de formatura. Sei que crianças com menos de 15 anos já se embebedam em festas e até escrevi um post há tempos com uma menina numa situação dessas… Hummm… Ela pode ser a protagonista… Depois coloco o link para ele aqui. Vou demorar a achar no meu blog.

Aliás vou começar com a mesma cena que começa nessa crônica!

São nove horas e dois minutos. Tenho que começar senão fica apertado no final!

O Hangout