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O Conto

? Jess?, sente a? e prepare-se para encarar o calor do Hell de Janeiro. Vou te mandar para fazer uma mat?ria l? na Barra da Tijuca.

Jess? ? jornalista h? dez anos, sete deles nesse mesmo jornal, pouco expressivo, mas est?vel por fazer parte de um grande grupo de m?dia. O chefe ? um sacana, mas ? boa pra?a, eles j? beberam juntos muitas vezes. ? aquele tipo de reda??o onde a hierarquia n?o ? pesada ainda que esteja presente. Jess? n?o fica irritado com a designa??o, pode at? ser bom esticar as pernas.

? Beleza, vou l? derreter ent?o, F?bio. Fazer o qu?? Qual ? a pauta? Segrega??o social de novo? Pegar o pessoal reclamando da invas?o de pobres na praia deles? Ou o contr?rio, quer que eu me enfie no meio do arrast?o para perguntar ao pov?o como ? se sentir discriminado pelos moradores locais?

? Bem mais interessante! Agora vamos virar um tabloide sensacionalista, bem, pelo menos a sua mat?ria vai ser uma experi?ncia nesse sentido. As pessoas est?o gostando dessas tolices de sobrenatural de novo, os cinemas est?o cheios de filmes de B?blia, j? viu? Temos que ver se esse grupo tamb?m l? nosso jornal e esse ser? um bom teste.

? E como eu vou fazer para achar discos voadores ou dem?nios voando pela Barra da Tijuca? Eu at? acredito em Deus e tudo mais, s? que, na real, n?s dois sabemos que nada estranho acontece de verdade.

? Por isso quero voc? l?, sei que n?o vai fazer uma mat?ria tendenciosa, Jess?, mas, veja bem, fiquei sabendo de fonte interna que tem umas coisas esquisitas acontecendo na altura daquele condom?nio ao lado do condom?nio da Marisa, da contabilidade, voc? sabe, n??

Marisa e Jess? tinham se embolado em um caso s?rdido havia uns tr?s anos, agora ela estava casada e j? com um filho de um ano? Ele ainda tinha saudades do jeito que ela se agarra aos prazeres da vida mergulhando profundamente neles.

? Foi ela que deu essas informa??es? N?o ? do jeito dela ver coisas sobrenaturais?

? N?o. Foi a pol?cia? Voc? talvez esbarre por l? com um investigador que ? meu primo. Ningu?m pode saber que ele abriu o bico para mim, ok? Faz de conta que voc? est? fazendo uma dessas mat?rias a? que voc? falou, mas o caso ? que tem gente sumindo por l?, tem uma quantidade estranha de pessoas com deforma??es f?sicas e j? acharam tr?s corpos que morreram estranhamente. N?o tenho os detalhes, s? sei que foi isso que deu um alerta para a pol?cia.

? Pera a?, F?bio! T? t? me mandando para ver um lance que tem gente morrendo misteriosamente? Qual ??

? Desde quando voc? virou franguinho? As circunst?ncias estranhas devem ser “comeu peixe contaminado da droga do rio cheio de metais pesados despejados pelo esgoto mal tratado e emiss?es de f?bricas” ou coisa assim. A pol?cia vai investigar, pegar a propina de algu?m e caso encerrado.

? Hummm? Sei? Num sei n?o, viu? Eu n?o tenho o menor interesse em ganhar um Pulitzer p?stumo. Se eu n?o entrar em contato de hora em hora fa?a o favor de mandar um carro funer?rio me pegar.

Os dois caem na gargalhada, aquela de quem decide descartar seus piores temores reconhecendo que s?o fantasiosos ou infantis.


Jess? vai de ?nibus e salta mais ou menos a um quil?metro do condom?nio onde os tipos estranhos aparecem. Ele n?o sabe onde os corpos foram achados, mas aposta que foi em algum dos terrenos baldios da regi?o, ou talvez mais para os lados da vila do Pan, onde as ruas afundam mais de tr?s metros em apenas mais um esc?ndalo de obras p?blicas. Tem at? um jacar? por l? que poderia ter dado cabo de alguns corpos?

O plano ? ir andando e sentindo o ambiente, conversando com as figuras que achar no caminho.

Barra da Tijuca? O bairro das numera??es estranhas? Na Av. das Am?ricas os n?meros v?o e vem, de 1000 volta para 700 e depois pula para 1400, ou coisa assim, Jess? nunca se lembra.

Poucas pessoas caminham entre os condom?nios, tudo se faz de carro ou de ?nibus, mas, aqui ou ali, ele encontra um mendigo, tr?s homens lan?ando um tarrafo atr?s de peixes nas margens do lago ou de um rio que mais parece um c?rrego.

Ele pensa como seria f?cil puxar algu?m para dentro do terreno baldio ali e ter uma hora de tranquilidade para fazer o que quiser. Dificilmente algu?m veria e se visse e avisasse ? pol?cia certamente ela n?o atenderia pois h? coisas muito mais s?rias acontecendo pela cidade al?m de? Bom, a pol?cia j? anda preocupada demais com os esc?ndalos envolvendo suas pr?prias atividades.

? Opa, companheiro! ? O homem que vem em dire??o a Jess? se apoia em muletas, as roupas esfarrapadas, os p?s descal?os encardidos e com a pele ressecada ? Sou jornalista e estou fazendo uma mat?ria sobre como est? a vida nas ruas por aqui.

O mendigo segue em frente sem olhar para ele, parece imerso em um mundo longe dali.

? Senhor? Me chamo Jess?, sou jornalista, posso falar um minuto? Eu te acompanho, o senhor nem precisa parar.

? Jess? O presente de Deus? Isso aqui n?o ? terra para gente de Deus, menino.

Menino? Est? certo que aos 35 anos ainda temos cara de novinhos, mas menino ? um pouco de exagero, mas se o mendigo quer fazer o velho s?bio tudo bem por ele.

? Principalmente com esse calor? N?o t? para ningu?m, n?? O senhor costuma ficar por aqui?

? T? picando a mula garoto, antes do sol cair estarei bem longe daqui. Prefiro o cassetete da pol?cia na pra?a Mau? do que esse lugar abandonado por Deus. Ando devagar, mas ando sempre.

? Desculpe, senhor, mas aconteceu alguma coisa? Olha, toma dez reais, para o ?nibus e um pouco d’?gua, t? muito quente.

O velho para por alguns segundos, puxa a nota, coloca num bolso pu?do, mas n?o rasgado, seus olhos fundos emoldurados por rugas que formam vales no rosto castigado pelo sol e pela vida encaram Jess? com um tipo de f?ria.

? T? n?o quer saber? T? n?o quer saber? N?o vai acreditar em mim, ent?o segue em frente at? o port?o verde e grande, vai ter algum infeliz jogado no ch?o perto dele. ? l? que voc? precisa entrar, ? com as pessoas de l? que voc? precisa conversar.

Depois o homem se vira e segue seu caminho.

Jess? olha ao redor para ver se ? seguro, saca o celular e manda um whatsapp para seu chefe: “Tudo bem at? aqui. Encontrei mendigo velho que disse que as pessoas do condom?nio s?o estranhas, t? indo para l?”.

O resto da caminhada ? exaustivo, como aquele velho pretende atravessar boa parte da Barra, S?o Conrado, Lagoa, Humait? At? chegar ao centro? A vida desses vagamundos ainda d? assunto para muitos artigos? Vagamundo? Foi num livro que Jess? viu esse termo pela primeira e ?ltima vez, talvez nem exista no dicion?rio.

“Cheguei no condom?nio, F?bio. Quanto mais perto dele, mais mendigos a gente encontra. Algu?m aqui deve dar comida para eles. Vou ver”.

Jess? s? decide abordar algu?m novamente ao encontrar um grupo de tr?s ou quatro. As pessoas tendem a falar mais em grupo tanto por se sentirem seguras, quanto para se mostrar para os outros.

A uns 200 metros do condom?nio ele v? uns quatro homens jovens no canteiro central, certamente dividindo o fruto dos ganhos il?citos do dia, ningu?m incomoda quem est? no canteiro central pois os carros passam ligeiros ao redor, mas ? ent?o que Jess? percebe que um deles n?o tem uma perna, o outro n?o tem um bra?o, o terceiro n?o parece ter orelhas e o quarto? O que tem de estranho nos olhos dele? Jess? decide arriscar. Duplamente? Ser assaltado e ser atropelado. Atravessa correndo a via expressa e vem se aproximando cautelosamente dos homens chamando a aten??o deles ainda a uns 15 metros para ter condi??es de fugir ainda que apenas o sem orelhas possa ser uma amea?a real para ele.

? Ol?! T? de boa!! T? de boa! Sou jornalista! S? quero perguntar sobre o que t? rolando por aqui, valeu?

Os quatro se apertam uns contra os outros, esse definitivamente n?o ? o comportamento comum desse pessoal? Ali?s, qual ? o comportamento comum desse pessoal? Jess? nunca tinha entrevistado moradores de rua, nunca tinha prestado aten??o a eles por mais de cinco segundos. Levanta os bra?os, para a uns oito metros do grupo e come?a a falar.

? Vim caminhando e notei que tem mais gente aqui do que na Cinel?ndia na hora de fechar os restaurantes ? Isso ele tinha percebido: que muitos moradores de rua pegam os restos dos restaurantes ou supermercados ? e com esse calor da porra!

Os quatro apenas o encaram. O sem bra?o apoia o sem perna, o sem orelhas parece ser seus l?bios e o quarto volta para ele um par de olhos vermelhos, muito espremidos, a luz deve ser muito desagrad?vel para ele.

? Olha, tenho quarenta pratas aqui ? e tira do bolso cinco notas de dez reais previamente separadas para n?o encher os olhos de ningu?m ? Eu s? queria perguntar se voc?s sabem de alguma coisa esquisita rolando nessa regi?o.

? Olha mo?o? ? A voz ? de uma beleza e suavidade que hipnotizam Jess?, ele nunca imaginou que uma figura sem orelhas teria uma voz t?o l?mpida e clara ? Trouxeram a gente para c?. Uma combi passava escolhendo s? quem tinha algum problema f?sico e trazia para c?. A gente fica porque a combi tamb?m passa com comida e ?gua duas vezes por dia. S? que? ? O de olhos vermelhos e apertados o cutuca com for?a ? Dane-se Samuel, vou falar, algu?m tem que falar. ? que uma vez por m?s a combi tr?s mais gente, mas o n?mero de pessoas n?o passa de uns trinta.? A gente fica junto para n?o sumir. E tem de noite? Os sonhos? O Samuel v? anjos, eu juro que sou arrastado por gente do espa?o para uma sala toda branca, o “bracinho” n?o sonha nada, mas outro dia acordou longe da gente e? Mostra para eles?

O homem sem um dos bra?os mostra um pequeno cotoco saindo do vazio onde devia ter um bra?o, a pele parece estar sendo esticada como se o cotoco estivesse for?ando caminho? Ou podia ser um grande fur?nculo crescendo.

? Voc? est? dizendo que est? crescendo um bra?o nele?

? ? isso mesmo, ele diz que ? besteira, que isso sempre foi assim, que ? s? porque ele dormiu de mal jeito, mas tem a minha voz, os olhos dele? A gente mudou depois que veio para c?. Eu acho que ? coisa do espa?o.

? E aquele condom?nio ali em frente? Tem a ver com isso? ? Jess? costuma ser mais discreto, mas realmente tem visto que os mendigos no caminho n?o s?o como os do restante da cidade.

? Duvido mo?o, acho que o lance ? o mangue que ficar l? para tr?s. Teve um maluco que falou que encontrou A Pessoa l?. Ele disse que era “A Pessoa” porque n?o dava para saber se era homem ou mulher? Tenho certeza que era um ser de Marte! Mas ele come?ou a contar coisas, falar do caminho que A Pessoa tomou, descrever o rosto dela e depois ele sumiu. Ouvi dizer que apareceu no mangue sem os pulm?es. Morto, mas sem nenhum corte.

Jess? decide que tem que entrar no condom?nio, seus instintos dizem que o primeiro mendigo sabia de alguma coisa? Quem sabe n?o ser? o pr?ximo corpo a ser achado?

“Falei com mais mendigos. Vc vai achar que estou maluco, mas parece que est?o fazendo experi?ncias neles? Coisas para mudar a voz, mudar os olhos, fazer membros perdidos crescerem. Eles s?o trazidos para c? por uma combi e alimentados por ela. Vou entrar no condom?nio que a Marisa falou.”

Ele espera o primeiro “v” aparecer para ter certeza que a mensagem foi para os servidores do Whatsapp. As outras j? est?o com os dois “vv” azuis indicando que o F?bio j? leu.


Jess? aperta o bot?o para chamar o porteiro. Um led verde acende pouco acima indicando que ali tem uma c?mera em funcionamento.

? O que o senhor deseja? ? A voz ? grave e monot?nica. Est? mais para um seguran?a que para um porteiro.

? Sou Jess?, jornalista, e estou fazendo uma mat?ria sobre a dificuldade em lidar com as popula??es de rua. O objetivo do artigo ? atrair a aten??o dos ?rg?os p?blicos para reduzir esse inc?modo. ? Jess? mostra seu documento para a c?mera ? Eu poderia falar com o s?ndico ou s?ndica da condom?nio?

? Entre senhor Jess?. Aguarde alguns minutos na sala logo ? esquerda da entrada.

A sala parece a recep??o vip do aeroporto. Tem ar condicionado apesar de n?o ter ningu?m ali al?m dele e provavelmente n?o ter ningu?m ali praticamente nunca. Os moradores devem passar direto para seus edif?cios, os entregadores n?o s?o permitidos nesse tipo de condom?nio e provavelmente algum funcion?rio deve vir pegar as entregas, ent?o ser? que a sala ? apenas para um visitante externo espor?dico? Al?m do ar condicionado tem uma m?quina de caf?, chocolate e ch? e outra com aperitivos. Tudo gr?tis.

Ele espera por uns 10 minutos at? que uma porta se abre. Por um instante ele se assusta, pensa ver a sombra de algo muito alto, esguio e com orelhas parecidas com as de um pastor alem?o, mas entra um homem negro e magro com ?culos de haste met?lica bem fina. Logo depois dele uma mulher? um jovem homem? um homem adulto, mas de tra?os muito finos? Os olhos de Jess? se perdem na imagem da pessoa diante dele incapazes de definir seu sexo ou mesmo idade. Ele se levanta pedindo desculpas por perturbar o dia deles. A Pessoa responde e a esperan?a de Jess? de definir sexo e idade pela voz se desvanece.

? Nenhum inc?modo, senhor Jess?. N?s acreditamos em liberdade de express?o aqui e respeitamos muito a imprensa.

A Pessoa estica a m?o, o toque ? firme, mas macio, a pele ? agradavelmente quente e os olhos da pessoa se fixam nos dele. Um arrepio de expectativa e prazer amea?a subir por suas costas, mas ele se controla.

? Eu administro esse condom?nio. Somos todos pessoas amigas aqui e damos muito valor ? nossa privacidade, entende? Espero que a sua mat?ria n?o nos envolva, afinal realmente n?o temos qualquer inc?modo com a pequena popula??o de moradores de rua nas proximidades, muito embora eu entenda que muitas pessoas fora daqui se incomodem muito com eles, o que considero uma l?stima. S?o pessoas como n?s que apenas optaram por outro estilo de vida, ou fracassaram em se encaixar na linha de produ??o da sociedade capitalista.

? Em outros condom?nios em que estive existe a preocupa??o com seguran?a e muitos se incomodam porque eles “enfeiam” o ambiente.

? Posso lhe garantir que n?o compartilhamos dessas opini?es e preconceitos aqui.

? O fato deles se acumularem ao redor do seu condom?nio n?o os intriga?

? Eles se acumulam aqui perto? Eu n?o sabia? Imagino que a regi?o seja melhor para eles, talvez vente mais, eu n?o saberia dizer o que os atrai para essa regi?o, mas certamente n?o est? ligado a n?s. ? s? isso? Tem mais alguma coisa que possamos fazer por voc?? ? Olhando para o homem ao seu lado? ? Chamem um t?xi para o Jess?, est? muito quente para sair andando e o pr?ximo ponto de ?nibus ? bem longe se n?o me engano.

? Perfeitamente? ? O homem se inclina, pega o celular e liga para uma cooperativa. Provavelmente uma acostumada a atender esse condom?nio.

Percebendo que a pessoa n?o disse seu nome e com esperan?a de conseguir alguma informa??o mais consistente, Jess? se recosta mais confortavelmente deixando claro que ainda n?o terminou e pergunta.

? Ser? que eu podia falar com algum dos seus funcion?rios que atendem a porta? Talvez a experi?ncia deles no sistema de TV ou mesmo chegando e saindo do trabalho me sejam ?teis? ? e estica a ?ltima s?laba como quem est? tentando lembrar o nome da outra pessoa ? Desculpe, n?o lembro do seu nome.

? Bem, senhor Jess?, n?s n?o temos funcion?rios. N?o se trata de uma quest?o de receio de seguran?a, e sim de n?o compactuar com uma estrutura social baseada na explora??o. N?s mesmos, moradores e moradoras do condom?nio, fazemos as tarefas necess?rias. Foi o senhor Jonas mesmo aqui ao meu lado que o atendeu no interfone, ele ? um dos nossos moradores.

? Que fascinante! A impress?o ? de que o seu condom?nio ? praticamente uma sociedade alternativa. Eu gostaria muito de fazer uma mat?ria sobre voc?s, sem citar onde ? o condom?nio, claro, para respeitar sua privacidade.

? Lamento que isso n?o seja poss?vel. N?s somos mesmo muito reservados.

Jess? olha casualmente para o celular e percebe que ele est? sem sinal? Ser? que eles tem algum tipo de bloqueador de sinais? Mas como Jonas pode usar o pr?prio celular? Muito estranho. E a pessoa continua n?o dizendo o pr?prio nome.

? Entendo. ? uma pena, o caso poderia servir de exemplo para outros, n?o acha? Para construir uma cultura mais igualit?ria.

? Utopias n?o s?o poss?veis, Jess?, elas n?o passam de sonhos.

? Mas voc?s parecem viver em uma, desculpe, eu realmente n?o lembro do seu nome, que engra?ado, n??

? O que n?s temos aqui ? apenas um grupo de pessoas que vive respeitando os limites dos outros. Eu n?o lhe disse meu nome. Ele ? irrelevante. Seu t?xi?

O carro est? parado do lado de fora da sala. Jess? entra agradecendo a colabora??o da administradora? Ou do administrador, sem um nome n?o tem como desvendar seu sexo. Ele decide se referir a ela como A Pessoa ou a Esfinge… Um enigma a ser resolvido que pode transformar nossas vidas.

Assim que o t?xi deixa os port?es Jess? aborda o motorista.

? Voc? atende muito o pessoal nesse condom?nio, amigo? Que pessoas educadas! Como jornalista n?o estou acostumado a ser bem tratado.

? De vez em quando, cara. Acho que eles s?o cientistas, ou religiosos, n?o sei. S?o calmos demais para n?o serem religiosos e uma vez eu trouxe um cientista gringo para c?. Sei que ? cientista porque fui peg?-lo num centro de pesquisas da IBM, uma coisa chique l? no Alto da Boa Vista.

Ser? que o motorista ? uma falha nos esfor?os de privacidade daquele condom?nio ou est?o lhe entregando uma hist?ria de bandeja para que ele n?o procure por outras? Uma comunidade de cientistas em plena Barra da Tijuca? No Brasil que ? um pa?s sem uma tradi??o de valorizar os pesquisadores? O celular volta a ter sinal?

“Estou no t?xi placa XTK 3928 a caminho da casa da Marisa. Aquele lugar ? estranho”

“Marisa, desculpe o inc?modo sem avisar, posso passar a?? ? sobre o que voc? falou com o F?bio”

? Companheiro, meu dia foi cheio, voc? pode dar a volta ali e me deixar naquele condom?nio com as varandas desencontradas? Pouco antes do que eu acabei de deixar?

? Claro, chefe, eles pagaram para te levar at? o centro, mas ? voc? que manda.

Ser? que ele devia ter deixado o taxista lev?-lo para longe e voltar depois? N?o? Ele precisa ver a movimenta??o no condom?nio logo depois dele ter passado por l?, se ? que j? n?o ? tarde demais


? Oi Jess?, ent?o, o que descobriu l??

? Marisa, me diz que voc? tem uma janela que d? para l?! Preciso tentar ver de cima o que est? rolando e vou te contando tudo.

Ela o leva at? uma janela, o toque dela ainda o arrepia, droga, “se concentra Jess?, se concentra”. Felizmente ela tem uma c?mera com bom zoom.

N?o h? qualquer movimenta??o no condom?nio, ningu?m nas janelas, ningu?m andando entre os pr?dios. Enquanto ele est? observando surgem algumas pessoas para varrer as ruas? Uma em cada piscina recolhendo folhas que que ca?ram sobre a ?gua? Mas as pessoas n?o fazem isso naturalmente, ? como se estivessem se dedicando a aquelas atividades pela primeira vez. Uma satisfa??o? Est?o lhe mostrando o que esperam que ele ache deles.

? Olha Marisa, voc? acha essa atividade normal?

? Bem, algu?m tem que limpar as coisas, n?o ??

? Eles n?o parecem meio desajeitados no que est?o fazendo?

? Ora? Se s?o os pr?prios moradores como voc? disse ent?o faz sentido. Eu sou uma tristeza arrumando a cama at? hoje, e n?o me pe?a para dobrar um len?ol de el?stico.

Ela ri? Quando ela ri seu rosto parece brilhar? Jess? ri em resposta tentando esconder seus pensamentos? Estranho, tudo parece mais intenso desde que ele conversou com A Pessoa? Bem, ele tira fotos das atividades e das pessoas no condom?nio.

O que ele esperava ver? Uma nave espacial do tamanho de uma montanha tocando uma musiquinha sintetizada? Bruxas voando em vassouras? Esferas de luz saindo do mangue e se reunindo no condom?nio?

Nos pr?ximos dias ele se dedica ? pesquisa. Localiza o t?xi e descobre que o motorista estava de folga na v?spera em outra cidade e n?o se parecia nem um pouco com quem o pegou. Os rostos que ele fotografou no condom?nio deram em nada, todos desconhecidos. Os quatro moradores de rua que ele abordou no canteiro central desapareceram? Na verdade a popula??o de moradores de rua come?ou a declinar a olhos vistos, no entanto nenhum outro corpo foi achado. O caso dos corpos achados com algum ?rg?o faltando foram considerados mortes naturais: pessoas que nasceram daquele jeito, como um pulm?o por exemplo, e morreram cedo em decorr?ncia da dura vida de rua em dias t?o quentes.

Todos v?o esquecendo o caso. Um condom?nio de gente reservada, moradores de rua que desaparecem, pessoas com caracter?sticas f?sicas incomuns reunidas em um s? lugar? Tudo muito desconexo. Mas Jess? n?o aceita, ele esteve l?, ele tocou na m?o da Pessoa que ele passou a chamar de Esfinge, esse ? um enigma que ele carregar? por toda a vida se necess?rio, mas que desvendar?.

Come?ou a passar em frente ao condom?nio uma vez por semana em hor?rios diferentes para ver a movimenta??o. Ao encontrar mais de dois moradores de rua com caracter?sticas f?sicas incomuns pr?ximos ele os entrevista, perguntando se observaram mudan?as, se tinham sonhos.

Ele mesmo passou a sonhar que pulava o muro do condom?nio e era cercado por zumbis, por bruxas, cientistas nazistas, rob?s que n?o vinham da Terra. Os detalhes mudavam, mas a experi?ncia era sempre a mesma: ele era destrinchado como uma cobaia ou devorado. Acordava suando olhando ao redor.

Come?ou a se preocupar mais quando come?ou a acordar fora da cama. Providenciou grades para as janelas e trancas para as portas com receio de estar sofrendo de sonambulismo, mas se recusando a pensar que na verdade estava sendo abduzido.

Tr?s meses depois a Marisa bateu em sua porta preocupada. Deixou o marido e a filha em casa e foi resgatar o velho amigo. Tirou-o de casa e, achando que o tranquilizaria, deu a not?cia de que o condom?nio tinha sido abandonado. Que talvez fosse moradia funcional de alguma empresa que decidiu deixar o pa?s e voltaram todos para suas cidades.

N?o podia ser isso, aquela gente n?o se separaria.

Para n?o deixar Marisa preocupada Jess? finge se tranquilizar. Depois de jantarem diz que finalmente sente que pode dormir em paz, agradece a amiga e vai para casa.

Mas ele n?o vai para casa. Pega um t?xi na rua e parte direto para o condom?nio.

Antes de invadi-lo manda mensagem para o F?bio (acha melhor n?o preocupar a Marisa e ela mora perto demais, pode decidir ir atr?s dele) avisando que vai invadir o condom?nio.

Nunca mais se ouve falar dele? A pol?cia faz buscas no condom?nio e ? informada que foi abandonado por suspeita de problemas estruturais como os da vida do Pan. Alguns buracos de sondas provam que est?o sendo feitos estudos geol?gicos.

A conclus?o final ? de que Jess? se acidentou e foi arrastado por algum dos jacar?s que habitam a regi?o. Seu corpo pode ter sido levado para o mar sumindo para sempre.

Observa??es

Aff! Perdi totalmente o controle do conto? Esse fica no hall das falhas.

Hoje n?o estou num bom dia. Dif?cil de me concentrar, muito sono.

A hist?ria devia ter v?rios acontecimentos que poderiam ser interpretados de diversas formas, cada pessoa os explicaria de uma forma, Marisa seria a racional, l?gica, que encontra explica??es perfeitamente naturais, F?bio n?o se importaria muito com a explica??o querendo apenas uma boa mat?ria, Jess? tem o compromisso com a verdade, mas faria o papel da nossa raz?o que tenta extrair a verdade combinando os fatos e as nossas intui??es. Esfinge ? o mist?rio, as coisas da vida que tem tantos aspectos que n?o conseguimos definir. O personagem que teria a voz mais m?stica nem chegou a aparecer.

Ainda acho que o plot ? aproveit?vel, mas a execu??o ficou p?ssima. :-/

O processo criativo

Escrevo esses contos em tempo real no Google Drive e, no come?o, compartilho o processo criativo. Marco o hor?rio de tempos em tempos para o leitor poder ter uma no??o de quanto tempo demorei em cada coisa.

[8h10] Atrasad?o! Ainda tenho que tomar uma ducha para acordar adequadamente nesse calor!

Para tentar recuperar o tempo perdido, vou ver o resultado dos votos antes da ducha.

Que engra?ado! Empataram Scifi, Fantasia e realista! Quando empata tento fazer tudo, mas acho meio imposs?vel dessa vez ;-) Meio, n?? Porque nada ? totalmente imposs?vel.

O resultado ent?o foi: Suspense, adulto, presente e tentar achar algo que satisfa?a quem curte fantasia, scifi e realista? HWJN, um livro scifi de fantasia ?rabe pode ser uma boa fonte de inspira??o. Ele ? meio realista tamb?m.

Bom, vou para a ducha? [8h18]

[8h33] Aha! Nada como um bom banho para acordar as ideias! Principalmente nesse calor!

Fiquei pensando em filmes e livros que misturam realismo, scifi e fantasia e me toquei que s?o muitos! Desde Contato de Carl Sagan, at? o recente Exodus passando por Babylon 5. Lembrei de um livro que n?o li, mas me contaram, onde um pesquisador descobre que muitas apari??es de santos terminavam de formas estranhas, um at? parecendo ter sido ferido. Nessa hist?ria os santos na verdade s?o alien?genas e h? duas fac??es tentando influenciar a humanidade. Lembrei tamb?m de Tri?ngulo do Diabo, um filme trash onde um dos personagens ? c?tico e arranja explica??es naturais para cada morte estranha no barco.

No entanto quase sempre as hist?rias escolhem uma verdade e terminam deixando claro que ? realista, scifi ou fantasia, s? que a vida n?o ? assim, n?? A gente n?o tem certeza? Digo, normalmente cada um tem a sua certeza, exceto pelos Damians (do Herman Hesse) que mant?m sua mente livre das certezas.

O que me lembra de Lost? A ilha jamais ? claramente explicada. Scifi? Fantasia? Apenas algum fen?meno natural que ainda n?o entendemos?

Tudo isso est? muito ligado ? nossa necessidade de ter explica??es para as coisas, de construir bases s?lidas para a nossa vis?o de mundo ainda que, na minha opini?o, estejamos longe de ter bases s?lidas simplesmente porque mal arranhamos a superf?cie do Universo at? agora.

Esse ? um bom tema para um conto de suspense, as diversas formas como cada um entende a realidade ? partir da sua cultura e do seu impulso pessoal.

Resumindo, vou tentar fazer scifi, fantasia e realista! Ha! ;-)

Suspense? Adulto? Presente? Me passou ainda h? pouco uma cena de Sleep Hollow (com a Cristina Ricci e o Johny Deep) e agora lembrei de 1Q84. Uma sociedade alternativa envolta em mist?rio, uma s?rie de crimes dentro dela ou nas proximidades? Tem um epis?dio de Arquivo X em uma comunidade assim que, no final, parece ser composta por alien?genas capazes de mudar de sexo?

Cheguei a pensar em come?ar com um personagem meu, o Gato de Botas, conversando comigo sobre o desafio de escrever esse conto, mas pouca gente conhece o personagem e ia ficar dif?cil de entender. Ali?s, um dia tenho que fazer um conto desses com ele, talvez reapresentando ele.

Bem? Temos ent?o um mist?rio envolvendo uma sociedade fechada, um investigador? N?o? O protagonista n?o ser? o investigador, talvez um jornalista? ? uma boa chance de trazer ? tona a discuss?o sobre o que ? ser um bom jornalista, ir atr?s dos fatos, da verdade, e n?o do espet?culo que vende jornais. O l?der da comunidade ser? algu?m andr?gino, imposs?vel definir se ? homem ou mulher e sua identidade ser? um segredo. Vou tentar usar Desejo, um dos Perp?tuos do Neil Gaiman como modelo. Sempre se referir?o a essa personagem como “A Pessoa”. Hummm? Vou chamar a pessoa de Esfinge. Esfinges guardam o segredo da natureza humana e seus enigmas podem nos matar.

[9h05] Meu tempo est? ficando curto, mas ainda n?o estou pronto para come?ar? Quase?

Grande parte do processo criativo, pelo menos para mim, ? esse brainstorm. Uma combina??o entre deixar a imagina??o solta, pescar refer?ncias que surgem, buscar ideias que pare?am mais originais e tentar domesticar um pouco a criatividade para fixar em alguma coisa, para construir um tipo de espinha dorsal. Essa ? uma das partes mais cr?ticas.

T? muito 1Q84 por enquanto, n?o posso come?ar a escrever enquanto estiver assim ou sair? um tipo de vers?o da mesma hist?ria.

Hummm? Uma sociedade alternativa que alimenta essa vis?o indefinida dela mesma: s?o cientistas, m?sticos ou alien?genas? Realista, fantasia ou scifi? Isso at? pode ter uma rela??o distante com outro conto desse projeto onde o casal entra em contato com uma cidade sendo desenvolvida secretamente para lidar com o novo clima do planeta.

Os mist?rios? Desaparecidos, mortos em circunst?ncias ou com quadros cl?nicos estranhos e muta??es nas proximidades da tal sociedade alternativa.

Falta eu saber qual ? o final disso tudo? Ou n?o? ? arriscado, mas posso come?ar sem saber como termina?

[9h15] Pensando? [9h25]

Vou deixar mais um mist?rio no conto: sei ou n?o sei o final dele? O mist?rio que se esconde sob a hist?ria?
(N?o sabia…)

Hangout p?s conto

Opa!? Que tal votar agora no que devo escrever no pr?ximo conto?

Imagem

Vis?o a?rea da comunidade fechada do filme The Giver (material promocional).