Quando a violncia senta sua mesa…

Imagem: Rob Bye

Eu pretendia no falar no homem que matou a ex-esposa, o filho e vrios parentes da ex-esposa (10 pessoas) na noite de rveillon.

O principal motivo que infelizmente a publicidade desses casos acaba por estimular outros. Principalmente em uma sociedade visivelmente misgina.

E foi esse o motivo que me fez escrever: a sociedade, ou seja, voc e eu, precisamos enxergar que a misoginia um problema muito srio em nossa cultura.

Alm disso achei um bom artigo que deixa claras duas coisas importantes:

  1. O assassino era um homem comum. Do tipo que passa vrias vezes por suas timelines ou senta sua mesa com frequncia.
  2. O assassino um exemplo de fracasso.

Leiam o texto da Carol Patrocnio: Violncia nunca sobre amor: dissecando a carta do assassino de Campinas. Leiam tambm, escrito por um homem, Chacina de Campinas: Ns, homens, precisamos discutir nossa masculinidade, por Roberto Tardelli.

Quando ocorrem eventos como esse nosso impulso natural entender e julgar o assassino e as demais pessoas envolvidas como as vtimas, os amigos do assassino que no o impediram.

Infelizmente isso no mudar o quadro geral pois acabamos demonstrando que “aquele homem era um monstro” e deixamos de perceber que o grande problema que ele usou a aceitao que nossa sociedade tem para justificar seus atos.

Voc no precisa ler a carta para saber o que ele escreveu. So as mesmas coisas que voc v sendo repetidas na rua ou online e so recebidas com risadas ou at com aprovao.

O grande problema que um homem no precisa ser louco para fazer o que o assassino da vez fez. No precisa ser um psicopata.

muito desagradvel se sentir responsvel, mas toda vez que alimentamos a cultura que diminui a mulher e lhe atribui esteretipos estamos alimentando algum como o assassino da vez.

Se voc homem coloque a mo na conscincia e pense quantas vezes voc foi agressivo com uma mulher de uma forma que no seria com um outro homem… Ao que parece 56% de ns dizem j ter xingado, humilhado ou forado uma mulher a fazer sexo, mas apenas 16% admitem que j foram violentos.

O assassino um horror, mas a violncia que naturalizamos devia nos assustar muito mais.

Talvez voc jamais seria violento, mas como eu posso saber disso? Como as mulheres prximas a voc podem saber disso? Outros homens se sentem constrangidos ao serem sexistas perto de voc?

Eu j fui violento com mulheres de formas que no seria com homens e garanto que a grande maioria das pessoas que me conhecem se surpreende quando digo isso pois sou visto como um exemplo de calma e respeito.

Sou mesmo.

No entanto vivo em uma cultura que objetifica e reduz a mulher a esteretipos. Diariamente preciso me questionar, observar meus pensamentos e sentimentos para descobrir sexismo em mim.

Para ficar mais fcil entender: procure passar uma semana sem falar em Deus. “V com Deus”, “Deus me livre”, “Graas a Deus”, “Ai, meu Deus”. Depois tente observar quantas expresses voc usa que diminuem as mulheres.

E isso sequer a pior parte. Essa apenas a parte mais fcil de mudar. Pequenos costumes lingusticos e culturais.

Ningum quer ser visto como uma ameaa em potencial… Bem, ningum saudvel. No entanto, ainda esses dias estava vendo o canal de uma brasileira morando na Dinamarca e lembrei de ouvir o mesmo comentrio de vrias amigas que moram ou viajam por outros pases: “Aqui tem machismo, mas claro que no ando na rua de noite com medo de encontrar sozinha com um homem”.

Podemos fixar isso como primeira meta e francamente depende mesmo de ns, homens, mudar nossa atitude para que nossa sociedade chegue a um patamar onde as mulheres no tenham medo.

E comea por reconhecer que o discurso do assassino da vez em suas cartas exatamente o mesmo que lemos e ouvimos todo dia vindo dos nossos… amigos.