Sobre o projeto

Esse ? o d?cimo quarto conto do projeto #UmS?badoUmConto (Post explicando o projeto)

Durante a semana as pessoas votam em estilo, g?nero, p?blico e ?poca. O autor (eu) s? pode saber o resultado ?s 8h de s?bado e tem at? meio dia para terminar o conto.

Cada conto ? escrito com um processo criativo diferente (veja no final).

O que voc? v? a seguir ? o conto com a m?nima revis?o. Voc? pode ler? sem revis?o no Google Docs.

Voc? pode votar no que devo escrever no pr?ximo aqui: http://bit.ly/1w5JcZT

Antes de ler vota a? no pr?ximo, t?? Por favor? ^o^

O Conto

“Droga! Vou perder o ?nibus! Vou me atrasar para o trabalho! N?o suporto o jeito como o chefe me olha quando chego atrasada, como se pensasse ‘Mulheres? Deve ter passado horas se arrumando'”

Joana tem 24 anos, mora no alto da Santa Clara em Copacabana, um bairro chique do Rio na d?cada de 80. N?o tanto quanto Ipanema ou Leblon onde moram os mais ricos, mas certamente um bairro nobre de uma das cidades mais invejadas do mundo.

Ela est? descendo a rua apressada em dire??o ? Nossa Senhora de Copacabana onde pegar? o ?nibus para o centro da cidade, rua Presidente Vargas. Ela ? secret?ria l? h? quase dois anos apesar de j? ter se formado em administra??o com uma excelente nota. S?o poucas as mulheres que conseguem se tornar executivas oficialmente, mas na pr?tica muitas secret?rias, com sal?rios de secret?rias, s?o as verdadeiras administradoras. ? algo com que ela tem que conviver. O mundo ? assim.

Joana nem percebe conscientemente que, ao passar diante da “Boca do Lobo” seu olhar se desvia para o t?nel de uns 50 metros, escuro e ainda amea?ador, que passa sob um pr?dio e leva ao Bairro Peixoto, um o?sis no meio de Copacabana. Um mendigo dorme l? como de costume.

Era ali no Bairro Peixoto que ela brincava h? 15 anos? Ela, o Guilherme, que agora ? seu namorado, e uma turminha de crian?as que tiveram a sorte de viver em um mundo melhor. Menos violento, menos ego?sta.

De vez em quando, quando est? voltando do trabalho para o apartamento onde mora sozinha desde que os pais morreram, ela atravessa a temida boca do lobo e caminha um pouco pelo Bairro Peixoto. Sobe at? o Pontinho, um boteco-restaurante quase saindo do bairro miniatura, e pede um refrigerante antes de seguir para casa.

Os pais lhe deixaram uma heran?a, mas n?o ? o suficiente para ela viver de renda. O seu trabalho ? importante para o seu futuro e Joana n?o ? mulher de viver dependendo de um marido? Principalmente porque o Guilherme certamente n?o ? o tipo de homem que vai sustentar facilmente uma fam?lia? Ele ? artista. Fot?grafo. Mas n?o quer trabalhar para jornais ou revistas. Ele sonha em capturar a vida com tamanha emo??o e realismo que possa vender suas fotos para grandes galerias.

Algu?m d? um encontr?o no seu ombro direito vindo correndo de tr?s dela.

“Merda! Minha bolsa!”

? claro que ela pensa que ? um assalto e agarra com for?a a bolsa, mas ela v? que a pessoa ? um senhor de uns 60 anos, cabelos bem brancos, que corre esbaforido, trope?a e cai no ch?o. Uma mancha vermelha escura come?a a se formar sob ele. Joana olha para tr?s assustada, mas ningu?m o est? seguindo.

Como um velho pode ter f?lego para correr tanto? E ferido? “Meu Deus! Ele est? ferido” Joana demora v?rios segundos para se conscientizar da situa??o. Corre at? o homem e se abaixa ao seu lado.

? Tudo bem, senhor, o senhor n?o est? sozinho! O socorro j? vem! SOCORRO! CHAMEM UMA AMBUL?NCIA ? Pessoas come?am a aparecer, uma acena da janela gritando que est? ligando, um homem vem correndo de um pr?dio com uma valise de m?dico em m?os.

Joana pousa a m?o levemente sobre o bra?o do velho para ele sentir que est? acompanhado. Ele est? ca?do de bru?os, o rosto transtornado, mas n?o parece dor, parece outra coisa? Medo? Frustra??o?

Com um grande esfor?o o desconhecido pega algo no bolso interno do casaco, olha para Joana e diz com uma voz surpreendentemente firme e grave?

? Guarde isso com voc? Joana. N?o deixe ningu?m ver!

? Como o senhor sabe meu nome? Eu o conhe?o? ? Estupefata Joana pega um tipo de couro do tamanho de uma folha de papel enrolado e amarrado com uma fita de sisal. Enfia na bolsa sem pensar enquanto olha para os lados para ver se algu?m notou, mas o m?dico que vinha correndo acaba de chegar, atento ao homem no ch?o, e todas as aten??es se voltaram para os dois. Aparentemente ningu?m notou ou n?o se importou.

? Por favor, mo?a, se afaste, ajude a afastar as pessoas, sim? Ele precisa de espa?o. ? O m?dico estava abrindo a camisa do velho revelando tr?s feridas equidistantes no peito, como tr?s golpes de espada, ou de uma grande garra, coisa imposs?vel no seio de Copacabana, ? claro.

O homem olha para Joana uma vez mais?

? Jovem, voc? deve ir! Siga o seu caminho! Eu ficarei bem! Obrigado ? Mas agora sua voz profunda j? dava sinais de fraqueza.

Joana d? tr?s passos para tr?s olhando ao redor. Ser? que antes ela a havia chamado de jovem e n?o de Joana? Ser? que seus ouvidos se confundiram pela emo??o? Ela decide seguir o conselho e segue, sem correr, para o ponto de ?nibus. Meio amortecida. O atraso j? era inevit?vel a essa altura.

? Al?, Guilherme? Preciso encontrar com voc? hoje de noite! Uma coisa muito estranha aconteceu? S? contando pessoalmente!

Joana est? no escrit?rio, num daqueles dias em que nada acontece. Aberto diante da mesa o peda?o de couro que o velho lhe entregou. Tem um mapa. Ele mostra claramente o Bairro Peixoto e uma seta aponta para a Boca do Lobo. Ao redor, em espiral, tem palavras escritas. A ?ltima termina bem do lado de fora da passagem que tanto mexeu com as fantasias da Joana e sua turma de inf?ncia.

Eram vinte e cinco palavras, todas dif?ceis de pronunciar como Castrastvosh, Shuliemportast e Bumlurdunclum. S? a ?ltima era normal: entre.

Aos 24 anos ainda n?o somos totalmente adultos, ainda n?o deixamos de acreditar totalmente na fantasia? Sim, tem gente que acredita para sempre, mas de um jeito adulto que ? estranho e nada saud?vel, ? um tipo de fantasia que tantas partes de n?s sabem que ? falsa que acaba se transformando em um tipo de del?rio. Aos 24 n?o? Ainda somos capazes de acreditar de verdade!

Foi o que aconteceu com Joana e Guilherme. Parados de noite na Santa Clara diante da Boca do Lobo.

Apesar de escuro dava para ver que entre as picha??es dentro do t?nel estavam v?rias das palavras do peda?o de couro.

Guilherme estava intrigad?ssimo! Perguntava como quem afirma se que aquilo n?o podia ser uma brincadeira, o homem estava seriamente ferido, n?o ?? Joana ficava parada diante da passagem olhando hora para dentro, hora para o mapa com as palavras, mas internamente ela estava no meio de um tornado.

? ? rid?culo, mas temos que ver se alguma coisa acontece, Guilherme. Vem. Vamos ler as palavras.

E eles leem. Juntos. Em voz alta.

Pouca gente anda naquela regi?o depois das 9h da noite, mas uma pessoa ou outra passa olhando para os dois quase adultos falando palavras estranhas.

? Entre?. Agora a gente entra, ? isso Joana?

Aparentemente nada aconteceu. A Boca do Lobo ? a mesma de sempre, a pra?a e a banca de jornal do outro lado s?o as mesmas de sempre, mas os dois atravessam o t?nel escuro e pichado.

Do outro lado ? mais claro, o espa?o ? mais aberto e a Lua consegue iluminar muito melhor, ao contr?rio do que acontece no estreito corredor de pr?dios da Santa Clara. Isso d? um clima diferente, mas pode ser apenas a nostalgia dos dois.

? J? Nosso primeiro beijo foi ali na pra?a numa noite assim, lembra?

? Claro que lembro, seu bobo! Voc? tremia e gaguejava e eu te beijei antes que voc? desmontasse inteiro que nem um jogo de lego! O mundo era bem melhor? Gui!!! GUI!!! Olha do lado da fonte!!

Ela soca o bra?o dele apontando na dire??o. O queixo dele cai imediatamente e ele come?a a esfregar os olhos para focar melhor a vis?o. N?o tem nada errado com ela? S?o eles dois, ainda com seus 12 anos dando o primeiro beijo. N?o ? um casal de crian?as parecidas com eles. A luz generosa da Lua n?o deixa d?vidas.

? Mas? Somos n?s, ok, J?, n?o tenho d?vidas disso, mas o resto est? errado! N?o era assim na nossa inf?ncia! Olha ali perto da Anita Garibaldi? N?o s?o duas pessoas negociando drogas? Olha ali aquele outro casal mais velho. O cara est? sendo rude com a mulher de um jeito que s? hoje a gente v?.

? Gui? Meus pais est?o vivos! Eles devem estar vivos!! Nessa noite eles n?o estavam na casa dos seus pais jogando buraco?

Os dois correm o mais discretamente poss?vel subindo a Maestro Francisco Braga. Os pais do Guilherme moravam num apartamento no primeiro andar, desses que s?o quase no n?vel da rua.

Realmente l? estavam os quatro? Mas a distor??o tamb?m ocorria ali? Eles n?o eram os adultos s?rios e est?veis de que os dois lembravam. Pareciam pessoas modernas. Vivendo um relacionamento falso, tanto entre eles quanto com os amigos. Dava para notar no tom de voz, nos olhares que trocavam. Estava claro que uma parte de cada um deles n?o gostava dos amigos.

? Cara? Isso n?o pode ser verdade, Gui! Acho que a gente est? no Inferno? Quero ir embora? N?o! N?o quero! A gente tem que entender o que ? isso!

L?grimas correm dos olhos de Joana. Em sua mem?ria o pai e a m?e eram perfeito amor e agora ela via uma mulher submissa e um homem cansado dentro da casa dos amigos.

Para Guilherme era mais f?cil. Os pais estavam vivos e ele viu como eles foram ficando cada vez mais velhos? Talvez sempre tenham sido assim e era ele que n?o percebia, mas achou melhor n?o falar nada com a Joana.

Eles decidem fazer a volta passando pela D?cio Vilares e notam que existe um tipo de fronteira, ? quase impercept?vel, como um tipo de desfocado bem onde termina o Bairro Peixoto e come?aria o mundo normal. Tem aves voando, mas aves n?o voam a essa hora da noite? ? uma ou outra apenas, passam como sombras do tamanho de gaivotas voando baixo ou algo muito grande voando alto.

O Pontinho est? povoado de pessoas do passado, n?o que as conhe?am, mas se comportam diferente, se vestem diferente, mas n?o s?o como eles as percebiam quando tinham 12 anos.

? Guilherme? Tenho medo disso n?o ser o Inferno? Ser? que era assim e a gente n?o via?

? Meu amor? Eu n?o sei? Mas quero que seja um passado alternativo ou o Inferno ou ent?o minha inf?ncia ? que ter? sido um para?so ilus?rio no meio de um Inferno muito real.

? E se a gente tentar falar com algu?m? Ser? que a gente? Gui!! ? o homem!!! O que eu vi morrer ou ficar muito ferido hoje, sei l?! Ali no Pontinho! Temos que tentar falar com ele!

Os dois v?o se aproximando, o homem est? chegando, j? b?bado e? trocando as pernas, as pessoas olham reprovadoras para ele.

Quando eles est?o prestes a entrar no bar uma pessoa os atravessa entrando. Literalmente atravessa! Eles est?o intang?veis e certamente invis?veis! O ?nico sinal que a pessoa d? ? um arrepio e uma r?pida olhada inconsciente para tr?s.

? Que coisa assustadora!!! A gente ? como fantasmas aqui!! Ser? que sempre nos arrepiamos ? por isso? Pessoas de outras dimens?es ou outros tempos passando por n?s? ? Guilherme se arrepia se abra?ando com os pr?prios bra?os

? Mas a gente n?o veio parar aqui ? toa? Temos que fazer alguma coisa Gui! Voc? ? o artista! Tenha uma ideia!!! R?pido!!

? Porque o artista ? que tem que ter a ideia? N?o entendi!! ? Ele ri achando realmente engra?ado. Joana franze a testa, mas seus olhos est?o sorrindo.

? Sei l?, cara! Artista ? que v? outros mundos, n?o ?? Ah! Sei l?, seu bobo!! S? sei que deve ter algo que a gente possa? fazer? para? Ser? que conseguimos nos comunicar com n?s mesmos? Voc? lembra de ter conversado com algu?m naquele dia?

? S? lembro dos seus l?bios J? E de ficar muito tonto enquanto te beijava?

Joana olha para ele com aquele olhar divertido de mulher mais madura que acha gra?a do menino apaixonado. Tinha horas que ela achava que ela era o homem da rela??o. Mais madura, mais s?ria? No entanto talvez a humanidade sempre tenha sido assim. Talvez essa expectativa seja apenas mais uma besteira da nossa sociedade que acha que gente bonita tem que ser burra, homem tem que ser bruto, mulher tem que ser fr?gil?

Os dois correm para a Maestro Francisco Braga para interceptar eles mesmos e se encontram caminhando juntos, de m?os dadas, voltando para casa.

Quando est?o h? pouco mais de 50 metros suas vers?es infantis soltam as m?os. Est?o sem gra?a de serem vistos! Ent?o eles podem v?-los!!

? Ol? crian?as! ? Guilherme toma a iniciativa ? Voc?s podem nos fazer um favor? Meu pai est? l? no Pontinho. ? um senhor de cabelo branco, camisa branca listrada de azul, uma cal?a social e sapatos de couro marrom sem cadar?o. Ele est? sentado na terceira mesa colada na varanda dos fundos para a frente. Voc?s podem pedir para ele se encontrar comigo na boca do lobo?

? Claro, senhor! A gente avisa! ? ? a Joana crian?a que responde. O Guilherme crian?a est? com uma cara abobalhada de esquilo que foi pego roubando bolo da janela.

Eles observam suas vers?es infantis seguirem o caminho.

? Voc? ? maluco, n? Gui? E se eles lembrarem disso e? Quer dizer? Eu n?o lembro disso? Aff!! O meu medo ? a gente mudar o futuro!

? Tamb?m t? com medo, J?. E n?o fa?o ideia do que faremos agora! O homem n?o vai nos ver, mas talvez a gente possa deixar o mapa de couro no ch?o para ele achar? Ainda temos que ir embora daqui de algum jeito, n?? J? pensou nisso? Espero que baste passar de volta pela Boca do Lobo?

? Viu? Eu disse que artista entende dessas coisas! Voc?s j? s?o naturalmente malucos ;)

Conforme eles v?o se aproximando da Boca do Lobo v?o sentindo que tem alguma coisa diferente. Um frio antinatural vem subindo pela rua. Quando chegam mais perto percebem que ? como se a escurid?o estivesse vazando do t?nel. Mal d? para ver a banca de jornal… Ent?o eles escutam o rosnado? E o som de algo como uma marreta batendo no ch?o.

Eles est?o agarrados um ao outro sem saber o que falar. O medo sobe pela coluna deles, mas os dois sentem que aquela ? a ?nica sa?da e, quem sabe, o velho ter? alguma pista para eles? Talvez ali, perto da Boca do Lobo, eles possam se ver?

? J? Presta aten??o na escurid?o do t?nel? Tem coisas se mexendo l? Ser? que, se dissermos as palavras ao contr?rio a gente?

? N?o!!! Elas terminam em “entre”. Tenho medo da gente fechar a porta e ficar preso aqui! Deve ter outro para sair!

? N?o? N?o tem? ? a voz ? mole, totalmente embriagada, mas ? a mesma profunda e forte que a Joana ouviu mais cedo.

Os dois olham para tr?s e l? est? o senhor balan?ando de um lado para o outro.

? J? chei que voch?s ixt?o mi con? condenando pela bebedeira? Poix eche ? o milhor jeito di enxerga ash coixas, as coiSas. Todo mundo chabe que algu?m abriu uma pachagem, passagem? Bem, pelo menos? Pera?

O homem tira umas folhas do bolso do casaco, coloca na boca e mastiga fazendo uma cara de quem est? mastigando lim?o.

? Melhor assim? T?o perto da passagem eu j? n?o preciso estar b?bado para v?-los? Tem outras formas, mas eu n?o sou um mago, sou apenas um homem comum? Eu conhe?o voc?s? Certamente nenhum dos dois ? meu filho ou filha?

? A Joana conhece o senhor…

Joana crava as unhas no bra?o do Guilherme e o interrompe antes que ele fale que ela o viu morrer ou quase isso.

? Senhor? Eu n?o entendo bem ? Come?a ela ? Mas um dia o senhor me entregar? isso ? e passa o peda?o de couro para ele? Tem marcas de sangue ainda meio fresco ? que foi o que usamos para chegar aqui.

As sombras continuam se espalhando para fora da Boca do Lobo e um tipo de ave sai de l?, uma criatura com quase 4 metros de envergadura, patas com tr?s garras afiadas e um bico maior do que um punho fechado. Ela al?a voo direto para o alto buscando com seus olhos aquilinos por um alvo.

? Voc?s dois! Se abaixem! Ela quer o pergaminho de couro! Ela vai me seguir, todos eles v?o me seguir! Contem at? quatro e venham atr?s de mim!!

A Joana o segura antes que ele saia correndo e grita “N?O”. Ela percebe que teve que gritar porque agora os ru?dos que saem da Boca do Lobo s?o ruidosos como uma grande cachoeira.

Ela procura nervosamente por papel e caneta na bolsa e joga no peito do Gulherme?

? O Senhor precisa levar isso!! ? E virando para o namorado ? Gui, coloca meu nome e telefone a?!

O homem tenta se desvencilhar das m?os da Joana que come?a a chorar, n?o, o senhor precisa levar isso.

? N?o h? tempo menina!! Mais deles v?o sair e a? nem a atra??o do mapa vai impedi-los de romper a v?u para sempre!

Ela v? o Guilherme colocar o papel nervosamente no bolso da cal?a do homem e o solta. Ele dispara em dire??o ?s sombras t?o densas que parecem um tipo de l?quido e desaparece.

? como se ele tivesse aberto um ralo no fundo de um tanque? As sombras come?aram a voltar para a Boca do Lobo formando turbilh?es e um buraco, como o olho de um furac?o, bem no meio das sombras.

? Dois? tr?s? quatro? Vamos?

O olho se torna cada vez mais largo e fundo, mas ainda n?o d? para ver o outro lado da Boca do Lobo, entretanto eles mergulham l? assim mesmo.

Ao redor, passando pelas sombras como grandes baleias em um oceano, eles enxergam silhuetas assustadoras. Por v?rias vezes garras enormes ou m?os compridas com unhas negras se projetam em dire??o a eles, mas sem alcan??-los. As sombras j? se fecharam atr?s deles, mas ainda n?o se abriram ? frente? Eles sentem as pernas fraquejarem, s?o pouco mais de 50 metros, mas parecem centenas? E se as sombras n?o se abrirem do outro lado?

Eles se for?am a correr e v?o de aproximando da parede de sombra ? frente quando percebem um pequeno buraco bem no meio que vai aumentando at? perceberem que ? a Santa Clara, mas ele ainda ? estreito demais e eles precisam pular atravessando as sombras.

A sensa??o de tocar as sombras ? terr?vel! Um medo profundo toma conta deles! As roupas ficam rasgadas, mas por sorte nenhum dos dois foi ferido.

Olhando para tr?s eles percebem que as sombras agora parecem apenas uma leve n?voa.

Os dois correm para a casa da Joana, encontram a secret?ria eletr?nica com v?rios recados. ? o hospital “Boa tarde, estamos com o senhor Jorge Ferreira internado aqui. Ele passa bem e poder? ser visitado das 8h at? as 17h diariamente”

Os dois ligam a TV para saber que dia ? e concluem que devem ter passado pouco mais de dois minutos onde quer que tenham estado.

Eles decidem ir at? o hospital mesmo fora do hor?rio de visita… Tem que ter como dar um jeitinho!

Realmente com algum papo e uma propina leve eles conseguem encontrar com o homem.

? Ent?o voc?s conseguiram sair! Que bom!! Que bom!! Imagino que voc?s tenham v?rias d?vidas? Lamento que tenham sido envolvidos nisso? Aquela porta estava fr?gil havia anos? Um mago poderia abri-la ou fech?-la, mas uma pessoa comum como eu, que n?o consegue sonhar, s? pode testemunhar as coisas. As crian?as, quase todas, s?o magos em potencial e percebem coisas como a passagem da Boca do Lobo.

? N?o entendo sr. Jorge? Como o senhor pode ter nos entregado o pergaminho que n?s entregamos para o senhor?

? Ʌ O pergaminho est? perdido agora? Preso naquele paradoxo. ? assim que o mundo funciona quando a gente n?o est? olhando ou quando ? olhado por outros olhos? Mas tenho uma advert?ncia para voc?s?. O pergaminho n?o abre portas, ele abre mentes? Se eu lesse nada aconteceria, mas voc?s s?o sonhadores? Voc?s agora podem abrir e fechar portas. Agora entendo porque fui mandado para l? h? 12 anos? Para lhes dar esse recado? Na verdade esse ? outro paradoxo pois essa ? a ?ltima vez que vou v?-los, mas voc?s ainda me encontrar?o novamente…

Fim?

Observa??es

A cada conto a gente aprimora alguma coisa.

Dessa vez acho que a descri??o do processo criativo ficou melhor (est? a seguir), mas acabei ficando com pouco tempo para desenvolver o conto que pedia mais desenvolvimento dos personagens e um desenrolar muito mais fluido.

Acabei n?o conseguindo introduzir a aventura no come?o e acabou ficando um conto de suspense com um toque de terror.

A solu??o ? simples: ao atravessar a Boca do Lobo eles j? percebem criaturas passando junto com eles for?ando-os a explorar o lugar? enquanto fogem das criaturas das sombras.

Como esse projeto tem limita??es (s? sei o que vou escrever na hora e tenho 4h para a cria??o inteira) fica dif?cil mudar o rumo no meio do processo.

Mas como a press?o ? muito legal eu n?o pretendo mudar isso t?o cedo.

Tenho outras ideias, mas a? ser?o outros projetos. Depois falo neles ;)

Eu n?o gostei da forma como coloquei os questionamentos deles sobre as diferen?as entre o passado e o presente. Ficou bruto. Acho que a ideia foi passada, mas ficaria muito melhor se fosse mais sutil.

O processo criativo

Me comprometi a usar uma estrat?gia em cada conto enquanto desse, mas, das 14, s? falta um (depois dele terei novidades para essa parte!):

  1. Retalho de outros autores / hist?rias. ? pregui?osa tamb?m e fica com cara de pl?gio apesar de ser comum (as hist?rias mitol?gicas por exemplo)

Ops! 10 minutos atrasado!! Vamos ver o que escreverei hoje!

Aventura deu de lavada nos outros! Al?m disso ser? uma fantasia jovem no passado!

O pessoal foi bonzinho comigo ;-) Como bom f? de fantasia ser? mais f?cil colher um retalho de outras hist?rias assim!

? interessante como a nossa mente funciona, n?? Nesse exato momento s? lembro de Senhor dos An?is? S? aos poucos vou lembrando de outras hist?rias de fantasia como Fronteiras do Universo, The Bone Season (que estou lendo), A S?rie Cor da Magia do Terry Pratchett, agora lembrei de Harry Potter e a? um caldo de ideias zanzam pela cabe?a sem que eu me lembre dos nomes?

Ia come?ar comentando que tive um sonho essa ?noite pois sonhos influenciam a nossa criatividade? Pode ter a ver com a s?rei Arrow que estou assistindo por causa da Vivi Maurey (e at? que ela vai ficando interessante do meio da primeira temporada em diante). No sonho havia essa empresa que era um pr?dio t?rreo e extenso, mas na verdade se tratava de uma faxada para uma organiza??o secreta. A entrada era pulando de uma passarela em cima de um gramado que, na verdade, era uma ilus?o de ?tica que escondia um buraco. Uma coisa meio a entrada da Aud?cia em Divergente.

Bem.. Dito isso vamos pensar em mais alguns universos de fantasia? Tem, claro os de terror como Dr?cula e Lobisomem que podem ser enquadrados em fantasia dependendo de como pensamos em suas origens. Lembrei agora? Lembrei e esqueci! Acontece quando a gente deixa a cabe?a aberta para todas as imagens passarem diante dela, mas d? raiva! A ideia era boa! Talvez n?o para jovem, mas era boa? Vou tenta lembrar? [8h20] ?[8h21] N?o t? vindo, n?o adianta pensar muito quando a coisa corre de novo para o inconsciente e lembrei das Cr?nicas de Spiderwick que n?o li, s? vi o filme, mas tem um universo de fantasia bem interessante. Tamb?m temos Ponte para Therab?tia que ? um outro tipo de fantasia que indico para todo adolescente que gosta de ler! D? para usar a ideia para leitores um pouco mais velhos, mas se eu usar isso terei feito um grande spoiler agora, n??

Vamos pensar um pouco nos outros dois pontos, esse ? um erro que tenho cometido nos outros contos: penso s? no estilo ou no g?nero e at? esque?o das outras coisas (j? fiz conto no futuro quando devia ter sido no presente!!).

Uma aventura? Um erro que acho que muito autor comete (principalmente roteiristas) ? achar que aventura ? uma sequ?ncia de cenas de a??o. Toda e qualquer boa hist?ria deve ter algo a contar. Aventuras s?o boas para falar em auto-confian?a, em supera??o de limites que nos impomos ou s?o impostos a n?s, mas tamb?m podem ser sobre fidelidade ou auto-sacrif?cio.

Ali?s andei vendo que tem gente que confunde o auto-sacrif?cio com um tipo de auto-desvaloriza??o, como se fosse at? uma forma de suic?dio, de desvaloriza??o da vida. Isso n?o poderia estar mais errado! N?o ? auto-sacrif?cio se for assim. O auto-sacrif?cio (nossa, quanta repeti??o!!!) ? justamente colocar a pr?pria vida ou bem estar em perigo por super-valorizar a vida, n?o s? a pr?pria, mas a dos outros tamb?m.

Temos ent?o uma aventura jovem? Quais s?o as quest?es mais importantes para os jovens?

Vemos muitas hist?rias que falam do ego?smo e do egocentrismo dessa galera. Isso est? nas principais distopias que tem feito sucesso ultimamente, j? percebeu? S? que tenho minhas d?vidas? Talvez esse ego?smo seja uma coisa que incomoda mais os adultos que os jovens. N?o os vejo t?o ego?stas assim? Pelo contr?rio! Eles acham que os colegas s?o ego?stas porque est?o inseridos em uma cultura ego?sta e se incomodam com isso, o ego?smo salta aos olhos porque incomoda. Basta ver que s?o os jovens em geral que se mobilizam para protestar a favor do bem comum, s?o eles que saem em miss?o pelo mundo para alimentar os outros ou curar quem precisa de m?dicos. Jovens aqui pegando o pessoal at? os vinte e poucos, claro.

Apesar de uma aventura jovem sobre auto-sacrif?cio, ego?smo, fraternidade ser meio lugar comum acho que a quest?o ? importante. Vivemos um momento em que precisamos seguir para o lado oposto: temos que aprender a nos colocar no lugar dos outros empaticamente, vendo e sentindo o mundo como eles.

Ser no passado ? bom porque a gente idealiza tanto o passado, achamos sempre que ele foi melhor que o presente.

Desconfio que isso acontece porque chamamos de passado o tempo da nossa inf?ncia? N?o era o passado que era melhor, eram nossa forma de ver o mundo.

Pronto? A hist?ria est? surgindo na minha cabe?a? Dois grupos de jovens? Um teve uma inf?ncia dif?cil no passado o outro teve aquele tipo de inf?ncia que nos deixa nost?lgico ao lembrar dos anos que j? se foram. Os dois grupos est?o jovens agora, mas agora ? na d?cada de? 80. Uma d?cada que quase todo mundo acha melhor que agora. Desse jeito pego os anos 60, os 80 e agora pois quem l?, obviamente, est? lendo em 2014 hahaha! Pelo menos nesse momento. Em uns 10 ou anos a leitura talvez seja outra.

A Ilha do Dr. Moreau? Isso ? scifi ou fantasia? Lembrei dela agora, mas j? ? meio tarde porque, para facilitar a cria??o j? que vi que o conto deve ficar meio extenso, estou pensando em ambient?-lo em cen?rios da minha inf?ncia em Copacabana, no Bairro Peixoto.

Ah! Tem isso! Um universo de fantasia em que trabalho literalmente h? d?cadas em que os “miolos” de quarteir?es podem conter pequenas florestas que s?o pontos de conex?o para mundos m?gicos, ou melhor, para a Terra m?gica sem as marcas da civiliza??o, um lugar com magos, bruxas e drag?es.

J? tenho boa parte dos elementos para come?ar, mas ainda falta a fantasia? No meio do Bairro Peixoto tem uma pra?a? Tem tamb?m a Boca do Lobo! Isso serve bem! ? uma passagem sob um pr?dio que leva para fora do Bairro Peixoto ligando-o ? Santa Clara. Em nossa inf?ncia a gente tinha pavor dela! N?o atravess?vamos porque t?nhamos medo de assalto (comuns na d?cada de 70) e tamb?m de coisas sobrenaturais pois ele era escuro apesar de ser curto, uns 50 metros acho. Ele pode ser um tipo de portal em certas circunst?ncias para essa hist?ria. ? um bom elemento de fantasia? Humm? Pode nos levar a algo que parece a inf?ncia dos protagonistas, mas talvez n?o seja?

Acho que vou tratar justamente da nossa percep??o dos tempos de crian?a. Ser? que, se voc? voltasse agora para a sua inf?ncia sem rejuvenecer e olhasse o mundo o acharia melhor que ? hoje? Ser? que admitiria que ? o mesmo mundo ou pensaria que entrou em um tipo de dimens?o maligna que parece seu passado, mas n?o ?? Isso ali?s me lembra de Coraline do Neil Gaiman! Vou usar esse retalho com certeza!

Recapitulando? Aventura de fantasia jovem no passado. Vou fazer em dois passados ent?o: d?cada de 80 e de 60. Os retalhos de outras hist?rias que usarei para inspirar o conto ser?o Ponte Para Therab?tia, Coraline e meu pr?prio universo de “miolos” de quarteir?es ;-) Esse ?ltimo ? um pouco de roubo, n?? Pera? Lembrei de Pierce Jackson e o uso de mitologia? Lembrei tamb?m do Legado Folcl?rico do Felipe Castilho? N?o d? para colocar coisa demais tamb?m porque fica? ruim. Mas vou fazer um mix desses dois com as Cr?nicas de Spiderwick.

Como fa?o para misturar essas hist?rias todas no conto? Na verdade n?o ? um processo cir?rgico, eu simplesmente as terei em mente enquanto escrevo, repensei nas hist?rias, nos pontos que mais lembro delas. S? vou dar mais aten??o mesmo ? para os tr?s primeiros: Coraline, Therab?tia e meus “miolos”.

[8h55] pausa para comer alguma coisa e deixar a imagina??o digerir essa ideia, afinal ainda n?o estabeleci o argumento, a aventura em si e terei que tomar cuidado para n?o resvalar para o infantil j? que vou pegar tamb?m essa ?poca [9h17]

Ih! Sentei para escrever o que pensei enquanto tomava caf? e lembrei que nem olhei as sugest?es!!! S? tem uma! E vou fazer! Ufa!! Pediram Realidade Alternativa e vai ter a ver com isso!!

Tamb?m teve uma pessoa vindo do canal do Youtube! Que legal!!

Bem, tenho que correr porque me atrasei 10 minuots e faz diferen?a! Enquanto tomava caf? decidi que a protagonista ser? a Joana, 24 anos, est? h? dois no seu primeiro emprego. ? o come?o da d?cada de 80. Ela mora na Santa Clara e passa em frente ? Boca do Lobo quando vai para o trabalho e entra por ela no Bairro Peixoto de vez em quando por pura nostalgia pois ? onde ela brincava com os amigos quando tinha l? seus 10 anos.

Ela namora o Guilherme que ? amigo de inf?ncia.

Sei que a aventura envolve voltar ao passado para impedir que algo aconte?a no presente? Quando foi a Rio Eco? 1992. N?o serve. Ainda preciso decidir qual ? o evento que dar? in?cio ? aventura?

[9h26]

T? ai? A gente sempre pensa em coisas grandes, em tramas onde os protagonistas precisam salvar o mundo. Isso ? bom por um lado, mas e a import?ncia das coisas singelas? J? sei qual ser? o gatilho da aventura! Mas vou deixar vcs descobrirem no conto!

Hangout