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A ilusão da razão

10th, August 2008

"… nada além de capsulas evolutivas para os gens que constroem nossa aparência e dos memes que criam a ilusão da nossa consciência! É o que somos!"

Cobal do Humaitá terça à noite, meio chuvoso e portanto só um pouco cheia.

Estou sentado ao lado do meu velho amigo Roney, mas não é sempre que ele consegue me perceber e hoje é um dos dias de cegueira. Melhor assim pois saboreio mais à vontade meu chopp escuro e observo outra Gata da minha espécie andando de patins sem que os humanos a percebam.

Humanos tem este problema, eles só enxergam o que querem. E o fato de que nós felis trancendentus somos a raça mais evoluída do planeta é algo que eles não querem enxergar.

Isso não importa, tem tantas coisas óbvias que os humanos deixam de ver e tantos absurdos que lhes parecem óbvios por séculos que alguns Gatos invisíveis não chegam a ser de grande relevância.

Estes dois na minha mesa (é, eu estava nela antes deles chegarem, uma falta de respeito) tão compenetrados no que acham sério e nem percebem como as coisas são simples.

Não vou explicar como funcionam os Memes! A graça está em vocês descobrirem sozinhos! Até que não estão indo muito mal não…

 

Só é uma pena que, preocupados com estas coisas perca-se a moça morena de roupa de couro passando logo ali indo para uma boate, o cineasta risonho que se escangalha de rir de uma piada boba, os três amigos consolando o outro que levou um pé na bunda e, 20 metros mais para lá outros três amigos apoiam a moça que deu o pé na bunda!

Em uma coisa o menino aqui deste blog estava certo, a vida é um mosaico maravilhoso de coisas fantásticas! Umas são corriqueiras outras inacreditávies, mas todas igualmente fantásticas! Quando vocês perceberem isso estarão a caminho se ser com nós…

ass.: Gato de Botas

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Depois do medo

16th, April 2008

- Se você pudesse nomear um sentimento que está por trás de todo mal que acontece, seria o medo! Já achei que era o orgulho, mas orgulho é só medo de se sentir pequeno, né?

Não

Olhei para ele esperando algo mais além de um lacônico NÃO… Nada!

Nós dois andávamos rápido entre as sombras iluminadas pela luz amarela dos postes acima das árvores. Era uma ruazinha do Humaitá onde umas frutas fedorentas se espatifam no chão.

Como se nada de importante tivesse acontecido ele continuou caminhando absorto em idéias como se eu tivesse apenas perguntado se já era naquela rua que morava a fulana. Parei! Indignado!

- Espera um minuto! Como assim não? Somente não e mais nada!?

“A gente está atrasado”, “Você quer mesmo dar toda essa importância a isto?”, “Você sempre se esquenta assim por besteiras?”

Tudo isso estava no olhar ao mesmo tempo divertido e irônico dele. Estava claro que me considera uma criança com teorias infantis.

- Cara, você não dá nenhuma importância a se perguntar estas coisas? Tipo de onde vem os problemas todos que a gente enfrenta hoje em dia?

Ele me perguntou se eu tinha fogo - tinha um cigarro de palha sem filtro entre os dedos - Se encostou em um muro e ficou esperando.

Finquei pé! Ora! Só porque ele acha que é um tipo de ser mítico que nunca foi primitivo como os humanos não lhe dá estes direitos de fazer pouco da minha suada filosofia!

Calmamente me perguntou se eu estava lembrado do pare de olhos verdes e do brilho do par de olhos escuros que nos esperavam algumas quadras adiante.

Cerrei os lábios e se pudesse teria criado raízes no chão para ele não poder me arrastar dali nem a golpes do florete que ele gosta de carregar.

- Tá bom… Tá bom… Roney, meu caro, vocês tem medo porque se preocupam demais com o passado que não podem mudar e com o futuro que talvez nunca virá entre outras coisas, afinal nada é tão banal que tenha apenas uma causa, nada é tão complexo que tenha mais do que oito. Agora vamos ver as gatas!

E lá se foi ele saltando de uma sombra para outra esguio e quase invisível deixando-me com as minhas raízes praguejando contra as tolices que ele diz.

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Vista sua couraça

5th, December 2007

Coitado do cara, olha, vão evangelizar ele… Tá vendo alí? Um rapaz e uma moça com Bíblias na mão…

Olhei e vi o quiosque cercado de cadeiras, fazia um calor horrível na praia, mas a atmosfera parecia meio fosca como se fosse um dia frio. A atmosfera anda estranha.

Lá estava o cara sentado, meio refestelado para ser mais preciso. Olhava displicentemente para as ondas e a movimentação na areia.

“Não é um cara” eu informei para o meu amigo que me olhou com as sobrancelhas cerradas que já diziam sem palavras que ele estava me achando meio louco. É claro que era um cara ali sentado-refestelado na cadeira. Mas não era, eu logo o reconheci. Pobres religiosos…

“O senhor precisa se vestir da couraça de Deus Irmão!”

Sem olhar para eles o cara mostrou uma cadeira convidando-os a sentar.

“Tá vendo ai na areia irmão? Tudo perdição, tudo pouca vergonha! Aqui na Bíblia está tudo explicadinho como esse pessoal todo vai pro inferno, o senhor não vai querer ir para o inferno!”

“Ainda não tinha pensado nisso… Inferno, né?” Agora ele fitava os dois com o olhar curioso de um cão esperando pelo biscoito, ou talvez um gato prestes a caçar seu novelo de lã. “Como se veste a couraça de Deus?”

“Ah! O senhor precisa aceitar que ele morreu na cruz para nos salvar! Jesus Cristo, nosso Deus! Ele se ofereceu em holocausto para nos livrar de todos os pecados do passado e do futuro!”

Só então notei que ele tinha um coco na mão. Sugou um pouco da água lá de dentro e continuou… “E depois, faço o quê?”

“Isso é o mais maravilhoso, irmão! Mais nada! Basta aceitar Jesus como seu salvador e evangelizar outras pessoas! Quem honrar em voz alta o nome do nosso senhor será salvo! Afinal não é por nossas obras, mas pela graça do Senhor que somos salvos!”

“Sei… Não adianta ser bom? Certo? Se for mal e aceitar de coração que Jesus morreu para pagar pelos meus pecados então estou livre? É assim?”

“Isso irmão!”

Ele colocou o coco de lado olhou para eles e disse que então estava bem, que ele na verdade nunca teve dúvida que Jesus tinha se oferecido em sacrifício para pagar pelos pecados do mundo.

Parecia uma criança brincando com os amigos. Tchau! Vão com Deus! E lá foram os evangelistas todos felizes!

Achei aquilo uma afronta! Fui sentar ao lado dele, meu amigos sem entender nada.

“Sacanagem! Comigo você vem cheio de marra! E com os caras você é todo simpático? Eu sei que você não acredita em nada daquilo!”

Sei lá como o coco dele estava de volta à sua mão cheio e soltando fumacinha de tão gelado. Fico esperando ele dar satisfações.

“Você sabia que a melhor coisa para o mundo moderno é a injustiça social e os políticos ditos corruptos?”

“Hã? Tá maluco??” Tenho vontade de pular no pescoço dele, mas sei que não teria a menor chance.

“Viu? Você também não está pronto para certas verdades! Pode beber o resto…”

Ele me deixa com o coco na mão e se envolve em um jogo de volei com umas meninas. Dou uma bicada e nem me surpreendo ao notar que é um vinho branco de raro sabor.

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Pequeno passeio na quinta

2nd, December 2007

Cubo de 5 dimensões

Não tem estradas, ruas, calçadas, becos, postes, casas, edifícios ou qualquer sinal de civilização.

… Civilização é construir prédios?

De qualquer forma alí estava a multidão de pessoas circulando para todos os lados! Umas comiam conversando animadamente, outras compravam e vendiam coisas ou então assistiam outro grupo que parecia representar uma peça. Tinha tudo que uma cidade tem, menos a cidade.

Fiquei ali sentado sobre um tronco observando confuso enquanto o amigo que me levou até ali saltava de uma pedra a outra se equilibrando com facilidade e, de vez em quanto, me olhava e ria.

Toda aquela gente tinha que morar em algum lugar! Droga, elas tinham celulares, pdas e até notebooks, em um canto qualquer tinha que haver prédios! Mas não tinha.

Quando anoiteceu acompanhei um grupo de jovens - eles sempre se deixam seduzir mais facilmente pelos cheiros da metrópole - até que chegaram em suas… como chamar aquilo? Não eram casas, mas algo que parecia um espaço de troncos e folhas aleatoriamente entrelaçados. Só depois de observar com atenção dava para notar alguma intenção por trás daquilo. Como se a floresta tivesse decidido acatar os pedidos de alguém para criar-lhe uma casa adequada a humanos.

“Sabe qual é o problema de vocês da Terra no século XXI? Uma certa ‘curtez’ de pensamento! Hahahahaha!”

Meu caro amigo me aguardava para mostrar o caminho de volta à minha orgulhosa civilização tão cheia de dogmas e certezas.

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