Sobre o Um S?bado, Um Conto

O Conto

(aviso: leia as observa??es antes de me condenar)

Edison est? parado na rua mal iluminada a um quarteir?o do pulgueiro onde ele mora. ? um bairro da periferia, desses esquecidos pelo governo, e ele s? conseguiu alugar um lugar na periferia da periferia, uma daquelas regi?es povoadas pela esc?ria? Prostitutas, porteiros, diaristas, cabeleireiros, ?aut?nomos? Aquelas pessoas que n?o conseguem se juntar a outras para alugar um bom lugar e acabam morando sozinhas naquela regi?o obscura entrea? sociedade e uma “n?o sociedade” que n?o ? tratada como cidad?.

Em frente a ele uma mo?a de menos de trinta olha com raiva para seus olhos, ela n?o tem medo dele, n?o parece ter medo de nada? Vai acabar morrendo jovem, n?o vai passar dos trinta com certeza. Toda semana some algu?m ou aparece morto com bala perdida ou em um assalto. S?o 50 mil por ano no Brasil e ele acha que s?o todos dali, daquele quarteir?o.

? Voc? sabe quem ? a Josiane! Ela me mandou uma foto sua no dia que sumiu! Disse que voc? era cupincha do pai do merda que ela tava pegando.

? Voc? ? maluca, guria? Vem me cercar numa rua escura para insinuar que sei alguma coisa do sumi?o da sua amiga? Vai ver ela estava envolvida com drogas, queima de arquivo, guerra de gangue.

Edison sabe que n?o ? nada disso, que certamente o filhinho-do-papai do chefe dele deu cabo da mo?a como j? fez outras vezes, mas o Dr. Eduardo ? empres?rio poderoso, cheio de contatos com pol?ticos e milicianos, ele encobre tudo para o marginalzinho do filho que ? mais velho que Edson, tem quase trinta e cinco anos, e se comporta como um garot?o de vinte. Ser? um bom herdeiro dos esquemas do pai.

Um cara passando do outro lado da rua os v?. ? assaltante, quer dizer, ele ? sapateiro, trabalha numa loja que ? uma porta num pr?dio semi abandonado, mas isso n?o d? para viver e ele faz uns ganhos aqui ou ali, ? m?o armada. Mas o cara n?o vai se meter com eles, os dois j? beberam chope juntos umas duas ou tr?s vezes.

? N?o tenho medo de voc?! ? E tira uma faca da bolsa. Ela segura firme, n?o treme, n?o ter? medo de us?-la, mas algu?m pior que o Edison n?o se intimidaria apesar da seguran?a dela. A coisa ficaria ruim.

? Vamos sair daqui mo?a. Se eu te deixar sozinha aqui v?o acabar te matando e vai sobrar para mim de novo. Duas esquinas para l? tem um ponto de ?nibus, umas barraquinhas de podr?o. A gente conversa l?.

Gabriela vai seguindo Edison de perto com a m?o dentro da bolsa segurando firme no cabo da faca, presente do irm?o dela do ex?rcito que mora em outro estado. Uma mulher tem que saber se defender e ela certamente n?o ? do tipo de pessoa que se encolhe diante da vida. Ela prefere morrer a viver com medo. Talvez ela n?o tenha no??o dos riscos que est? correndo. Se acostumou a ser a valente da turma desde pequena, entre meninos e meninas ela era a mais destemida, mas a vida adulta ? diferente da vida de crian?a. Em todo o caso a falta de no??o de medo ela manteve.

O lugar ? uma pequena pra?a movimentada e bem iluminada, casais namoram nos bancos, pessoas caminham chegando do trabalho depois de quase suas horas de tr?nsito ou saindo para suas atividades noturnas.

Gabriela se pergunta se ? seguro para o cara falar com ela ali no meio de tanta gente, mas na verdade todos v?o passando sem olhar muito para os lados. Numa rua transversal e mais escura d? para ver de vez em quando uma negocia??o de drogas. Ela morou em uma regi?o parecida, uma favela, at? os 18 anos quando sua fam?lia conseguiu alugar um apartamento min?sculo num bairro melhor. Hoje ela divide um apartamento at? bom com mais 4 amigos e amigas.

? Ent?o, mo?a, quem ? a guria que voc? t? procurando? Porque acha que eu sei alguma coisa dela mesmo? Que foto ? essa que ela te mandou? Mostra a?

? Mostro porra nenhuma! Para voc? arrancar meu celular e sair correndo? Nem pensar! Voc? trabalha para o Dr. Eduardo que eu sei, voc? d? cobertura pro marginal do filho dele. Eu quero saber o que eles fizeram com a Josiane!

? T?, e voc? acha que, se eu soubesse, ia te contar? Por conta de qu?? Voc? vai me pagar para sumir dessa cidade? Do Brasil? Mas eu n?o sei nada!

Ela encosta nele, aproxima o rosto do dele olhando amea?adoramente nos olhos dele e diz “Eu sei que voc? sabe, malandro, eu te segui, tirei fotos, t? tudo com um amigo para passar para a pol?cia e, se voc? n?o me procurar logo com uma resposta, eu vou armar para voc? e ? tu que vai levar a culpa pelo sumi?o da Josiane!”

Edison n?o sabe quem ? a doida que fala como se fosse rainha do tr?fico, acha melhor obedecer, ganhar algum tempo.

? Olha, juro que n?o sei, mas vou descobrir! Como eu te acho? N?o t? dizendo que tenho nada a ver com isso, mas a gente sempre conhece algu?m que conhece algu?m?

? Me encontra aqui amanh? de noite, 21h t? bom?

Edison confirma com a cabe?a. Vai ser dif?cil e o que ele vai fazer com a informa??o? Com certeza o marginalzinho matou a guria… como se chama mesmo? Josiane.

Logo de manh? ele liga para o escrit?rio do atual chefe. O trampo de garoto de recados ? recente, n?o tem muito mais de seis meses? Quase um recorde? E agora isso? Edison deixa um recado “Est?o procurando pela Josiane”. N?o d? meia hora e ele recebe um sms dizendo para ir para um lugar em uma hora.

? T? maluco, seu bosta? ? Ele nunca fala pessoalmente com o Dr. Eduardo, ? um assistente dele que vai ao seu encontro. ? Deixando recado?

“Fiz merda de novo? Eu s? fa?o merda? Droga de vida, s? posso ter nascido torto”

Edison parece se encolher, ele sabe dos custos de contrariar gente como o Dr. Eduardo.

? Eu n?o sabia o que fazer? Ouvi uns papos nos botecos de que tinha uma Josiane sumida, que seria outra Amarildo. Tinham uns caras que pareciam jornalistas.

Era mentira, claro, se ele envolvesse a mulher do dia anterior ia acabar ficando pior ainda para ele. A pol?cia de um lado e o Dr. Eduardo do outro porque ele deu o servi?o para uma mulher qualquer na rua. Edison estava se sentindo um g?nio por ter pensado nessa hist?ria de “est?o falando nos botecos”.

? T? T? bom, ent?o. S? n?o fa?a mais isso, espere n?s te procurarmos. Deixa essa hist?ria para l?. N?o ? da sua conta.

? ? que eu levei a mo?a at? a casa? Aquela casa? E se algu?m me viu? Ʌ Vai sobrar para mim n??

? E se sobrar? Qual ? o problema? Tu quer ficar mal na fita com os jornalistas ou com o Dr.?

Edison percebe a besteira que fez. Olha para os lados procurando uma sa?da. ? claro que ele ? o ponto fraco, que v?o mat?-lo ali mesmo e pronto, foi o favelado com liga??o com o tr?fico que matou a Josiane Amarilda. “Burro! Burro! Burro!!”

Antes que o assistente do Dr. Eduardo possa dizer alguma coisa ele sai correndo, eles est?o no segundo andar de um pr?dio em constru??o. O salto ? perigoso, mas n?o tanto quanto levar um tiro ali mesmo, ele j? levou um tiro antes e n?o quer aquela sensa??o de novo, e nem morrer esquecido numa escada em um campo de constru??o.

Por pouco ele n?o cai sobre vergalh?es, mas tem sorte de aterrissar sobre um banco de areia. Ele olha para cima e v? dois homens armados ao lado do assistente do Dr. Eduardo, mas ele os est? impedindo? Tem pessoas passando pela frente da obra? Pelo jeito ? uma visita de inspe??o inesperada. Sorte, pura sorte. Do contr?rio o lugar estaria completamente deserto a essa hora pois a obra est? paralisada.

“N?o posso voltar para casa? N?o posso sumir, n?o tenho grana para sumir, s? se virar morador de rua, mendigo? Merda, esse deve ser o meu futuro de qualquer jeito, mas v?o acabar me achando? O Dr. Eduardo vai mexer os pauzinhos para jogar a culpa em algu?m e a amiga da Josiane n?o vai descansar? A louca se meteu com um homem estranho numa rua escura de um dos pontos mais perigosos da cidade. Ela ? louca ou federal, sei l?!”

Os pensamentos de Edison n?o param enquanto ele caminha r?pido para longe, sem destino. N?o corre porque pobre correndo t? no erro, mas por sorte a regi?o ? cheia de ruas estreitas por onde ele consegue sumir rapidamente sem ser seguido.

“Vou ser direto: cad? meu filho?” O SMS veio de um celular n?o identificado, com certeza uma linha usada s? para enviar essa mensagem, mas est? claro de quem veio. Como assim, “cad? meu filho”? O desespero do Edison s? aumenta. Agora ele tem a amiga maluca da Josiane e o pai barra pesada do marginal que sumiu, como ele teria sumido?

“Tenho que recapitular tudo que aconteceu”. Edison segue andando meio sem rumo, buscando ruas que n?o devem ser vigiadas, aquelas mais estreitas que s?o transformadas em banheiros p?blicos que todos evitam, exceto pelos mendigos mais perdidos.

Quando est? no meio de uma dessas travessas fedorentas ele v? um cara e uma menina atravessando no sentido contr?rio. Percebe que a rua termina no pr?dio abandonado ao lado do pr?prio pr?dio. Sem notar ele estava voltando para casa? Pelo menos o que vem sendo a casa dele h? mais tempo. No entanto os dois vindo em sua dire??o fogem totalmente da normalidade, quer dizer, da normalidade daquela regi?o? A rua p?trida, um cara de uns vinte e poucos anos de m?os dadas com uma menina muito bem vestida, com os cabelos negros e muito lisos brilhando com a pouca luz que entra na viela, mas descal?a naquele ch?o imundo com escrementos humanos e animais, ela parece n?o se importar, seu rosto n?o tem express?o, seus olhos s?o profundos e negros como os pesadelos. Ela parece ser a pessoa forte na estranha dupla, como se a menina de onze anos fosse uma irm? mais velha.

? Voc? n?o devia atravessar essa travessa? Perigoso.

A voz dela n?o tem express?o, n?o tem varia??es de tom, mas ele acha que, de alguma forma, ela est? preocupada com ele. Olhando para baixo ele percebe que, ainda que o ch?o esteja realmente imundo e ?mido os p?s da crian?a est?o totalmente limpos, como se a maior podrid?o do mundo n?o pudesse chegar perto dela. O cara ao lado tinha o olhar perdido, como quem n?o se importa mais com o pr?prio destino.

A menina continua?

? J? que voc? decidiu seguir esse caminho? Voc? vai encontrar a mo?a naquele edif?cio ali em frente? E o mo?o tamb?m? Eu diria que ela estar? no nono andar? Ele eu n?o sei? E tem a outra mo?a? ? melhor voc? ir. Estou com fome, tenho que me alimentar logo.

Ela mal para enquanto fala com ele. Edison segue seu caminho virando e quase andando de costas para ver aonde os dois v?o. A menina est? encostando o cara contra uma reentr?ncia na parede e olha para o Edison e balan?a negativamente com a cabe?a, ele entende que ? melhor n?o se meter e vira de costas para os dois. Um ru?do seco, como algu?m inspirando com muito esfor?o todo o ar que pode, vem de tr?s dele, um risinho animado vem logo depois “n?o olhe para tr?s, n?o olhe para tr?s!”. Ele acredita no sobrenatural como todo mundo: ? algo em que todo mundo tem que acreditar, mas quase ningu?m acha que acontece de verdade, entretanto o que foi aquilo?

Quando ele sai da travessa um peso deixa seu cora??o, ? como se as sombras estivessem se infiltrando no seu corpo enquanto estava l? dentro.

Ele se lembra que est? perto de casa! Podem estar esperando por ele. As coisas que a menina falou? Como ela sabia? Edison decide se enfiar logo dentro do pr?dio abandonado. Pode ser tudo uma armadilha, ele pode simplesmente estar louco, mas o que mais ele pode fazer?

O pr?dio abandonado ? estranho, cercado de tapumes com alguns espa?os aqui ou ali. Era para ter mendigos ou, pelo menos, gatos morando ali, mas est? deserto, nem mesmo os pombos pousam l? dentro.

Olhando ao redor e pensando Edison percebe que o apartamento para onde o filho do Dr. Eduardo leva mulheres fica do outro lado do quarteir?o? De frente para o edif?cio. Ele pode mesmo esconder os corpos em algum lugar por ali. Ser? que a menina tinha visto? Ningu?m presta aten??o em crian?as e ela pode t?-lo visto deixando a mo?a no pr?dio, pode ter flagrado o marginalzinho descendo com o corpo? S? que era imposs?vel n?o notar aquela crian?a, ela simplesmente n?o se encaixa no meio? N?o se encaixaria em nenhum meio.

“A crian?a disse nono andar?”

O pr?dio abandonada nunca chegou a ser completamente constru?do. Tem pilastras com vergalh?es expostos e escadas sem paredes convidando para uma queda mortal. Ainda n?o ? uma da tarde, o sol est? a pino, devia estar um calor infernal, mas est? frio, realmente frio! “Que lugar ? esse” fica ecoando como um mantra em sua cabe?a.

Ele est? subindo cuidadosamente para o segundo andar quando uma coisa se atira sobre ele jogando-o contra a parede. Uma lanterna se acende na cara dele.

? Voc? veio esconder o corpo?

? a maluca da noite anterior. Como ela foi parar l??

? Voc? t? maluca? Esfolei meu bra?o todo! Se eu vim esconder um corpo posso esconder logo dois!

? Eu t? armada?

? Aquela faquinha? Voc? s? vai me arran?

O tiro ecoa e a bala atinge a parede a um metro dele. Ele estava blefando, mas pelo jeito ela n?o blefa… O som do tiro parece ser devorado pelas paredes, n?o h? barulho de aves, gatos ou c?es fugindo do estampido, s? um sil?ncio que parece quase s?lido.

? Olha, mo?a, eu n?o estava falando s?rio, nunca feri ningu?m na minha vida, sou um lixo humano que provavelmente vai morrer mendigando pela rua, mas n?o vou largar f?cil da minha vida! E n?o faria uma loucura qualquer como matar gente ou esconder corpos! Eu vim aqui? vim aqui seguindo uma intui??o. Eu admito que o cara que sa?a com a sua amiga tem um apartamento no pr?dio ali atr?s e?

? ? E foi assim que eu vim parar aqui tamb?m. Se ele fez alguma coisa com a minha amiga foi aqui que ele a escondeu. Ontem eu saltei do ?nibus um ponto depois e passei a noite de olho nesse pr?dio. Ningu?m entrou, ningu?m saiu? Quer dizer? Deixa para l?.

? Como assim, deixa para l?? “Quer dizer…” o qu??

? Tinha gente que meio que aparecia e sumia do nada. Talvez passando por brechas no tapume que eu n?o via de onde estava. A que me chamou mais a aten??o foi uma menininha de uns 11 anos? Muito bem vestida para ser uma menina de rua. Estranho? Mas isso n?o importa! J? vasculhei o primeiro andar, n?o tem nada l?. Estava chegando no segundo quando ouvi seu barulho subindo a escada. Se fosse o canalha eu tinha enfiado a bala na virilha dele e arrancado uma confiss?o!

? Corre?

Edison escuta a voz infantil como se ela estivesse grudada no seu ouvido sussurrando. A express?o da Gabriela deixa claro que ela n?o ouviu nada, mas o frio come?a a ser substitu?do por um calor sufocante.

? Guria, abaixa essa arma, a gente precisa subir eu? Eu vi luz no nono andar h? alguns dias, moro ali do lado?

? CORRE AGORA! ? A mesma voz monotonal da crian?a do beco, mas algo nela tem um tom de urg?ncia e Gabriela est? virando o rosto para a escada que sobe, ela percebe que tem algo subindo… Algo? N?o algu?m.

Ela apaga a lanterna, abaixa a arma e come?a a subir as escadas correndo, Edison vai logo atr?s. A cada andar que eles passam d? para ver na luz fraca que entra pelas fendas que h? s?mbolos desenhados nas paredes ao lado da entrada de cada andar, s?mbolos que ele n?o conhece.

? Vamos ser alcan?ados! Entra na pr?xima, maluca!

Gabriela olha irritada para ele “como assim maluca?”, mas resolve deixar isso para depois.

Eles est?o no quinto andar e tem um tipo de porta separando as escadas do corredor. Eles passam e fecham atr?s deles. Logo depois ela come?a a vibrar e estalar. Eles colocam a m?o sobre ela e quase se queimam. A vibra??o deve ser do ar mais quente nas escadas provocando um tipo de v?cuo. Que diabos pode provocar isso? Algu?m subindo com uma churrasqueira? Edison ri da pr?pria ideia, mas ? um riso nervoso que n?o chega aos seus l?bios.

? Esse pr?dio ? grande, deve ter outro conjunto de escadas, eu n?o subo atr?s disso de jeito nenhum ? Os olhos do Edison devem estar muito apavorados pois Gabriela, que olha intrigada para a porta e tem vontade de ir atr?s do que quer que tenha passado ali, decide acatar a covardia.

Enquanto eles percorrem o corredor buscando outro lance de escadas escutam ru?dos, pensam ver alguma coisa em sua vis?o perif?rica, mas ao encarar o movimento n?o h? nada. Os apartamentos n?o tem portas ent?o pode-se ver diretamente a sala e os grandes v?os para janelas. O espa?o aberto parece sug?-los? Na verdade literalmente eles se sentem sugados. Se desequilibram quase caindo para dentro dos apartamentos ao passar por cada um.

? Ser? que esse pr?dio est? torto, por isso pararam a constru??o? ? Gabriela n?o parece estar tentando se iludir que algo estranho acontece ali, realmente n?o passa por sua cabe?a a possibilidade de algo sobrenatural, mas Edison est? ficando apavorado. O que ele v? perifericamente parecem monges esticando os bra?os para eles, mas ao olhar diretamente v? que ? s? uma pilastra ou uma parede manchada.

Os dois encontram outro conjunto de escadas. Essas soltam um vento fresco, mas n?o gelado e muito menos quente como a outra. Seja o que for que passou l? talvez v? percorrer os 15 andares antes de passar para o outro lado.

Gabriela o arrasta correndo at? o nono andar, ela parece n?o se incomodar muito com isso, mas Edison est? quase cuspindo o cora??o e os pulm?es em uma po?a de sangue e suor.

Assim que entram eles escutam uma voz infantil cantando, Edison olha para a Gabriela se perguntando se ela est? ouvindo tamb?m ou se essas vozes s?o alucina??es dele, mas ela est? olhando na dire??o da m?sica e caminhando para ela intrigada.

Fr?re Jacques, fr?re Jacques,

Dormez-vous? Dormez-vous?

Sonnez les matines! Sonnez les matines!

Din, dan, don. Din, dan, don.

Gabriela segue segurando a arma nas suas costas e nem se importa com o que Edison est? fazendo, mas ele n?o pode deixar algu?m sozinho nessa situa??o, ainda que esteja cada vez mais apavorado.

No fim do corredor tem mais um apartamento e l? dentro, brincando com uma boneca, a menina do beco. Sentada de pernas cruzadas. Agora sua pele est? empoeirada, o cabelo um pouco desarrumado e as roupas pretas com alguns sinais de poeira branca dos rebocos do pr?dio mal acabado. ? ela que canta.

Quando chegam mais perto percebem que a boneca ? feita de ossos? Podiam ser ossos de m?os humanas, mas n?o ? poss?vel, devem ser de animais que a menina acha mortos ou? Melhor n?o pensar em “ous”.

? O garotinha! Qual ? o seu nome? Voc? est? sempre aqui? ? A seguran?a da Gabriele ? impressionante. Ser? que ela ? daquelas pessoas que se mant?m como uma rocha durante o perigo e desabam depois ou sequer percebe como a situa??o ? estranha e potencialmente? mortal?

? Moro aqui. Voc? veio? ? A mesma voz monotonal do beco. A menina exibe o que parece um sorriso muito discreto nos l?bios. Ela olha para a Gabriela.

? Gabriela, n?? Tanta coragem? T?o saborosa? Mas o J?lio me pediu para me comportar, para n?o me alimentar de gente boa?

Os olhos negros brilham e um sorriso de dentes perfeitos se abre para os dois. Gabriela franze a testa. Como a menina sabe seu nome? O que ela est? dizendo?

? Sim, sou Gabriela, mocinha! Voc? ? muito esperta, viu? Olha, voc? sabe se um cara trouxe uma mo?a para esse pr?dio h? uns tr?s dias?

? Sei?

Os dois ficam olhando para ela esperando mais alguma coisa, no entanto ela se levanta, caminha para um quarto e, quando eles entram atr?s dela o c?modo est? vazio. Edison olha imediatamente para Gabriela curioso, ser? que agora de d? um chilique? Vendo seu mundo racional desabar?

Ela olha de volta para ele, vasculha o quarto, vai at? o v?o da janela, mas se det?m a quatro passos dele.

? Mesmo que ela tenha descido pelo v?o da janela n?s certamente estamos no meio de algo que foge ? raz?o? Isso quer dizer que temos que nos apressar para achar a J?! Vamos vasculhar esse andar inteiro, J?! Vai por esse lado, eu vou pelo outro, toma minha faca. Qualquer coisa grita.

? “Qualquer coisa grita”? O que voc? quer dizer com “qualquer coisa”? J? tem muita coisa para eu come?ar a gritar agora! Voc? ? doida? Vamos dar o fora daqui!

? N?o vou te impedir. Vou pela direita, me encontra do outro lado.

Antes que a Gabriela chegue na metade do corredor que tem que vasculhar escuta o grito do Edison ecoando pelo pr?dio. Ela corre o resto do caminho dando olhadas de soslaio nos v?os dos apartamentos por onde vai passado. N?o faz sentido voltar por onde j? veio. Quando mais r?pido ela segue mais tem a impress?o de ver coisas que se desvanecem assim que ela concentra sua aten??o nelas. Em apenas um ela v? realmente uma cama com um caixote ao lado que poderia ser um tipo de mesa de cabeceira, seria um apartamento habitado no meio de todo aquele mist?rio?

Quando ela vira no corredor certo encontra Edison encostado contra a parede, olhos fixos no apartamento em frente, os dedos cravados na parede como se pudesse fur?-la.

??Gabriela? Voc? precisa olhar com calma.

Ele est? ofegante, seus olhos denunciam a luta interna entre o impulso de correr e algum outro sentimento que o faz permanecer ali encarando o apartamento vazio. Pelo menos ? o que Gabriela v? a princ?pio: um apartamento vazio como os outros.

? Olhe para a parede de forma que o v?o do apartamento fique na sua vis?o perif?rica, me avise quando algo acontecer.

? Hummm. T? ? Apesar de tudo ela parece c?tica

? T? vendo alguma coisa mudar?

? D? uma ilus?o de ?tica de que tem um ponto, uma coisa luminosa l? para dentro? Espera, agora t? ficando tudo escuro? Perdi o foco, calma, vou pegar de novo? Peguei? ? como se fosse noite no apartamento e definitivamente tem uma coisa luminosa na parede direto em frente? Mas ela parece tr?s vezes mais distante que deveria e? J?!!!! ? a J? na parede!! Vestida de branco!

Ela estava apoiada em um dos joelhos ao lado de Edison e tenta levantar imediatamente para correr para dentro do apartamento que ela olha diretamente agora, como Edison, como se um tipo de v?u tivesse sido retirado, mas ele a segura.

? Tem mais! N?o se afobe!

? Eu n?o sou afo? Tem coisas nas sombras? Pequenos rostinhos? N?o… s?o rostos normais, s? que est?o longe. ? como se esse quarto fosse maior que o pr?dio inteiro… Edison, Vai embora. Eu vou l? pegar a J?. T? na cara que voc? n?o tem nada com isso?

Edison olha para a mulher decidida ao lado dele. Que tipo de amizade ? essa? Ele nunca viu nada assim. Mesmo que as duas fossem casadas, as pessoas simplesmente n?o s?o fieis assim umas ?s outras, ou ser? que, da mesma forma que aquele pr?dio parece estar em um tipo de realidade demon?aca, tem pessoas que vivem em outras realidades que ele nunca encontrou antes? Por que ser?? A mo?a ao lado dele e a que est? presa l? dentro tem a mesma hist?ria de vida dele, pelo menos vieram dos mesmos tipos de lugares?

Gabriela est? caminhando lentamente para dentro do apartamento, algo lhe diz que n?o adianta correr ali, que os instrumentos para sair daquela situa??o s?o outros.

? Ela nos pertence, est? aqui para ser protegida.

A voz vem de dentro deles. Gabriela olha para o lado e Edison est? com ela, j? alguns passos dentro das trevas que englobam o lugar.

? Ela estar? melhor com os amigos dela, com seus semelhantes

? Ela j? n?o ? mais seu semelhante Gabriela. Sua alma est? partida pelo ?dio e viol?ncia que sofreu, ela pertence a n?s.

Edison segue calado um passo atr?s de Gabriela, ele n?o sabe o que fazer, o que falar, s? sabe que deve ficar ao lado das mo?as, que, se a vida dele valeu para alguma coisa, foi para estar realmente ao lado dessas estranhas agora, que todo o resto da vida dele foi uma luta contra a vida, foi resist?ncia a se abrir para o mundo.

? Eu preciso falar com ela, por favor?

As trevas parecem tecidos negros que se insuflam com algum vento sobrenatural cercando os dois cada vez mais perto, j? n?o se v? a abertura do apartamento l? do outro lado e Edison sente que n?o haver? sa?da dali? Que eles deixaram o mundo definitivamente.

Gabriela n?o para de avan?ar, ainda que lentamente. Sua amiga flutua poucos metros ? frente, os olhos fechados, a pele negra p?lida como cera, os cabelos encaracolados parecem frios e mortos?

Gabriela estica a m?o e toca a bochecha que deve estar r?gida, mas o toque parece distribuir cor novamente para a pele esbranqui?ada.

Mais um passo e ela consegue abra?ar a amiga que abre os olhos desabando sobre o abra?o firme da amiga. Seus olhos se abrem em um fiapo de vida.

? N?s a estamos mantendo em suspens?o no tempo, n?o ? alimento para n?s? O homem que a trouxe aqui est? nos servindo muito bem, mas se ela for levada o fragmento de vida que ainda a sustenta se extinguir?.

Gabriela chora? Josiane fala como se fosse a ilus?o de vozes na brisa de outono

? Tudo bem amiga? Eu aceito o meu fim? Aqui n?o ? t?o ruim? A maldade primitiva deles ? pac?fica? Eles se alimentam de culpa? De almas partidas? N?o sou nem um, nem outro? E sonho?

Edison se aproxima olhando apaixonado para a amizade que une as duas? Pensa “Eu morreria por elas agora…”

? Pode ser feito? Os tr?s ouviram as vozes vindo de dentro deles, mas s? Edison entendeu a que ela se referia e pensou?

“Eu tenho culpa? Minha alma ? partida? Eu vou sofrer? Para sempre? Aqui ? o Inferno?”

? Sim? Nada ? para sempre e N?o. Essas s?o as suas respostas.

Edison olha para as duas fazendo sinal para voltarem pelo caminho que vieram, j? ? poss?vel ver novamente a abertura para fora do apartamento se abrindo. Ele caminha de costas no sentido contr?rio? Uma brisa lil?s agita seus cabelos soprando na dire??o das duas, devolvendo cor para Josiane enquanto ele mesmo vai ficando cada vez mais p?lido, sentindo um gelo cortante rasgando seu cora??o, pavor preenchendo sua mente e seu corpo sendo partido por dentro, mas seus olhos refletem apenas determina??o.

Gabriela recua, ? obrigada a recuar por mais que se esforce para voltar e salvar tamb?m o homem que se sacrifica por elas sem perceber que ele se sacrifica tamb?m por ele mesmo. L?grimas correm por seus olhos conforme sente a amiga cada vez mais viva em seus bra?os at? finalmente ser obrigada a recuar para fora do apartamento e tudo some deixando-as sozinhas no pr?dio abandonado?

Uma coisa ? certa. Gabriela n?o descansar? enquanto n?o descobrir o que aconteceu com Edison e como resgat?-lo tamb?m?

[13h31]

Vlog

Observa??es

Preciso aprender que, para fazer aventura em quatro ou cinco horas tenho que come?ar com ela e seguir em flash back?

Logo no primeiro par?grafo rotulo de esc?ria prostitutas, porteiros, cabeleireiros e outras profiss?es que na verdade considero t?o nobres quanto as outras. A inten??o, mal realizada, ? colocar que a sociedade v? essas atividades como vulgares ou inferiores.

At? ? do conto tive receio de ficar muito ruim, mas gostei muito do tipo de amizade que surgiu entre as duas amigas e da rela??o que se construiu entre Edison e Gabriela.

Gosto especialmente da ideia das realidades? A demon?aca do pr?dio (d? para notar que a menininha do beco ? um dem?nio?), a impessoal do Edison onde os relacionamentos s?o cercados de desconfian?a e a pura das meninas onde a sinceridade e transpar?ncia se sobrep?e aos medos.

O apartamento que a Gabriela v? que ? aparentemente habitado ? onde o J?lio mora. Ele ? humano, protagonista nesse universo de fantasia que venho construindo.

Uma curiosidade para quem gosta de coincid?ncias assustadoras ;-)

Do meio para o final do conto coloquei m?sicas aleat?rias para tocar no Youtube. Quando acabei o conto estava no clipe abaixo… Leia o conto e depois assista o clipe… Bizarro, n??

O Processo Criativo

[8h30 +-]

Mega atrasado!!! Caiu dil?vio de ontem para hoje de madrugada? Tive que cuidar da varanda que enche… essas coisas, mas chuva ? bom! T? fresco :) Vou direto ao assunto! Vamos ver o que tenho que escrever hoje!

O problema de ter pouca gente votando ? que d? muito empate? Tenho que dar um jeito de animar mais o pessoal a votar, n??

Empate entre presente e futuro e entre scifi e fantasia. No mais ficou Aventura, adulto.

Aventura? Adulto? Sempre pego muito leve no adulto? ? porque esses contos s?o p?blicos demais? E por pegar leve nem digo que tem pouco sexo, n?o vejo adulto como sexo e sim como quest?es morais mais pesadas e uma representa??o mais crua de aspectos da nossa sociedade que n?o gostamos de ver. Acho que vou pegar bem mais pesado hoje? T? atrasado e escrevo mais r?pido se n?o ficar me impondo limites. Tenho mais facilidade para escrever fantasia que scifi ent?o vou resolver o empate decidindo por fantasia e, por fim, ? uma aventura. Ent?o fica:

Aventura, adulto, fantasia no presente.

Acho que vou aproveitar um universo que estou criando num dos livros que estou desenvolvendo. Um que pode at? ser meio inspirado em Deuses Americanos do Neil Gaiman pois o sobrenatural existe, mas se camufla entre n?s de forma que poucas pessoas o percebem. T? pensando em como apresentar as particularidades dele no conto, ou talvez mude totalmente de ideia. Vamos vendo.

O protagonista ? um cara. Pouco mais de 30 anos. Quando a gente tem vinte e poucos ainda parece que o mundo ser? nosso, mas ele j? percebeu que fracassou. N?o se dedicou a nada a ponto de se tornar muito bom no que faz. Ele faz um pouco de tudo e tudo mais ou menos. ? aquele cara que trabalha uns meses, um ano, num lugar e depois ? demitido simplesmente porque a fun??o que ele ocupa sumiu.

Edison, ele se chama Edison. ? um bom nome. J? foi de um dos maiores cientistas do passado (apesar de ser uma sombra perto do Tesla) e hoje ? um nome popular. As pessoas desprezam o que ? popular, todo mundo quer o especial? Tudo ilus?o pois quase todos n?s somos populares, s? que nos debatemos para sonharmos que somos especiais.? Tentamos nos sentir melhores do que os outros porque n?o gostamos daquela m?sica popular, do programa popular?

Edison j? passou dessa fase, j? perdeu esse sonho. Ele mora em um conjugado num bairro da periferia, um pr?dio com baratas e eventuais ratos que devem vir de outros apartamentos pois o dele at? que ? arrumadinho e limpinho.

A fantasia vem do pr?dio vizinho? Abandonado h? d?cadas. L? vivem diversas linhagens de monstros do crep?sculo…. Vou fugir desse crep?sculo sen?o v?o pensar que tem vampiro porpurinado no conto? Monstros noturnos, pronto.

Uma aventura solit?ria ou com companhia? Acho que aventuras solit?rias sempre viram meio terror, mas j? t? indo por esse caminho, n??

Tem que ter algu?m com ele? ? uma amizade profunda ou mero conhecido ou conhecida? Ele ? aquele estere?tipo do homem que n?o ? capaz de ser transparente em sua rela??o com mulheres, ? uma disputa de poder em que ele quer us?-la. A maioria das mulheres notam, mas fazem de conta que n?o percebem porque ? assim mesmo e, se quiserem namorar, ter?o que aturar o machismo da sociedade. Outras n?o topam? Hummm? Gabriela, um nome forte. Ela sabe que o Edison ? um merda, mas vai ter que passar pelo que quer que seja ao lado dele? Na verdade ? uma f?rmula bem comum? Como Jack Sparrow e seus aliados. S? que o Jack leva o conceito ao extremo: ego?sta ou no fundo ? bom e companheiro? Deixa o Jack guardado aqui. Edison n?o pode ser t?o bom no que faz, pelo contr?rio, ele ? de mediano para ruim em tudo.

Isso ter? um final feliz? Com Edison descobrindo que afinal ? bom em alguma coisa? Ainda n?o sei.

Para o Edison entrar na aventura ele tem que ser obrigado? J? sei! Se ele n?o fizer alguma coisa ser? incriminado, preso e a? a vida med?ocre dele se tornar? uma vida miser?vel de vez.

[9h01] T? pensando em come?ar o conto para ganhar o tempo perdido? Vou fazer o seguinte, vou acabar tendo uma fome abissal daqui a pouco, ent?o vou comer e depois volto para ir direto[9h02]

[9h27]Enquanto comia fui pensando? N?o vou resumir tudo para ganhar tempo, ok? Uma ideia puxa a outra e o que foi se montando foi o seguinte? Edison conseguiu um emprego como garoto de recados de um empres?rio importante que tem liga??es com o crime mais ou menos organizado da regi?o em que ele mora e o crime organizado dos corredores pol?ticos.

O filho desse empres?rio gosta de pegar mulheres negras, que ele chama de empregadinhas, boas para vadiagem e uma amiga da Gabriela, Josiane, se envolve com ele, iludida pelo glamour e sonhos de mudar de vida, no entanto a Josiane sumiu. Edison foi a ?ltima pessoa a ser vista com ela, se ele n?o descobrir o que aconteceu com ela a coisa toda vai explodir na m?o dele, ou seja, a vida dele que nem come?ou vai terminar de vez depois da pris?o. Mesmo que fossem dias, mas ele ? um z? ningu?m e certamente ficar? l? esquecido nas celas superlotadas com multid?es de outros homens que perderam toda a no??o de justi?a.

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Imagem: Corredor abandonado por Matthias Haker