Boas e más razões para morrer logo
18th, April 2008
… e ai eu morri!”
O sorriso dela quando dizia “i” era impressionante, mesmo quando encerrava uma história como aquela. A história da morte dela.
O dia estava ensolarado, mas fresco graças à brisa de outono e aos borrifos do chafariz próximo onde passarinhos coloridos corriam atrás do milho atirado por crianças e babás.
Ela estava vestida de preto e tinha o rosto fantasmagoricamente branco, mas fora isso era uma visão de juventude e alegria. Ele só não entendia porque sentia um aperto no peito e uma obscuridade esquisita ao seu redor mesmo não havendo nuvens no céu.
Ele queria morrer.
Vai ver a moça inventou a tal história de como ela se matou para mostrar aos outros que realmente estava deprimida para lhe dar alguma lição, talvez fosse algum tipo de anjo inesperado que diz exatamente o que devia mesmo sem saber.
Não deu certo. Ele queria morrer.
Para falar a verdade ele nem sabia bem porque queria morrer. Era só uma idéia fixa, como quem diz “sou louco para ir à Europa”. Ele estava louco para morrer.
Sua vida não era sem graça. Tinha problemas horríveis como qualquer um afinal parece que todo mundo tem um assassinato na família, milhões de dívidas, casou com a pessoa errada, tem uma doença cruel, só recebe desprezo dos filhos, traições dos amigos ou azares da vida. Alguns tem todas essas coisas. Nem todos se encantam pela morte.
As pessoas tem reações diferentes… Algumas viram manequins incapazes de lembrar além da última noitada, umas viram fanáticas eufóricas, outras se enrigecem e deixam de sentir. Ele tem vontade de morrer.
De morrer…
Ali no meio da praça cheia de vida, sentado com uma linda, alegre e pálida moça morta sua mente começa a divagar a respeito das formas de morrer logo, depois em razões para morrer logo.
É… Sabedoria popular uma ova! Muitas vezes a esperança morre muito antes das possibilidades de mudança. Quem disse que a voz do povo é a voz de Deus?
No caso dele não se trata de desesperança, ele não tem olhos para isso, é que sua vida não parece fazer muito sentido vivo e talvez faça algum sentido depois do martírio. Como todos aqueles santos e Jesus Cristo.
Ele tem que morrer para mostrar para eles!! Não foi a mesma coisa que a moça disse? Estranho…
Mais estranho é pensar que ele está cheio de idéias, possibilidades, sonhos e projetos que jamais realizará porque nada nele parece ter mais valor do que dar uma lição para eles e mostrar que há mais na vida do que eles pensam! E vai ver que eles nem são capazes de pensar em tudo isso.
Uma bola rola diante dele, é vermelha e laranja. Um cachorro passa atrás dela e logo depois uma menina aos tropeços rindo e dizendo “Não deixa cair no lago, Pepita!!!”
Pipoca. Ele tem vontade de comer pipoca.
Vira-se para perguntar à moça morta se ela aceita um saquinho, mas ela já não está mais lá e ele nem a viu sair. Bem, não a tinha visto chegar também.
Levantou-se e foi buscar uma pipoca, talvez desse um pulo no cinema depois e ligasse para o…
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Efêmera. Efêmera. Dor…
8th, February 2008
Hoje o dia virou do avesso sem aviso e há de se falar com muito cuidado sobre ele pois a efemeridade da vida, de todas, é a mais difícil questão humana. Mais do que a fé, mais do que o medo ou o ódio que impulsionam o preconceito, o orgulho e tantas outras qualidades humanas tão desumanas.
A dor da perda do primo que, pouco mais velho, nos ensina sobre a essência da vida contida no prazer do Rock&Roll, no sabor achocolatado de uma piada boba e no sentido da vida autocontido na própria vida: a vida é o sentido da vida.
A dor da perda do filho, do pai, do tio, do marido, do amigo de tantas histórias, de tantas piadas, de tantas tardes mornas, de festas e, claro, de sofrimentos também. É um que se vai, mas são muitos os que partem com ele.
Essa dor é para ser comentada com muito carinho em respeito dos que agora carregam a saudade.
Ainda carrego a minha.
Lá estava o conforto da fé, das orações e cânticos, das palavras do padre, do pedido solitário a Deus "Forças!", mas o abraço forte que realmente aliviava a dor eram os olhos firmes dos parentes e amigos que vieram em socorro uns dos outros, talvez uma centena, reunidos em poucas horas na dor repentina.
Sinto orgulho de ter me juntado a essa família. De todas as coisas a que mais me impressiona é o espírito humano, essa determinação e capacidade de amar. Tenho certeza de que o primo também se orgulha da família que se inspirou nele para encontrar o amor necessário para um dia como este.
A imagem acima é o pássaro da felicidade de Carol Grigg.
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