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Propriedade Intelectual

Raízes da violência: Marco Zero

18th, October 2008

Morte: Shaw McmanusHá meses pretendo escrever uma série de posts sobre as raízes da violência para, entendendo-as, saber como evitar situações de risco, como sair das que não pudermos evitar e, pensando mais amplamente, saber o que devemos esperar e cobrar dos nossos políticos para reduzir a violência ou, o que seria preferível, alimentar uma cultura humanista pela paz.

É uma empreitada complexa para alguém que não tem formação acadêmica específica… Caro visitante casual (90%) este é o momento ideal para avisar que sou um analista de sistemas, consultor em gestão do conhecimento e amante da arte, mas não sou psicólogo, psicanalista, psiquiatra, antropólogo, teólogo ou nada parecido.

Tenho aproveitado toda oportunidade para questionar pessoas com essas formações acadêmicas, mas parece que nenhum deles se dedicou bem aos estudos ou então o nosso conhecimento da mente criminosa e da anatomia do medo e da violência são mesmo muito superficiais e ninguém até hoje havia me indicado bons autores ou livros.

Até agora…

Virtudes do Medo de Gavi de BeckerHoje, com a história de um rapaz que sequestrou e acabou atirando na namorada e na amiga dela, acabei tenho um excenlente papo com a @Maffalda que acabou por me dar 70% do material que vou usar nesse post.

Ainda não será agora que poderei iniciar a série de posts, mas achei meu marco zero: alguns links (online e offline) que servirão de ponto de partida para descobrir o que há de mais sério sobre o assunto.

Vou ter que ler um bocado e convido quem esbarrar nesse post a fazer o mesmo.

Acho revoltante que a mídia faça sempre uma novela em torno de qualquer violência ou ato hediondo, mas nunca nos alimente com informações que nos permitam sair da perplexidade apavorada que nos deixa vulneráveis para a compreensão que nos ajudará a evitar situações de risco ou a lidar melhor com elas em último caso.

O primeiro livro que me trouxeram sobre isso foi Assédio Moral de Marie-France Hirigoyen. Uma amiga querida teve que passar por anos de casamento com um assediador moral e se separar antes de conhecer esse livro. Se o tivesse lido antes não teria que lidar com as sequelas de uma relação tão nociva e assustadoramente comum… É muito provável que você que está lendo esse texto já tenha sido ao menos vítima de tentativas de assédio moral. A propósito, descobri que a bela capa é obra da @s1mone (não, é dela, mas de uma homônima, que coisa…).

O Virtudes do Medo (mais acima) foi a primeira dica da @Maffalda. Na verdade foi praticamente como começou nosso papo, parece que ela leu minha mente pois é exatamente o tipo de livro que eu vinha procurando. Ele contém sugestões de como usar nosso instinto de medo (auto-preservação) em situações urbanas para as quais ele não foi programado. Pela sinopse parece leitura obrigatória para qualquer morador dos grandes centros metropolitanos.

Para quem não pretende gastar dinheiro agora e está com o inglês afiado há o site Stalking Behavior que nos conduz a uma vasta gama de informações.

Capa do livroJá que a maioria dos assediadores são homens nada mais natural que a literatura a respeito favoreça as mulheres. Uma outra sugestão da @Maffalda foi Odd Girls Out que também está disponível em nossa língua com o título Garota fora de jogo: a cultura da agressão oculta nas meninas de Rachel Simmons.

Apesar de não possuir a autoridade de um especialista me atrevo a dizer que, sejam quais forem as raízes da violência moderna o adubo que a alimenta é o medo que germina em nossa incapacidade de compreendê-la a ponto de acreditarmos que os agentes da violência – como o rapaz no sequestro que motivou esse post – são monstros e não humanos… Já disse isso antes e volto a dizer: não há monstros e, enquanto fugirmos da reflexão demonizando as pessoas que praticam atos hediondos estaremos colaborando para perpetuar a violência.

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Curinga, o Filme

25th, July 2008

Ontem fui assistir o filme do Curinga (que chamaram de Batman por motivos comerciais, só pode ser) e vou contar o que achei.

Pode ler o resto do post pois não gosto de escrever spoillers e não vou contar nenhum fato do filme me concentrando mais no que o filme tem a dizer.

A grande pergunta que o filme nos faz é: O que separa você do colapso da sua humanidade e da sua entrega ao caos que pensamos dominar nossa civilização?

É uma pergunta muito perigosa que, na minha opinião, não deveria ser feita por qualquer pessoa, independente da sua idade e, certamente, não por jovens de 12 que acabaram de ler um inócuo Harry Potter. Aliás, não sei se mesmo os jovens notáveis que leram Proust ou Philip Pullman estão necessariamente prontos para este tipo de choque com a realidade…

… Realidade? Não sei se loucuras como a do Curinga acontecem de verdade, mas esta é outra história.

Hoje, quase 24h depois de ver o filme, percebi que há um lado negativo que devemos levar em consideração.

Hollywood é uma máquina de fazer grana. Quando "ela" vê um filme fazer sucesso sai copiando, mas raramente entende realmente onde estava o segredo daquele filme preferindo imitar apenas sua forma. O exemplo perfeito para isso é Senhor dos Anéis que foi seguido por uma infinidade de "filmes de fantasia".

Curinga, digo Batman, se destaca pelo realismo da sua violência psicológica (não tem sangue) e receio que comecem a fazer uma série de filmes imitando. Será que amanhã veremos jovens border line arrancando os próprios dedos em desespero diante de uma vida sem sentido nos filmes para maiores de 12 anos?

Tirando esta ressalva Batman é um dos melhores filmes dos últimos tempos e, sem sombra de dúvida, o melhor inspirado em personagens de quadrinhos.

O ambiente deste filme é o de Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Piada Mortal exceto pelo fato do Curinga ir além de todos os Curingas que já vi nos quadrinhos se aproximando mais de Hannibal e outros "top" psicopatas do cinema. Isso é uma conquista para os fãs mais antigos de Batman que finalmente receberam o filme que, já adultos, gostaríamos de ver.

Outro ponto alto do filme, reforçado pelo excelente elenco, é a profundidade dos personagens e complexidade das suas personalidades e relacionamentos. Não chega a ser um filme a colocar ao lado de Dogville e similares, mas não fica muito longe.

De infantil o filme só tem uma certa bondade essencial do genero humano, mas ela era inevitável diante de um demônio tão pleno quanto o Curinga.

A propósito, não posso deixar de observar que movimentos fundamentalistas se mobilizam (com sucesso) para derrubar a bilheteria de filmes que incitam ao livre-arbítrio como A Bússola de Ouro, mas se calam diante de um outro filme que apresenta um demônio purificado de qualquer sinal de humanidade e nos pergunta o quão distantes ou próximos estamos de nos tornar como ele?

A pergunta no entanto é necessária, aliás, ela é questão de vida ou morte para a nossa civilização. Não falo do fim da civilização, isso não vai acontecer, mas quanto caos ainda produziremos antes de nos dirigirmos para a celebração da vida, da conscência, da arte, cultura e espírito?

Sim, com nossa sede por vingança a cada crime hediondo, escândalo de corrupção e insatisfação dos nossos pueris desejos consumistas estamos mais perto do Curinga do que do mocinho, mais perto do caos do que da ordem.

Ao ter sede de justiça esquecemos do desejo e necessidade de paz e nos entregaríamos facilmente às loucuras do Curinga e à sua visão distorcida da alma humana. Tudo isso está lá no filme, só não direi onde pois, como disse, não gosto de fazer spoillers.

Batman, ou Curinga como passarei a chamar para sempre este filme, é uma obra vital para abrir nossos olhos apesar de nos revelar um mundo perigoso.

Ao contrário de alguns movimentos fundamentalistas creio que o caminho do amadurecimento não é ignorar o questionamento, deixar de ver o trem que vem a caminho, mas encará-lo fixamente para conhecer suas arestas e pontas afiadas e saber como evitá-las ou transformá-las em algo que nos ajude a ser melhores hoje do que fomos ontem.

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Violência e jogos como CS e EQ

23rd, January 2008

Resolvi me manifestar em relação à proibição da comercialização dos jogos Counter Strike e Ever Quest.

Segundo me informaram o email da Vara que tomou esta decisão que tem abrangência nacional é 17vara@mg.trf1.gov.br. Mandei a sequinte mensagem para lá.

Saudações,

Parece-me que partiu desta Vara a decisão de proibir dois jogos de computador e o fato me preocupa.

Em primeiro lugar, ao meu ver, demonstra o total desconhecimento do que tem alimentado a violência em nossa civilização e, combatendo a fonte errada, deixa-se de lado as verdadeiras raízes da violência que, mais uma vez em minha opinião, tem mais relação com a falta de objetivos humanos elevados (tão raros em uma sociedade centrada no consumo), na manipulação das massas para usá-las como instrumento de disputas comerciais alimentando a intolerância entre culturas a fim de sustentar conflitos.

Em segundo lugar haveria de se manter a coerência proibindo TODOS os jogos de guerra ou violentos que talvez representem 90% do mercado. Mas que não se proibisse somente os jogos, mas também toda expressão cultural, artística, esportiva (várias lutas olímpicas) ou religiosa que seja usada como justificativa para a violência. A propósito, as religiões deveriam então ser banidas já que certamente superam todas as demais justificativas para a violência?

Há uma razão para não tomarmos uma iniciativa tão radical: estas manifestações supostamente violentas não são causa, mas reflexos de uma civilização violenta. Elas são necessárias até para que tenhamos uma via para a catarse da violência a que somos submetidos diariamente nas páginas de jornal, no noticiário e nos fatos políticos que nos fazem sentir impotentes e usados.

Em terceiro lugar, estes jogos que são jogados em grupo são uma chance de socialização para jovens que, de outra forma, trilhariam o estreito corredor da solidão onde toda a realidade é moldada por uma única mente, a do jovem. E se esta mente não é saudável ele é mais facilmente cooptado pela esquizofrenia ou meramente por uma neurose que pode assumir dimensões catastróficas.

O que estou dizendo é que, ao proibir formas de socialização e liberação da violência (principalmente sem acabar com suas causas) pode ter um efeito contrário atirando jovens que poderiam encontrar alívio e apoio para os seus problemas tornando-se bons cidadãos em um curso de pensamentos que culminará com a sua desintegração social.

Tenho certeza que, se vocês consultarem psiquiatras, psicanalistas e psicólogos de renome a respeito disso haverá um consenso entre eles muito semelhante ao que eu disse embora não seja profissional da área, mas apenas um adulto que conversa muito com as crianças da família e entende como elas lidam com estes jogos.

Obrigado pela atenção.

Atenciosamente,

Roney Belhassof

Para quem mais será que vale a pena enviar?

Estou me lixando para os jogos, mas realmente acho preocupante que enfrentemos as coisas erradas… Assim a gente não sai do lugar!

Resolvi acrescentar um links úteis.

 

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Violência contra a mulher: olhando o próprio rabo…

10th, December 2007

Não sei se o vídeo é verdadeiro, não acredito em nada sem as devidas provas, mas não me pareceu absurdo.

Vão me crucificar então preciso dizer que sou contra qq tipo de violência. Sou contra o nosso sistema presidiário, contra castigar crianças, contra até a discursos inflamados.

Apesar disso o vídeo me pareceu um avanço se for verdadeiro.

Uma sociedade que admite a pena de morte por apedrejamento que passa a pregar a moderação da violência (não causar sangramento, fraturas etc.) vai a caminho de práticas mais humanas.

Me preocupa mais o Brasil que agora tem vagões exclusivos onde as mulheres podem se esconder na hora do rush em vez de haver punições reais para os assediadores.

Me preocupa a crescente sede de vingança e tortura para os criminosos que se armam com o fogo ou a corrupção.

Tenho receio que estejamos revoltados com vídeos como este porque é para lá que nos dirigimos enquanto eles talvez estejam se afastando destas violências.

Achei este vídeo aqui no blog Mídia Árabe

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De luto por João

10th, February 2007

As Fúrias Recebi por email um convite a observar luto pelo pequeno João no dia 13 próximo.

Já havia decidido falar sobre isso aqui então resolvi aproveitar a minha resposta ao email. Aqui vai ela. 

Creio que um dia de luto não mudará nada. Uma semana de luto também não.

Um mês de luto quebrará nossos espíritos pois este luto de certa
forma não é pelo menino que foi assassinado com chocante indiferença, é
um luto pelo colapso dos mais básicos sinais de humanidade. É um luto
que nos conduz ao desespero.

Quando vemos o descaso com as leis já que reina a impunidade estamos diante de um problema que pode ser resolvido pela lei.

Quando estamos diante de pessoas que arrastam uma criança por
kilômetros sem o menor sinal de consciência não estamos diante de um
problema que pode ser resolvido pelas leis, estamos diante de um sério
sintoma de doença social.

Um câncer. Este crime é como um tumor causado por um câncer
generalizado e atacá-lo com aumento de penas e rigidez das leis é como
esperar que os tumores apareçam para tirá-los.

O câncer é a doença do ódio e apenas com o desenvolvimento de um espírito
capaz de compreender e sublimar o ódio é que podemos realmente
curá-lo. Do contrário nossa vida se limitará à espera da morte enquanto
arrancamos com mais ódio os tumores que afloram.

Temo que estejamos longe deste tipo de compreensão e, ao ver um crime revoltante como este, levantemos bandeiras como esta:

É preciso que nós, brasileiros, que pagamos impostos e cumprimos com nossas obrigações, tenhamos leis que nos favoreçam e não os bandidos

Alimentando o ódio que separa as pessoas em dois grupos: as boas que pagam impostos e as más que não pagam.

Embora eu nem mesmo seja cristão duvido que exista dois tipos de
humanos. Paguem impostos ou não, cometam crimes ou não, são humanos; mesmo que demonstrem um comportamento desumano…. Dividir os humanos
em dois tipos de humanos, seja brancos e negros, de bem ou de mal,
também é desumano.

Estamos, portanto, diante de duas desumanidades. Uma de pessoas como os
que arrastarm o pequeno João por 4 quilômetros, outra que nos leva a
ignorar a doença social que acomete a humanidade tentando escondê-la
com o rigor da lei e demonização dos fascínoras.

Demonstrar nossa indignação e manter luto é fácil, mas temo que apenas
alimente ainda mais o câncer que nos atingiu. O câncer do medo, do
ódio, da indiferença.

Acredito que, se desejamos um mundo sem este tipo de violência temos
que arregaçar as mangas e, diariamente, buscar os remédios para o nosso
mundo em vez de maldizer suas mazelas.

  • Temos muita poluição, digamos sim ao consumo consciente, à simplicidade voluntária e a hábitos mais saudáveis;
  • Temos muita violência então digamos sim à busca de aprimoramento
    pessoal no lugar da busca pelo prazer, à justiça social para quem paga
    e quem não paga impostos, à cultura, à arte e à compreensão de que, a
    despeito de tudo, somos todos igualmente humanos;

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