A Viagem de Chihiro e outras fábulas de Hayao Myazaki
15th, June 2008
Apesar de ser de 2001 nunca falei aqui nas fábulas fantásticas de Hayao Miyazaki das quais A Viagem de Chihiro se não é a mais famosa talvez seja a que agrada a gostos mais diversos.
É uma pena ver estas obras sumindo do mercado brasileiro. Notei que hoje você só pode comprar a saga da corajosa Chihiro junto com Blink Bill, o Ursinho Travesso (que não conheço, mas soa estranho ao lado de Chihiro) lá no Submarino.
A Livraria Cultura tem a capa original, mas informa que a publicação está cancelada:
Cada obra de Miyazaki aborda um tema essencial.
Em A Viagem de Chihiro estamos diante da responsabilidade e do amadurecimento de uma menina pré-adolescente que se vê em um mundo mágico cheio de regras que ela não compreende e seus pais não são capazes de dominar pois… Bem, eles são seduzidos pelos apelos consumistas por assim dizer. Não vou falar mais para não atrapalhar o prazer do filme.
Já disse outras vezes que a arte que eu mais gosto é aquela que me diz algo e não há dúvida que as fábulas de Miyazaki são assim! Mas nem tudo que nos diz algo é arte (nem toda arte diz algo) e nem sempre o que nos faz refletir ou nos prepara de alguma forma para o mundo é boa arte (não me atrevo a revelar o primeiro exemplo que me ocorre!) como é o caso de Babylon 5 cujo valor artístico… bem… Não sei se tem valor artístco
Miyazaki não se satisfaz em ter conteúdo, ele faz arte de qualidade.
O cuidado que ele tem na construção do ambiente mitológico e da fluidez das suas animações é algo que só os especializados nisso podem explicar.
Antes de Chihiro (1997) houve Princesa Mononoke onde a questão ecológica (que passa ao largo em Chihiro) é o tema central.
Em 2004 ele nos trouxe o Castelo Animado que é uma sobre amor. A gente anda muito confuso sobre o amor. Muita gente ainda acha que ciúme é demonstração de amor e não de possessividade e… Veja o filme
Há uma coisa que me agrada muito em O Castelo Animado: ele parece estar em sintonia com uma visão entre um tipo de visão neo-ultra-romântica e uma contemporânea do amor puro e impossível contra o qual todas as forças lutam e que não pode se realizar. Ele está em Philip Pullman, em seriados adolescentes, em Neil Gaiman e, claro, em literatura mais séria como… A Menina que roubava livros, talvez…
Em minha humilde opinião estes deviam ser os filmes da infãncia dos jovens que terão a tarefa de consertar os erros das gerações passadas e não, me desculpem, os Harry Potter, Homem Aranha, Shrek e similares (apesar destes filmes não terem nada de similar).
Se queremos dar o melhor aos nossos pequenos humanos temos que prepará-los para o mundo e não distraí-los dele, afinal o mundo chegará de qq forma.
Conheça mais sobre Hayao Miyazaki na Wikipedia.
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Cantigas de Ninar
6th, February 2008
Recebi mais uma vez um texto fazendo crer que a crueldade das nossas cantigas de ninar são parcialmente responsáveis pelo estado em que o Brasil está hoje.
Bem, isso não faz qualquer sentido. Primeiro que as nossas cantigas são quase todas importadas de Portugal e lá não está tão mal. Segundo que praticamente todas as culturas submetem suas crianças a terríveis cantigas e fábulas.
Apesar de estarmos à beira da era do conhecimento ainda temos uma tendência a receber e aceitar o que nos é "ensinado" pelos textos e opiniões que nos transmitem. É muito importante que nos perguntemos sempre "Será mesmo?" Ainda que faça muito sentido. É claro, quando alguém defende um ponto o faz com algum sentido e omite o que não faz sentido em sua teoria por desonhecimento ou má fé. Mas este post não é sobre com lidar com as informações no século da informação.
A questão é: As cantigas que falam sobre dor, medo, raiva, perda, decepção, preconceito e violência são ruins para as crianças?
Muita coisa do passado já não se aplica no presente, não há dúvida disso, mas criar um universo de fábulas e cantigas infantis que produzam a ilusão de um mundo de harmonia será o suficiente para que estas crianças dissolvam no futuro a entropia em que acreditamos viver? Duvido.
A minha opinião é que é saudável viver na fantasia as situações que viveremos um dia de verdade como a perda de um amigo para a morte, a rejeição no amor ou o preconceito. Mas não vamos ficar com a minha opinião apenas. Vou pesquisar alguns especialistas e colocar abaixo o link para artigos deles.
O que seria então um bom conto de fadas ou cantiga infantil moderna?
Bem, temos Stardust de Neil Gaiman, o Triste Fim do Menino Ostra e a Maldição da Moleira são bons pontos para começar a refletir a respeito das boas histórias para crianças.
Eles ainda são terríveis em alguns aspectos, ainda lidam com realidades que nos incomodam, mas há um novo tom.
Em primeiro lugar são… menos infantis. Sim, apresente a uma criança de 8 anos as histórias ou mesmo desenhos que a geração anterior adorava nesta idade e elas em geral acharão tudo muito ingênuo. A quantidade exponencialmente maior de informação tem amadurecido nossas crianças muito mais rapidamente.
Em segundo lugar há princípios de moral hoje que eram imorais ontem e realmente há princípios de moral de ontem que são profundamente imorais hoje. Isso também deve mudar.
No entanto não devemos descartar o potencial dos contos de fadas, fábulas e cantigas de ninar como instrumento para preparar as crianças para o que elas inevitavelmente viverão no futuro.
Lembro bem do medo que tinha do boi da cara preta e como isso me ajudou a enfrentar o medo quando deparei com ele em situações reais.
Para ler:
Referências
- Cantigas e brincadeiras de roda na musicoterapia
- O que explica a violência nos jovens de classe média?
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