Depois do medo
16th, April 2008
- Se você pudesse nomear um sentimento que está por trás de todo mal que acontece, seria o medo! Já achei que era o orgulho, mas orgulho é só medo de se sentir pequeno, né?
Não
Olhei para ele esperando algo mais além de um lacônico NÃO… Nada!
Nós dois andávamos rápido entre as sombras iluminadas pela luz amarela dos postes acima das árvores. Era uma ruazinha do Humaitá onde umas frutas fedorentas se espatifam no chão.
Como se nada de importante tivesse acontecido ele continuou caminhando absorto em idéias como se eu tivesse apenas perguntado se já era naquela rua que morava a fulana. Parei! Indignado!
- Espera um minuto! Como assim não? Somente não e mais nada!?
“A gente está atrasado”, “Você quer mesmo dar toda essa importância a isto?”, “Você sempre se esquenta assim por besteiras?”
Tudo isso estava no olhar ao mesmo tempo divertido e irônico dele. Estava claro que me considera uma criança com teorias infantis.
- Cara, você não dá nenhuma importância a se perguntar estas coisas? Tipo de onde vem os problemas todos que a gente enfrenta hoje em dia?
Ele me perguntou se eu tinha fogo - tinha um cigarro de palha sem filtro entre os dedos - Se encostou em um muro e ficou esperando.
Finquei pé! Ora! Só porque ele acha que é um tipo de ser mítico que nunca foi primitivo como os humanos não lhe dá estes direitos de fazer pouco da minha suada filosofia!
Calmamente me perguntou se eu estava lembrado do pare de olhos verdes e do brilho do par de olhos escuros que nos esperavam algumas quadras adiante.
Cerrei os lábios e se pudesse teria criado raízes no chão para ele não poder me arrastar dali nem a golpes do florete que ele gosta de carregar.
- Tá bom… Tá bom… Roney, meu caro, vocês tem medo porque se preocupam demais com o passado que não podem mudar e com o futuro que talvez nunca virá entre outras coisas, afinal nada é tão banal que tenha apenas uma causa, nada é tão complexo que tenha mais do que oito. Agora vamos ver as gatas!
E lá se foi ele saltando de uma sombra para outra esguio e quase invisível deixando-me com as minhas raízes praguejando contra as tolices que ele diz.
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Cantigas de Ninar
6th, February 2008
Recebi mais uma vez um texto fazendo crer que a crueldade das nossas cantigas de ninar são parcialmente responsáveis pelo estado em que o Brasil está hoje.
Bem, isso não faz qualquer sentido. Primeiro que as nossas cantigas são quase todas importadas de Portugal e lá não está tão mal. Segundo que praticamente todas as culturas submetem suas crianças a terríveis cantigas e fábulas.
Apesar de estarmos à beira da era do conhecimento ainda temos uma tendência a receber e aceitar o que nos é "ensinado" pelos textos e opiniões que nos transmitem. É muito importante que nos perguntemos sempre "Será mesmo?" Ainda que faça muito sentido. É claro, quando alguém defende um ponto o faz com algum sentido e omite o que não faz sentido em sua teoria por desonhecimento ou má fé. Mas este post não é sobre com lidar com as informações no século da informação.
A questão é: As cantigas que falam sobre dor, medo, raiva, perda, decepção, preconceito e violência são ruins para as crianças?
Muita coisa do passado já não se aplica no presente, não há dúvida disso, mas criar um universo de fábulas e cantigas infantis que produzam a ilusão de um mundo de harmonia será o suficiente para que estas crianças dissolvam no futuro a entropia em que acreditamos viver? Duvido.
A minha opinião é que é saudável viver na fantasia as situações que viveremos um dia de verdade como a perda de um amigo para a morte, a rejeição no amor ou o preconceito. Mas não vamos ficar com a minha opinião apenas. Vou pesquisar alguns especialistas e colocar abaixo o link para artigos deles.
O que seria então um bom conto de fadas ou cantiga infantil moderna?
Bem, temos Stardust de Neil Gaiman, o Triste Fim do Menino Ostra e a Maldição da Moleira são bons pontos para começar a refletir a respeito das boas histórias para crianças.
Eles ainda são terríveis em alguns aspectos, ainda lidam com realidades que nos incomodam, mas há um novo tom.
Em primeiro lugar são… menos infantis. Sim, apresente a uma criança de 8 anos as histórias ou mesmo desenhos que a geração anterior adorava nesta idade e elas em geral acharão tudo muito ingênuo. A quantidade exponencialmente maior de informação tem amadurecido nossas crianças muito mais rapidamente.
Em segundo lugar há princípios de moral hoje que eram imorais ontem e realmente há princípios de moral de ontem que são profundamente imorais hoje. Isso também deve mudar.
No entanto não devemos descartar o potencial dos contos de fadas, fábulas e cantigas de ninar como instrumento para preparar as crianças para o que elas inevitavelmente viverão no futuro.
Lembro bem do medo que tinha do boi da cara preta e como isso me ajudou a enfrentar o medo quando deparei com ele em situações reais.
Para ler:
Referências
- Cantigas e brincadeiras de roda na musicoterapia
- O que explica a violência nos jovens de classe média?
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