Bea
3rd, May 2008
Seu pai sempre lhe dizia com aquele timbre de barítono tendendo a baixo “Meu filho, você não deve ter medo de viver! Se uma oportunidade se apresenta você deve seguí-la!”
Puxa, mas aos 14 anos uma menina linda era toda oportunidade que ele queria seguir e também era o que mais o apavorava!
Seria mais fácil discutir com a professora de física ou o rígido diretor da escola.
Beatriz. Ela sempre ficava ali daquele jeito, olhando através dele ou para as árvores do lado de fora da janela. Talvez ela sonhasse com algum ator de tv ou cinema ou quem sabe… Ah! Não! E se ela ficava pensando em um dos garotos mais velhos das outras turmas?
Em sua inocência de menino adolescente de um lar normal com pais que tem lá suas brigas, talvez até se traiam aqui ou ali, mas também encontram tempo para passeios no jardim zoológico ou um final de semana com o resto da família ele não poderia imaginar as sombras que encobriam os pensamentos da bela Bea.
Dos finais de semana sozinha com os pois ou com os poucos amigos do play, dos avós, tios, tias e primos que ela nunca encontrava pois os pais raramente visitavam o resto da família ou da extranha tensão que ela, menina que está descobrindo o mundo e vê o que os adultos já não enxergam por saturação, vê nos pais cada vez mais fechados e distantes dos outros, das brigas em voz baixa, entre os dentes, que os que olham de fora acham suavez, mas ela sabe como estão cheias de raiva pronta para explodir para qualquer lado.
Não, ela realmente não percebe o admirador que senta duas fileiras atrás dela, também não pensa em atores ou em meninos mais velhos, ela pensa na vida.
Pintura: Juventude de Adelina de Andrade Márquez de Alcântara
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Assédio no trabalho
13th, December 2007
Amarelou!! É! O malandro amarelou!! Você acredita?
Fala sério! Jura?
Do outro lado da porta de vidro do restaurante um calor infernal e um formigueiro de ternos suados, camisas coladas no corpo molhado de calor e rostos contrariados com o clima às portas do verão.
As duas amigas conversam em uma mesa de fórmica, cada uma com sua bandeja. É hora do almoço, mas dá para esticar meia horinha a mais para colocar as fofocas em dia.
O malandro em questão é o gerente metido a gostoso que arrasta uma asa para todas as colegas de trabalho. É o tipo que sempre se vale de cantadas machistas, nojentas e antigas.
Vera, o cara tem mau hálito! Parece que comeu uma meia podre! Não sei como você conseguiu!!
É… Foi difícil,viu? Foi difícil Clarinha! Mas eu tinha certeza de que o cara era um babaca e queria ver a cara dele! Agora ele não me enche mais!
Tá, eu vi a sua cara entrando na sala dele, vi a cara dele depois que você saiu, mas quer me dizer exatamente o que aconteceu?
Vera tinha entrado na sala do pobre crápula decida a dar um jeito naquelas paqueras que davam nojo e eram disparadas para todos os lados indiscriminadamente.
Ele estava sentado e olhou para ela com aquele jeito de gostosão que bate e mulher na cama. Sem virar para trás ela fechou a porta com o pé avançando até ele, inclinou-se sobre a mesa, segurou a camisa dele puxando-o e tascando um beijo sem qualquer pudor, invadindo com a língua a boca fedida e controlando o asco.
Não foi um beijo longo, ela não aguentaria, afastou-se alguns centímetros, deu uns tapinhas na bochecha dele dizendo que “agora você está em maus lençóis cachorrão! Só que antes é melhor usar isso aqui.” e colocou um vidro de colutório em cima da mesa.
Antes que ele tivesse chance de falar qualquer coisa ela já tinha escrito dois ou três telefones num papelzinho que entregou a ele dizendo que eram os telefones dela, que lhe ligaria de vez em quando para falar sacanagens e que ele se cuidasse para a esposa dele não ouvir quando ela ligasse para a casa dele. Virou-se e foi embora.
Esta pode não ser uma tática segura ou aconselhável, mas o fato é que aquele machão especificamente nunca mais foi o mesmo. Passou a baixar os olhos quando as mulheres passavam e evitava a Vera de todos os jeitos
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Pequeno passeio na quinta
2nd, December 2007
Não tem estradas, ruas, calçadas, becos, postes, casas, edifícios ou qualquer sinal de civilização.
… Civilização é construir prédios?
De qualquer forma alí estava a multidão de pessoas circulando para todos os lados! Umas comiam conversando animadamente, outras compravam e vendiam coisas ou então assistiam outro grupo que parecia representar uma peça. Tinha tudo que uma cidade tem, menos a cidade.
Fiquei ali sentado sobre um tronco observando confuso enquanto o amigo que me levou até ali saltava de uma pedra a outra se equilibrando com facilidade e, de vez em quanto, me olhava e ria.
Toda aquela gente tinha que morar em algum lugar! Droga, elas tinham celulares, pdas e até notebooks, em um canto qualquer tinha que haver prédios! Mas não tinha.
Quando anoiteceu acompanhei um grupo de jovens - eles sempre se deixam seduzir mais facilmente pelos cheiros da metrópole - até que chegaram em suas… como chamar aquilo? Não eram casas, mas algo que parecia um espaço de troncos e folhas aleatoriamente entrelaçados. Só depois de observar com atenção dava para notar alguma intenção por trás daquilo. Como se a floresta tivesse decidido acatar os pedidos de alguém para criar-lhe uma casa adequada a humanos.
“Sabe qual é o problema de vocês da Terra no século XXI? Uma certa ‘curtez’ de pensamento! Hahahahaha!”
Meu caro amigo me aguardava para mostrar o caminho de volta à minha orgulhosa civilização tão cheia de dogmas e certezas.
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