Dorothy tem que morrer – resenha sem spoilers

Imagem: Material promocional

É sério, pode ler sem medo pois sou bem chato com spoilers e só falarei da qualidade dos personagens, da história e da narrativa, mas já adianto que é uma saga que você precisa ler!

Vamos à sinopse: Amy Gunn é uma jovem de 16 anos com uma vida nada agradável que vai parar no mundo de Oz levada por um tornado. Ao chegar lá Oz não é o que você poderia esperar que fosse e, como diz o título, Dorothy tem que morrer.

A edição nacional é da Rocco com tradução de Cláudia Mello Belhassof e está realmente boa.

Trata-se, naturalmente, de uma distopia em que a heroína terá que enfrentar grandes poderes e atravessar a jornada da heroína para superar os grandes desafios que terá pela frente ao longo da saga.

É bom dar logo o alerta de que são vários livros, certo? Então a história não termina no primeiro, muito embora não seja um daqueles finais decepcionantes que nos deixa sem qualquer sensação de progressão.

Aliás esse é um dos primeiro pontos que me chamaram a atenção e me fez colocá-lo no todo das distopias jovem adulto.

Vemos claramente a jornada da Amy (a narrativa é em primeira pessoa) de uma adolescente mais ou menos comum para uma pessoa cada vez mais madura. E é uma jornada convincente. Em muitas obras a heroína (ou herói) se transforma repentinamente como se amadurecer fosse fácil, como se bastasse um dia especialmente feliz ou triste.

Claro que não mergulhamos muito a fundo nos outros personagens já que a narrativa é em primeira pessoa, mas assim mesmo eles são muito palpáveis, reais e com várias camadas. Acho que você se encantará logo de cara, por exemplo, com a Índigo.

Alguns personagens são naturalmente enigmáticos, como Pete, mas tenho certeza que eles irão se descortinando ao longo das outras partes da saga.

A propósito temos aí um terceiro ponto muito bem trabalhado na obra (mas estou deixando o melhor para o final): assim como você ou eu não sabemos exatamente o que passa pela cabeça dos outros e não temos como confiar ou desconfiar em estranhos, Amy também se vê cercada de pessoas que talvez estejam com ela, mas talvez não.

No entanto, contrário de muitas distopias jovem adulto que tenho lido, essas regiões difusas de confiança ou desconfiança são verossímeis e naturais.

O que temos, você deve estar notando, em Dorothy tem que morrer é uma narrativa muito adulta apesar de falar para jovens adultos.

Vejo em Amy a têmpera das novas heroínas que começam a se fortalecer agora na segunda década do século XXI. É como Rey de Guerra nas Estrelas para citar uma das mais conhecidas.

Amy tem 16 anos e naturalmente pensa em coisas de meninas de 16 anos, como meninos. Entretanto sempre me incomodo que outras heroínas envolvidas em eventos gigantescos coloquem suas inseguranças amorosas em primeiro (às vezes em segundo e terceiro) lugar. Não é verossímil. As mulheres de 16 anos que eu vejo em toda parte são maduras o suficiente para ver quando precisam colocar sua escola, seu direito de acesso à Internet, seus direitos e deveres civis em primeiro lugar.

Dorothy Tem que Morrer praticamente não toca em questões políticas como outras distopias recentes, no entanto me parece muito mais realista e impactante por causa disso.

Amy, para início de conversa, é uma jovem do nosso tempo e não uma menina de uma realidade alternativa ou um futuro distópico. Isso já a aproxima muito mais de nós.

Ah! Um parêntese… Nesses tempos em que as ideologias de gênero (sim, estou pervertendo o conceito de ideologia de gênero e sequestrando-o para um significado melhor) se tornaram obsoletas e não há mais “coisas de menina” ou “coisas de menino” Amy pode muito bem ser um modelo também para jovens do sexo masculino ou qualquer identidade de gênero.

Vou até estender esses parênteses… Muito embora haja personagens que se encaixam em estereótipos de gênero, o sexo das pessoas não as define de forma alguma. Temos já nesse primeiro volume temos uma rica palheta de personagens que não são limitados por seus estereótipos.

E, finalmente, mas talvez não o melhor (acho que o melhor é o perfil da Amy) está a estrutura narrativa que consegue ser densa e manter ritmo até a última página. Se você recapitular tudo que acontece parece uma história que caberia na metade das páginas, no entanto não há enrolação, não há excesso na história. Espero que a escritora consiga manter controle sobre a obra (ou quem quer que tenha o mérito por isso, já que algumas vezes a pessoa que assume o papel de editora tem grande influência) e os demais volumes sigam com a mesma calma e densidade que nos permitem mergulhar a fundo na história.